Everybody hates Pip

10 Coisas não muito normais - Parte final


O resto da noite havia sido tranquilo, apesar de Pip ter demorado algum tempo para dormir, não aconteceu nada de realmente especial ou merecedor de atenção. Na manha seguinte Damien não havia perguntado nada sobre a noite anterior e mesmo se tivesse o loiro não responderia, no máximo sorriria dando uma desculpa qualquer e falando que não precisava se preocupar. Mas em seu intimo ele ainda estava envergonhado, que tipo de adolescente conseguiria lembrar-se de uma coisa que aconteceu quando tinha quatro anos de idade? E pior, continuar tendo pesadelos com tais acontecimentos mais de dez anos depois?! Pip era absolutamente ridículo e deveria ter vergonha de si mesmo.

Isso pelo menos era o que achava de si mesmo.

Satã e Saddan haviam saído em um portal dimensional para so Deus sabe onde e novamente Pip estava sozinho com Damien. O anticristo assistia televisão e o loiro estava perto da janela observando o começo de uma terrível tempestade de neve, agradecendo a Deus por não precisar dormir em casa com aquele tempo, pois era muito provável que morresse congelado ou algo do tipo. Estava frio e o britânico quase perguntou se naquela mansão tinha aquecedor, mas antes que o fizesse percebeu o quanto séria mal educado e apenas se afastou da janela para sentar-se no sofá, meio perto de Damien, finalmente percebendo que ainda estava com as roupas de dormir, uma bermuda cinza e curta e um blusão preto que cobria suas mãos, o qual também cobria a bermuda. O britânico até pensou em pedir outra roupa, mas preferiu não falar nada. Já Damien usava uma camisa sem mangas preta e uma bermuda um pouco mais longa que a de Pip, mesmo longe de estar arrumado, ele continuava atraente ao olhar.

Na televisão passava um antigo documentário sem sentido da History Channel sobre o dia de ação de graças relacionado a alienígenas, lutas intergalácticas e fantasmas.

Pip observava todas as imagens sem prestar a mínima atenção e não pensando em nada, sua visão estava meio desfocava quando virou a cabeça para Damien e o pegou lhe observando atentamente, com aqueles olhos alaranjados que quase pegavam fogo. Não importava quantas vezes Pip observasse os olhos do outro garoto daquela forma nunca deixaria de ser menos hipnotizante e belo, Damien conseguia lhe prender com apenas um olhar e o loiro não fazia ideia de como encarar aquilo.

Além de esperar que não fosse algo ruim, mas sobre isso ninguém podia dar-lhe certeza.

Damien abriu a boca para falar algo, mas desistiu antes de falar qualquer coisa deixando um Pip confuso e num tanto curioso. O anticristo virou a cabeça na direção da televisão, talvez sem realmente saber como puxar algum assunto, o britânico não soube dizer. O silêncio estava incômodo e longe de ser natural, parecia que ambos queriam falar algo, porem nenhum dos dois sabia como começar uma conversa, afinal não era como se Damien e Pip tivessem muita coisa em comum para debater. Longe disso.

–Você não esta sentindo esse frio? –Pip perguntou tentando parecer casual e falhando miseravelmente.

–Sinceramente? Não. –Respondeu pegando o controle remoto para mudar de canal. –Não é como se eu pudesse sentir frio ou algo assim... Nesse lado eu puxei mais ao velho.

–Entendi. –Pip ainda estava curioso, mas não perguntaria nada.

Aqueles dois definitivamente não tinham assusto para conversar, aos olhos de terceiros a interação deles estava superficial, quase forçada. Pip não sabia o que perguntar ou como falar, o loiro poderia ser amigo de Damien, os dois poderiam até mesmo ter dormido juntos –sem malícia, por favor– mas não eram íntimos o suficiente. Pip não sabia nada sobre Damien, seus gostos e afins, e o anticristo também não parecia ter conhecimento do gosto por chás e musica instrumental do britânico. Eles simplesmente não tinham como iniciar uma conversa descente...

Sem contar sobre o clima, obvio.

Porém Pip desejava conhecer Damien, o loiro queria saber coisas sobre o seu único amigo e no futuro ao menos conseguir iniciar um debate. Mesmo que o seu senso de bom cristão dissesse exatamente o contrário, mas isso era detalhe.

O relógio digital na mesa de centro marcava uma é meia da tarde, já passando do horário que o loiro costumava almoçar, mas ele não estava com fome e Damien aparentava sentir o mesmo. Passado-se algum tempo em silêncio Pip ainda olhava atentamente para a televisão -não realmente sabendo do que o filme se tratava- pensando, bem... nada em particular. Era quase como que sua mente estivesse em branco, completamente alheia a tudo que se passava ao seu redor. E de fato isso ajudou muito quando o susto veio, de repente uma das janelas na sala abriu-se fazendo um violento barulho e permitindo que a neve e o ar frio adentrassem aquele cômodo da casa -mansão.

–Merda. –Damien murmurou, pulando por cima do sofá e correndo para fechar a janela sem realmente fazer força.

–Obrigado. –Pip sussurrou, trincando os dentes, abraçando as próprias pernas e se encolhendo pelo frio. Depois que a janela abriu pelo vento o lugar havia ficado tão terrivelmente gelado que o loiro esqueceu-se por um momento da boa educação e perguntou. –Aqui não tem aquecedor ou algo assim?

–Não é como se alguém aqui precisasse de aquecedor. –Falou-lhe com um tom quase grosseiro.

–Entendi. –Respondeu em um gemido por conta do frio.

O anticristo se sentou novamente no sofá, dessa vez perto de Pip e puxou o loiro mais para perto, quase sentando ele no seu colo. O britânico ficou calado por alguns segundos, sentido que poderia morrer de vergonha, até se afastar minimamente do outro garoto e falar:

–O que v-você esta fazendo, Damien?

–Você não estava com frio, Pip? –Damien respondeu dessa vez puxando o loiro para seu colo e sorrindo minimamente com a visão do mesmo corado até as orelhas, mas ficando sério segundos depois. –Eu me lembro de ter te visto tremendo agora a pouco.

–Oh sim, mas n-não precisa se preocupar...

O anticristo ignorou completamente os apelos de Pip e simplesmente o prendeu com um dos braços pela cintura. O loiro não deixava de admitir que Damien era quente e aquela aproximação estava sendo muito boa, claro, se ignorasse o fato daquele garoto estar com uma das mãos em uma das pernas descobertas de Pip de forma que não poderia ser vista inocentemente aos olhos de observadores.

Não que Pip estivesse gostando ou algo assim...

–Damien, você poderia, por favor, me soltar?

–Não.

Damien era tão difícil de entender.

Pelo menos para Pip, pois afinal, não era como se o loiro fosse a pessoa mais perspicaz do planeta.

Bem longe disso.

~ DIP ~

O dia havia passado bem mais rápido do que Pip imaginou, não era algo em todo ruim, o loiro estava preocupado com sua casa, porém uma parte misteriosa dele desejava ficar com Damien. Ultimamente a maior parte dos pensamentos do loiro envolvem o garoto que também era o anticristo, ele estava cada vez ficando mais e mais confuso sobre o que Damien queria, Pip poderia até não ser muito perspicaz, mas não era inocente e sabia que aquela pessoa que conhecia a poucos dias não o tratava como um costumeiro amigo. Mas uma grande parte de Pip pensava que tudo era coisa da sua cabeça, afinal, quem conseguiria se interessar em alguém inútil e francês –britânico– como o loiro? E ainda mais, o anticristo poderia ter qualquer um se quisesse, então por que diabos ele escolheria Pip?

Aquela era a –terrível e cruel –realidade, e o loiro quase sabia como encará-la.

Só não tinha certeza de como encarar a situação em que se encontrava, pois de fato Damien estava beijando-lhe. E Pip de fato retribuía.

Pip novamente havia ficado hipnotizado pelos olhos pegando fogo do anticristo e por alguma razão desconhecida o mesmo havia aproveitado a situação para, bem, beijar certo britânico desatento. O loiro nunca havia feito aquilo antes, vale a pena destacar alguns selinhos com Estella quando ambos eram crianças, mas nada parecido com o que estava fazendo com Damien, pois ninguém nunca havia se interessado em Pip ao ponto de beija-lo. Na verdade ninguém em South Park já havia se interessado o loiro daquela forma, afinal, quem no mundo iria gostar de alguém como Pip?

O beijo era calmo e Damien quase parecia estar se controlando, o mesmo conduzia bem e Pip retribuía com seu pouco conhecimento no assunto, enquanto uma pequena parte da sua mente tentava pensar em motivos para que o anticristo tivesse começado com aquilo e, principalmente, por Jesus Cristo, por que o loiro retribuía?! Aos poucos aqueles pensamentos tomaram um espaço maior na mente de Pip, o qual utilizou toda a sua força -de vontade- para afastar Damien.

Ambos ficaram se olhando por um tempo muito longo e Pip tentava imaginar o que se passava pela cabeça do outro garoto, o qual ainda segurava os braços do loiro firmemente.

–Da-damien, você faria a gentileza de me s-soltar? –Pip perguntou terrivelmente corado, finalmente tomando conhecimento de que estava no quarto do anticristo.

–Não.

Os olhos de Damien estavam vermelhos feito o fogo e suas pupilas dilatadas ao ponto cobrir boa parte da íris, de longe lembrava um animal selvagem e faminto que estava prestes a atacar uma pressa.

Por um momento Pip sentiu medo.

–Por favor, Damien? – Insistiu.

Damien não respondeu, mas soltou o loiro.