Everything Is Changed
16 Quer se casar comigo
Notas iniciais
Enquanto andávamos em alta velocidade pelas ruas de New Haven, eu tentava me concentrar em algo que não fosse as minhas memórias que vinham como uma chuva torrencial. Era tanta coisa que eu estava ficando tonta. Os rostos de Pedro, Susana, meu pai, Ethan e minha mãe se revezavam antes de tomar conta da minha mente.
Balancei a cabeça tentando ordenar meus pensamentos e olhei para o lado, observando o rosto concentrado de Pedro. Não fazia ideia do que podia estar passando pela cabeça dele neste momento, pois não deveria ser fácil escutar a minha revelação, ainda mais sob a pressão do sumiço e possível sequestro de Lúcia.
Imediatamente me repreendi. É claro que ele não pensaria em mim sob estas circunstâncias, era loucura pedir que ele se importasse com as minhas lembranças com toda a preocupação com a irmã dele. Fui despertada de meus devaneios quando percebi que tínhamos parado em frente ao restaurante onde seria o encontro. Saímos rápido do carro e olhamos pela janela, procurando algum sinal dela ou do amigo de Ethan, Michael.
Meu coração deu uma parada quando encontrei somente Ethan, bebericando uma taça de vinho calmamente, como se saboreasse aquele momento. Ele tinha algo a ver com isso, e eu tinha certeza.
Ignorando os protestos de Pedro, entrei no restaurante e fui em direção a Ethan, deixando para trás o mâitre, que vinha resmungando às minhas costas. Bati meu punho furiosamente, fazendo o restaurante inteiro nos olhar. Ethan nem me olhou, apenas dispensou o cara atrás de mim com um aceno de mão.
— Não seja mal educada, Estela. – ele falou – Estamos em público e este local é propriedade da minha família. Então tenha cuidado.
— O que você fez com a Lúcia? – rosnei
— A ruivinha? – ele questionou, rindo – Ah ela está fazendo companhia ao Michael, que deve estar cuidando muito bem dela.
— Seu monstro. Doente. – xinguei – Tudo isso apenas para que eu fique com você?
Ethan deu uma risada irônica. Atrás dele, vinha Kelsey e eu morri de raiva. Ela sorria, mas não havia emoção nenhuma em seu sorriso. Me segurei para não dar um soco naquela vadia.
— Você acha mesmo que eu gostaria de você, Estela? – ele perguntou – Uma garota grossa, que não sabe o seu lugar e acha que pode desafiar todo mundo, inclusive eu?
— É claro que não. – respondeu Kelsey, no meu lugar – Não quando ele já tem alguém como eu. Acorde, querida, até mesmo o babaca do Pedro me preferiu.
Meu sangue ferveu. Eu iria acabar com a raça daquela menina. Bastava eu alcançar uma faca e me jogar sobre ela. Mas me contive. Precisava de informações.
— Foi tudo um plano? – murmurei
— É claro que foi um plano, minha querida. – disse Ethan – Vou te contar uma história. Era uma vez dois jovens sócios no mundo dos negócios. Os dois eram melhores amigos no colegial e sempre foram apaixonados por viagens. O plano deles, era fundar uma grande empresa de turismo e viver fazendo o melhor que sabiam. E foi o que aconteceu por alguns anos, até o momento que um deles traiu o outro. Ele se casou com a mulher pela qual o outro era apaixonado desde sempre e o casal teve uma linda filha. Quando o sócio traído descobriu isso, decidiu que era hora de ter o que era seu por direito e tentou ficar com, pelo menos a empresa para si. O traidor descobriu e destruiu o outro, mandando-o para a prisão por anos. Mas isso não o abalou, e ele fundou um império em Chicago, só que isso nunca o satisfez. E nem o maldito filho que ele teve com uma puta qualquer e ele foi obrigado a criar, sem nunca verdadeiramente amá-lo.
Eu estava em choque. Meu pai e o pai de Ethan foram sócios no passado? Minha mãe era o centro daquela briga. Será que meu pai só se separou da minha mãe por desconfiar de traição? Qual era a real responsabilidade de Marcela? E por quê Ethan estava assumindo as dores do pai?
— Eu sempre quis uma só coisa – ele continuou – O amor do meu pai. E eu só vou conseguir isso quando destruir o homem que o destruiu. O maldito Arthur Cambridge. Vou tirar tudo o que ele tem, inclusive a sua família. Vou pegar todos vocês um por um. Mas vou começar pela pequena. Vamos ver o quanto ele está disposto a pagar pela vida da enteada. Se não for o que eu quiser...vamos passar para a filhinha querida. Vou te dar um desconto, sei que foi parar no hospital por dois meses e está fraca. Quero você bem forte para conseguir me satisfazer.
Olhei na direção de Kelsey, que sorria diabolicamente ao seu lado. Qual teria sido a participação dela?
— O plano sempre foi pegar você, mas como só a ruivinha apareceu, ficamos com ela.
Eu estava louca de raiva. Ethan deu mais uma risada e se levantou, me puxando pelo braço, em seguida. Fomos em direção a saída e ninguém nos impediu. Do lado de fora, três seguranças seguravam Pedro, que tinha um olho roxo. O loiro levantou o rosto e cuspiu aos pés de Ethan e Kelsey, que simplesmente riram.
— Vou deixar vocês irem, porque é divertido ver o desespero nos olhos de vocês. – disse o maldito – Diga ao seu pai que estamos com a ruivinha. E também que James Lancaster manda lembranças.
E saíram, abraçados. Os seguranças jogaram Pedro no chão e eu corri até ele, ajudando-o a levantar. Ele se apoiou em mim e se ergueu com dificuldade. Lágrimas desciam pelos meus olhos, pois era demais para a minha cabeça. Eu queria ouvir a história do ponto de vista do meu pai. Ele nunca amou verdadeiramente a minha mãe, então por que se casou com ela se o melhor amigo dele a amava?
Pedro percebeu que eu chorava e me abraçou levemente, meio sem força, porque devia estar muito machucado.
— Pedro, aonde está doendo? – perguntei olhando seu corpo – Preciso te levar a um hospital e...
— Não! Precisamos ir para a casa. – ele respondeu – Temos que chamar a todos agora mesmo. A vida de Lúcia está em perigo e eu nem entendo por que ele pegou a minha irmãzinha. O que ela tem a ver com isso?
— Eu vou te contar tudo o que ele me disse.
Entramos no carro e eu narrei a história para ele, que me ouvia com atenção. Eu fui obrigada a parar no meio do caminho, porque já estava chorando muito. A culpa era minha, totalmente minha. Eu me envolvi com Pedro e coloquei a família dele perto da minha. Eu me envolvi com Ethan e o trouxe para a nossa vida. Só eu era responsável por tudo o que estava acontecendo. Pedro me encarava, confuso.
— Estela, por favor, não chore.
— Eu sou a culpada, Pedro! – gritei – Se não fosse por mim, nunca estaríamos nesta situação. Eu trouxe ele para perto, eu expus Lúcia. Eu me envolvi com você e com isso aproximei nossas famílias.
Ele continuou me encarando, em silêncio. Eu estava com medo. Sabia que ele tinha motivos para me odiar, mas nem de longe estava preparada para isso. Eu o amava e não sei se suportaria perdê-lo de novo.
O loiro me surpreendeu e me puxou pela nuca, juntando nossos lábios e beijando com força, como se quisesse mergulhar ali e nunca mais sair. Retribuí na mesma intensidade, pois necessitava dele e da sua força. Necessitava do seu amor.
— Nunca, mas nunca mesmo, repita que a culpa é sua. – ele falou, firme – A culpa é do desgraçado do Ethan, e de ninguém mais, entendeu?
Eu assenti e ele me deu mais um selinho, secando as últimas lágrimas que insistiam em cair. Dei novamente a partida no carro e dirigi até o nosso prédio. Logo subimos para o apartamento de Pedro e encontramos nossa família toda lá. Meu pai abraçava Helena, que chorava compulsivamente. Caspian e Edmundo estavam no sofá, em silêncio e Susana devia estar no quarto, deitada.
Assim que nos viram, meu pai e Helena respiraram aliviados e vieram nos abraçar. Nós os consolamos e em seguida meu pai me olhou feio.
— Nunca mais sumam assim. – ele disse – Nós quase tivemos um ataque cardíaco.
— Me desculpe, pai. – pedi – Nós fomos até o restaurante onde Lúcia tinha o encontro, talvez ela estivesse por lá, mas foi em vão.
— Já chamamos a polícia e eles vão investigar quem está por trás disso...
— Não é necessário, pai. – interrompi.
Ele me encarou de um jeito estranho, como se eu fosse um ET que acabara de pousar na Terra. Pedro ficou ao meu lado e segurou a minha mão. Helena, Caspian e Edmundo também vieram até onde estávamos, ansiosos por notícias.
Respirei fundo e comecei a narrar detalhadamente o que acontecera no restaurante, deixando de fora a parte em que Ethan prometia vir atrás de mim, pois ela ainda me dava calafrios. Meu pai ficava cada vez mais pálido, como se a sua força, tão comum quando se tratavam de negócios e família, fosse se esvaindo aos poucos. Temi que algo acontecesse a ele.
Quando terminei, ele se sentou no sofá e apoiou as mãos na cabeça, completamente desolado. Eu nunca vira meu pai chorando, mas naquele momento ele parecia uma criança indefesa. Helena correu até ele e o abraçou. Ele a olhou, confuso.
— Não está com raiva de mim por eu ser o responsável por sua filha estar sendo feita de refém? – ele questionou
Helena negou com a cabeça e abraçou-o mais uma vez. Não sabíamos o que dizer, então somente nos sentamos e ficamos olhando para o tapete. A polícia estava demorando um monte, então eu fui até a cozinha para tentar tomar um copo de água. Enquanto tentava fazer a minha mão parar de tremer, senti alguém se aproximar. Era Pedro.
Ele me abraçou e apoiou sua cabeça na curva do meu pescoço, chorando baixinho. Coloquei o copo na pia e o abracei de volta, aconchegando-o. Ele fazia carinho nas minhas costas e eu nas suas. Quando ele se acalmou um pouco, nos separamos e ele olhou nos meus olhos por longos segundos.
— Nem conversamos sobre a volta da sua memória. – ele murmurou.
Eu segurei seu rosto com as mãos, negando com a cabeça.
— Pedro, não há como pensar nisso agora. – retruquei – Não tem problema. Teremos todo o tempo do mundo. Eu estou aqui e você nunca mais vai me perder.
— Isso quer dizer que você me perdoa por ter sido um idiota com você no avião e quase ter jogado fora a chance de sermos felizes?
— É claro que eu te perdoo. – respondi e sorri levemente. – Eu te amo e quero você pelo resto da minha vida.
Ele sorriu um pouco e beijou meus lábios levemente. Nosso beijo foi suave e apaixonado, e por alguns instantes, todo o resto sumiu. Quando nos separamos, ele me encarou com intensidade e perguntou:
— Quer se casar comigo?
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