Elisabeta já estava morando em São Paulo há alguns meses quando Jane chegou em sua casa no cortiço lhe implorando para que ela se mudasse pra casa de dona Julieta.

— Elisa, é muito difícil pra mim estar longe de casa, especialmente nessa condição e eu acho que com você lá, as coisas ficariam mais fáceis.

— Mas você está tendo problemas com Camilo? – Elisabeta questionou, já pronta pra ter uma briga com o cunhado.

— Claro que não! Camilo está muito ocupado com o café, viaja toda hora e ninguém na casa me deixa fazer nada! Eu pedi a Mercedes que me deixasse cozinhar e ela me olhou como se eu fosse de outro planeta! – Jane tentou ganhar fôlego – E ai, com você por lá, eu poderia pelo menos, ter companhia.

— Mas minha companhia seria limitada, porque você sabe que eu estou trabalhando no jornal. – Elisa tentou argumentar. Não queria morar de favor, mesmo que fosse com a irmã, mas também não podia negar o pedido de Jane.

— Mas é melhor que nada. Por favor, Elisa.

— Ai Jane... – Elisa suspirou. – Tudo bem, mas só até meu sobrinho nascer e só porque eu sei como você sente falta do Vale e da mamãe falando na sua cabeça.

— Você é a melhor, Elisa!

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A casa de dona Julieta já tinha sido o abrigo de Elisabeta logo que ela se mudou pra São Paulo, mas ela não deixava de ficar impressionada: tinha muitos quartos, estava sempre cheia e parecia mais um hotel que uma casa, pois dona Julieta era muito bondosa e deixava vários amigos ficarem por ali quando visitavam a cidade. Ela se organizou no seu quarto de costume e desceu pra sentar com Jane. Era sábado e ela não tinha obrigações pelo resto do dia.

A alegria de Jane com a nova adição da família era contagiante e Elisa estava encantada com a destreza da irmã para costurar o enxoval do bebê e falar animadamente sobre o seu casamento, sobre como agora que Camilo já tinha feito as pazes com a mãe ele era um homem diferente – ainda melhor que quando se casaram – e como ela estava muito feliz, apesar de sentir falta de sua família. Elisa dividia o sentimento. Queria acompanhar a gravidez de Lídia, os preparativos do casamento de Mariana, o novo bebê de Cecília, mas pelo menos, agora ela tinha Jane, estava trabalhando em um emprego que gostava muito e estava longe de dona Ofélia e sua incessante busca para que Elisa tivesse um bom casamento, como todas as irmãs. As duas estavam distraídas se relembrando das maluquices da mãe quando Mercedes atendeu a porta.

— Senhor Darcy, boa tarde!

— Boa tarde Mercedes!

Elisa soltou um 'ah não' involuntário quando ele entrou na sala, com um sorriso no rosto, de certo esperando encontrar apenas Jane.

— Boa tarde Jane!

Deu pra perceber o momento em que Darcy viu Elisa, pois sua postura mudou, como se ele não soubesse mais se portar como um ser humano. – Elisabeta. Boa tarde.

Elisa respirou fundo e fez a melhor cara de gentileza que conseguiu. – Olá, boa tarde.

Jane se levantou e abraçou o melhor amigo de Camilo.

— E como está o bebê? – ele perguntou para Jane.

— Ainda nem dá pra ver nada, mas esperamos que esteja muito saudável.

— É o que mais importa. – ele disse. – Camilo, não está aqui?

— Não, Camilo está no Vale do Café, mas achou melhor que eu ficasse aqui pra evitar viagens desgastantes. Elisa vai me fazer companhia agora.

— Ah, bom... – ele olhou pra Elisabeta, que estava no sofá, fingindo ler um livro enquanto prestava atenção na conversa. – Eu o perdi por pouco então. Estava também resolvendo coisas da ferrovia por lá. Julieta me disse que eu poderia ficar aqui esses dias.

Darcy viu Elisabeta ficar tensa com a possibilidade.

— É claro! – Jane disse, feliz que agora não teria apenas uma companhia, mas duas. – Vou arrumar seu quarto agora mesmo.

Darcy a interrompeu.

— Não é necessário, Jane, não quero incomodar. Prometo que vocês nem vão perceber que eu estou aqui. – ele se virou pra olhar Elisa e o seu olhar encontrou o dela, pega no ato, imitando o que ele falava com cara de desdém. Darcy viu Elisa se corando e subiu as escadas sorrindo.

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— Bom Jane, agora que ele está aqui eu posso ir embora! – Elisa estava no quarto, andando de um lado pro outro, juntando as coisas que tinha espalhado mais cedo em sua mala.

— De jeito nenhum! – Jane tirava as coisas da mala e colocava de volta no lugar. – Elisabeta Benedito, você me prometeu!

— Mas não tem porquê ficarmos nós dois aqui!

— Ora essa, ele mesmo disse que não vai ficar aqui! E você me prometeu e o que está prometido tem que ser cumprido! – Jane não deixou Elisa argumentar e continuou. – Além do mais, Darcy vai ser padrinho desse bebê junto com você, então caso alguma coisa aconteça comigo e Camilo, vocês dois terão que dar um jeito de se virar e cuidar dessa criança e eu acho bom que vocês convivam um pouquinho juntos.

Elisa olhou pra irmã, atônita.

— Jane... eu... – Ela tentava formar palavras. – Eu vou ser a madrinha do seu bebê?

— Sim, você e Darcy!

— Mas Jane... por que?

— Bom, Darcy é praticamente irmão de Camilo, mas ele não tem esposa e você também não tem marido, me pareceu o correto.

— Mas eu odeio ele! – Elisa tentou argumentar. – Eu odeio ele e amo esse bebê, como você acha que isso poderia ser saudável?

— Elisa, você não odeia ele. Você tem um pouquinho de antipatia por causa do episódio da calça que você não conseguiu comprar. – a irmã respondeu.

— Não foi só isso Jane, você lembra dele falando que eu era PERFEITAMENTE tolerável – Elisa imitou o jeitinho que Darcy falou dela no baile de Ema. – Ele é um grosso esnobe Jane!

— E eu já te falei que isso foi um mal entendido e que se você se permitisse deixar de ser tão orgulhosa, ia perceber como Darcy é um cara incrível. – Jane insistiu.

Elisa preferiu não lembrar o outro episódio, que ela não tinha contado pra ninguém, mas estava vivo na sua memória, uma mistura de antipatia e desejo. Ela já estava sentada na cama, abatida no embate com a irmã. Ela respirou fundo e disse:

— Eu fico muito feliz de aceitar ser madrinha do seu filho ou filha. Mesmo que eu tenha que dividir o posto com aquele brutamontes. – Um lindo brutamontes, Elisa pensou, mas ainda assim.

Jane sorriu para Elisa.

— Não gosto quando você ri assim pra mim, parece que sabe de algo que eu não sei. – a primogênita reclamou.

— Eu? – Jane se levantou e se dirigiu a porta do quarto. – Eu só estou feliz que você aceitou ser a madrinha do meu bebê.

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Notas finais
Nunca escrevi nada antes, então, por favor, sejam gentis com as críticas.