Everybody hates Pip

13 O que está errado, Damien?


Pip não sentia mais as dores dois dias depois do incidente com Stan, a única complicação era que o loiro era canhoto e com o pulso esquerdo torcido não conseguia escrever muito bem. Mas fora esse problema tudo estava bem, quer dizer, quase isso... Apesar de tudo Pip sabia que mais cedo do que tarde sr. Green lhe reprenderia pelos últimos acontecimentos e provavelmente o suspenderia por uns dois ou três dias.

A aula era de história e Pip sentava na carteira ao lado de Damien, no fundo da sala. Tudo ocorria normalmente e faltava cinco minutos para o intervalo.

Pip observou por um tempo Damien olhando a paisagem cheia de neve pela janela, finalmente percebendo algumas coisas que não havia parado para notar antes naquele garoto. Mesmo ambos sentados o anticristo ainda conseguia ser mais alto e era realmente tão bonito... Tudo bem, por que eu estou pensando nisso mesmo? O loiro havia interrompido aqueles pensamentos e colocado outros no lugar, de como era estranho que pensasse aquilo de Damien. Bem, ele era bonito sim, mas Pip não deveria admirar isso dele ou algo do tipo. Era tão terrivelmente errado de tantas maneiras diferentes!

Porém, não é como se eu estivesse gostando do Damien ou algo assim...

Ou será que eu estou sim?

Desde o começo Damien havia tratado-lhe muito melhor do que qualquer pessoa em South Park, ele havia defendido Pip várias vezes em variadas situações e parecia verdadeiramente se preocupar... Fora o beijo e a atitude estranha dentro do armário do zelador dois três atrás, mas Pip morria de vergonha apenas em pensar naquilo. E com o passar do tempo Damien foi ficando menos grosso com Pip, quase como se não quisesse ser.

A aula terminou e todos os alunos saíram de sala, mas Damien ainda encarava a janela perdido em pensamentos, pensamentos que Pip não quis interromper mas precisou faze-lo.

–Damien, você vem?

–O que? -Damien virou a cabeça para olhar Pip.

–A aula acabou. Você não quer almoçar?

–Ah sim... Ok, vamos.

A caminhada foi silenciosa, Pip sentou-se na mesa sem pegar o almoço e Damien tratou de logo o levar para a mesma mesa que o loiro estava. Pip percebeu que por alguma razão naquele dia Damien estava estranhamente distante e quieto, não que ele falasse muito, porém agora falava bem menos que o de costume.

–Tem algo acontecendo Damien? -Pip perguntou.

–Porque você pergunta isso?

–Não sei, você esta estranho...

–Estranho como? -Damien falou um pouco rápido.

–Não sei... Um pouco calado demais... -O loiro logo tratou de notar o quanto aquela conversa estava estranha. -Mas, tudo bem, você não precisa querer conversar comigo.

Pip se escondeu atrás da franja e passou a encarar a mesa, finalmente se dando conta do quanto estava com fome, mas sabia que ficaria pelo menos uns dois meses sem poder gastar algum dinheiro para o almoço e teria de acostumar-se com a idéia. O pulso torcido havia bagunçado completamente suas economias.

–Você quer? -Damien estendeu um sanduíche ainda empacotado para o britânico. -Pode pegar, eu estou sem fome.

–Tem certeza? -Mesmo com a fome não deixaria de hesitar um pouco.

–Claro, pega logo.

–Sim -Pip pegou o pacote, mas antes de começar a comer agradeceu devidamente com um sorriso. -Muito obrigado Damien.

–De nada.

O loiro deu as primeiras mordidas e seu estomago agradeceu imensamente. Passando-se alguns minutos de silencio voltou a perguntar:

–Alguma coisa aconteceu? -Pip não deveria estar batendo naquela tecla tanto assim, mas sua intuição dizia que algo não estava normal, que Damien estava estranho demais.

–Pip, isso sinceramente não é problema seu. -O anticristo falou como se quisesse terminar com aquele assunto, com uma ponta de impaciência na voz.

–Tudo bem. -Pip não poderia deixar de se sentir meio magoado pelo tom de voz do outro. -Tem razão, não é problema meu. Perdoe-me por perguntar.

Pip realmente gostaria de saber o que se passava com Damien, estava preocupado e queria saber se poderia de alguma forma ajudar. Porém o anticristo não parecia disposto a falar qualquer coisa sobre o seu problema e, por mais que quisesse saber, Pip não insistiria se ele não dissesse nada.

O loiro comia o sanduíche de frango sem nem pensar em puxar assunto com o garoto na sua frente, com a cabeça abaixada. E mesmo assim conseguia sentir o olhar de Damien a lhe observar atentamente, com seus olhos anormalmente vermelhos e estranhamente belos.

–Desculpe Pip, e que eu... -Damien calou-se por uns momentos. -É meio complicado de se explicar agora, tem haver com a minha família.

–Família? -Pip levantou a cabeça. -Eu realmente não entendo muito bem disso... E não tem problema se você não quiser me contar nada, sério.

–Eu vou ficar um tempo sem frequentar o colégio, Pip.

Pip sentiu algo estranho apertando dentro do peito.

–Quanto tempo?

–Até as coisas se acalmarem...

–Que coisas Damien?

–Tem haver com minha família e alguns problemas no inferno, para ser mais exato. -Damien falava inquieto. -E eu posso demorar um pouco até estar seguro o suficiente para voltar a Terra...

–Damien, por Deus, o que está acontecendo? -Pip estava ficando realmente preocupado.

No mesmo segundo o sinal anunciando o termino do intervalo soou por todo o colégio, Pip ainda não havia terminado o sanduíche, porém não sentia mais fome.

–Eu falo o que esta acontecendo no final da aula.

–Ok...

~ DIP ~

Faltava menos de cinco minutos para a última aula terminar e Pip estava ainda mais ansioso do que a horas atrás. O que Damien teria a lhe falar? Não sabia, mas esperava que não fosse algo tão ruim quanto soava ser. Pois aparentemente ele sairia de South Park por tempo indeterminado e Pip odiou tal situação.

Quando o professor de literatura anunciou o final da aula Pip guardou todo o seu material o mais rápido que pode e saiu de sala tentando se misturar com a multidão que se formava. O loiro não estava exatamente com vontade de esbarar com um Trent ou Cartman antes de se encontrar com Damien. E felizmente ninguém parecia lhe notar.

Enquanto caminhava desviando de pessoas aleatórias, sem querer, Pip conseguiu ouvir algumas garotas da sua sala fofocando sobre um novo assunto, daquela vez envolvendo algo sobre o Craig ter beijado Tweek, ou o contrário. Mesmo sem real interesse não deixou de imaginar o quanto Tweek poderia estar histérico naquela altura.

–Pip. -Damien havia aparecido "do nada" atrás de Pip, puxando-o pelo braço direito.

–Olá Damien. -Pip virou-se e deu o sorriso mais natural que a situação permitia. -Eu estava procurando-lhe.

–Sim, agora vamos?

Pip assentiu pensando em questionar para onde ele iriam, mas achou melhor não perguntar nada, pelo menos não por enquanto. Damien estava visivelmente inquieto, olhava para o redor nervoso como se estivesse procurando por algo ou alguém, caminhava rápido quase como se quisesse fugir e ainda segurava o loiro pelo braço. Eles passaram rapidamente pelas ruas não muito movimentadas daquele lado de South Park até perto do lago Stark, que não era realmente longe do colégio.

–Do que nos estamos fugindo, Damien? -Pip finalmente tomou coragem para perguntar, recuando um pouco pelo olhar do outro.

–Você percebeu?

–Se você quer saber, sim, um pouco...

–Da minha família, Pip. Mas não pergunte o motivo, por favor. -Damien rosnou. -Não é como se você precisasse saber.

–Sim, eu entendo.

–Você é irritantemente compreensível.

–Isso é ruim?

–Não totalmente.

Não havia de fato ninguém nos arredores do lago e o lugar estava um pouco frio demais.

–Eu preciso ir. -Damien falou rápido. -Se qualquer pessoa perguntar por mim, fale que não sabe de nada.

–E de fato não sei. -Forçou um sorriso.

–Talvez depois eu explique, mas agora realmente não posso.

–Eu compreendo Damien.

Eu acho que estou gostando dele...

O que Pip sentia ao saber que Damien estava indo embora era um sentimento realmente desagradável, ruim, a sensação de que algo ruim iria acontecer e um um nó na garganta. Se pelo menos ele falasse o que estava acontecendo o loiro poderia se sentir um pouco melhor...

Não. Provavelmente não.

–Então... Desculpe, eu já vou indo.

Pip pensou em gritar um "espera" e exigir explicações, pedir para que Damien não o deixasse sozinho como todos os outros haviam deixado, ou que ele simplesmente lhe levasse junto...

Eu gosto de você, Damien.

Quase falou em voz alta.

Mas Pip não séria egoísta a esse ponto, ele não tinha o direito de falar nada daquilo e muito menos exigir explicações nem nada do tipo.

– Tudo bem.