Notas iniciais
Bem, eu me empolguei bastante nesse capítulo e eu gostei dele. Ele tem bastante Derek para vocês e o que o Derek passou. Enfim, espero que gostem. Obrigada por estarem lendo! Fico muito feliz!

Derek se sentiu paralisado assim que seus olhos encontraram aqueles que lhe eram tão familiares. Poderia dizer que era coisa da sua cabeça. Que aquele não era quem ele achava que era, só alguém parecido. Mas os olhos não mentiam. E o choque que o outro demonstrava também não. Era ele. Era o seu Stiles, como lhe veio automaticamente em mente. Logo se corrigiu. Não era o seu Stiles porque parte de si dizia que Stiles nunca havia sido verdadeiramente seu. Ou não teria partido e o deixado para viver alguns dos piores anos da sua vida sozinho. Seu Stiles teria permanecido ao seu lado. Aquele Stiles era quase um desconhecido para ele.

Um desconhecido que conhecia mais do que bem, seu coração berrava. E não sabia se queria ter certeza se continuava o mesmo. Mesmo que, por um momento, Derek se deixou levar e se levantou do banco em que estava sentado, como se pretendesse ir até o mais novo e abordá-lo. Abordá-lo com o que? Perguntar onde ele esteve esse tempo todo era um bom começo, mesmo que Scott pudesse responder isso para ele. Mas ele não podia se iludir. Se ele abordasse Stiles, abordaria para perguntar aquilo que o atormentou durante todos esses anos: por que ele partiu sem deixar nenhum rastro para que Derek pudesse segui-lo?

Derek sabia que, se Stiles tivesse deixado alguma pista de seu paradeiro para trás, teria seguido sem nem ao menos pestanejar. E saber que o menor não fez nada para que fosse seguido foi o que mais quebrou Derek. Ainda mais quando estava se considerando inteiro novamente. Todo o ressentimento, toda a dor passada atingiram o lobisomem apenas ao olhar para o outro. Não tinha ideia da intensidade que viriam caso tivesse realmente ido atrás do menor.

Apesar de toda sua dor, Derek havia arranjado sua âncora. Sua distração. E fora exatamente ela que o parou antes mesmo de que pudesse seguir. E havia sido a mesma que impediu Stiles de se aproximar. Porque assim que levantou, ela correu até onde Derek estava com uma expressão confusa. O maior sabia que parte dessa expressão significava que estava descontente, mas grande parte era por pura e doce curiosidade. Ela largou o que fazia e correu até onde o mais velho estava, colocando-se prontamente ao seu lado.

Ela era sua fonte de felicidade, ele repetiu para si mesmo. Aqueles cabelos lisos de um tom escuro. Os curiosos olhos verdes e grandes. As bochechas rosadas com algumas sardas claras na pele branquinha. Sua Laura. E ela era verdadeiramente sua. Há seis anos, ela era a única que nunca havia saído do seu lado. A única que poderia arrancar um sorriso de seu rosto ao vê-la curvar os lábios em um bico manhoso ou apenas com seu sorriso constante. Laura era sua felicidade.

Sete anos atrás, Derek finalmente aceitou que deveria partir para outra. O que se mostrou um erro quase completo, pois a garota que havia escolhido para substituir Stiles não o aguentara por muito tempo. Ela era jovem e lembrava fisicamente o garoto que o havia abandonado, ele sabia que fora por isso que se deixara envolver-se, mesmo que fisicamente. Porém, logo ela engravidou e sua vida virou um inferno.

Exatamente pelo fato de ser jovem, ela nunca aceitou a gravidez, mas Derek a obrigou a seguir com a mesma. Só não sabia que, ao dar a luz, ela acabaria perdendo a vida. Então, o homem ficou sozinho com um bebê sem saber ao certo o que fazer dali para frente. Tinha ajuda, é claro. Sua irmã, Cora, estava sempre lá para visita-lo e ficar com a menina quando ele precisava de um tempo sozinho. O mesmo fazia Isaac. Mas havia sido quase tão ruim quanto ter sido deixado para trás por Stiles. Porque não era como se um dos dois fossem realmente suprir a falta que afligia Derek. O que não quer dizer que ele não aprendeu a amar e precisar da menina.

Ver sua filha crescendo era a única coisa que o mantinha vivo, ele sabia bem disso. Apesar de nova, Laura era capaz de lê-lo quase melhor do que ele. E sua felicidade infantil contagiava o pai sempre quando o mesmo mais precisava. E ao ver Stiles, não foi diferente. Bastou a pequena mão da menina encostar na sua para que percebesse que havia superado isso, ainda que não totalmente.

Stiles permanecia com um olhar de choque para o maior. E principalmente para a criança. Por mais que acreditasse que Derek havia seguido em frente, Stiles nunca imaginou que o encontraria com uma filha. Essa constatação foi o que faltava para que o arrependimento o acertasse mais uma vez. Talvez no fundo ainda nutrisse alguma esperança de que conseguiria um futuro junto ao maior apesar de tudo que ele fez. Só esqueceu que essa esperança poderia não ser algo comum aos dois.

Sentiu-se idiota pela ardência irritante em seus olhos. Não iria chorar, repetia consigo, iria embora e se odiaria por isso sozinho, mas não iria chorar por isso. Ele era o culpado, afinal. Provavelmente havia causado muito sofrimento no homem que seus olhos não desgrudavam. Ele deveria estar feliz por ver que ele pode ter uma família. Coisa que, com Stiles, seria bem mais difícil.

Apesar de seu cérebro manda-lo partir, suas pernas não o obedeciam e seus olhos não desviavam. Era uma autotortura. Estava se torturando vendo aquele que ele sempre amou seguindo em frente como se ele nunca tivesse existido na vida do outro. Vendo-o com sua filha e sabendo que isso provavelmente significava que estava casado e já era de outra. E ele nunca poderia quebrar uma família. Por mais que amasse Derek mais do que a si mesmo. Com esse pensamento, Stiles suspirou e atravessou a rua, seguindo para o mercado.

Laura olhava para o pai com certa inquietação. Sabia o que significava o pai ter levantado e isso a havia deixado revoltada, mas quando o mais velho não fez absolutamente nada, apenas se manteve encarando alguma coisa que ela não conseguia descobrir o que era, não pode deixar de ficar preocupada. Assim que viu que o mais velho a olhava e a mão do maior apertou sua mão, a menina deixou que um bico se formasse em seus lábios e ela reclamasse com a voz fina e infantil.

— Você prometeu que nós ficaríamos bastante hoje! — Derek não pode conter alargar o sorriso ao ver a expressão da filha antes de responder.

— Hoje não vai dar, Laura. Nós voltamos amanhã e ficamos bastante. — a menina bufou em resposta, soltando sua mão da do maior e cruzando os braços finos.

— Você disse isso ontem! E não tem nem meia hora que nós chegamos, papai! Não dá tempo de brincar desse jeito. — ela sabia que era uma discussão em vão. Sempre que Derek dizia alguma coisa, não tinha volta. Se ele queria ir embora, ela sabia que eles iriam embora.

— Não entendo porque está reclamando tanto. Quando você vem com a sua tia, vocês ficam quase a tarde inteira aqui!

— Mas você não é a tia! E eu quero passar a tarde inteira aqui com o meu pai. Você só sabe ficar em casa ou trabalhar, pai!

— Eu prometo que nós vamos ficar até anoitecer amanhã, ok? Mas hoje nós realmente precisamos ir.

A menina reclamou mais alguma coisa inteligível para si mesma antes de esticar os braços para que o pai a carregasse. Já que não podia ficar, pelo menos teria que ser carregada até o carro. Derek apenas riu antes de pegar a filha. Assim que a ajeitou em seus braços, seu olhar foi automaticamente para o local onde Stiles estava parado anteriormente, notando-o vazio. Essa constatação o fez suspirar. Ainda podia ter sido coisa da sua cabeça, certo? Ele sabia que não. Mas se sentiu aliviado por não ter encontrado os olhos do menor novamente. Não sabia se, mesmo com Laura, ela conseguiria se impedir de caminhar até lá e falar com ele. Essa volta de Stiles não podia ter sido mais inconveniente e prejudicial do que esse simples encontro de olhares. Ele não se deixaria levar novamente.



Uma semana se passou sem que os dois voltassem a se encontrar. Stiles começou a se reestabelecer na cidade. Scott havia o ajudado a arranjar um emprego na clínica veterinária de Deaton, onde o mesmo ainda trabalhava como ajudante mesmo depois de tantos anos. Talvez o fato de nunca ter deixado a cidade para fazer uma faculdade somado com a vida de lobisomem e todos os perigos da mesma ajudaram para que Scott nunca deixasse o emprego de lado. Mas não podia reclamar, ele gostava de lá, apesar de tudo.

E Stiles aprendeu que também gostava assim que começou a estudar medicina veterinária. Enquanto morava em Beacon Hills, Stiles nunca se vira trabalhando com animais. O filho do xerife sempre achou que acabaria seguindo os passos de seu pai. No entanto, assim que abandonou a cidade, sentiu a necessidade de prender um vínculo com o que deixou para trás. E os cães se mostraram o mais próximo que conseguiria da loucura que os lobos aqui proporcionavam. Não pode deixar de se apaixonar pelas artes da cura quando já estava no meio.

O fato de estarem trabalhando juntos, ajudou para a reaproximação de Stiles e Scott. O segundo não parecia mais magoado com o amigo por ter partido e nem ao menos tocava no assunto novamente. Apenas era o amigo que Stiles precisava, surpreendendo-o pois nunca esperou que isso aconteceria.

O mesmo não podia se falar do seu pai. Diariamente, John só deixava mais claro o quanto se ressentia pelo filho ter partido. O que era aceitável. Stiles sempre foi a única coisa que o homem tinha, ele não confiaria no filho de novo tão cedo mesmo que fosse o filho dele. Porém, não podia dizer que não doía ver seu pai sempre evitando-o mesmo quando precisava de ajuda para pegar algo que estava fora do seu alcance na cadeira. Era bom ter Scott por perto porque ao menos o outro o ajudava a esquecer um pouco os problemas em casa.

E mesmo estando tão perto novamente do amigo, Stiles não tinha coragem de abordar o assunto Derek e sua nova família. Queria apagar a imagem do outro com a menina. Seria melhor que nunca tivesse visto Derek. Porque assim ele só seria obrigado a ver o velho Derek e em seus sonhos. Agora o novo aparecia para assombrá-lo junto com tudo que Stiles passou.

E justamente por estar evitando maior, é que tudo começou a acontecer. Estava próximo ao horário de fechar a clínica, Deaton havia saído mais cedo para poder atender um animal na casa do dono e Scott deixara a clínica para comprar algo para comer. Stiles não tinha problema nenhum em ficar sozinho, poderia atender se fosse preciso, afinal, havia estudado para isso. Ele só não esperava que alguém realmente apareceria.

O barulho do sino da porta se abrindo, fez com que ele levantasse os olhos do computador e fosse para a porta onde entrava uma mulher com um cachorro no colo e uma menina a seguindo. Ele a reconheceria em qualquer lugar. Os cabelos cumpridos continuavam os mesmos do mesmo tom castanho e os olhos castanhos ainda tinham um certo ar de pavor mesmo sem nenhum perigo aparente. Vê-la foi o suficiente para que um arrepio corresse pelo corpo de Stiles e lembranças voltassem a assombrá-lo. Cora conseguia fazer com que o outro se lembrasse de Derek mesmo contra a vontade dele.

O que fez com que o olhar de Stiles caísse na menina que a seguia, logo a reconhecendo como a garota que estava com Derek quando o viu. Os cabelos castanhos estavam presos em um rabo baixo e seus olhos vermelhos indicavam que a menina estava chorando. Ela corria ao lado de Cora, tentando alcança-la. A preocupação era algo facilmente perceptível naqueles grandes olhos castanhos. Stiles saiu de trás do balcão e caminhou até Cora, com um ar confuso.

— Eu tropecei nele e ele não para de mancar. — Cora se pronunciou, indicando o yorkshire em seu colo. Stiles pode ver que o bicho tremia de medo e estava arisco, porém sentia dor. Sem dizer nenhuma palavra, indicou a com a cabeça a porta para o consultório. A mulher o seguiu, sem realmente prestar atenção em Stiles. Estava mais preocupada no estado de Laura que não parava quieta de preocupação enquanto seguia a tia.

— É só coloca-lo na mesa. — Stiles falou enquanto se dirigia até o armário e pegava o que precisava. Cora arregalou os olhos ao ouvir a voz do outro e deixou que seus olhos pousassem nele em surpresa enquanto colocava o pequeno cão na mesa de alumínio. Quando ele havia voltado? Ela se perguntava. E então começou a fazer sentido porque Derek estava tão estranho esses dias. Cora segurou a mão da sobrinha enquanto observava o outro analisar o pequeno animal e começar a tratar da pata dele. A menina dava pequenos pulos, inquieta e não tardou para que começasse a falar.

— Ele vai sobreviver, não vai? — Stiles deixou que um sorriso aparecesse em seus lábios com a pergunta da menina enquanto terminava de enfaixar a pata do cão.

— Vai sim. Não foi nada grave, ele só quebrou a pata. — apesar do tom tranquilo, Stiles estava surtando internamente. Assim que terminou o que tinha que ser feito, pegou o cão com apenas uma mão e o entregou para a menina que o segurava com todo cuidado. — Só tem que tomar cuidado para não tropeçar nele de novo. — brincou, arrancando uma risada da menina e um revirar de olhos de Cora.

— A tia Cora nunca vê o Spike. Ela vive falando que meu pai comprou o cachorro errado para mim. — Laura comentou animada e mais tranquila enquanto acariciava a cabeça do cachorro.

— Derek faz tudo que você quer. Ele nunca teria comprado um ratinho desse se não fosse por você. — Cora se pronunciou enquanto seguia Stiles para fora do consultório. — Diga-me você, Stiles, se não é um absurdo imaginar Derek com um cachorro desses.

— Não é algo que eu achei que veria enquanto vivo. — Stiles respondeu, sorrindo de leve para a outra. Laura arregalou os olhos para o veterinário antes de perguntar surpresa.

— Você conhece o meu pai?

— Conheço sim. — e muito bem, Stiles completou mentalmente.

— Stiles e seu pai eram bem próximos antigamente. — Cora falou, sorrindo. — Quando você voltou?

— Semana passada. — Stiles deu de ombros. Ouviu o barulho do sino da porta e logo Scott passou pela porta sendo seguido por Derek que corria os olhos pelo cômodo atrás de sua filha. Assim que avistou o pai, Laura caminhou até Derek com um largo sorriso no rosto.

— Papai! A tia Cora acabou de falar que você e ele eram amigos, por que eu nunca o vi antes? — Laura perguntou, mas logo viu que a pergunta deixou um clima ruim na sala.

— Stiles se mudou faz muito tempo. — Derek falou brevemente antes de acenar para o outro com a cabeça. — Está tudo bem com o Spike?

— Está sim, ele só quebrou a pata. — a menina respondeu sorrindo. Scott olhava apreensivo para Stiles e ainda um tanto surpreso. Mesmo com sua sensibilidade, não poderia dizer o que Stiles estava sentindo. Com certeza havia aprendido e muito a esconder.

— Bem, que bom então. — Derek sorriu para a filha, passando a mão pelos cabelos lisos da mesma. Cora se adiantou para pagar pela consulta junto com Scott, deixando os outros três em um silêncio. Laura estava se sentindo desconfortável com os dois adultos se encarando sem dizer nada. Derek tinha tantas perguntas para fazer, mas não as faria. Não ali com tanta gente. E menos ainda se isso significasse ficar sozinho com o outro.

— Você morava aqui antes, não é? — Laura puxou assunto, incomodada. Derek olhou espantado para a filha. Sabia que ela não gostava de silêncio, mas não achou que falaria.

— Morava sim. — Stiles respondeu com um sorriso pequeno.

— Por que você foi embora? — a menina perguntou na maior naturalidade aquilo que tanto assombrava o pensamento de todos. Stiles arregalou os olhos juntamente com Derek enquanto desviava o olhar desconfortável para o chão. Porém a menina parecia alheia a sensação do outro. Tinha a simples e pura curiosidade infantil falando.

— Eu precisei me afastar dos meus problemas aqui. Pareceu uma boa hora para ver o mundo. — Stiles respondeu, dando de ombros em seguida. Derek não soube porque, mas a resposta do outro o irritou. Talvez porque esperava algo a mais. Ou talvez por ser tão claro que ele estava omitindo muita coisa.

— E você gostou de lá fora? — Laura continuou com as perguntas, feliz por Stiles não tê-la cortado como os outros adultos sempre faziam.

— Não é tudo isso que dizem. — Stiles sorriu para a menina. — Acho que ter ficado sempre por aqui teria sido mais fácil.

Então deixou que seus olhos encontrassem o de Derek, sentindo seu coração se apertar. Se ele tivesse ficado, quais teriam sido a chances dos dois terem sido felizes juntos?