Everything Is Changed
27 Minha liberdade de novo
Notas iniciais
Maldito seja Ethan Lancaster e sua obsessão doentia por mim. Desta vez ele havia passado dos limites e eu sentia vontade de mata-lo com minhas próprias mãos, depois do que ele fez.
Eu havia sido transferida do pequeno quarto/cativeiro, para um quarto maior, mais confortável, já que agora era a queridinha de James Lancaster. Na noite anterior, eu estava saindo do banho, quando Ethan invadiu meu quarto, bêbado. Elliot não estava por perto naquela hora e Ethan se aproveitou disso.
Eu tentei fugir, mas ele era mais forte e estava com raiva, então mesmo que eu tenha tentado, e muito, não consegui evitar que ele violentasse. Sim, ele havia me estuprado e eu me sentia a mais suja das mulheres enquanto tentava me lavar, depois do ocorrido. Não dormi nada naquela noite e pensava, a cada minuto, em seus toques sujos.
No dia seguinte, seria a tal festa organizada por James Lancaster, para comemorar algo dele. Ele também anunciou que seria o meu noivado oficial com Ethan, o que me provocava ânsia de vômito. Meu único consolo era saber que tínhamos um plano, eu e Elliot, para fugir deste inferno, porque uma coisa havia ficado clara: James nunca iria me libertar.
Àquela altura, meu pai e Pedro provavelmente já sabiam da festa de James e de sua intenção. Eu só torcia para que eles entendessem meus planos e não achassem que eu estava, de fato, do lado de James e Ethan, contra meu pai. Se eles não acreditassem, não havia mais porque lutar depois que saísse deste inferno.
Eu sabia que precisava tentar dormir, para estar disposta no dia seguinte, mas não conseguia pregar o olho. Mais cedo, Elliot havia dado um jeito de entrar no meu quarto, para repassar nosso plano comigo.
Era um plano bem simples, na realidade, mas tinha que ser eficaz. Estaríamos na festa e alguns amigos de Elliot criariam um tumulto do lado de fora. Quando Ethan saísse do meu lado para resolver, meu irmão iria esbarrar “acidentalmente”, em um garçom próximo a mim, para que derrubasse algo em meu vestido.
Eu gritaria com os dois e iria me limpar no banheiro, onde uma bolsa, colocada por Ethan iria me esperar, com um uniforme da cozinha. Eu passaria por lá e sairia pelos fundos do salão, onde Elliot estaria me esperando. Dali, fugiríamos pela mata que havia atrás do salão, torcendo para que demorassem a notar minha ausência.
Nosso plano tinha brechas, é claro, mesmo assim precisávamos tentar, ainda mais depois do que aconteceu com Ethan, depois de ele ter me tocado daquela forma. Não aguentava nem mais um minuto com ele.
Fechei meus olhos e procurei relaxar, pelo menos um pouco, aguardando pelo dia seguinte. Comecei a pensar em meu pai, em como eu ficaria feliz em poder abraça-lo de novo. Depois pensei em Pedro, meu verdadeiro noivo e dono do meu coração. Ah, como eu queria ver os olhos azuis que eu tanto amava de novo e poder dizer o quanto eu o amava. E pensando nos dois amores da minha vida, eu finalmente adormeci.
Eu devia estar exausta, pois apaguei completamente e só acordei com alguém entrando em meu quarto, deixando-me assustada. Mas era apenas uma empregada, trazendo o café da manhã. Ela não me olhou uma única vez e sua linguagem corporal dizia que ela morria de medo. Imaginei que havia pessoas que sofriam mais do que eu naquela maldita casa.
Depois de ela deixar o café e enquanto eu começava a comer, o inimigo do meu pai entrou no quarto. Engoli o asco ao ver James Lancaster sorrir na minha direção e sorri de volta, falsa.
— Bom dia, minha querida. – ele cumprimentou, frio – Descansou bem? Porque temos um dia bem cheio, hoje.
— Dormi bem, sim. – respondi e forcei outro sorriso – Estou ansiosa por hoje à noite. Faz tempo que não vou a uma festa e esta será especial.
— Com certeza será, minha Estela.
— Que bom que tenho vocês, já meu pai me largou para morrer, por causa de seu maldito império.
— Eu serei seu pai agora, Estela. É uma promessa.
James sorriu, mas eu só conseguia ver crueldade em seu olhar. Ele ficou mais alguns minutos no quarto, até alguém chama-lo, do lado de fora. Ele saiu de onde eu estava e foi ver do que se tratava, me permitindo respirar um pouco. Porém ele logo voltou, com a expressão fechada.
— Vista-se. – mandou – Temos visita.
Eu assenti e coloquei uma muda de roupas que havia sido separada para mim. Depois, já pronta, segui James pela casa, até a sala de estar. Nela, estava uma garota ruiva, não muito mais velha do que eu, usando uma calça jeans e uma jaqueta de couro. Ela tinha os braços cruzados e uma expressão séria.
Quando chegamos na sala, ela encarou James com severidade e depois passou os olhos rapidamente por mim, analisando-me. Eu não a conhecia, por isso tentei manter a expressão tranquila, fingindo estar ao lado de James, de fato, até porque, se era convidada dele, devia estar do lado do Lancaster.
— Senhorita Rhodes. – disse James — A que devo a honra da visita da Subchefe da Casa Branca em minha residência temporária.
— Fiquei curiosa, James. – respondeu a ruiva – E surpresa por não ter sido convidada para uma visita antes, já que New Haven faz parte do território da minha família.
— Não estou resolvendo nada ligado à máfia. São assuntos particulares, que, aliás, você já deve estar sabendo quais são. Recebeu meu convite?
— Sim, eu e meu irmão recebemos. – falou a garota – E com certeza estaremos presentes.
Depois disso, ela me analisou novamente, parecendo curiosa. Mas logo desviou o olhar e voltou a encarar James. A postura dela era intimidante e eu esperava, um dia, poder ter a mesma atitude que essa mulher.
— Eu gostaria de discutir alguns assuntos com você, James. – ela falou – Alguns rumores que andei escutando.
— Vamos ao escritório. – ele decretou – Estela, por que não volta ao seu quarto?
Eu apenas assenti, enquanto a ruiva ainda me encarava. Seu olhar era duro como pedra e eu entendi na mesma hora que ela era superior a James nesta loucura toda de máfia. A mulher deveria ser tão perigosa quando o Lancaster, então agradeci por ter sido deixada de fora daquilo.
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Mais tarde, uma equipe de beleza veio para me arrumar para a tal festa. Eles me vestiram, me maquiaram e arrumaram meu cabelo, deixando-me parecida com uma modelo. Em outra situação, eu teria ficado contente com o que vi. Meu cabelo castanho estava preso em um rabo de cavalo elegante, enquanto meus olhos estavam delineados com uma sombra escura. Meus cílios foram alongados e minha pele estava impecável. Para finalizar, um batom bordô deixava meus lábios sedutores. Meu vestido era longo e preto, com um decote generoso e uma fenda na minha perna esquerda.
A intenção era clara: fazer com que eu parecesse plena, poderosa e fatal, para transmitir uma mensagem, de que agora eu era uma Lancaster, uma mafiosa, cruel como James e que não precisava mais da minha família.
Dei graças a Deus por ter uma fenda em minha perna, pois possibilitava que eu escondesse a arma, na outra perna, sem que o artefato fosse visto. Elliot havia arrumado uma tira transparente, em que estava o suporte para a pistola. De longe, era imperceptível que eu tinha algo escondido.
Enquanto terminava de colocar meu sapato, Ethan entrou no quarto e sorriu de maneira diabólica ao me ver. Depois andou na minha direção e me puxou pela cintura, em direção ao seu corpo. Eu já não lutava mais, apenas agia como se não sentisse mais nada e fosse apenas uma pedra de gelo.
— Você está absurdamente gostosa, Estela. – ele disse, cheirando meu pescoço – Se pudesse ,te comeria agora mesmo, de novo.
— Não temos tempo para isso, Ethan. – ouvi James atrás dele – Você está incrível, querida. Uma verdadeira dama da máfia, muito melhor do que as outras.
James fez sinal para que fossemos atrás dele e eu fui a primeira a sair do quarto, deixando Ethan para trás. Eu queria tanto me vingar deste nojento maldito, mas teria que esperar, ou colocaria tudo a perder.
Enquanto entrávamos no carro, vi, de relance, Elliot entrar em um utilitário que estava à frente do carro onde eu iria com James e Ethan, e torci para que ele ficasse bem. Não olhei muito para não dar bandeira, mas sabia que ambos estávamos em perfeita sintonia e que tínhamos que fazer tudo como calculamos juntos, ou teríamos sérios problemas.
Assim que estávamos acomodados no carro, o motorista deu a partida. Eu observava, em silêncio o caminho até o tal salão onde estaríamos. Quando chegamos, notei que James preparou um verdadeiro circo, com direito à presença de câmeras e repórteres, de canais de notícia e de blogs de fofoca.
Ao pararmos na frente do local, James desceu primeiro do carro, sendo seguido por Ethan, que estendeu a mão para mim depois. Nos colocamos lado a lado, com o braço dele apertando minha cintura.
— Seja uma boa menina. – sussurrou para mim.
Paramos em frente à entrada e as câmeras se voltaram para nós. Ao mesmo tempo, Ethan me beijou de forma bruta e eu mal tive tempo de reagir. Só ouvi os flashes ao meu redor e rezei para que Pedro não visse essa cena. Fiquei tão abalada por isso, que não notei quando James parou ao nosso lado e abraçou meus ombros, aproximando-me dele, depois que me separei de Ethan. Os microfones foram em direção a ele, que sorriu.
— Esta moça maravilhosa é minha nova filha de coração. – disse – E em breve será a mais nova senhora Lancaster, não é querida?
Engoli a raiva e encarei as câmeras, sorrindo forçadamente.
— Sim, estou contente em estar com uma família unida e especial como esta. Serei muito feliz. – falei às câmeras.
James parecia satisfeito, porque logo depois nos conduziu para dentro, sem forçar mais nenhuma declaração. A festa era muito parecida com algumas das quais eu havia ido com meu pai, repleta de pessoas vestidas divinamente e fria como a Antártica. De longe, avistei os cabelos ruivos da mulher que esteve na casa de James, soltos em ondas perfeitas por suas costas.
A ruiva percebeu que eu a encarava e ergueu a taça em minha direção como um cumprimento. Eu a ignorei, querendo fugir de problemas, e segui James e Ethan pelo salão. Permaneci calada ao lado deles, enquanto me apresentavam para um monte de pessoas que não importavam nada para mim.
Meus olhos rodaram o salão e avistei Elliot em um canto. Ele estendeu uma das mãos junto à sua perna e começou uma contagem regressiva com os dedos. Estava começando.
Quando ele abaixou o último dedo, apertou um botão, que era o sinal para seus amigos começarem. Eu encostei a mão no braço de Ethan, chamando sua atenção.
— Pode vir comigo pegar algo para beber? – pedi, sorrindo.
— Claro, Estela.
Pedimos licença e caminhamos até o local onde estavam os garçons. Eu me servi de uma taça de vinho, bebericando devagar. Logo, um dos capangas de Ethan veio e sussurrou algo no ouvido dele. A feição do Lancaster ficou alarmada e eu soube que era a nossa distração.
— Eu vou resolver uma questão. – falou – Volto logo. Não saia daqui.
Assenti e ele logo seguiu o capanga para fora do salão. Era a minha deixa. Logo, Elliot passou perto de mim e esbarrou em um rapaz que passava segurando uma bandeja com canapés. A comida caiu em cima de mim e eu praguejei, enquanto Elliot saía, sorrateiramente.
— Olha o que você fez! – falei – Idiota.
— Desculpe senhorita!
— Saia daqui! – mandei.
Ele saiu correndo, deixando-me sozinha. Eu fui de maneira discreta para o banheiro combinado e encontrei a mochila que havíamos preparado em uma das cabines. Apressei-me na troca da roupa, ficando com a arma escondida na blusa, parte do traje da cozinha, e tirei a maquiagem. Quando estava indo em direção à porta, outra pessoa entrou. Era a mulher ruiva.
— Ora, ora. – ela comentou – O que temos aqui?
— Por favor... – comecei a pedir.
— Não precisa dizer nada. – ele cortou – Não direi nada a ninguém, pois estou do seu lado, Estela Cambridge.
— Você sabe meu nome?
— Conheço seu pai. – disse, somente – Agora, seu plano é péssimo. Sair pela cozinha vai te atrasar, acredite.
— O que você sugere?
A garota não disse nada, apenas subiu no vaso sanitário de uma das cabines e, em poucos segundos, retirou uma das pequenas janelas que havia na parede.
— Mandei que fizessem um ajustes neste banheiro, pois estranhei quando meus informantes disseram que alguém havia deixado uma mochila aqui.
— Você sabia!
— Sei de mais do que imagina. – respondeu – Agora você precisa ir. Nesse momento, meu irmão está atrasando Ethan, mas o tempo é curto. Saia por essa janela, seu irmão está aguardando logo à frente. Sigam pela mata por mais ou menos um quilômetro e depois vão para a estrada. Do lado da placa da divisa da cidade, haverá um carro. Ele vai levar vocês para um lugar seguro, por hora.
— Eu...
— Vai logo, garota!
Fiz o que ela mandou e saí pela janela, com dificuldade. Depois, corri em direção à floresta, onde logo encontrei Elliot. Ele me olhava, confuso e apavorado.
— De onde você veio? Não saiu pela cozinha.
— A mulher ruiva me ajudou. – contei – Ela disse que conhecia o meu pai.
— E você acredita nela?
— Não tinha opção!
Eu contei a ele o que ela me disse e nós seguimos as instruções, correndo como nunca antes. Quando chegamos à placa da divisa, lá estava um carro preto, conforme a garota dissera. Fomos até ele e entramos, ao ouvir as portas sendo destravadas. Dentro do carro estava uma garota morena, parecia latina, que sorriu animadamente.
— Olá, passageiros. – ela cumprimentou – Apertem os cintos, porque temos uma fuga pela frente.
Eu sorri para ela e depois para Elliot, que encarava tudo surpreso. A garota acelerou o carro, enquanto explicava quem era e porque estava nos ajudando. Mas sinceramente, eu só pensava em como era bom ter minha liberdade de novo.
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