Everything Is Changed
19 Novidades sobre a Lúcia
Notas iniciais
Enquanto Pedro saía para falar com o pai dele, fiquei sentada observando o caos que nos rodeava. E pensei também no que meu pai nos contara, sobre a relação com o pai de Ethan e com a minha mãe. Eu ainda não sabia ao certo como encarar aquela história, porque tinha muitas coisas que eu não sabia, como por exemplo o que minha mãe achava disso.
Eu conhecia dona Marcela. Ela podia ter mudado, mas ainda lembrava dela com os ex-namorados ricos, jovens, e até bêbados, me colocando em situações bem difíceis em alguns casos. Sinceramente, eu não tinha certeza se ela era uma simples vítima nesta história. Uma parte de mim acreditava que não era bem assim a história.
Quando Pedro voltou, parecia cansado. Andei até ele e sentei ao seu lado, entrelaçando nossas mãos. Ele me olhou e deu um sorriso fraco.
— Não foi fácil. – disse – Meu pai está furioso.
— Bom, só espero que ele não piore as coisas ficando desse jeito. – comentei
— Eu não sei. Ele estava estranho ao telefone. – revelou – Não era só raiva, tinha pânico e algo que eu não consegui identificar. Não sei o que vai acontecer com ele aqui.
Fitei o chão, preocupada. Com tudo o que estava acontecendo, a última coisa que precisávamos era de mais brigas. Eu não conhecia Philip McQueen, mas depois de tudo o que já tinha ouvido dele, não duvidava mais de nada. Lembrei de outra coisa: minha mãe. Precisava falar com ela, ouvir a versão dela da história, porque tinha muita coisa mal explicada aí. Muitas intrigas que geraram uma confusão enorme.
— Vou falar com a minha mãe. – comuniquei – Ela me deve algumas explicações sobre tudo o que aconteceu.
— Você acha que é uma boa ideia trazer mais gente? – ele questionou.
— Não sei. – admiti – Só que por mais que eu tenha perdoado minha mãe e que nós estejamos bem, quero ouvir o que ela tem a dizer sobre a história. Sei lá, ela foi uma pessoa complicada no passado.
— Você ainda não confia totalmente nela.
Assenti, sem coragem para realmente admitir que era exatamente isso. Depois de todos estes anos, eu ainda era incapaz de confiar totalmente em minha própria mãe. Isso me assustava, mas não era uma mentira. Percebendo meu desconforto, Pedro me abraçou de lado e afagou meu braço, tentando me tranquilizar.
— Acho melhor nós irmos ver como está o pessoal no seu apartamento. – ele disse.
Concordei e nós saímos sem dizer nada. Assim que entramos no meu AP, encontrei Mikayla sentada no sofá, sozinha, comendo pipoca enquanto assistia a um filme.
— Oi pessoas. – ela cumprimentou.
— Oi. – respondi – Onde estão Elliot e Paul?
— Saíram. – ela disse – Parece que foram conseguir um computador melhor que o seu notebook. E eu desconfio que Elliot foi tentar conseguir um baseado também.
Suspirei. Elliot seria uma tarefa complicada. Mesmo que já tenha me ajudado diversas vezes, eu não sabia o motivo e ele não era de confiança. Porém eu não tinha mais escolha, pois trazê-lo foi um caminho sem volta. Pedro deu um beijo na minha cabeça e saiu, indo para a cozinha preparar um lanche.
— Preciso falar com a minha mãe. – anunciei.
Subi para o meu quarto, peguei meu celular e fui para a sacada, procurando o contato dela. Dona Marcela demorou a atender, mas quando o fez, percebi que sua voz estava tensa.
— Oi filha. – ela cumprimentou
— Oi mãe. – respondi – Imagino que já deva saber do que aconteceu aqui.
— Já sei sim. É uma tristeza. Lúcia é uma moça tão querida. Quem poderia fazer mal à ela?
— Mãe, eu não quero acusá-la de nada, mas a senhora sabe muito bem quem foi. Conhecia James Lancaster.
Percebi o silêncio na linha. Acho que a peguei de surpresa.
— O que você sabe sobre esse homem?
— Papai me contou a história de vocês. O que ele sabia.
— Não há mais nada. – ela disse rápido demais – Não sei de nada além disso.
— Mãe, eu conheço você. Sei quando está mentindo para mim. Como você quer que eu confie em você se continua me escondendo as coisas?
— Estela, querida. Entenda, têm certas coisas que só farão mal se forem desenterradas.
— Marcela, quem está sofrendo é Lúcia. Qualquer coisa que possa nos ajudar a resgatá-la, a entender esse louco, está valendo. Você tem que me contar, está bem?
— Mas, Estela...
— NÃO! – gritei – EU NÃO QUERO SABER. SE QUISER QUE UM DIA EU REALMENTE CONFIE EM VOCÊ COMO MÃE, VOCÊ VAI VIR PARA CÁ E ME FALAR TUDO. EU CANSEI DE MENTIRAS!
— Tudo bem, eu vou.
E desligou. Talvez eu tivesse exagerado, mas realmente cansei. A minha vida inteira foi assim. Marcela sempre teve segredos, eu sempre ficava sabendo por outras pessoas que ela estava namorando. Ouvia conversas dela com pessoas que eu nunca soube o nome. Me fazia parecer a filha perfeita para suas “amigas”. Ela podia até tentar ser diferente agora com Charles, mas nunca conseguiria apagar isso tudo.
Eu me sentei na cama e comecei a chorar, porque era impossível que eu não conhecesse a minha própria mãe direito. Pedro abriu a porta de supetão, assustado. Quando viu o meu estado, correu e me abraçou, enquanto eu chorava em seu peito. Estava desolada. Depois de quase 20 anos, Marcela Spring ainda tinha segredos obscuros guardados. Mas eu iria desvendar, cada um deles.
— A conversa com a sua mãe foi difícil?
— Você nem imagina. – murmurei – Ela não consegue ser sincera nunca. Meu deus!! Ela tentou me fazer acreditar que a história acabava com o que o meu pai contou, mas não é bem assim. Como eu posso defendê-la se ela me esconde as coisas?
— Fica calma, meu amor. Por favor. – ele pediu enquanto fazia carinho.
Eu sorri bobamente.
— O que foi? – questionou Pedro.
— É a primeira vez que me chama de meu amor. Eu gosto disso.
Ele me deu um beijo suave, que acabou se tornando mais profundo por causa da saudade que eu estava sentindo dele. Fazia tanto tempo que não me sentia tão próxima dele, que quase perdemos o controle, se não fosse pelas batidas de alguém na porta.
Ouvi Pedro praguejar baixinho e reprimi uma risada. Fui até a porta e dei de cara com Elliot, ele estava estranhamente arrumado demais, bem diferente de quando chegou aqui. Estranhei na hora.
— Vai sair? – questionei
Elliot assentiu, sorrindo por um instante. Aquilo me surpreendeu, porque em quase quatro anos que eu o conhecia nunca havia visto essa cena.
— Vou encontrar uma pessoa. – comentou – Acho que...acho que encontrei minha mãe.
— Que notícia...ótima Elliot! – falei – Espero que dê tudo certo entre vocês.
— Eu também espero. – suspirou – Enfim, só para vocês saberem. Prometo não demorar.
— Tudo bem, Elliot. Só lembra de subir pela escada e ver se não tem ninguém no corredor quando chegar.
Ele assentiu e saiu. Por mais que eu não considerasse Elliot uma pessoa confiável no passado, sabia que ele tinha tido uma história difícil, então torcia para que algo desse certo na vida dele. Fechei a porta e encarei Pedro, que estava deitado na minha cama, olhando para mim.
— Não temos mais clima para continuar. – falou
— Não mesmo.
— Estela, como foi que conheceu o Elliot?
Respirei fundo. Sabia que hora ou outra eu teria que contar essa história, mas nunca estaria preparada. Tinha vergonha daquele episódio.
Flashback on:
Tudo ao meu redor girava enquanto Stefan me arrastava para um dos quartos da casa onde a festa estava rolando. Eu já tinha vomitado duas vezes mais ainda me sentia mal e suspeitava que tinha ingerido alguma droga, que me deixava mole e lenta.
Entramos no quarto e eu sabia o que nós faríamos. Sorri, manhosa, e o chamei com a mão, pois estava cansada e queria fazer isso rápido.
— Calma, minha gostosa. – ele disse – Tenho algo diferente planejado hoje.
Foi quando dois outros caras entraram no quarto e Stefan fechou a porta. Mesmo meio desnorteada, fiquei receosa e comecei a me encolher. Não faria aquilo. Os três começaram a desabotoar as calças e Stefan veio primeiro na minha direção.
— Vem cá, minha linda. – ele sussurrou – Vem ser nossa.
— Não... – murmurei – Stefan, eu não quero fazer isso.
— Fica quietinha, que não vai doer. Prometi aos meus parceiros que experimentariam a minha menina.
Comecei a me debater e Stefan me segurava. Eu não tinha força contra ele e os dois outros vieram para perto e começaram a tirar a minha roupa. Comecei a entrar em pânico, pois notei que eles não se importavam se eu queria ou não. Iriam me estuprar.
— NÃO! PARA STEFAN! PARA, POR FAVOR! – gritei.
Foi quando alguém arrombou a porta. Era um dos fornecedores de droga dele, mas não lembrava o seu nome agora. Ele correu para onde estávamos e bateu nos dois desconhecidos, deixando-os desacordados. Stefan o encarou com raiva.
— Sai daqui, Elliot. – esbravejou – Isso não é da sua conta.
— Você não vai estuprar a sua namorada, cara. Pensa direito.
— Ela é minha e eu faço o que eu quiser!
Stefan avançou contra Elliot, mas este desviou, já que meu namorado estava lento também por causa das drogas e da bebida. Elliot deu um soco em Stefan e ele desmaiou. Em seguida me deu minhas roupas e saiu comigo dali, colocando-me no meu carro.
— Obrigada por me salvar. Mas, por que me ajudou, Elliot? — perguntei
— Porque sei que, assim como eu, você não gosta desse mundo. Você só faz isso por causa do Stefan e pra chamar a atenção dos seus pais, aposto.
— Não é bem assim.
— Claro que é. Só estamos nesse mundo porque não temos alguém que se importe de verdade conosco. Embora eu ache que você tem, mas não dá valor.
— Stefan não vai te perdoar.
— Não tem problema. Já não aguentava mais ele mesmo. Seu namorado nunca mais vai me ver. Só espero que não faça nada com você.
— Talvez ele não lembre. – comentei
— É, talvez.
Flashback off
Pedro espumava de raiva a essa altura. Eu fiquei com tanta vergonha de contar sobre coisas que eu fazia comigo mesma, que pensei o quanto seria bom me enterrar em um buraco. Abaixei a cabeça, com medo da reação do meu noivo. Porém, para minha surpresa, ele me abraçou.
— Eu juro que se vir aquele idiota de novo, vou mata-lo. – sussurrou
— Não vale a pena. – respondi – O Stefan não é nada mais do que um coitado que nunca será amado por ninguém.
Pedro continuou me abraçando forte, como se tivesse medo que fora de seus braços eu estivesse em perigo. Fomos interrompidos em nosso momento novamente, dessa vez pelo celular dele, que tocava. Vi a sua foto com Helena aparecer na tela.
— Oi mãe. – ele atendeu e esperou que ela falasse. – Tudo bem, já estamos indo.
— O que foi?
— Eles têm novidades sobre a Lúcia.
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