Evil's Richard
2 Capítulo II
Três semanas na pequena cidade da Viúva. A noite neste lugar parece um pedaço de inferno. Bares e prostíbulos explícitos, piranhas andando pelas calçadas exibindo os seios que a maioria não tem. O cheiro da maconha é forte a partir das nove horas. Jack disse que ultimamente a cidade é apaziguada nesta situação.
— Depois que o prefeito mudou, tudo ficou mais calmo, apesar de não ter parado com a marginalidade. — Jack suspirou, tomou mais um gole de cerveja e tornou a dizer: — É impossível acabar com a marginalidade.
Jackson Johansson é um repetente que conheci no Canes. Ele tem vinte anos e ainda está no colegial. Se considera um verdadeiro fracasso, e aliás é um grande alcoólatra. As vezes eu escapo de meu tio para poder sair com o Jack à noite, mas só por algumas horinhas. Ele gosta de “esfriar a cabeça” com o álcool e eu só de acompanhante, para uma boa conversa.
Fiz alguns amigos no Canes, não são boas influências, e percebi isso de primeira, mas e daí? São ótimos conversadores, festeiros, e alguns nem são daqui, o que é muito bom, só assim, qualquer coisa ninguém viu nada e ninguém sabe de nada, e eu apenas indo bem na fita. Não dá para confiar muito nas pessoas. Nem no meu tio eu confio, que aliás é outro errado, maluco e fanático.
— Aqui no Foz tem de tudo. As atrações daqui vem de fanáticos, suicidas, piranhas e vagabundos, como eu. — debochou Jack naquela mesa de bar. — Mas, talvez eu te leve para conhecer minha mãe, é a maior das atrações.
— Está falando isso como se quisesse me pedir em namoro. — indaguei.
— Não. Nem em outra vida.
— Ai, seu ogro.
— Bruxa!
— Bêbado!
— Até que eu gosto de você, Milla. — disse. Nós rimos juntos.
— Alguns segundos atrás me chamou de bruxa, e agora se declara? Que tipo de homem você é? — protestei. Ele olhou em meus olhos e pegou em minha mão.
— Um homem do tipo que leva para conhecer a mãe e depois pede em namoro. — retrucou ele.
Fiquei boba. No sábado da mesma semana, após o catecumenato, ele realmente me levou para conhecer a mãe, Srª Lucy, uma mulher insegura, amarga e demasiada religiosa. Pretendi causar toda a boa impressão de minha pessoa, deixando bem escondida... digo... o que os olhos não vê o coração não sente né? Muito menos um coração ignorante.
— A casa é grande, bonita, embora não seja a maior daqui, sinta-se bem. — Indagou Jack.
A casa era realmente grande, formosa, embora fosse antiga. Tinha traços de um século passado, assim como a Igreja (porém, esta última parecia que era de a.C).
— Meus bisavós construíram ela para meus avós, que deixaram-na para minha mãe e meu pai. Meu pai abando...
— Querido, tão cedo em casa, bom garoto... — Jack foi interrompido pela mãe, que veio do andar de cima da casa. — Vejo que trouxe uma garota para casa... Não está esperando um filho dele não né querida?
— Não senhora, eu sou... hm... — engasguei nesse momento. Lá estava eu, pronta para mentir. — Que Cristo esteja convosco, senhora. Eu sou uma amiga de estudos do Jackson, Milla San Angelo. Sou nova no Canes e na cidade. Devido a transferência estou com dificuldades para algumas coisas. Seu filho pode se considerar um fracasso mas é ótimo em História.
Ainda bem que eu estava com meu material de catecumenato. Seria difícil dizer que ia estudar sem algum material.
— Ah, querida, deve ser a sobrinha do novo pároco. Ah minha nossa, me desculpe, que vergonha. — e ela só acreditava.
— Que nada senhora. Eu só...
— Me chame de senhorita, por favor, sou Lucy Hunter mãe do Jack. — interrompeu-me.
— Ah, está bem senhorita. — Murmurei. Tão senhora, e ainda quer ser chamada de senhorita? Faça-me o favor.
— Filho, que bom que esteja andando com boas influências. Só com uma companhia assim você resolve colocar Cristo na sua vida. — Coitada. — Quer que eu prepare algo, quer beber alguma coisa? Tenho chá de vários sabores. Você gosta de revistas? — ela pegou um estoque de revistas que estava na estante de sua TV. — Essas daqui vieram direto de Roma, e são todas direcionadas...
— MULHER...— gritou Jack, já impaciente. — Ela veio apenas para estudar e ir embora.
— JACKSON JOHANSSON! — retrucou Srª Lucy, que olhou para mim e continuou: — Se ele tentar algo contra você, querida, me grite, estarei aqui na sala.
— Pode deixar. Eu o coloco inconsciente antes disso acontecer. — Não pude conter a risada.
Eu e Jack subimos, ele queria me mostrar o seu quarto e o local onde iríamos estudar. Era um quarto bem pequeno e bem solteiro. Parecia aqueles quartos de rockstars antigos, com um monte de posters nas paredes.
— JACK! — reclamei com ele. — Por que você me traz para conhecer a sua mãe, e depois interrompe a nossa divertida conversa?
— Nossa. — Ele riu, e depois passou os dedos em minhas bochechas. — Você é bem esquisita. Tem certeza que quer continuar conversando com ela? Podemos descer.
— Não! Seja lá o que você quer fazer aqui em cima já está ótimo.
— É mesmo?
Lá foi o Jack, tentando me seduzir. Fez isso muitas vezes pela semana. Foram beijos de todos os tipos e maneiras, amassos e outras pequenas intimidades. Mas eu não desejo contar isso aqui, não agora, é claro. O que é fato é que algo airoso atraiu minha atenção nesta cidade.
— Jack, por que aquela casa está isolada na montanha? — questionei. — Não faz parte da cidade?
Eu olhei da pequena janela ao lado da cama do quarto bagunçado dele, lá nos fundos havia uma boa massa de terra e uma casa muito bela, acho que uma das únicas modernas por aqui.
— É a mansão Richard. Da proprietária Anne Richard. — respondeu enquanto me evolvia em seus braços fortes. Estávamos de frente a janela observando a Oeste, onde havia uma bela vista de toda a Foz da Viúva.
— Anne Richard? — Tornei a questionar.
— Sim, uma senhora rica que fica observando os filhos gêmeos brincarem no parque. Sempre a vimos fazendo a mesma coisa, no mesmo horário. — ele disse.— Nunca a viu?
— Não! Não costumo ir ao parque da cidade. Ela tem muito tempo aqui?
— Eu não tenho ideia, mas o nome da família Richard tem bastante tempo aqui, sempre foram os mais ricos da cidade. Porém, não interagem com ninguém, quase não saem e quase não falam, é o que o povo diz. Anne sempre foi a última herdeira do antigo sangue, depois do Davi, irmão dela, mas este morreu de overdose no ano passado, então ela passou a ser única. Davi era um cara legal. Bebíamos juntos... — Jack abaixou a cabeça por alguns instantes.
— Nossa. Lamento. — eu disse. Não estava muito surpresa.
— Não era muito importante. — Ele tornou a falar. — Apesar de ser legal era um grande charlatão. Não me lembro muito da última vez que o vi. E estava tão chapado que comecei a ver coisas e até pensei em ter visto sangue em minhas mãos.
— Ops! — Olhei no relógio e era a minha hora, já estava quase perto do toque de recolher. — Estou indo.
— Mas já? — Jack me beijou, urgentemente, e tornou a dizer — Fica só mais um pouquinho minha bruxinha...
— Não! Seu ogro! — taquei um dos travesseiros felpudos que estava na cama do quarto dele, e ele emitiu um som de gargalhada. Uma bruxa, eu sei. — Meu tio vai ter que controlar meus horários se eu chegar depois do toque de recolher. Daquela última vez no barzinho eu consegui escapar, mas duas vezes é difícil né Jack.
— Qualquer coisa te empresto uma das vassouras da minha mãe e você pode vir me ver e ir embora sem precisar passar pela porta. — debochou.
— Por que é que você não faz isso? Olha só, você vai me levar ou não?
— Vamos.
* * *
Chegue na casa paroquial meia hora antes do toque. Estava escurecendo e eu achei que o tio Sam estava em missa. Fui à cozinha pegar algo e lá estava o tio, apoiado à pia, ainda com o _____________. Suas expressões estavam vazias.
— Por onde andou, Milla? — perguntou, preocupado. — Aqui não é lugar para se ficar perambulando em qualquer canto.
— Ah... e-eu...
— Vou ter que te expor a horários para tudo? — ainda indagou me interrompendo.
— Ai Samuel, pare. Eu estava com a Srª Hunter e o filho dela. — respondi sem perdas. Ele me olhou, suspirou.
— Lucy Hunter? Do TdM?
Ele quis dizer Terço da Misericórdia.
— Eu acho que sim, Sam. Eu sei que ela frequenta a Paróquia e participa das missas.
— Acho bom.
— SAM?
— Sou seu tio. E padre. Trate-me como tal.
Bufei.
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