Everybody Hurts...
16 Capítulo 16
Alguns meses depois...
O cheiro intenso de panqueca invadia seu quarto e a fazia relembrar os sábados pela manhã, quando seu pai preparava panquecas e abarrotava tigelas com cobertura de chocolate ou chantili. Ah, aqueles panquecas crocantes...
Miranda foi a passos largos até a cozinha na esperança de que houvesse uma mesa farta e uma tigela servida e posta em seu lugar à mesa, mas tudo que encontrou foi uma mãe desesperada e confusa.
-Miranda! Como eu desligo isso? –Ela sacudia as mãos no ar, afastando a fumaça que subia da panqueca tostada. Antes que acontecesse uma tragédia Miranda pulou à frente de sua mãe e desligou o fogão.
-Acho que você está precisando de umas aulas de culinária mãe.
-Oh, imagine. Eu só estou um pouco enferrujada... –Ela gargalhou de um jeito dramático. Parecia ainda estar apavorada com toda aquela situação.
Antes que eu pudesse colocar a panqueca torrada no lixo a campainha soou. Miranda abriu a porta num salto, mas não encontrou nada além de um pequeno embrulho, cuja fita estava presa a um salgueiro que crescia próximo dali. Miranda podia ver a fita vermelha balançando conforme o vento.
Miranda desenroscou a fita da arvore. Quando estava prestes a abri-lo vozes infantis gritaram em uníssono “Boo!”. Miranda não pode evitar dar um salto de pavor para trás batendo a porta e os deixando falar sozinhos. O susto foi seguido de um só pensamento o halloween de 2009. Quando Jeremy a trancou em seu armário e a deixou passar a noite ali; trancada em um armário que cheirava a desinfetante de banheiro.
Aquele pensamento foi seguido de uma fúria incontrolável. Seria melhor que se trancasse em seu quarto e abrisse seu pacote onde ninguém pudesse perturbá-la.
-Ah, merda! –Miranda resmungou enquanto guardava o pequeno pacote em seu bolso e caminhava enfurecida em direção a seu quarto.
Havia uma pequena abóbora dentro do pacote. Havia um botão em suas costas e Miranda decidiu testá-lo. Foi então que percebeu uma sombra dentro dele, uma espécie de papel ou tecido que se podia perceber a sombra.
Quem seria tão idiota a ponto de me mandar isso? Uma abóbora? Francamente...
Mas Miranda mudou esse pensamento rapidamente ao ler o bilhete que estava dobrado dentro de uma espécie de fundo falso na parte de baixo da abóbora. Nele estavam escritas as seguintes palavras: “Olá, pequena M! Como está seu irmão depois da morte da namorada? Ora, ele gostava tanto dela... Pena que ela tenha “se matado”. Acho que ambos temos algumas cartas na manga e estou disposto a revelar as minhas. O que acha de encontrar comigo hoje as sete na casa abandonada em frente à escola Sword Pickens? Ah, e antes que eu me esqueça Feliz halloween docinho.”
Um arrepio percorreu sua espinha e ela engoliu em seco enquanto pensava no que faria com o responsável por aquilo. Aquele bilhete se tratava de uma chantagem. Mas o que ele queria dizer com “se matado”.
Será que o imbecil estava insinuando que foi o responsável por sua morte.
Se havia uma coisa que Miranda não era e jamais seria era covarde. Ela nunca evitou enfrentar nada e ninguém. E certamente não hesitaria em enfrentar o autor covarde daquele bilhete.
-Querida o almoço está servido. –Miranda certificou-se de que sua mãe já tinha ido embora antes de guardar o pacote embaixo de uma tábua solta sob o enorme tapete que ficava em seu quarto. Depois disso seguiu até a cozinha, onde por muitas e muitas vezes percorreu o garfo através dar bordas do prato sem conseguir colocar se quer um grão de milho na boca.
Durante toda a tarde e parte o inicio da noite Miranda sentiu um misto das piores sensações do mundo, insegurança, autopiedade e o pior de todos: medo. Sim medo. Uma palavra antes desconhecida por Miranda agora a prendia em seu velho e empoeirado quarto emprestado.
O despertador azul marinho ao lado de seu criado mudo marcava seis e quinze. Miranda recuperara a coragem e agora vestia seu melhor vestido e terminava de fazer seu cabelo e sua maquiagem. Por mais que parecesse estranho Miranda queria estar linda quando acabasse com o suposto idiota que acabara com seu dia.
-Mãe eu vou até a casa abandonada. Eu e o pessoal da escola vamos decorar tudo para essa noite.
-Tudo bem, mas volte antes do jantar querida.
***
Enquanto todos usavam fantasias animadas e crianças percorriam a vizinhança em busca de doces, Miranda só desejava sair viva daquele lugar. Ela já tinha passado por lá algumas vezes e já tinha reparado como aquela parte do bairro era aterrorizante e bizarra.
Então ela percorreu todo o quarteirão até a suposta antiga casa abandonada. Não havia luz ou qualquer outro sinal de que havia alguém ali. A única coisa que ela podia ouvir era, bem longe dali, júbilo.
Miranda abriu lentamente o portão de ferro que separava a varanda da casa da calçada. As ervas daninhas já havia tomado conta do pequeno quintal e obrigavam Miranda a desviar delas por um minúsculo e quase imperceptível caminho de pedras que levava até a porta de entrada.
Ela devaneou por um momento. Pensou que assim que entrasse por aquela porta uma boa e inofensiva velinha a receberia, então ela se desculparia pelo engano e iria embora. Mas na verdade não foi nada disso que tudo aconteceu.
Miranda só se lembrava de sentir a pancada vinda de trás dela. Ela não conseguiu virar-se a tempo de ver seu rosto. Uma dor continua afunilava sua cabeça, era como se a tivessem golpeado com uma frigideira bem na nuca. Miranda só lembrou-se de tontear e depois de acordar ali, com os pulsos amarrados a uma cadeira dobrável de plástico.
-Boo! –Robert gritou surgindo de um cômodo escuro afastado dali. Miranda não pôde evitar dar um salto de pavor. –Como você é tola garota! –Ele gargalhou até se engasgar. –Ou eu devia dizer mulher? –Ele deslizou os dedos até meu torso.
-Me deixe em paz! –Pisei em seu pé com toda a força.
-Ai! Sua vadia. –Ele rezingou enquanto segurava a perna dobrada para frente com a mão.
-Precisa de ajuda com a moribunda? –Zoe e Scott surgiram do mesmo quarto que Robert tinha aparecido antes.
-Ela é de vocês. –Robert grunhiu ainda com dor no pé.
-Eu esperei tantos e tantos anos que nem acredito que é verdade. –Zoe devaneou por um momento, mais tarde voltando a si com um sorriso nos lábios. –Miranda Carter amarrada a uma cadeira de plástico prestes a ser espancada por mim. –Ela mal concluiu a frase e começou a desferir de toda a sua raiva e ignorância.
Miranda aguentou a tudo calada e se impressionou quando Zoe ordenou que Scott batesse nela, mas ele se negou.
-Por que Zoe? –Miranda sussurrou com o resto de força que ainda lhe restava.
-Porque você roubou meu namorado. E sabe do que mais eu nunca fui com a sua cara. Nunca!
-Eu nunca pedi que você gostasse de mim e eu não roubei seu namorado. Eu não o obriguei a ficar comigo.
-Vagabunda! –Zoe a acertou com um tapa que fez estalar.
-Pare Zoe! –Scott afastou Zoe dela e a segurou longe de Miranda por algum tempo.
-Scott tem razão ela precisa estar viva para ouvir quem matou Mandi. –Robert pendeu a cabeça para trás e gargalhou por um instante.
-Quem a matou?
-Já que insiste fui eu quem a matei. –Ele lançou seu olhar psicopata a Miranda e assim permaneceu por um longo tempo.
-Por que Robert? –Miranda sentiu sua garganta se afunilar.
-Porque ela era uma vagabunda igual a você. Ela traía o meu filho.
-A Mandi nunca faria isso ela o amava. –Miranda exaltou a voz que não sabia que ainda tinha.
-Ela nunca me disse isso quando nos encontrávamos. –Ele sorriu maliciosamente.
-Pare de me fazer sofrer seu monstro! –Miranda suplicou aos prantos.
-Eu vou acabar com o seu sofrimento querida. –Robert sacou sua Glock e tremendo mirou em sua direção. –Eu prometo que não vai doer nada.
Miranda fechou os olhos, encaminhando a alma ao Criador e quando achou que tivesse chegado a hora ouviu um estrondo e em seguida uma série de vozes desordenadas. Ela viu o sangue escorrendo do seu braço e caído a sua frente Scott. Os policiais já tinham detido Robert quando Miranda perdeu a consciência.
***
-Ela está acordando. –Melanie estava sentada na poltrona ao seu lado olhando para ela. –Você esta bem querida?
-Agora sim. –Miranda vislumbrou imagens daquele fim de tarde, Scott caído no chão em meio ao sangue e os gritos de Zoe desesperada no fundo. –O que houve com Scott?
-Scott se jogou em sua frente na hora em que Robert atirou. Ele não resistiu...
-Não! – Damon também estava ali, só agora ela havia percebido. Ele correu em sua direção e se sentou em seu lado na cama do hospital, depois a envolveu em seus braços, sussurrando coisas como “tudo vai ficar bem” e “você vai sair dessa. Calma.”
Miranda sentiu seu coração se dilacerar, afinal Scott era seu amigo e ele tinha salvado sua vida. Miranda nunca quis que ninguém chorasse ou sofresse por ela, pois era orgulhosa de mais para isso, que dirá morrer por ela.
Ela carregaria essa culpa pelo resto da vida, essa culpa e essa dor.
***
Semanas depois...
-Sei que não é a hora, mas eu posso interromper o almoço senhora Carter? –Damon afastou a cadeira da mesa e continuou depois de um sim com a cabeça de minha mãe.
-Sei que não é o dia e nem a hora certa para isso, mas eu não ia conseguir esperar mais e... –Ele tirou do bolso do terno uma caixa de veludo azul-marinho e em seguida um anel que parecia ser de prata. –Miranda Carter você aceita namorar comigo?
-Aceito.
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