Everybody hates Pip
8 Coisas não muito normais - Parte 2
O filme em geral possuía um enredo extremamente clichê, uma família se mudando para uma casa no meio de uma floresta que foi palco de vários supostos acidentes mortais com seus antigos moradores. O filme estava mais ou menos no final, o adolescente protagonista havia acabado de descobrir vários jornais antigos com notícias sobre a velha casa, todas envolvendo a morte de seus moradores, quando ele estava prestes a sair do porão a porta se tranca magicamente pelo lado de fora e a luz acaba do nada. Pip até estava gostando do filme, apenas não gostava das cenas com os fantasmas e os flashbacks mostrando a morte dos antigos moradores, fora isso o mistério conseguia prender bem quem estava assistindo.
A pipoca já havia acabado há meia hora e, talvez por preguiça, Damien apenas colocou a vasilha no chão. A distância entre os dois garotos se mantéu bem até a metade do filme, mas quando os sustos começaram Pip meio que inconscientemente aproximou-se de Damien, mas ainda mantendo certo espaço. Porém naquela cena o loiro havia ficado mais tenso, o protagonista estava na escuridão total há quase dois minutos e os telespectadores conseguiam ouvir sons de agonia e facadas, quando de repente a luz voltou, e com ela a visão de um corpo enforcado e com as vísceras para fora. Por alguns momentos a visão da câmera foi a mesma do protagonista, que cada vez se afastava mais do corpo, mas o susto veio quando duas mãos ensanguentadas taparam a visão junto de um som alto para garantir o susto. Damien não se alterou enquanto Pip soltou um grito e, por instinto e medo, agarrou um dos braços do anticristo escondendo o rosto.
Lentamente Pip levantou a cabeça, encontrando um par de olhos vermelhos a encarar os seus azuis, sentiu seu rosto esquentar por vergonha e soltou o braço de Damien, mas antes que pudesse se afastar com uma boa distância o anticristo puxou-lhe facilmente pela cintura mais para perto. O britânico até pensou em reclamar ou questionar o motivo do ato de Damien, mas aquela aproximação era boa. Estranhamente boa.
Damien é quente. Mesmo com a roupa de frio Pip conseguia sentir o calor transmitido pelo outro garoto, era algo morno e agradável ao toque.
O filme na tela da televisão havia sido esquecido por ambos os garotos, os quais agora concentravam-se em decorar as características faciais um do outro. O que se passava na cabeça de Damien era um mistério, mas Pip observava atentamente a mudança da cor dos olhos do anticristo, de um vermelho mais escuro até algo semelhante ao laranja que parecia estar pegando fogo. O que aquilo significava o loiro não sabia dizer, mas não poderia negar que realmente era muito bonito de se olhar. Enquanto observava a íris dos os olhos de Damien queimando quase não percebeu a aproximação dos seus lábios com os do anticristo e quando eles se tocaram Pip pode jurar que sentiu uma leve descarga elétrica percorrer o seu corpo, mas não se afastou.
–Chegamos em má hora ou algo assim? –A voz soou debochadamente.
A voz fez Pip "acordar" e afastar-se rapidamente de Damien, o qual murmurou uma praga baixo apenas para gritar logo em seguida.
–Enfia do dedo no cu e gira, filho da puta!
–Não fale assim Damien... –Uma segunda voz falou calmamente.
Pip hesitantemente se virou no sofá para olhar na mesma direção que Damien, vendo um homem iraquiano/canadense de barba e algo parecido com um demônio de pele vermelha com quase dois metros e meio de altura. O loiro reconheceu imediatamente o iraquiano/canadense, ele era o homem que estava com Damien em seu primeiro dia de aula, Saddam ou algo assim, já o outro pode deduzir que era... O pai do anticristo, Satã.
–Quem é essa, filho? –Satã perguntou.
–Sinto muito corrigi-lo senhor, mas eu sou homem. –Pip esclareceu educadamente com o tom de voz baixo, ainda um pouco apreensivo e meio envergonhado.
–Mas que sotaque adorável...
–Vocês não iam voltar mais tarde? –Damien questionou grosseiramente, interrompendo o pai.
–Calma moleque, desculpe por atrapalhar. –Saddam carregava algumas sacolas plásticas com Satã. –Mas ninguém mandou fazer isso no meio da sala...
Pip estava terrivelmente corado. O que aquelas pessoas estavam pensando?! Eu não sou gay!
Mas não era como se Pip tivesse total certeza sobre essa afirmação...
Bem, e ele não tinha.
~ DIP ~
Pip havia se perdido na conversa há algum tempo e agora se concentrava em comer o caldo de verduras feito por Satã, estava gostoso, apenas um pouco quente demais para o britânico. Damien parecia não gostar muito de Saddam e o sentimento aparentemente era recíproco, já Satã repreendia um ou o outro quando achava necessário. Era uma cena até engraçada, mesmo que o loiro não soubesse do que se tratava o assunto, mas não ousaria rir. A mesa de jantar ficava em uma sala separada, atrás de uma porta ao lado da porta da cozinha, ela não tinha nada de especial tirando o tamanho gigantesco e desproporcional para um lugar ocupado apenas por três pessoas, Pip contou uns vinte assentos ou mais na mesa. Na verdade toda a mansão parecia altamente desproporcional a situação dos seus moradores, Pip se perderia facilmente naquele lugar.
–Pip, como esta o caldo? –Satã perguntou com um tom alto interrompendo propositalmente a conversa/discussão entre Damien e Saddam.
–Ótimo senhor. –Respondeu sorridente, apenas retribuindo a rara gentileza dirigida a si.
–Eu poderia ter preparado algo melhor, mas o Damien não avisou que traria um amigo. –O demônio utilizou um tom diferente ao falar 'amigo', mas Pip preferiu fingir que não notou.
–Não se preocupe com isso, foi de última hora...
–O que você esta insinuando? –Damien perguntou rispidamente a Satã.
–Só o óbvio, moleque. –Saddam gesticulou.
–Já terminei, vamos Pip. –Damien se levantou da mesa, ignorando os dois adultos.
–Pip, você poderia me ajudar com a louça? -Satã perguntou.
Quem obedecer? O diabo ou o filho dele? Se Pip fosse seguir o que sua religião pregava, deveria sair correndo dali o mais rápido possível, mas decidiu obedecer ao que julgava ser o mais perigoso dos dois.
–Claro senhor. –O loiro falou. –Depois eu vou para sala, tudo bem Damien?
–Tanto faz. –Damien rosnou irritadiço, praticamente chutando a porta ao sair.
Saddam também levantou e foi falar algo baixo para Satã, o qual concordou seriamente, antes de sair do lugar.
–Então Pip, poderia me ajudar? –O demônio perguntou gentilmente.
–Claro.
–Desculpe por te fazer me ajudar. –Satã levantou-se e recolheu três dos quatro pratos fundos e suas colheres. -Mas eu precisava falar a sós contigo.
–Por que senhor? –Pip também se levantou e pegou seu prato e colher.
–Vamos, não precisa de tanta formalidade, –Sorriu mostrando os dois caninos longos e afiados, antes de virar as costas e ir em direção a porta. –apenas Satã esta bom.
–Tudo bem. –Respondeu sem jeito, seguindo o demônio. –O que você que falar?
–É sobre o Damien.
De repente Pip ficou terrivelmente curioso, mas Satã so voltou a falar depois de colocar a louça e algumas panelas na pia da cozinha.
–Eu suponho que você já deve ter notado que ele é meio... irritado.
–Oh sim, bastante.
–E ele não sabe muito bem como demonstrar sentimentos fora raiva e seus afins. – O demônio suspirou. – Eu deveria tê-lo deixado na Terra por mais tempo, mas já esta muito tarde para reclamar sobre isso.
–Entendi, mas o que tem isso?
–Pip, o meu filho nunca lhe ameaçou ou algo do tipo?
–Não... Mas por que ele faria isso?
–Damien sempre faz isso com seus amigos, um deles ele já até mesmo matou e torturou.
Um arrepio subiu pela espinha de Pip.
–Então ele não me considera um amigo? –O loiro não soube como agir.
–Isso eu não sei, o que você acha?
–Damien sempre me protege no colégio e ele nunca foi ruim comigo, as vezes um pouco grosso, mas não realmente ruim... Eu só não sei o que isso pode significar.
–É disso que eu estava suspeitando. –Satã falou mais para si mesmo do que para o britânico. –Bem, obrigado Pip, pode sair.
–Mas eu ainda nem lhe ajudei! –Pip exclamou.
–Eu posso limpar sozinho.
–Não senh... desculpe, Satã, eu insisto!
–Ora, se é assim, eu ficaria agradecido.
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