Every Second Counts
2 Um.
Stiles correu os olhos pela rua vazia enquanto tirava sua última mala do carro. Havia optado por sair tarde e dirigir a noite inteira para chegar quando tivesse quase ninguém acordado. Não queria ser visto tão cedo por ninguém, já seria assunto de todos quando fosse visto pela rua por qualquer um. Quanto mais pudesse adiar isso, melhor seria para ele. Tinha medo que viesse tentar conseguir algum tipo de explicação para o que fez com que fosse embora. E não estava pronto para falar. Pelo menos não ainda. E duvidava que algum dia estivesse pronto para trazer tudo à tona ao contar para alguém.
Stiles se abaixou para pegar sua última mala. Quando precisou fugir, se ensinou a viver dependendo de coisas que coubessem em apenas duas malas pequenas. Era mais fácil de carregar e rápido de partir se fosse preciso. Para sua sorte, não teve que fazer nada até agora. Ninguém havia ido atrás dele, nem ao menos procurado ele na cidade. Não tinha certeza se considerava algo bom ou se ficaria triste por ninguém nem ao menos se preocupar em saber se ele estava bem.
Um suspiro escapou pelos seus lábios enquanto tirava a chave da casa de seu pai do bolso e destrancava a porta da frente. Stiles não se surpreendeu ao ver a bagunça que estava na casa. Seu pai nunca foi a pessoa mais organizada do mundo e sem o filho por perto, não tinha ninguém para arrumar a bagunça. Além do fato de nunca ter tempo de verdade para fazer a faxina na casa. Seria a primeira coisa que Stiles faria. Colocar a casa em ordem. Lentamente, caminhou mais para o interior da casa. A cama de seu pai havia sido descida para o primeiro andar e colocada ao lado da parede com algumas barras para auxiliar John a se locomover da cadeira de rodas até a cama e vice-versa.
Enquanto Stiles não podia voltar, Melissa McCall passava toda noite para ver como o xerife estava, mas já faziam alguns dias que ela estava com problemas no hospital e não tinha muito tempo para ver como o outro estava. Tinha uma vida e não era responsabilidade somente dela saber como ia a aceitação de John. Stiles só podia se sentir grato pela mulher passar às vezes para fazer alguma companhia para o pai. Sem falar que a bagunça estaria bem pior se ela não tivesse auxiliado nesse ponto também.
John dormia profundamente e nem ao menos se mexeu desde quando o filho entrou e Stiles o deixaria dormindo. Estava cansado também, havia optado por dirigir a noite inteira e chegar quando não tinha ninguém na rua. Não queria ser visto tão cedo. Tinha medo que ele viesse atrás dele, por mais que tivesse certeza de que o outro havia seguido com sua vida e esquecido que ele um dia existiu.
Um suspiro abandonou seus lábios enquanto ele seguia até o andar de cima. Lá estava tudo organizado e com ar abandonado. Ninguém frequentava mais aquele andar, iria poder escolher entre voltar para seu quarto ou mudar a cama para o de seu pai. Independente do que escolhesse , teria que entrar no seu antigo quarto de qualquer forma e teria que aturar a enxurrada de lembranças que o atingiria assim que o fizesse. Assim que parou em frente a porta, sentiu seu coração acelerar. Era o pior cômodo da casa, ele sabia disso. E era o único que era capaz de machuca-lo. Uma vontade súbita de chorar o atingiu, mas ele se segurou. Já havia chorado muito, não deixaria que uma lágrima escorresse pelo seu rosto, por mais teimosa que ela fosse.
Quando entrou no quarto, a primeira coisa que fez foi largar as coisas ao lado da porta. O quarto obviamente não era aberto desde o dia que Stiles partiu e cheirava forte, mas ele não se deixou incomodar. Só quando se viu no escuro que se deu conta de quão cansado estava. A adrenalina de dirigir na estrada foi a única coisa que o manteve acordado a noite inteira, mas agora que estava calmo, o sono deu sinais. Dirigiu-se até a sua antiga cama e deitou na mesma. Seu olhar caiu nos três porta-retratos no criado-mudo e ele sentiu as lágrimas voltarem.
A primeira era uma foto antiga dele com sua mãe. A foto foi tirada pouco antes de a doença começar a dominá-la por completo. Stiles estava no colo da mãe e ambos sorriam para a câmera ao lado da mulher, estava um John mais sorridente que Stiles já chegou a ver. A dor não era mais intensa como era alguns anos arás, mas ainda o incomodava sempre que ele deixava que as lembranças o assolassem. Porém, ele não queria esquecer e mantinha sempre uma foto da mulher por perto, para poder lembrar do seu sorriso e do seu rosto bonito.
A segunda foto também machucava por ser algo que ele sabia não ter volta. Havia sido tirada na sala de sua casa quando havia reunido o bando em sua casa. Apesar de nunca ter sido um lobisomem, sentia-se como parte dele. E até mesmo como responsável dos membros. Como não podia garantir a segurança deles e confiava neles para garantir a sua, Stiles compensava em pequenas coisas como fazendo o almoço e dando apoio quando precisavam. Esse dia havia sido após uma briga violenta contra o bando de alfas que havia invadido a cidade deles. Para a felicidade de Stiles, ninguém havia se machucado muito e estavam querendo comemorar o fato de terem afastado os outros por um tempo. Após o almoço, Stiles convenceu que todos se reunissem no sofá para tirar uma foto com todos juntos. E estavam todos lá: Erica, Isaac, Boyd, Scott, Alisson , Jackson, Lydia e, principalmente, Derek. Apesar do brilho estranho que aparecia no lugar dos olhos de todos os lobos, a foto ganhou um lugar especial para Stiles.
Um suspiro escapou pelos seus lábios quando seus olhos pousaram na terceira foto. Mesmo depois de anos, ainda era a foto que mais o machucava entre todas. O pior de olhar para ela, era ver a felicidade tão explicita em seu rosto e depois ter que olhar no espelho e ver que essa felicidade o abandonou há anos. Nunca a teria de volta, ele sabia. Porque quando partiu, deixou sua felicidade com o único dono verdadeiro dela: Derek. A foto havia sido uma surpresa para o lobo. Derek nunca deixava que Stiles tirasse uma foto dele então o mais novo teve que faze-lo escondido. O maior foi para a casa do humano para comemorar o aniversário de um ano de namoro dos dois e Stiles deixou tudo pronto. Posicionou a câmera voltada para o sofá de modo que Derek não a notasse e a programou para tirar fotos. Derek nem havia percebida as séries de fotos que haviam sido tiradas e aquela tinha sido a preferida dele. Na foto, Derek estava sentado no sofá com a sua típica expressão irritada enquanto Stiles, sentado em seu colo ria para ele. Era uma foto simples, ele sabia, mas era a foto perfeita para descrever a relação dos dois. O jeito de como ambos eram opostos e mesmo assim se completavam e precisavam um do outro.
Stiles não conseguiu segurar a lágrima solitária que desceu pelo seu rosto pálido. Xingou-se mentalmente por ficar tão abalado por causa de uma fotografia. Depois que descansasse a primeira coisa que faria seria se livrar dela. Não precisava dessa lembrança voltando a assombrá-lo e se questionar o que poderia ter sido o seu relacionamento se o garoto não tivesse partido. Era passado e deveria permanecer no passado. O humano se ajeitou na cama e manteve seu olhar fixo nas fotos. Deixando que seus pensamentos voltassem a se acalmar e o cansaço o dominasse.
Não soube ao certo quando pegou no sono, só percebeu que havia dormido quando despertou em um pulo com o som de algo se quebrando. Seu coração estava acelerado pelo susto e ele foi o mais rápido possível para o andar de baixo. Notou que a sala estava vazia e seguiu direto para a cozinha. Assim que parou na porta, viu John de costas para ele, xingando baixo enquanto tentava recolher os cacos de vidro que antes eram um prato. Stiles suspirou antes de falar.
— Deixa que eu recolho isso depois.
John virou o tronco até encontrar o olhar do filho. Stiles ficou visivelmente tenso, não tinha ideia como o pai reagiria ao vê-lo depois de tanto tempo. Afinal, Stiles havia partido sem nem ao menos se despedir do mais velho e demorou quase um ano para tornar a entrar em contato com o pai. E mesmo assim, não era quase sempre que ligava, apesar da saudade que sentia. Não queria dar muita noticia sobre seu paradeiro com medo de que John contasse para alguém e viessem atrás dele. Mas ainda assim, sentia muita falta do pai. O mais velho permaneceu observando o filho por um tempo enquanto, com certa dificuldade, virava a cadeira de rodas de modo que pudesse ficar de frente para o filho.
— Você mudou. — foi a única coisa que o homem conseguiu deixar escapar. Não era mentira, realmente havia mudado. Estava um pouco mais alto e seu cabelo não era mais raspado como antigamente. Além de estar mais magro e aparentar mais velho por causa do cansaço e da tristeza que insistia em habitar seu peito. Porém não passava disso, ainda era, fisicamente, o mesmo Stiles de sempre.
— Como você está? — Stiles arriscou a pergunta enquanto se aproximava do pai.
— Melhor do que eu achei que estaria. — John deu de ombros antes de suspirar. — Eu falei que não precisava vir se não quisesse. Eu consigo me virar sozinho ainda, Stiles.
— Não duvido que você consiga. Só queria estar perto enquanto você se acostuma com essa situação toda. Sem falar que eu sinto sua falta, pai, não estou vindo para cá por obrigação.
— Ah sim.
John forçou um sorriso para o filho enquanto dirigia a cadeira de rodas para fora da cozinha. Stiles suspirou mais uma vez enquanto se abaixava para pegar os cacos no chão. Sentiu o aperto em seu peito triplicar na intensidade. Sentia que sua relação com seu pai havia virado os cacos que ele pegava. E por mais que tentasse, nada poderia fazer voltar o que era antes. Stiles sabia que havia decepcionado o homem por ter ido embora e havia piorado tudo quando não esteve presente quando o pai estava próximo da morte. Ele só poderia se esforçar para tentar sumir com algumas das lacunas que ficaram ao longo desses oito anos.
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