–Miranda! Miranda, você vai se atrasar para a escola, acorde! –Robert cutucava meu ombro destapado, parecia desesperado, mas eu ainda não conseguia saber o porquê.

–Até que horas você ficou acordada menina? –Em fim consegui abrir um olho, ao notar sua presença puxei o cobertor até perto do pescoço cobrindo-me, estava de pijama, não queria que aquele homem me visse assim.

–Estou indo, Robert... –Respondi empurrando o quarto a fora, queria que saísse dali, alias ainda não consegui descobrir como ele destrancou a porta... Ninguém tem a chave do meu quarto.

–Bom dia querida! –Minha mãe estava recostada na poltrona de couro de Robert lendo o jornal, ele estava sentado a mesa devorando uma torrada meio queimada, ao julgar por sua aparência tinha sido preparada por ele.

–Estou atrasada, bom dia e até mais... –Respondi pegando minha bolsa e saindo porta a fora como de costume. Antes que a porta batesse um pé se atravessou e impediu que ela fechasse, era o pé de Robert que agora me fitava com um olhar misterioso.

–Ei, estou atrasada... -Respondi sacudindo um caderno que havia caído no chão.

–Não, não... Eu e sua mãe precisamos falar com você. É sério... –Ele me puxou pelo braço para dentro do cômodo batendo com a outra mão a porta.

–Miranda, eu e seu pai estivemos conversando com a senhorita Finney, ela nos disse que você não compareceu a três aulas consecutivas dela... Também disse que seu rendimento escolar esta péssimo. –Minha mãe agora estava parada em minha frente e seus olhos revelavam raiva, eles ardiam em raiva.

–Não é verdade, ela esta mentindo... –Repliquei tentando argumentar alguma coisa que me salvasse do castigo.

–Como você ainda tem coragem de mentir para mim Miranda, eu e seu pai fazemos tudo por você, tudo... –Sua voz falhou e algumas lágrimas que antes estavam contidas despencaram.

–Meu pai? Meu pai? O Robert não é meu pai e nunca será... Nunca! –Alterei o tom de voz dando lugar a cólera e a ignorância, não podia deixar que ela chamasse aquele homem repugnante de “meu pai”.

–Já Chega! Você irá para um internato. –Ela passou a mão pelos cabelos arrumando-os. –Nós já nos decidimos, será melhor para você, tenho certeza.

–É verdade, será bom para você... Só assim você poderá pensar nos erros que cometeu e depois que sair de lá terá a oportunidade de reverte-los. –Ele se aproximou de mim com a mão estendida, mas o impedi, nunca deixarei que ele me toque.

–Erros? Quem é você para julgar os meus erros Robert? –Minha declaração calou a todos. –E de que tantos erros fala se nem ao menos sabe onde estudo...

–Mas eu sei irmãzinha e sei também de suas tardes de estudos com Sean e Scott... –Uma voz vinha de trás de mim, era Jeremy, o intolerável Jeremy que agora se revelava um delator.

–Do que esta falando querido? Sabe de algo que não sei? –Minha mãe voltou-se para ele surpresa como todos que ali estavam.

Implorei que ele não contasse nada ou eu estaria morta; sei bem que Robert influenciaria minha mãe para que ela fizesse algo de muito ruim comigo se soubesse das coisas que fiz.

–Sei muito mais do que vocês dois... –Sua fala foi seguida de um silencio mortal. –Ela transou com aqueles dois garotos usando a desculpa que ia estudar com eles.

–É verdade? –Minha mãe estava pálida e parecia conter-se falando pausadamente cada palavra como se estivesse a ponto de estourar. Ela voltou-se para mim enquanto caminhava em minha direção chegando cada vez mais próxima.

–É verdade. –Não tive tempo de soltar o fôlego, uma mão tomou minha visão num tabefe que fez estalar. Aquela era a primeira vez que alguém tinha encostado a mão em meu rosto daquele jeito.

–Tire essa vagabunda daqui, tire-a da minha frente. Leve-a para o internato Robert, leve-a! –Jeremy a conteve nos braços, agarrando sua cintura para que não desferisse outro golpe.

–Calma meu amor! Calma, eu estou indo, estou indo... –Ele me tomou pelos braços me empurrado quintal a fora, depois me jogou no carro como se jogasse um saco de lixo e dirigiu.

Fomos os dois em silencio o caminho todo, era um caminho extenso, já havíamos saído da cidade quando ele estacionou em frente a um prédio. Parecia um forte, eu só podia ver um par de muros em minha frente tomando o horizonte nublado.

–É aqui que você vai ficar! –Robert exclamou num tom de diversão, parecia estar feliz com todo o conflito que havia acabado de acontecer. Desci sem questionar.

Uma mulher já nos esperava no pequeno portão de ferro que mantinha detalhes parecidos com anjos, eram figuras estranhas que eu não conseguia decifrar.

–Olá querida, sou Catherine, professora de dança e bibliotecária desse internato. Seja bem vinda! –Seus cabelos loiros escorriam plácidos até a altura dos ombros enquanto os olhos eram dum verde tão claro que se pareciam quase como as folhas de um carvalho no outono.

–Olá, já havíamos conversado sobre essa mocinha não é mesmo? –Ele me empurrou para que eu entrasse no portão que tinha sido aberto há poucos segundos.

–Sim, claro... Você é Mary não é? –Ela curvou se em minha frente para afagar meu rosto, mas não permiti. Ela parecia amigável, mas a essa altura eu não podia confiar em ninguém.

–Miranda... –A corrigi num tom desafiador.

–Bem, vejo que já estão se dando bem. Então vou seguir, tenham uma ótima noite. –Ele jogou um beijo com a mão, parecia estar pulando de alegria por dentro. É claro, porque ele não estaria feliz em deixar o estorvo que perturbava sua vida há anos ali, atirada em um pandemônio.

Meu olhar seguiu seu carro até que ele sumisse de vista, ele tinha mesmo me deixado ali, só agora eu acreditava.

–Vamos querida, esta ficando frio aqui fora, vamos entrar. –Ela pôs o braço em meu ombro me conduzindo por um caminho de pedras que ficava em meio ao gramado até chegarmos à porta do internato.

Eram grandes portas de madeira, parecia-se com portas medievais, mas não eram, eram as portas do meu novo lar. A porta dava numa pequena sala, era mal iluminada e mal dava para ver a saída, mas com certeza vi a sombra de uma velha curvada no chão, estava esfregando o chão com um balde do lado.

–Uh! Não queremos ver assombrações há essa hora... –Ela comentou olhando com desdenho para a senhora que mais se parecia uma bruxa.

Depois de passarmos por vários corredores e salas de aulas chegamos à ala dos dormitórios, ficava no andar superior que como o térreo era mal iluminado e sujo.

–Aqui esta seu dormitório querida, fique a vontade e não se esqueça: se precisar de algo é só chamar por mim. –Ela fechou a porta num estrondo que ecoou por todo o patamar.

Havia apenas uma escrivaninha, um armário e uma cama no quarto. Em cima da escrivaninha havia um pequeno caderno de couro preto e o uniforme azul marinho da escola.

Assentei-me na cama e comecei a escrever, tomei aquele caderno com meu e fiz dele um diário, o único lugar onde podia falar dos meus sentimentos e das minhas angustias, das minhas decisões e das minhas duvidas.

Bem, hoje é meu primeiro dia nessa escola, nesse internato, e por isso não sei o que fazer ou o que falar, não sei em quem posso ou não confiar.

Por tanto você será meu único amigo... Vou contar um pouco de mim a você, então, sou Miranda, tenho dezesseis anos, morava com meu padrasto e com minha mãe Janet antes de vir parar aqui... Na verdade não sei ao certo porque isso aconteceu, estou em estado de choque e, acho melhor ir me deitar, estou cansada demais para jantar ou conversar. Agora vou guardar você debaixo do travesseiro... Boa noite!