Everything Sucks?
5 Ordynari World
Notas iniciais
Era hoje. Só à alguns minutos quando acordei é que me toquei que hoje toda a escola me veria em uma tela gigante, com maquiagem azul e roupa de alumínio. Eu sei que fui muito bem, mas isso não significa que eles vão saber também.
Como hoje era a estréia do filme e logo depois o baile, o diretor dispensou os envolvidos no projeto das aulas matinais para que pudêssemos dar os últimos retoques em tudo. Fiquei encarregada de ver o andamento da decoração da festa, já que meu trabalho estava feito. Aceitei ajudar na decoração com a esperança de ter alguns minutos a sós com Kate.
Fui até o banheiro tomar meu banho e me deparei com o espelho quebrado e vários cacos de o que parecia ser uma garrafa de qualquer coisa no chão. Ótimo. Pelo menos não tinha sangue.
Limpei o banheiro e aproveitei para limpar a casa, eu havia arrumado tudo a pouco tempo e já estava um chiqueiro de novo. Bitucas de cigarro jogadas no chão, garrafas viradas por todos os lados, pratos quebrados... respirei fundo e comecei a faxina.
Emaline, um dia você vai olhar para tudo isso e rir. Um dia você estará no topo.
E tudo o que eu queria agora era ouvir a voz de Kate me dizendo isso.
Cheguei na escola meia hora atrasada do que o combinado, então fui direto para o ginásio. Estava tudo perfeitamente bem, os balões ainda não haviam sido pendurados, mas a decoração prateada, o globo brilhante, as caixas de som e as mesas já estavam nos seus devidos lugares. Um suspiro de alivio quase me escapou quando percebi que eu estava livre.
Leslie me disse que o clube do vídeo estava muito ocupado fazendo os últimos ajustes de som, aparelhos e etc, então mesmo contra a minha vontade resolvi ir para a casa sem ver Kate, ela precisava de concentração e isso era o oposto do que eu tinha em mente.
Uma sensação de alivio quando cheguei em casa e percebi que ele ainda não havia chegado me abraçou. Serio, eu não aguentava mais aquela droga, aquela droga de casa com aquela droga de vida de migalhas. Eu nem me lembrava qual foi a ultima vez que comprei uma roupa nova, mas eu me lembrava muito bem qual foi a ultima vez que aquele infeliz comprou uma garrafa de wisky.
Olhei para o meu relógio de pulso, não era nem 14:00 ainda e eu já havia feito o que eu deveria fazer. Pensei se não seria bom dar mais uma limpada na casa, tentar mais uma vês tirar aquele cheiro de fumaça de dentro dela, então peguei o esfregão e comecei. Aquilo me distrairia e eu torcia para que ele não chegasse antes de eu sair, e foi exatamente que aconteceu.
Assim que cheguei ao ginásio e tive certeza que estava tudo certo para o baile fui procurar Kate.
Eu estava nervosa, coisa que nunca tinha acontecido antes. Sabe, com Oliver as coisas só eram, era automático e não envolviam frio na barriga e nervosismo, não envolvia eu querer estar do lado dele toda a hora, e sim que as pessoas vissem que eu estava do lado dele toda hora. Se aquilo que eu estava sentindo me assustava eu não sei, mas me fazia bem. Muito bem.
A encontrei escorada na grade do pátio que levava ao ginásio, ela usava um vestido prata que me fez parar e eu me permiti apreciar aquilo por alguns segundos. Como eu nunca havia percebido que as curvas femininas eram tão graciosas? Claro, eu admirava muito as minhas próprias e me orgulhava disso, mas nunca antes havia me permitido pensar nas de uma garota como eu deveria pensar na dos garotos, e as de Kate, embora simples, ganhavam em disparada de qualquer abdômen de astro do rock que eu já havia sido colado na parede do meu quarto.
— Hey moça bonita — ela me olhou e abriu um sorriso. Ela deveria fazer isso mais vezes, o sorriso dela me faz querer sorrir.
— Ansiosa? — indaguei, passando meu olhar pelo seu corpo sem disfarçar nada. Queria deixar bem claro o quão ela estava mexendo comigo, mesmo que isso significasse que ela ficaria constrangida.
Nós precisávamos de um momento nosso, só nós duas, porem a sociedade parecia conspirar contra. Quando eu iria propor para conversamos em um outro lugar, os microfones da escola anunciaram 5 minutos para a exibição do filme. Kate tirou as palavras da minha boca quando propôs sentarmos juntas, e eu agradeci a qualquer coisa quando ela não retirou a minha mão de cima da dela.
Luke entrou no palco do cinema improvisado do teatro maior e começou um pequeno discurso de agradecimento, e talvez eu tenha sentido um pouco de inveja.
Família e amigos. Quem me dera desfrutar de algum deles. Amigos de verdade não era uma coisa que eu conhecia, afinal eu era só a namorada do Oliver, e para mim qualquer pessoas que se aproximava ou me queria ou roubaria Oliver de mim. Já no quesito família, bom, não preciso dizer e nem lembrar naquele momento. Não agora.
Balancei minha cabeça para afugentar essas drogas, vocês não estragariam isso.
— Você tá bem? — a voz de Kate era uma aspirina muito bem vinda. Apenas concordei e segurei sua mão mais forte.
Luke deixou o palco e o filme começou.
O começo estava bem diferente do que eu havia pensado que estaria, olhei para Kate e ela parecia maravilhada com o que viu. Não era preciso ser um gênio para perceber que tinha alguma mensagem pra ela ali.
Relaxe Emaline, não deve ser nada demais. Eles são amigos, só amigos. Embora eu estivesse com varias pulgas atrás da orelha com Luke, não arriscaria uma briga por uma coisa besta com Kate já que eu confiava nela. Ate porque nem somos nada, nem temos nada sério ou coisa assim. Você é Emaline Addario, sua confiança é tudo o que você tem. Eu ó precisava me convencer disso primeiro.
— Eu já volto – a voz de Kate soou distante enquanto ela saia da cadeira e andava até a entrada do “cinema”. Segurei meu instinto de caçar cada centímetro do teatro procurando por Luke e me morder de ciúmes. Bufei e voltei meus olhos para a tela, sabendo que ela não voltaria.
Quando o filme acabou várias pessoas me cercaram pedindo autógrafos, espertos, quando eu fosse uma grande estrela isso valeria muita grana. Aproveitei toda a atenção que eu merecia e aquilo me acalmava. Não era segredo para ninguém o quão eu amava ser o centro das atenções, e dessa vez não havia Oliver nenhum para dizer que eu só era reconhecida pelo trabalho dele, era o MEU grande momento.
O baile já estava rolando a algum tempo quando consegui sair de lá. Eu tinha certeza que alguém já havia batizado o ponche, então enchi um copo e bebi de uma vez. Eu sei que deveria ser a pessoa confiante e relaxada, mas o fato de Kate ainda estar com Luke estava me deixando bem puta da vida. Caralho, aquele garoto nasceu grudado nela ou o que?!
A encontrei com seu pai e Luke. Os dois pareciam estar tendo uma conversa muito empolgante e quando ela me viu, seus olhos suplicavam pela minha ajuda. Não pude deixar de rir, é claro que ela estava presa com o pai dela, ele era o diretor! Dei uma piscadela em sua direção e sai de lá, provavelmente a deixando tão frustrada quanto ela me deixou quando não voltou.
Fui até o teatro principal e vasculhei os armários dos bastidores. Embora as cadeiras ainda estivessem encharcadas o palco estava bem limpo e seco. Trouxe dos bastidores um toca fitas e o pluguei na tomada perto das cortinas. Era agora, ninguém iria ali, teríamos nosso momento sem interrupções ou dramas.
Fui ao resgate da donzela que estava sendo torturada com uma conversa entediante entre seu pai e seu ex-fake-namorado.
— Luke, Diretor, acho que preciso roubar Kate por um tempo. Tivemos um imprevisto em um dos equipamentos na hora de desmontar, você pode vir comigo?
— Sim! Claro! – a rapidez com que ela levantou foi hilária, aquilo era uma Kate visivelmente desesperada. Segurei uma risada e a puxei de lá antes que um dos dois abrisse a boca para qualquer coisa.
— Onde estamos indo?
O fato de nenhuma de nós estarmos de salto facilitou muito a corrida até o teatro.
— Você me parecia estar tendo uma conversa muito empolgante lá dentro – minha risada era obviamente para provocar.
Ela me deu um tapa no braço.
— Você me deixou esperando de propósito!
Ri novamente. Como era fácil rir com ela por perto, Kate me fazia querer ser alegre.
Guiei-a até o palco enquanto desviávamos de papelões jogados para absorver a água e essas coisas.
— É aqui que você vai me matar e vender meus órgãos?
— Teria um local melhor pra isso? –ouvir-lá rir apaziguava um pouco toda a ansiedade que eu estava sentindo. Embora eu ache impossível, era obvio que ela estava bem mais nervosa do que eu.
— Aqui – a posicionei bem no meio do palco, deixando nossos dedos se roçarem enquanto eu separava nossas mãos e ia até o rádio. A musica já estava pronta, eu havia dado pausa na fita assim que a música começava. Apertei o play e esperei alguns segundos até ela começar a rodar.
Me virei para Kate. Ela estava com os braços envoltos ela mesma e o olhar dela pulava de mim para o chão. Sorri ao ver seu desconforto.
Arrisquei alguns gestos enquanto ia encontro dela, tentando amenizar o clima. Carreguei seu olhar e não deixei que ela o desviasse. Esse momento era nosso, nenhuma de nós precisávamos ter vergonha.
Peguei seus braços e passei pela minha cintura, passando os meus pelo seu pescoço logo em seguida.
A melodia de Duran era como uma música de fundo, ela estava ali mas não parecia ali pois naquele momento só nós duas existíamos.
Nos movíamos de um lado para o outro sem pensar muito, seus olhos capturavam toda a minha atenção e eu não fazia menção em acabar com isso, até que olhei sugestivamente para sua boca. Kate acompanhou meu olhar e um vermelho tomou conta de seu rosto. Apertei mais o nosso abraço com as minhas mãos no seu pescoço e me aproximei. A musica agora parecia bem mais distante, os meus problemas pareciam bem mais distante e a única coisa que me parecia presente era a necessidade de beija — lá.
Kate se aproximou também. Senti seus braços puxando minha cintura para ela, e deus me acuda mas como aquilo me arrepiou. Não esperei mais nenhum segundo e colei meus lábios aos seus.
Era como se tudo houvesse parado. Naquele momento nós fazíamos nosso próprio tempo e espaço, um universo alternativo. Sabe quando você fica o ano sabendo que não vai ganhar um presente de natal por ter sido uma má menina mas, quando chega o dia acaba ganhando uma bicicleta nova? Bom, era assim que eu estava me sentindo.
A puxei para mais perto de mim. Eu precisava de mais daquilo, era questão de vida ou morte.
Aproveitei uma brecha dos lábios de Kate e coloquei minha língua no beijo. De inicio ela não pareceu entender, mas logo depois retribuiu.
Caramba, tenho certeza que vou arder no inferno por isso, beijar Kate deveria ser considerado um pecado ou uma das maravilhas do mundo.
Nos afastamos quando o ar avisou que o nosso universo alternativo não existia e precisávamos respirar,mas mantivemos nossas testas coladas. Já não havia mais musica e só percebemos agora. Um bip vindo do bolso de Kate nos lembrou de onde e quando estávamos, e eu quis tacar aquela coisa na parede.
— Seu pai? – perguntei quando ela se afastou para ver.
— Sim, ele quer ir embora.
Seu olhar parecia tão aéreo quanto o meu. Mas sei lá, mesmo sendo sugada para a porcaria do mundo real pela primeira vez não parecia tudo uma droga na minha vida.
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