Everybody hates Pip
6 O vestido
Pip se sentia como um indefeso coelho que no máximo poderia correr e se esconder dos terríveis lobos a espreita para come-lo vivo. Essa sem duvidas é a comparação perfeita para o que o loiro estava enfrentando naquele momento, alguns garotos da sua series e de series a frente se juntaram para caçar Pip, o objetivo era simples e particularmente humilhante aos olhos do britânico, eles queriam achá-lo e colocá-lo dentro de um dos vestidos do teatro. Muitos poderiam considerar aquilo infantil e imaturo, mas não era a primeira vez que faziam algo do tipo com Pip e nunca deixava de ser terrivelmente humilhante.
Daquela vez o banheiro era o esconderijo mais acessível para Pip, ele não considerava um dos melhores lugares já que quando eles achavam o loiro sempre puxavam-no para o banheiro, porém era improvável que alguém fosse procurá-lo naquele lugar tão cedo. Agora ele podia aproveitar para respirar fundo, se acalmar e esperar um pouco até ter certeza de que haviam desistido de procurá-lo, assim Pip iria correr até o lado de fora do colégio para felizmente voltar apenas depois de dois dias. As sexta-feiras sempre traziam um alivio para o loiro.
Quando Pip ouviu o rangido da porta se encolheu na cabine e teve certeza que ela estava trancada, os passos –com certeza de mais de uma pessoa– faziam barulho e o loiro quase prendeu a respiração, mas quando ele percebeu que aquelas pessoas estavam abrindo as cabines uma a uma e a única coisa que Pip se lembrou que poderia fazer foi orar. Deus, por favor, se estiver me ouvindo, dessa vez não! Eu imploro, não sei se consigo aguentar por muito mais tempo, eu não entendo o que fiz para isso acontecer somente comigo. Deus, só dessa vez não...
–Pip você esta ai?
A voz era do Cartman, infelizmente.
–É obvio que ele não vai te responder, bundão!
Essa era de Stan.
Quando a porta na frente de Pip foi batida pelo lado de fora o loiro reprimiu um grito.
–Essa esta trancada.
A ultima foi de Trent, e ela soou como se estivesse do outro lado da porta.
Então Pip lembrou-se que não era difícil abrir as poetas das cabines pelo nado de fora, ele já havia visto algo do tipo acontecer com um outro aluno, mas a diferença era que não queriam colocar Brandley Biggle dentro de um vestido... na verdade o loiro nunca soube o motivo dele ter se trancado no banheiro, mas aquela hora não era boa para pensar nos problemas dos outros.
Pip ouviu alguma movimentação e não soube distinguir o que era, mas quando viu a tranca da porta de movendo 'sozinha' no momento de desespero se levantou para força-a a manter a porta fechada.
–Te achei Pip. –O loiro quase pode ver o sorriso de Trent
–Tem certeza que é ele? –Uma voz que Pip não reconheceu perguntou.
–Absoluta.
–Se-será que nos não podemos resolver isso de forma civilizada? –O britânico gaguejou.
Passos e mais alguma movimentação, o loiro também conseguiu ouvir risos baixos e o rangido da porta do bainheiro.
–Claro Pip. –Cartman respondeu escondendo todo o sentimento da voz.
Pip pode ser inútil, mas não é imbecil. Se abrisse aquela porta seria forçado a se travestir e se não o fizesse aconteceria exatamente a mesma coisa, ele nunca teve muitas opções e nunca teria. Porém ainda existia uma chance de escapar dali, se conseguisse ser rápido o suficiente poderia fugir correndo. Mas se tivessem trancado a porta? Pip não tinha como saber, teria que tentar. Os riscos eram grandes, o loiro poderia ser surrado ali mesmo se estivesse errado. Deus, se você puder me ajudar dessa vez...
Destrancou a porta ainda segurando-a, respirou fundo e com o coração a mil empurrou-a rapidamente. Sem ter tempo de observar mais nada saiu correndo na direção da sua liberdade, apenas para saber que eles realmente haviam trancado a maldita porta.
Stan pousou uma mão no ombro de Pip e sem fazer muita força empurrou o loiro para o chão.
–Não era que o Cartman estava certo?
–Eu sempre estou certo.
~ DIP ~
O vestido era ligeiramente desconfortável e havia ficado meio folgado na parte do busto, mas o que realmente incomodou Pip foi a cor. Ele sempre achou que não ficava bem com preto, que essa cor o deixava ainda mais pálido do que era e simplesmente não gostava muito, mas se o vestido fosse de uma outra cor mais clara ficaria bonito. Ele era meio rodado por causa das seis saias para fazer volume, tinha alguns detalhes com renda e laços soltos pois ninguém se preocupou em arrumar realmente o vestido, as mangas eram longas feitas de uma renda fininha meio rasgada em alguns pontos pela falta de cuidado.
Ficaria realmente bonito em uma garota. Mas Pip não era uma garota.
Trent, Cartman, Stan e os outros haviam saído alguns minutos atrás levando todas as roupas que o loiro usava a pouco tempo, esquecendo somente da boina que Pip colocou em um bolso recém descoberto do vestido. Agora o loiro teria que pensar em uma forma de sair do colégio sem ser notado, e ele sabia que aquilo era impossível. O mais sensato era que Pip esperasse todos saírem do prédio para que ninguém relevante o visse naquele estado, mas existia o perigo de ficar trancado la dentro e só sair no dia seguinte. Não havia realmente nada que pudesse fazer, talvez um milagre pudesse ajudar-lhe. Mas milagres nunca acontecem para Pip.
O loiro puxou as saias e procurou não fazer barulho dentro da cabine quando ouviu o rangido da porta. Passos e o barulho de água correndo, Pip conseguiu contar duas pessoas, mas como ambas falavam tão baixo que não tinha como identificar, passou-se um tempo e aparentemente as duas pessoas saíram. O britânico olhou para uma pequena janela com grades no canto da cabine vendo que já estava escurecendo, se seu pensamento estivesse certo a maioria dos alunos estavam em suas casas ou indo para elas. Era tudo ou nada, agora Pip teria que arriscar.
Abriu a porta e saiu da cabine apenas para ver que não estava sozinho. Tweek olhou-o com duvida e depois vergonha, ameaçando sair correndo do lugar como quem não quer se envolver em problemas, ou mais precisamente, com o problema.
–Não Tweek, espera! –Pip quase gritou e tentou ir na direção do outro loiro, mas tropeçou nas saias e caiu dolorosamente. –Do-doeu..
–Pi-pip?
–Sim, sou eu. –Apoiou-se na parede para levantar.
–O que aconteceu?
–Ah, o de sempre.
–Entendi.
Tweek é um garoto loiro e alto que estuda nas aulas de historia e matemática com Pip, eles se falam muito pouco e não sabem nada um do outro, apenas o básico de Pip ser odiado e o vicio em café de Tweek.
–Quer ajuda?
–Se não for em ma hora, sim, eu adoraria. –Pip respondeu. –Ainda tem muita gente lá fora?
–Está tendo jogo, contra Denver. –Falou se aproximando do outro loiro. –Os corredores estão vazios... esse vestido pinica?
–Muito.
–E as suas roupas?
–Vai saber. –Deu os ombros.
–Pip, quando isso aconteceu –Tweek se referia ao fato do outro estar de vestido. –O Craig também estava aqui?
–Não. Por que a pergunta?
–Na-nada. –Respondeu nervosamente e meio rápido, em seguida murmurando uma frase incompreensível para o britânico.
Três segundos os loiros ouviram um click e viram um flash de câmera. Craig estava com o celular em mãos na entrada do banheiro e Pip se questionou como não havia ouvido ele entrar antes.
–Cra-craig? O que vo-você esta fazendo?! –Tweek falou terrivelmente nervoso.
–Nada Tweek. –Guardou o celular. –Vamos?
–Eles já fizeram isso –Pip sussurrou. –ainda hoje você vai ver.
–Tanto faz. –Craig falou impassível.
–Craig! Apague isso ago...
Uma outra pessoa entrou no banheiro, dessa ver um garoto usando preto da cabeça aos pés e olhos anormalmente vermelhos, conhecido como Damien.
–Mas que diabos? –O anticristo estreitou os olhos. –Pip?
–Sim?
–Por que você esta desse jeito? –Se aproximou do loiro ignorando os dois outros ali presentes.
–Longa historia... na verdade nem tão longa assim. –Suspirou cansado. –Antigamente costumavam me vestir assim e me fazer andar pelo colégio vestido de garota. Quiseram lembrar os velhos tempos... pelo menos ninguém se lembrou da parte de andar pelo colégio... –Sorriu forçadamente, mas fez uma careta quando coçou a lateral do vestido. –Isso pinica...
–É serio Pip? –Tweek se encolheu um pouco pelo olhar de Damien.
–É sim, mas vocês sempre ignoravam e nunca tentaram me ajudar. –Não havia magoa nem nada do tipo na sua voz, ele só falou uma verdade.
–Ok –Damien falou de repente. –onde estão as suas roupas Pip?
–Eu também adoraria saber...
–Olhe pelo lado bom, você fica bem de preto. –Craig comentou ainda sem interesse verdadeiro já saindo do lugar.
–Espera! –Tweek gritou, correndo atrás do outro.
Damien encarou Pip por um tempo sem falar nada, já o loiro estava de cabeça abaixada coçando a outra lateral do vestido, a costura dele realmente incomodava.
–Pip, eu posso te emprestar uma roupa.
–Serio?
Pip sorriu, um sorriso particularmente bonito na opinião de Damien.
–Sim, eu tenho uma muda de roupa no meu armário –Falou. –Volto daqui a pouco.
–Certo, obrigado. –Sussurrou.
~DIP ~
–Eu não trouxe.
–O que?
–Você vai precisar voltar desse jeito para casa Pip.
Pip não respondeu.
–Tem a opção de procurar as suas roupas?
–Elas devem estar no lixo a essa hora...
–Pelo menos você fica bem de preto. –Damien riu.
–Eu tenho a sensação de que já ouvi isso antes. –Pip murmurou e em seguida suspirou tristemente. –Não posso voltar para casa vestido assim.
–Seu pai vai fazer algo?
–Como eu gostaria de ter um pai... quero dizer, não, o problema esta no local onde vivo.
–Se quiser eu posso te acompanhar.
Aquilo era uma atitude estranha vindo da pessoa que é o anticristo, mas Pip não teve tempo para pensar nisso já que respondeu imediatamente em alto e bom som.
–NÃO! –Gritou nervoso. –...só, a-acho melhor não.
Se Damien visse o lugar onde Pip morava certamente as coisas não seriam mais as mesmas, o loiro estava bem ciente disso, havia conseguido manter o segredo por longos quatro anos e não seria agora que alguém iria descobrir. Nem mesmo Damien.
–Você mora em uma igreja? Se for isso eu não tenho mais problemas para...
–Não –Murmurou com uma voz meio rouca. –não precisa.
–Então quer dizer que você simplesmente não pode ir para casa?
–Exatamente.
–E nem vai me falar o motivo?
–Não, sinto muito.
–Mas tem problema se você ir comigo para minha casa? –Damien falou meio rápido. –Eu posso te emprestar uma roupa para você poder ir para casa...
Damien, a única pessoa que havia sido gentil com Pip em anos, estava convidando-o para ir a sua casa! Sem falar no imenso favor que ele estava disposto a fazer! O loiro mal podia acreditar! Aquilo só poderia ser um sonho ou uma brincadeira de muito mal gosto, Pip gostava de acreditar que Deus não era cruel a esse ponto. Se fosse o loiro jamais teria conhecido e jogado uma bandeja de comida em Damien, mas de fato era meio controverso e confuso, aquele garoto era o anticristo e é suposto que Deus não queira que seus filhos andem com aquele ser em particular... o que Pip poderia falar de Deus? Já estava bom o suficiente.
–Nã-não, nenhum. –Sorriu. –Obrigada.
–Vamos antes que fique muito tarde, quero chegar antes do velho.
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