Everything Happens In London II
9 Capítulo IX
Notas iniciais
Harry e eu nos despedimos assim que ele me deixou em casa. Dessa vez, demos carona para Luce e Mel por pedido da tia Susana, assim que chegássemos ela e Steve estariam nos esperando para contar a grande surpresa. Devo acrescentar que o pneu do carro não furou, com isso, não precisamos usar o chimpanzé, digo, macaco. O que foi uma benção, porque eu realmente não queria fazer todo aquele trabalho de novo. Principalmente se minhas duas primas estariam presentes para me ver confusa e desajeitada com aquelas ferramentas complexas.
Ao chegarmos a casa, houve uma pequena festa de boas-vindas por termos retornado; havia desde muitos beijos à “como foi?”, “comeram direito?” e “porque não passaram mais protetor? Estão tão vermelhinhas...” Parecia que tínhamos ficado um ano sem eles. Adultos... Como entendê-los? Já estávamos acomodadas no sofá da sala depois dessa recepção tão calorosa. Susana e Steve ficaram em silencio por alguns minutos, até que finalmente falaram alguma coisa.
– Meninas, nós temos algum muito importante para falar. – O casal se entreolhou sorrindo.
– Não é um bebê, não é? – Luce interrompeu nervosa. – Não posso ser um bebê! Eu não posso dividir minha herança!
– Luce, pelo amor de Deus não estou grávida. – Susana falou. – Você sabe muito bem que eu não posso ter mais um filho. Mas isso não quer dizer que nós não possamos adotar uma criança.
– Então quer dizer que vamos ter um irmãozinho? – Mel ficou com os olhinhos brilhando.
– Vai ser menina ou menino? – Quis saber.
– Calma garotas! Não é mais uma criança... É algo maior que isso... – Steve gesticulava enquanto falava. – Eu e Susana nós vamos nos casar.
– MENTIRA! SÉRIO? AI PAPAI ESTOU TÃO FELIZ! POR VOCÊ TAMBÉM SUSANA! – Mel pulou do sofá para ir abraçar seu pai e logo depois minha tia.
– Se quiser me chamar de madrasta, eu aceito.
– Parabéns tia! Já estava na hora. Aposto que irão ser muito felizes juntos. – Eu também cumprimentei os noivos.
– Obrigada Nina. Eu... Eu nem acredito que vou me casar novamente!
– Digo a mesma coisa. – Steve sorriu cumplice.
– Pera, tem tantas coisas para arrumar! Quero dizer, vestido, buffet, local, os convites e o principal: a aliança. – Mel falava animada. – Quando vocês pretendem se casar?
– Setembro ou Outubro. – Susana ria com a animação da enteada.
– E queremos algo intimo e discreto. – Steve falou rapidamente.
– Quero organizar tudo! Posso? Deixa, por favor! – O casal se entreolhou e sorrira concordando. Mel não se cabia de felicidade. – Nina, vou precisar de sua ajuda! Tudo tem que sair perfeito! A sua também, não é Luce?
Diante daquela notícia e a animação da Mel, nem tinha percebido que Luce não falou nada. Também não deu os parabéns para a mãe e para seu novo padrasto. Luce mantinha os olhos arregalados descrente do que estava acontecendo. Quando percebeu que olhávamos para ela esperando de uma resposta, ela piscou os olhos e abaixou a cabeça. Ao reerguê-la, os olhos estavam cheios de lágrimas.
– Você o esqueceu, não foi? – Ela sussurrou.
– Filha? O que foi?
– VOCÊ SE ESQUECEU DO MEU PAI! – Luce se exaltou, levantando rispidamente do sofá. – JÁ QUER COLOCAR OUTRO NO LUGAR DELE... PENSEI QUE VOCÊ O AMASSE!
– Luce, é melhor parar... – Steve tentou acalmá-la.
– SAI DAQUI, NÃO ME TOCA! QUER SABER, VOCÊ NUNCA VAI SUBSTITUIR O MEU PAI, NUNCA! PENSEI QUE SE IMPORTAVA COM O QUE EU SENTIA, MAS PELO VISTO...
– Filha se acalma, vamos conversar... – Tia Susana chorava.
– QUER SABER? VÃO TODOS VOCÊS PARA O INFERNO! EU ODEIO VOCÊS! ODEIO!
Vi Luce subir as escadas correndo, logo depois o barulho da porta do quarto dela ecoou pela sala. Todos nós estávamos em choque. Ninguém esperava aquele comportamento de Luce. Claro que eu sabia que ela não gostava de ver a mãe se relacionando novamente, mas desde que eu tinha chegado, ela nunca tinha dado um ataque daqueles e nem tratava o Steve mal. Um dia desses, sua própria mãe havia me dito que Luce tinha superado toda antipatia que tinha do namorado.
Durante esses dois meses, minha prima não tinha comentado sobre a morte do seu pai. Agia parecendo que tinha esquecido, mesmo que seu pai tivesse morrido há um ano trás... Luce pela primeira vez, estava seguindo a vida dela. Estava feliz. E agora, eu sabia que ela estava apenas maquiando o que sentia. Ela nunca tinha esquecido o pai, ou deixara de pensar nele. Hoje foi a maior prova do que eu estou dizendo. Tia Susana chorava tristonha, afinal, as palavras que Luce disse foram muito duras. Aliás, não só para minha tia, como para Steve e Mel. Ah! Mel... Ela estava visivelmente abalada com a cena. Só Steve que parecia calmo.
Chamei Mel em um canto para conversar. A garota de cabelos loiros sempre sorridente, há alguns instantes feliz, aparentava uma expressão chateada. Sei que Luce falou tudo àquilo de boca para fora. Ela estava muito estressada, em seu estado perfeito, ela nunca teria dito aquilo. Principalmente para Mel que ela tanto amava e cuidava como se fosse uma irmã. Naquela confusão, eu precisava demonstrar confiança e fazer alguma coisa para ajudar.
– Você sabe que tudo que ela falou é só besteira, não é? Ela te ama muito Mel. Só está um pouco nervosa.
– Eu sei... Mas dói escutar uma coisa dessas de uma pessoa que você gosta. Mesmo que seja de brincadeira. – Mel respondeu com a cabeça baixa.
– Melhora essa carinha. Aposto que ela não iria querer ver você desse jeito. – Tentei sorrir um pouco. – Ei, eu vou falar com a Luce. Cuida da tia Susana, certo?
– Eu vou com você...
– Não. Não acho que ela iria querer você, Steve ou Susana. – Suspirei. – Eu vou sozinha. Vou tentar por juízo naquela cabeça oca.
– Então boa sorte.
– Obrigada... – Antes de ir, falei: — Mel, Susana vai precisar de você. Tenta animá-la, por favor.
– Farei o meu melhor.
Mel conseguiu sorrir, mesmo que fosse apenas um sorriso pequeno. Enquanto eu subia as escadas e ia em direção ao quarto da minha prima, eu sabia que Mel estava com minha tia consolando-a e animando-a. Queria eu ser tão boa quanto ela nessas horas. Mel é uma pessoa muito meiga e carinhosa, com certeza ela cuidaria muito bem da Susana. Esperava conseguir fazer o mesmo bom trabalho com Luce.
Ao chegar à porta do quarto, bati levemente. Ninguém respondeu como eu esperava. Era claro que Luce estava lá e também era claro que ela não iria querer ver e nem conversar com ninguém. Insisti novamente, dando mais algumas leves batidas. Escutei alguém resmungando, e logo depois um “QUEM É?” Respondi na esperança que ela fosse abrir a porta. Bom, ela abriu uma fresta da porta.
– O que você quer? – Ela perguntou.
– Conversar, simplesmente.
– Não estou a fim de conversa, tá legal? Eu estou bem, ótima para falar a verdade!
– Nós vamos conversar. – Afirmei, já entrando no quarto dela.
– Invasão de privacidade! Isso pode dar cadeia, sabia? — Luce tinha os olhos cheios de lágrimas e o rosto vermelho, provavelmente estava chorando. Ela deu um sorriso cínico em minha direção. – Pode me julgar agora, Nina. Vamos, pode começar.
– Já lhe falei que eu vim aqui para conversar e não para lhe julgar.
Eu sempre tive inveja da minha prima por ela ser forte e segura, porém, olhando para ela agora. Percebia que o que era forte se tornou fraco e o que era seguro se transformou inseguro. Luce estava um caco. Apesar de estar movida pela raiva, quando aquele sentimento passasse, ela iria se arrepender profundamente de tudo que havia dito a sua mãe. Dei uma olhada em volta e sentei em sua cama, droga, Mel deveria mesmo ter vindo comigo.
– Luce, eu sei como é perder um membro da família, conheço a dor, o medo e a saudade... Por favor, me deixa terminar. Com a morte do meu irmão, eu percebi o que você sentia quando perdeu o seu pai. Sei que tem medo que se esqueçam dele, mas ninguém irá fazê-lo! Ele vai continuar vivo dentro do seu coração, e vai estar sempre com você. – Luce sentou ao meu lado e deitou-se de modo que sua cabeça repousasse na minha coxa. Aproveitei para fazer um pouco de carinho. – Sei também que ele está olhando você diariamente de onde ele estiver, e vai estar sempre aqui para te ajudar quando precisar.
– Sinto tanto a falta dele...
– Eu imagino, prima. Agora, não é só você que sente a falta dele. Sua mãe também sente. – Fiz uma prece silenciosa pedindo para que eu conseguisse encontrar as palavras certas. – Quando meu irmão morreu... Eu queria... Queria morrer junto. Ele era tudo para mim. Aqueles dias que fiquei triste, tinha jurado que eu não queria mais seguir a diante. Minha vida não teria mais sentido... Até que... Alguém me falou que ele deveria estar chateado em qualquer lugar que ele estivesse por me ver desistir, jogar a minha vida fora. Claro que ele não escolheu morrer, ninguém escolhe, se fossemos por nós, viveríamos para sempre... – Suspirei um pouco e engole lágrimas que ameaçaram cair ao me lembrar do meu irmão. – Mas temos que ser fortes, temos que seguir a nossa vida, deixar eles orgulhosos.
– Ela vai se casar, Nina! Quer colocar outro no lugar dele!
– Sua mãe está fazendo exatamente o que eu disse: está seguindo a vida dela. Não há nada de errado nisso. Claro que Steve não vai substituir o seu pai, ninguém tomará o lugar dele. Também ninguém vai se esquecer dele. Ele foi especial tanto para você quanto para sua mãe, não se esqueça. O errado é você julgá-la por tentar ser feliz novamente.
Nós não falamos mais nada por alguns longos minutos. Eu achei que tinha falo as palavras certas e esperava que ela tivesse entendido tudo. Notei que a respiração da Luce tinha se normalizado. Mexi em seus cabelos negros, sorrindo ao ver o contraste em sua pele branca. Minha prima tinha fechado os olhos, e dormindo, parecia a Branca de Neve. Fiquei mais um tempo com ela, antes de tirar cuidadosamente sua cabeça do meu colo e andar silenciosamente até a porta. Contudo, fui sobressaltada com a voz embriagada de Luce.
– Nina, você pode chamar a minha mãe?
– Aham... Posso sim. – Me virei para sair do quarto, porém, fui surpreendida novamente com a voz dela.
– Nina?
– Sim? – Esperei o que ela fosse dizer.
– Obrigada. Obrigada por não brigar comigo.
– De nada.
– Foi o Harry que disse aquilo? – Como fiquei confusa, ela explicou: — Que devemos seguir a nossa vida e deixar aqueles que amamos orgulhosos.
– Ah, foi ele sim. – Senti minhas bochechas ficarem coradas.
– Vocês são perfeitos um para o outro. Não deixe o que os outros pensem atrapalharem o que vocês têm, promete?
– Prometo.
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