Everything We Had

1 ...Is no longer there.


John percorreu os dedos por mais uma estrela, a arrancando com facilidade do alto, a jogando dentro da sacola presa em sua escada. Com um pouco de dificuldade, mas paciência – não havia necessidade de ter pressa – ele tirou o adesivo dupla face que colava o pedaço de plástico fluorescente ao teto branco do quarto de casal da casa. Olhou para o teto, sentindo-se um tanto desconfortável com a ausência dos pedacinhos de plástico que brilhavam no escuro.
Um tanto infantil, ele sabia, mas nostálgico.
E era seu quarto, afinal, colava o que quisesse, onde quisesse.
Desceu os degraus da escada, a movendo pelo quarto – vazio – para um outro canto, pronto para retirar os porta-retratos. Em algum cômodo da casa, o barulho de outros objetos sendo arrancados sem dó alguma dos seus respectivos lugares soava repetidamente.
Ele imaginava que talvez os objetos inanimados daquela casa largada em um canto de Long Island estivessem tentando protestar contra as mãos que os puxavam de seus lugares que por tantos anos ocuparam. A cômoda havia deixado uma marca escura na parede, o quadro da sala tinha um contorno em volta de sua moldura, e o prego batido na parede para o segurar agora não passava de um buraco vazio perfurando os tijolos da construção.


Marcas...


Tudo deixava aquelas marcas, tudo mostrava que esteve ali, e provavelmente quem fosse morar naquela casa teria a impressão de fantasmas dos objetos que permaneceram lá por anos, e anos...
Ele deixaria seu próprio fantasma lá dentro, observando tudo, cuidando de tudo.
Inevitavelmente seus olhos se voltaram para o amontoado de madeira desmontada no chão, as partes de uma cama de casal.
Aquela não era exatamente a melhor hora para demonstrar que não estava feliz.
Não era a melhor hora para se lembrar de quando conheceu Jesse. Ou se lembrar que em suas memórias Jesse parecia ser a única pessoa que existiu em sua vida por anos a fio. De certa forma, foi.
Jesse era a melhor pessoa que ele teve o prazer de conhecer, seu melhor amigo, seu maior confidente, quase um irmão. E depois... depois ele descobriu que estava apaixonado, tentou afastar Jesse, tentou negar pra si mesmo, mas Jesse conseguia controlar tudo que ele fazia, tudo que ele pensava, tudo que ele era.
John acabou por se render.
E agora ele não conseguia pensar como teria sido sua vida se não tivesse se rendido daquela forma.
Ele não conseguia imaginar o que seria a sua vida sem Jesse, e no entanto, cá estava ele.
Um estrondo no quarto ao lado o fez voltar a seus afazeres.

Com pesar, John retirou a última estrela, descendo calmamente pelos degraus frágeis da escada, torcendo entre os dedos longos e finos o pequeno saquinho plástico com a estrelas. Seus olhos percorreram o quarto quase vazio até encontrar um grande saco de lixo preto. Se aproximou dele com alguns passos, lançando o saquinho de estrelas lá dentro.
Não era como se pretendesse levar aquilo com ele.
Não o faria bem, nada ali o fazia bem, aliás. Mas ele não admitiria de forma alguma que estava arrependido por ter sido quem deu cabo a tudo aquilo. Não pretendia se encostar na primeira parede vazia que encontrasse para observar a casa vazia – quase destruída – e chorar, pensando que talvez se não tivesse sido tão ausente, tão burro, tão propositalmente grosso, as coisas não estivessem acontecendo dessa forma.
Havia sido intolerante, por muito, muito tempo. E agora havia perdido praticamente tudo que levou anos e anos para ter.
E estava tão arrependido que não queria nem pensar muito em tudo aquilo.
- John? –chamou alguém à porta.
Não era Jesse.
John se virou sorrindo, vestindo aquele sorriso que usava quando não estava nada bem, mas que conseguia enganar qualquer pessoa que não o conhecesse profundamente.
Qualquer pessoa que não fosse Jesse, ou Michelle.
- Oi, Vinnie. –assentiu se aproximando da porta, esfregando rápido as mãos no jeans surrado, limpando a poeira.
O rapaz apertou sua mão, olhando em volta.
Parecia triste.
Todos estavam tristes pelo que havia acontecido, na verdade. Davam apoio, ajudavam, estavam por perto o tempo inteiro, mas as coisas não eram tão simples, não eram só dar oi para quem estava sofrendo, manifestar uma palavra de companheirismo e emprestar o ombro para chorar porque nenhum deles estava chorando.
Nenhum deles estava mostrando o quanto estava destruído.
Não era o término de um relacionamento, era o término de uma vida inteira de conversas tarde da noite ao telefone, escapadas com o carro do pai para alguma festa, cumplicidade por erros cometidos, litros de licor bebidos em segredo nas pontes da cidade, e mais tarde, depois de tudo isso vieram os beijos às escondidas, os abraços apertados que significavam muito mais do que eles poderiam dizer, os dedos entrelaçados enquanto ninguém estava os olhando no culto da igreja, as músicas trocadas com significados que ninguém mais no mundo todo entenderia, só eles dois.
E ninguém sabia, ninguém jamais saberia o quanto isso tudo doía.
Ninguém jamais entenderia o quanto perder algo tão precioso que eles cultivaram durante todos esses anos os devastava, porque eles nunca diriam, nunca demonstrariam. Na frente dos outros, de seus olhos não rolaria uma lágrima sequer, mas ele estava realmente cansado de tentar definir o que era a água do chuveiro em seu rosto e o que era o seu próprio choro.
- Posso ajudar em alguma coisa? –perguntou. Vinnie sabia que não estava sendo fácil, era muito próximo de Jesse, e sabia que de certa forma devia estar doendo. John notava o duplo sentido de suas palavras, mas preferia fingir que não.
- Acho que já acabei aqui dentro. –John sorriu assentindo. –O pessoal da limpeza vem tirar o resto das coisas, e disseram que o que não quisermos levar podemos deixar por aqui mesmo. –completou, se referindo à cama. Vinnie assentiu, se retirando do quarto enquanto John saía, apagando a luz do cômodo. Seus passos ecoaram – mais alto do que nunca – pelo pequeno corredor que levava à sala. A porta estava aberta, o sol entrava, e iluminava o nada.
Pó.
Vazio.
- Os corretores têm clientes para ver a casa amanhã. –a voz calma soou atrás dele, ao mesmo tempo em que o som dos números sendo apertados no celular. –Não consegui falar com o Garrett, mas o Brian disse que espera a gente no Brennan’s. Não quer ir, John? –Jesse perguntou.
John estava distraído, observando as marcas da mobília que outrora esteve ali na sala, sem notar que em passos leves, vindo do que teria sido antes um quarto de hóspedes transformado em sala de leitura, onde esteve arrancando as prateleiras fixadas na parede.
A origem do barulho que John podia escutar lá do quarto.
Era engraçado como ele conseguia lembrar exatamente quais os lugares de cada coisa, visto que passava mais tempo longe de casa do que nela. Era desconfortável lembrar só das coisas boas, por mais que tentasse se lembrar onde estavam quando Jesse o contou que...
- Não. Eu tenho que fazer compras com a Shelly, e o Will ligou que quer me mostrar uma melodia que ele arranjou. –se virou sorrindo, tendo certeza que em suas bochechas o sorriso formava covinhas.
Era engraçado como agiam fingindo que estava tudo bem, fazendo de conta que a vida continuava a mesma coisa, normal, como se pela noite fosse voltar para casa – cheia de móveis – se deitar na cama comentando e rindo sobre tudo que aconteceu.
Depois iriam se abraçar, se beijar, e ficariam deitados até pegar no sono. E no dia seguinte os dois saberiam que eram as pessoas mais felizes do mundo, porque um tinha o outro, e nada nem ninguém poderia atrapalhar ou mudar isso.
Mas não.
Ele não iria ao Brennan’s, mesmo que tivesse sido ele quem levou Jesse lá a primeira vez, e ficaram horas bebendo, conversando, colocando a situação em pratos limpos, até que Jesse decidiu que queria que eles fossem namorados.
E ele aceitou.
E agora seus amigos o seguiam de volta para aquele lugar, onde provavelmente beberiam sem pensar em nada sério.
Será que Jesse ainda lembrava?
- Bom, eu vou pro carro. –Vinnie deu um tapinha leve no ombro de John, o puxou para um abraço rápido murmurando um “se cuida” rápido, e sumindo fora da casa. Jesse guardou o celular no bolso, deixando os olhos azuis, desfocados, passear pela sala até caírem de volta em John, que não conseguia tirar seus olhos de cima dele. Jesse era levemente mais baixo que ele.
- Então, é isso. A casa não parecia tão grande com aquele monte de coisas. –disse baixo, comprimindo os lábios em um sorriso sem emoção. John assentiu.
Jesse não sabia ser frio como ele, e com certeza acabaria desabando no ombro de alguém em algum momento.
Não que amasse John e estivesse sofrendo por isso, ele próprio disse que não o amava mais. Mas havia aquilo que eles tinham, aquela ligação inexplicável, um elo. E aquilo se perdeu, e por aquilo valia a pena chorar sim, e ele próprio o faria assim que conseguisse ficar sozinho.
Eles podiam ter prolongado tanto aquilo tudo...
- Eu nem lembrava da cor da parede da estante. – riu John, sendo acompanhado por Jesse, ambos olhando a parede vazia.
Havia tanto por dizer ainda...
- Um pena ter acabado, mas é bom saber que estamos bem com isso. –disse Jesse enterrando as duas mãos nos bolsos. Era tão fácil soltar palavras falsas no ar.
- Se você não tivesse me contado sobre você e o Kevin, eu nunca teria feito nada. Eu sabia que vocês estavam juntos, mas continuaria fingindo que não percebi, sabe... –John disse. Sempre quis deixar aquilo claro, mas na hora da raiva tudo que conseguiu fazer foi chocar sua mão com o rosto de Jesse, e depois, quando Jesse veio perguntar o que eles fariam, ele teve que esclarecer de modo curto e grosso que havia acabado.
Ele sabia que Jesse estava vendo outra pessoa, ficou surpreso quando percebeu que era Kevin, mas não quis fazer nada. Já havia sido difícil o bastante ver aos poucos a pessoa que ele amava escorrer entre seus dedos, devagar perceber que não conseguia mais entender os olhares do outro, nem o que ele queria dizer com os gestos.
Começaram a precisar de palavras, e as palavras nunca pareciam certas.
- Não era justo que você não soubesse, John. – Jesse abaixou a cabeça, tentando evitar os olhos do outro. Contato visual já não surtia efeito nenhum, de qualquer forma.
- Eu sabia! Eu sempre soube. Eu não sou cego, Jess, mas pra você eu poderia ter sido. Eu agüentaria continuar fingindo que não sabia de nada, agüentaria continuar esperando que você voltasse pra mim. Porque nós estamos nos separando fisicamente agora, mas você já não estava presente fazia meses. –exclamou. Pela primeira vez naquele dia sentiu como se talvez fosse perder o controle e começar a chorar na frente dele, e não queria isso, não queria que ele sentisse pena e pedisse pra trazerem tudo de volta, e ficasse com ele só para que ele ficasse bem.


Ele sabia que Jesse era capaz de fazer isso.


- Você fica com as chaves? – perguntou o loiro, os olhos fitando a porta. Não o olhava mais.
- Fico. – John assentiu. Não tinha mais jeito.
Jesse esticou a mão, colocando na de John o molho de chaves.
Seus olhares cruzaram por alguns segundos, e não houve nada. Nem um traço de emoção, nem um traço de dor.
Nada.
Vazio.
- Tchau, John. – murmurou o loiro.
John derrubou as chaves no chão, rapidamente envolveu o menor pela cintura sentindo os braços dele evolver seus ombros, o abraçou.
- Eu quero que você seja feliz, Jess. – disse baixinho.
- Eu quero que você fique bem, John. – respondeu ele se afastando vagarosamente. –Eu tenho mesmo que ir. –terminou de soltar o outro, caminhando para a porta. John não olhou para Jesse enquanto ele saía, só soube que ele havia saído quando a porta se fechou, bloqueando a luz do sol.

- John, cresce! – exclamou o adolescente olhando o teto do quarto do seu vizinho lotado de estrelinhas de plástico. – Pra que isso?
- São estrelas. Eu coloquei elas de acordo com as constelações, e elas brilham no escuro. –sorriu John orgulhoso, pousando os óculos recém retirados do rosto em cima da cômoda. – Tem um efeito muito bonito quando é noite.
Jesse o olhou intrigado, e depois voltou a encarar o teto.
- Por que? –perguntou novamente, e John teve a vontade quase incontrolável de girar os olhos. Fechou a porta do quarto, puxando Jesse pela mão até que ele se sentasse em sua cama.
- Elas brilham no escuro. –disse, olhando as estrelinhas. Jesse olhou pela janela, e depois para o teto, sorrindo.
- Eu quero ver.
- Quando anoitecer, eu te mostro.


John se abaixou, pegando o molho de chaves com o chaveiro de madeira, onde havia dois “J” esculpidos, presente de Brian, que não tinha mais o que fazer e fez o chaveirinho de presente pros dois.
Seria difícil conviver com a ausência de Jesse.
Seria pior ainda saber que ele não conseguiria deixar que Jesse se fosse completamente. Ele se conhecia. Ele sabia que estava fazendo o caminho de volta para o antigo quarto, de onde pegaria o saco com as estrelinhas – por mais bobo que isso parecesse – de volta, que o porta-retrato com a foto dos dois estava no porta-luvas de seu carro, e que o chaveiro que tinha as chaves da casa que os dois moraram por tantos anos, de certa forma, ia encontrar o caminho do molho de chaves do seu apartamento recém alugado.
E não adiantava enganar ninguém, porque ninguém melhor que ele pra dizer que ele se amaldiçoaria dia e noite porque os únicos CDs tocando em seu iPod eram os velhos do Brand New – nunca o recente! – porque neles havia músicas para ele. E ele sabia que passaria noites em claro se perguntando qual das suas atitudes fez tudo dar errado.
E John Thomas Nolan tinha certeza absoluta, que assim que chegasse em casa o teto do seu quarto seria invadido por centenas das estrelinhas que Jesse gostava.
Porque Jesse era parte dele, e ele não conseguiria nunca conviver com essa ausência...

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