Everything has changed
9 Capítulo 9
Eles chegaram no Vale com apenas duas horas de diferença de Camilo e Jane, que tinham saído mais cedo de São Paulo e não passaram por aulas de direção no meio do caminho. Elisa estava muito orgulhosa. Darcy diria que ela estava radiante. Os primeiros quilômetros foram aos trancos e barrancos, mas ela logo pegou o jeito e a segurança pra dirigir e enquanto não era assim tão aventureiro quanto Mariana, ela estava feliz por ter conseguido. Quando ela estacionou na porta de casa, deu várias buzinadas e dona Ofélia apareceu na porta com Felisberto e as irmãs. Elisa pulou do carro sem esperar por Darcy, cheia de saudade das irmãs, da mãe e do pai.
— Você veio dirigindo Elisa? – perguntou Lídia.
— Só um pedaço do caminho! Darcy me ensinou! – ela não conseguia parar de sorrir.
— Senhor Darcy, que prazer recebê-lo em minha residência. – Ofélia desceu as escadas pra cumprimentar Darcy e fez uma pequena reverência. Elisa revirou os olhos.
— O prazer é todo meu, dona Ofélia. – ele fez outra reverência pra ela.
— Quer dizer então que você é o namorado da minha Elisa? Quem diria! Você bem sabe que Elisa já passou da idade de casar, então é bom o senhor estar planejando resolver esse problema logo. Santo Antônio não aguenta mais ficar de cabeça pra baixo esperando minha primogênita resolver isso. – ela disse, de uma vez só.
Elisa estava grata porque Darcy já conhecia a sua mãe de outros tempos e também porque ele não era um namorado de verdade. Sua família podia ser esquisita o tanto que quisesse, ele não iria falar nada.
— Não se preocupe, dona Ofélia. – ele piscou pra ela. – O dia já está chegando. – ele disse, olhando pra Elisa, que estava indo pro fundo da casa ver Tornado. – Mariana, Lídia, Cecília, seu Felisberto. É um prazer revê-los. Todos assentiram pra ele, um pouco confusos com sua presença ali.
— O prazer é todo nosso, lorde. – Lídia fez uma reverência e Darcy sorriu, pois estava com um senso de pertencimento que só sentira antes quando sua mãe ainda era viva.
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Antes que Darcy pudesse entrar na casa de Elisa, ela apareceu no quintal da frente montada em Tornado, chamando por ele.
— Vem Darcy, vou te levar pra conhecer lugares do Vale que você não conhece. – ela estendeu a mão pra que ele subisse na sua garupa, sem pensar muito na proximidade do corpo de Darcy com o seu.
— Tem certeza? Eu posso ir andando.– ele disse na mesma hora que Dona Ofélia gritou que eles deviam entrar pra comer alguma coisa.
— Anda logo!– ela sussurrou pra ele. – Mais tarde mãe!
Darcy se posicionou atrás de Elisa, segurando sua cintura delicadamente para q ela não se assustasse. Um arrepio percorreu todo o seu corpo e ela ainda ouviu a mãe falando pro pai que Elisa tinha aprendido direitinho como fisgar o lorde de dois metros e que tudo isso era em nome de um bem maior. Ela revirou os olhos.
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Elisabeta morria de saudades de várias coisas do Vale do Café, mas cavalgar com Tornado era provavelmente a pior. São Paulo não tinha ar puro ou cavalos, era um problema constante. Já tinha se acostumado com os toques de Darcy ao longo dos dias, parte do pagamento pela aposta que perdeu, mas já não podia mais dizer que era um incômodo. Talvez nunca tivessem sido realmente. Elisa ansiava pelos toques dele, sem imaginar como eram importantes pra Darcy. O silêncio confortável entre os dois não causou estranhamento em nenhum dos dois, já acostumados a passarem o tempo juntos. Darcy se pegava tentando lembrar a todo momento que por mais que eles estivessem vivendo como um casal, nada disso era real, por mais que seu coração insistisse do contrário.
Chegaram ao topo do morro e Elisa suspirou.
— Tenho que admitir que mamãe estava certa. Deveríamos ter pegado algo pra comer.
— Mas a saudade era maior? – ele perguntou.
— A saudade e o desespero. Não quero questionamentos sobre nós dois hoje e quando minha mãe começar, ela não vai parar... – ela franziu o cenho.
— Mas Elisa, eu vim exatamente por isso. Não se preocupe, sua mãe não vai descobrir. – ele tentou tranquilizá-la, colocando as mãos sobre seus ombros. – E além do mais, ela é muito divertida. Você bem sabe que eu tinha problemas com o jeitinho dela no começo, mas ela faz tudo por vocês. Nem todo mundo tem essa sorte.
Elisa não estava tão certa sobre a habilidade de Darcy de esconder as coisas de dona Ofélia, mas tinha que concordar com ele sobre a sorte de ser uma Benedito. Sua família se enfiava em situações constrangedoras sempre que possível, especialmente Lídia e sua mãe, mas ela não os trocaria por nada nesse mundo. Já tinha se acostumado e um sorriso passou pelo seu rosto com o prospecto que Darcy, de certa forma, também já estava acostumado – e melhor, achando divertido. Ela sentiu sua preocupação esvair, mas se deixou ser consolada por ele, que a abraçou por trás e passou a mão pelos cabelos dela. Uma cena normal pra qualquer casal, mas eles sequer eram um casal. Darcy parou de pensar nisso e aproveitou o momento e a liberdade.
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Os dois ficaram contemplando o morro da ferrovia pois mais alguns minutos, até que Elisa desistiu de matar as saudades pois a fome estava ganhando.
— Vamos até a casa de chá. – ela puxou a mão de Darcy para ir até Tornado. – Eu estou morrendo de fome, mas ainda sem coragem pra encarar mamãe.
— Você não acha melhor irmos até a Fazenda Bittencourt?
— Não, eu quero ficar sozinha. – ela disse. – Bom, não sozinha. Sozinha com você. – ela completou.
Darcy levantou as sobrancelhas de um jeito sugestivo.
— Ah é?
— Darcy, você entendeu muito bem o que eu quero dizer. Anda logo.
Ele subiu no cavalo e sussurrou no ouvido dela.
— Entendi que você quer ficar sozinha, comigo.
Elisabeta tentou parecer calma e composta, mas não retirou as mãos dele da sua cintura.
— Sim, er… – ela tentou explicar. – Nós temos que decidir como vamos conversar com minha família.
A verdade é que Elisabeta não estava ligando muito para o que eles falariam com a mãe e o pai. Queria ficar sozinha com Darcy porque era o ritual deles, passar um tempo sozinhos, conversando sobre todas as coisas e nenhuma delas.
— Ah. – ele acreditou na mentira dela. – Bom, eu já tinha pensado em algo.
— Ah é? – ela estava com as costas coladas no peito dele e levantou o rosto pra observá-lo. – Depois você me conta então. – Ela ficou surpresa por aceitar tão prontamente que ele tinha pensado em algo e que ela aceitaria isso, mas deixou pra se preocupar depois, pois estava distraída. Se Darcy abaixasse a cabeça naquele instante, ele poderia dar um beijo nela sem nenhuma dificuldade, ela pensou e depois se xingou e agradeceu por Darcy ser tão responsável.
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