Elisa desistiu de sair de casa, pois apesar de ser uma moça destemida e confiante, ela sabia que enfrentar a mãe e pior, mentir pra ela sobre um possível namorado, era algo que ela simplesmente não deveria ter feito. E dai que Elisa não estava casada? Dona Ofélia tinha simplesmente que aceitar isso e seguir em frente. Mas agora ela tinha aberto a boca pra mencionar um pretendente e estava sem saída sobre o que fazer pra se livrar desse problema. Não era algo que ia demandar muito dela, apenas um final de semana, ela podia inventar que o namorado falso tinha um emprego muito importante – isso ia impressionar a mãe – e por isso não podia sair de São Paulo, mas isso ia apenas aumentar a insistência de Ofélia para outra visita, o mais rápido possível.

Elisa estava distraída e não percebeu Darcy se aproximando dela no jardim.

— Oi. – ele disse baixinho e assustou Elisabeta.

— Darcy, eu não estou com humor pra discutir sobre qualquer assunto aleatório em que você vai me contradizer só pra parecer mais inteligente. Hoje eu passo. – ela se levantou pra sair, mas ele falou antes.

— Ei, calma – ele disse, levantando os braços em sinal de rendição. – Não precisa vir com cinco pedras na mão toda vez que eu tentar puxar assunto com você.

— Ah, sim, eu sou quem vem com cinco pedras na mão toda vez, não você. – Elisa fez novamente menção de se levantar, mas Darcy parou na frente dela.

— Namore comigo.

Elisabeta olhou pra Darcy como se uma nova cabeça tivesse saído de seu pescoço.

— De mentirinha, claro. – ele completou quando a moça não respondeu nada.

— O que... – Elisa estava tentando encontrar as palavras. – Como... Do que você tá falando?

— Bom, eu ouvi um pedaço da sua conversa com sua mãe hoje e você disse... – ele pausou porque Elisabeta estava novamente fazendo uma cara de poucos amigos, mas dessa vez direcionada totalmente pra ele. – Não é minha culpa, você grita quando conversa no telefone, parece que nunca usou um!

— Ah sim, o ponto de todas as nossas conversas... me ofender. Dá licença senhor Darcy. – Elisa tentou passar por Darcy, mas não conseguiu. Ele era realmente enorme.

— Elisabeta, não é isso. O ponto é que você precisa de um pretendente pro casamento da sua irmã. E eu preciso de uma pretendente também. – ele pausou. – Acho que nós dois somos mais parecidos do que imaginamos.

— Como assim? – ela estava assustada com a proximidade dos dois.

— Eu disse pra dona Margareth que tenho uma noiva. E ela quer que eu e minha "noiva" – ele fez sinal de aspas no ar – façamos uma aparência no próximo baile dela, no mês que vem.

— E por que eu? – Elisa quis saber

— Bom, porque não? Você precisa de alguém pra que sua mãe não te mate e eu preciso de alguém para que ela pare de insistir que eu me case com Briana. Eu também só quero me casar por amor, apesar de você me achar a própria encarnação do capeta. – ele sorriu.

— Eu não te acho a própria encarnação do coisa ruim. Eu te acho mal educado, ainda mais pra alguém que se acha tanto por ter sido educado na Europa. – Elisa fez uma cara de deboche, mas Darcy não se sentiu ofendido. Ele estava entretido com a moça.

— Quando eu fui mal educado com você? – ele levantou as sobrancelhas.

— Quando me beijou sem permissão na fazenda Bittencourt! – Elisa percebeu que ia gritar, mas baixou a voz. Ela prometeu que nunca ia se lembrar de como eles se beijaram no meio de uma discussão fervorosa sobre o interesse dele nas táticas casamenteiras de dona Ofélia, mas quando percebeu já tinha falado.

— Bom, pelo que eu me lembro, você parecia muito feliz de participar daquele beijo. – ele a encarou e Elisa teve que se lembrar por um momento como é que fazia pra respirar.

— E mesmo depois de me beijar daquele jeito, você ainda teve a falta de educação de supor que Jane iria se casar com Camilo só pelo dinheiro dele! – Elisa disse irritada, como se os beijos dele fossem capazes de supor todo o caráter de sua família. – Ainda bem que ele não caiu no seu papo furado e hoje minha irmã está feliz e com um bebê a caminho!

— Elisabeta... – Darcy respirou fundo e ele estava tão perto de Elisa que o cabelo dela se mexeu. – Isso já tem mais de um ano. Eu já pedi desculpas pra Jane infinitas vezes! Eu pedi desculpas pra você no casamento deles! E você me disse que não tinha poderes pra me perdoar, que só Deus podia fazer isso! Parece que você não é boa de superar rancores!

— Bom e daí? São meus rancores! Você não tem nada a ver com isso! – ela bufou.

— Claro que eu tenho, são direcionados a mim!

— Eu fiquei muito chateada, eu já te falei. Uma vez perdida minha boa opinião, está perdida pra sempre. – ela disse.

— Eu entendo, porque tenho a mesma filosofia de vida. Mas será que… só dessa vez – ele se sentou pra ficar menor que ela. – só dessa vez… você pode mudar de ideia um pouquinho? Além do mais, vamos ser padrinhos do bebê de Jane e Camilo. Temos que dar um bom exemplo para o nosso afilhado. Está na hora de sermos civilizados um com o outro.

Elisa se sentou do lado dele. Os dois ficaram se encarando por alguns segundos, até que Elisa quebrou o silêncio.

— Você tem que me prometer que vai se comportar. – ela disse, muito séria. Darcy abriu um sorriso. Elisa falava com ele como se ele tivesse cinco anos de idade.

— Está prometido. – ele cruzou os dedos. – Mas agora que você disse o que tinha que dizer, eu tenho condições.

Ela revirou os olhos.

— E o que é dessa vez?

— Me desculpa? Eu juro que não sou o imbecil que você parece achar que sou. – suas palavras pareciam carregar uma vulnerabilidade que assustou Elisabeta.

— Er... eu não te acho mais um completo imbecil, mas você deve agradecer a Jane. Me impressiona que ela te defenda tanto depois do que você fez, inclusive. – ela tentou explicar, porque estava envergonhada de todas as vezes que xingou Darcy mentalmente.

— Eu sei que você me acha um completo imbecil – ele a interrompeu. – Mas eu não sou assim TÃO ruim. Jane me defende porque ela é uma boa pessoa, mas eu juro que não sou. E eu posso provar. E você ainda não me desculpou.

— Está desculpado. – ela disse monotonamente, quase como por força do hábito.

— Simples assim? – Darcy parecia duvidar da veracidade das palavras de Elisa. – Tudo bem. Eu aposto com você que até o final desse mês, você não vai mais me achar um imbecil.

— E o que eu ganho se você perder?

— O que você quiser!

— Está definido. – ela esfregou uma mão na outra. – Agora temos que decidir como vamos fazer isso sem levantar suspeitas.

— Você não quer saber o que eu ganho se você perder? – ele perguntou.

— Eu não vou perder, não tem necessidade. – ela respondeu.

— Eu admiro sua capacidade de estar tão certa de si. – ele disse, sério. – Agora… minhas ideias.