Evil Always Wins Or So I Thought

4 Capítulo 3: Melhor Que Ontem




A primeira memória que eu me lembro me atinge até hoje…


Como um sonho. Como olhar para as estrelas.


Eu era pequeno e tinha acordado numa noite junto à minha mãe.


Ela olhava para a lua em meio ao céu estrelado pela janela, seus olhos cheios de calma e uma sutil esperança…


Lembro que as estrelas daquela noite não eram como as de sempre. Elas tinham uma forma mais viva e brilhante, como se estivessem mais próximas do que o normal.


Apesar de eu ser tão pequeno, me impressiona como consigo me lembrar de cada detalhe daquela noite…


Minha mãe sorria e apontava para o céu, me contando os nomes das estrelas e constelações uma a uma. Eu sentia a empolgação dela e sua paixão por aquilo.


Ela estava sentada ao meu lado na varanda, com o vento gélido da noite bagunçando seu cabelo…


A recordação me faz reviver e escutar cada palavra que ela me disse.


— Makiel... sabia que, antes de mim, antes de você, antes de todo o mundo… aquelas mesmas estrelas sempre estiveram por lá, flutuando sobre o vazio do céu? — ela dizia.


Eu não entendia perfeitamente seu fascínio por aquilo tudo.


— Então… elas nunca morrem? — perguntei.


Ela sorriu ao me ouvir.


Um sorriso contido, daqueles que fazem o mundo parecer menos assustador.


— Não… tudo, em algum momento, irá morrer. Elas apenas duram mais do que somos capazes de viver.


Meu peito apertou. Naquele momento, a ficha caiu...


— Algum dia... vamos morrer?


Ela não riu, nem mentiu.


— Vamos, assim como as estrelas, assim como qualquer um — respondeu, passando a mão pelos meus cabelos. — E está tudo bem… por ser inevitável, não precisamos ter medo. Quando acontecer, nem vamos saber.


— Mas eu não quero perder você, mãe… não quero ficar sozinho — eu disse, com os olhos cheios de lágrimas.


— Você nunca estará sozinho. Quando eu for, algum dia, eu sempre estarei te esperando. Por isso, eu quero que você viva cada dia dando o seu melhor… seja alguém de quem você possa se orgulhar. Alguém forte.


Ela olhou novamente para o céu.


— Se você for forte. De verdade. O melhor que puder ser… talvez, de alguma forma, você continue para sempre.


As estrelas brilhavam como se concordassem.


— Por enquanto, não fique pensando muito nisso. Você é muito jovem… se pensar demais, vai acabar ficando igual a mim — ela completou.


Eu a abracei com força. E ela soltou uma risada leve, se libertando do abraço.


— Por agora, apenas reze e descanse bem. Amanhã vamos viajar para encontrar seu pai. Ele com certeza vai querer te ver sorrindo quando a gente chegar.


Ela disse isso enquanto se afastava.


A porta se fechou e o quarto escureceu.


E então…


A dor.


Meu corpo acordou antes da minha mente.


Tudo doía. Meu peito ardia a cada respiração, como se algo o apertasse por dentro. Meus braços e pernas pareciam pesados demais, quase como se não fossem mais meus.


Quando finalmente abri os olhos, dei de cara com um teto claro e limpo, iluminado por uma luz suave. Logo em seguida, notei o cheiro forte de remédios misturado com ervas, daqueles que ficam impregnados no ar.


Levei alguns segundos para entender o que estava acontecendo.


…Aquela voz.


As estrelas.


O sorriso dela…


Meus olhos se lacrimejam quando percebo que, por um instante, tive a sensação de que ela estivesse aqui.


Comigo.


Respirei fundo, sentindo o peito apertar de novo — mas dessa vez, não era só dor.


Virei um pouco o olhar.


Meu corpo estava completamente enfaixado por faixas verdes feitas de planta. A assinatura da curandeira da minha casa…


Tentei mexer o braço, mas falhei miseravelmente. Um gemido de dor escapou antes que eu pudesse segurar, e a sensação de que meu próprio corpo não me obedecia só piorou.


Droga… aqueles bastardos…


Se eu soubesse que ia acabar desse jeito… talvez tivesse sido melhor matar todos eles.


— Tch…


Fechei os olhos por um instante, soltando o ar com cuidado.


Eu sei da minha promessa… mas, sinceramente, uma exceção não faria tanta diferença assim, faria?


Respirei fundo e forcei o corpo para me inclinar um pouco para o lado, ignorando o protesto imediato dos músculos.


Quando percebi, eu já estava sentado.


Espera um pouco.


— Esse quarto…


Que nostálgico.


São as mesmas paredes claras, os mesmos móveis de madeira polida, a janela alta e meus livros desarrumados. Está tudo como antes…


E ali, encostada no lugar de sempre—


Minha espada de madeira favorita.


Fiquei alguns segundos olhando para ela, meio incrédulo.


— Caramba… — murmurei, com a voz baixa. — Quanto tempo…


Fazia anos desde a última vez que estive ali.


E, mesmo assim, parecia que nada tinha mudado.


Ou talvez… fosse eu quem mudou demais.


Deixei o olhar vagar pelo quarto até encontrar um pequeno sino no armário ao lado da cama.


Ah… claro.


Respirei fundo e estendi o braço menos machucado, tentando alcançá-lo.


— Beleza… eu consigo… — murmurei, mais para me convencer do que por confiança.


Minha mão tremia, e a distância parecia maior do que realmente era.


— Ai… calma… só mais um pouco…


Depois de algum esforço, finalmente consegui agarrar o sino.


— Consegui…


Sem pensar muito, sacudi o objeto algumas vezes, esperando algum tipo de resposta.


Mas nada aconteceu.


Franzi a testa, confuso.


— Estranho… normalmente já teria alguém na porta…


Antes que eu pudesse pensar mais sobre isso, a porta se abriu de repente junto a uma voz suave.


— Jovem mestre?!


Uma garota entrou às pressas meio desajeitada, com os olhos arregalados de preocupação.


Hã… espera… por que ela está aqui?


Meu corpo gelou no instante em que a reconheci.


Pietra.


É realmente ela? Sim… eu tenho certeza. Eu a reconheceria em qualquer lugar. Ela parecia mais jovem, com o rosto mais gentil e um pouco ingênuo… mas ainda era ela.


Merda… ela já deveria estar aqui? Que dia é hoje, afinal?


— Ah, vejo que acordou! Que bom. Como está se sentindo? Quer que eu te ajude a—


— N-não! — interrompi rápido demais, antes que ela pudesse chegar mais perto.


Ela travou, surpresa.


O nervosismo me atingiu no instante em que olhei em seus olhos.


Por que eu estou tremendo?


Não… eu sei exatamente o porquê.


Eu me lembro do meu último dia de vida.

Do último segundo.


Foi ela.


Ela me matou.


Eu ainda consigo lembrar da sensação do peso dela sobre mim… e da lâmina atravessando meu corpo.


O desespero começou a subir, apertando meu peito, e precisei forçar minha respiração a desacelerar.


Calma… respira.


Está tudo bem.


Essa não é a mesma garota.


Ela ainda não é aquela pessoa que eu destruí aos poucos, dia após dia, até não sobrar nada além de ódio suficiente para querer me matar.


Eu só preciso não repetir os mesmos erros.


Mesmo assim, as lembranças insistiam em voltar — os trabalhos abusivos, o salário miserável, as humilhações… e aquele sorriso no fim.


Por que eu tive que ser assim?


— Jovem mestre… está tudo bem? Você está tremendo…


— Tô… — respondi, mantendo o olhar baixo. — Só chame a empregada-chefe. Por favor.


Evitar olhar para ela parecia a única forma de manter o controle.


Pietra hesitou por um instante, claramente confusa, mas assentiu antes de sair, ainda me observando como se tentasse entender o que havia de errado.


Assim que a porta se fechou, soltei o ar devagar.


Era cedo demais para lidar com isso.


Ver aqueles olhos ainda puros me incomodava mais do que qualquer dor no corpo. A culpa pesava de um jeito diferente, mais silencioso, mas muito mais difícil de ignorar.


Minutos depois, passos firmes ecoaram pelo corredor.


— Jovem mestre.


Abri os olhos quando a empregada-chefe se aproximou, analisando rapidamente minhas condições.


— Como está se sentindo? — perguntou, ajustando uma das faixas. — Se não se importar, pode me dizer o que aconteceu lá fora? Quem fez isso com você?


— Foi uma emboscada — respondi, sem hesitar. — Provavelmente por algo que eu fiz. Não levaram nada, só me bateram. E não… eu não vi quem foi.


Ela franziu o cenho, claramente desconfiada.


— Estranho. Se foi algo pessoal, por que não reagiu? Por que não os fez recuar? Isso não é o que você costuma fazer.


Eu já tinha preparado a resposta.


— Achei que conseguiria lidar com eles sem magia. Tenho treinado artes marciais escondido… — dei um sorriso fraco. — Acho que ainda preciso melhorar.


Ela ficou em silêncio por um instante e então soltou uma leve risada pelo nariz.


— Isso não parece com você. Mas, pelo menos, não deu mais trabalho para o seu pai. Se só você se machucou, então está tudo sob controle.


— Como assim “tudo sob controle”? — Pietra falou, sem conseguir se conter. — Ele está todo machucado!


A empregada-chefe suspirou.


— Eu sei. Mas o jovem mestre está de castigo. Se o marquês soubesse que ele usou o fogo primordial, não quero nem imaginar o que aconteceria com ele.


Ah… tinha esquecido disso.


— Foi por isso que estou treinando artes marciais — completei, dando uma piscadela rápida, mentindo com naturalidade.


Ela revirou os olhos.


— Claro.


Virou-se, já indo em direção à porta.


— De qualquer forma, se precisar de algo, me chame. Estarei por perto.


Deu alguns passos, mas parou antes de sair.


— Ah, e antes que eu me esqueça… essa será sua nova empregada pessoal. Ela ficará responsável por cuidar de você e por vigiá-lo. Tente não dar trabalho.


Pietra se aproximou da cama, agora mais contida.


— Meu nome é Pietra. Vou fazer o possível para ajudá-lo.


Meu estômago revirou.


— Tá certo… — respondi, curto. — Estou sob seus cuidados, então.


A vontade de pular pela janela ainda parecia uma boa opção.


— Valeu, empregada-chefe. Pietra… vou descansar agora.


As duas começaram a sair, mas antes que a porta se fechasse, chamei:


— Espera.


A empregada-chefe virou-se.


Hesitei por um instante.


— Obrigado… por se preocuparem.


Ela me encarou por alguns segundos a mais do que o necessário.


— …De nada, jovem mestre.


Quando a porta finalmente se fechou, o silêncio voltou.


Fechei os olhos.


Eu não esperava encontrá-las de novo… e, sendo honesto, não sei se mereço essa oportunidade. Ainda assim, talvez eu possa fazer diferente desta vez.


Quando sair dessa cama, esse vai ser meu objetivo.


Fiquei olhando para o teto por alguns segundos, tentando organizar os pensamentos.


Se isso foi um dia depois da briga… então meu pai ainda deve estar em reunião com o rei. No passado, ele voltou poucos dias depois por causa do que eu fiz.


Mas agora é diferente.


Desta vez, eu não fiz nada.


Talvez ele nem precise voltar tão cedo.


Soltei o ar lentamente e deixei o corpo relaxar contra a cama.


Por enquanto… é melhor descansar.



Em outro ponto da mansão, a empregada-chefe observava pela janela, pensativa.


— Ele bateu a cabeça forte demais… — murmurou, em dúvida. — Ou talvez… tenha mudado.


Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.