Everlong

3 Piloto Automático


Notas iniciais
Hello there! Como estão vocês? Demorei 55 dias pra postar, eu sei. Mas aqui estou eu, com um capítulo um pouco maior que o habitual e ansiosa para saber o que acharam! Queria agradecer a Servine (Emanu, para os mais próximos) por ter indicado boas músicas para que eu me inspirasse. Um beijão e boa leitura!

Abri os olhos enquanto as últimas palavras proferidas por minha mãe ainda ecoavam no silêncio da minha mente. Uma claridade inesperada fez com que os meus olhos voltassem a se fechar por instantes. Pisquei-os por alguns segundos até que, aos poucos, eles se acostumassem com o cenário. Quando percebi que as paredes e o teto claro pertenciam à um quarto de hospital, meu primeiro impulso foi levantar rapidamente, mas me enrosquei em tubos e agulhas na tentativa. Passei a mão pela minha barriga para conferir se ela ainda era a bola que eu estava acostumada e soltei uma enorme quantidade de ar pela boca ao ver que minha filha ainda estava guardadinha ali.

Os meus braços eram um depósito de marcas roxas, o que me fez pensar em quanto tempo eu estava naquele lugar. Meu braço esquerdo estava preso por ataduras em um tubo que levava até um saco de soro e alguns outros medicamentos. Meu dedo médio da mão direita tinha um aparelho que media meus batimentos cardíacos e, de maneira irritante, a máquina ao lado deixava o lugar ainda mais característico. A contagem do meu coração estabilizava-se entre oitenta e noventa, demonstrando minha tranquilidade. Minha barriga roncava de fome e minha cabeça doía como se alguém tivesse batido nela com uma pá.

Uma mulher alta e esguia adentrou o quarto com umas pastas nas mãos, foi até uma gaveta enquanto lia o que estava escrito em todos aqueles papéis. De costas para mim, eu pude observar seus cabelos cacheados recheados de luzes loiras presas em um rabo de cavalo alto e firme. Seu avental branco estava tão limpo que ardia os olhos de quem os fixava ali. Tossi para que ela olhasse pra trás e pudesse ver que eu estava acordada. Ela sorriu ao se deparar comigo e caminhou até mim, parando na beirada da cama.

— Olá, Adellaide.

— Della, por favor. – falei, com a voz rouca. Ela assentiu com a cabeça e observou a máquina ao meu lado, retornando o olhar pra mim segundos depois.

— Como se sente?

— Bem... – garanti. Seu sorriso trazia dentes cobertos por aparelhos, seu semblante era doce e sua voz era extremamente gentil. Em uma pequena placa na frente, o nome Emma estava escrito em letras simples e pequenas. – O que aconteceu?

— Você está aqui há dois dias. Ficou desacordada após passar por um estresse muito grande em uma discussão familiar. – ela deu de ombros, gentilmente. – Sua pressão caiu e faltou ar no cérebro, por isso ficou tanto tempo adormecida. Mas fico feliz que agora esteja acordada! Sente alguma dor?

— Nos braços, só. Acho que tenho alguns ou muitos hematomas. – observei-os novamente. Ela concordou com a cabeça. – Quando eu poderei sair daqui?

— Assim que o aborto for feito. Acredito eu que será hoje mesmo!

— Pera aí. O que você disse? – gelei, arregalando os olhos para mim. Ela semicerrou as sobrancelhas como se não entendesse.

— Sua gravidez é de risco, senhorita. – ela afirmou, como se fosse óbvio. Concordei com a cabeça e continuei encarando-a, esperando por explicações. – O Doutor acha que se ele fizer o parto, há um risco de apenas uma de vocês sobreviverem. Ou você ou a criança, por isso sua mãe assinou alguns documentos liberando o...

— Não! – gritei, demonstrando exaltação. – Eu só estou aqui por causa da minha mãe. Ela não tem autonomia nenhuma na minha gravidez, essa escolha é minha.

— Della, sua mãe assinou todos os documentos. Você está internada aqui pelo convênio dela e... bem, você ainda não atingiu a maioridade. – Emma falou, tentando manter a calma.

— Eu não quero saber, Emma. – falei pausadamente, enquanto respirava para não descontar a minha frustração em alguém que não tinha nada a ver com o problema. – Quem pode resolver esse meu problema?

— Acredito eu que terá que ser feita uma reunião entre você, sua mãe, o doutor e, se possível, o pai da criança. – estabilizei meu olhar em seus olhos azuis, engolindo em seco. – Está tudo bem, Della? Você ficou pálida de repente. – assenti com a cabeça e desviei o olhar. – Você não sabe quem é o pai?

— Sei. Lógico que sei. É só que... – fechei os olhos por alguns segundos. – nós não estamos mais juntos.

— Ele não quer a criança? – ela questionou rapidamente, demonstrando preocupação.

— Muito pelo contrário. Quer muito, mas a história é longa e tomaria todo o seu tempo. Você pode fazer o favor de chamar o doutor o mais rápido que puder? – Emma concordou e me ajudou a sentar na cama. Saiu logo depois, com um olhar distante e uma feição pensativa.

Com muito custo eu consegui levantar da cama e caminhar pelo quarto, indo até a janela mais próxima para observar o lugar. Minhas pernas doíam pela inatividade dos últimos dias e minhas costas demonstravam desconforto por ter ficado tanto tempo deitada. Rodei a cabeça e fiz com que os ossos do meu pescoço estralassem algumas vezes, deixando-me muito mais relaxada com toda aquela situação. Apoiei as mãos no parapeito da janela e encarei o céu azul acompanhado de algumas nuvens brancas e fofas, depois olhei pra baixo.

Pela distância que eu me encontrava do chão, eu devia estar próxima ao vigésimo andar, se não ainda mais alto. Os carros já não eram tão grandes quanto deveriam ser e o barulho do movimento quase não me atingia. A avenida abaixo tinha um intenso fluxo de carros, ônibus e motos, mas eu parecia estar distante demais de tudo aquilo. Alguns prédios mais baixos estavam ao redor, fazendo com que eu pudesse ver seus topos cheios de antenas e caixas d’água. Virei de costas e sentei-me no parapeito, apoiando a cabeça nas mãos e tentando colocar os pensamentos no lugar.

Aonde minha mãe estava com a cabeça quando decidiu assinar papéis tão decisivos por mim? Eu não tinha nada contra mulheres que abortam, mas apenas no caso de ser opcional. Ao contrário da maioria das pessoas da minha idade, eu queria demais aquela criança. Ela era parte de mim. Parte de Nathan. Ela era resultado de todo o nosso amor. Eu não podia deixa-la pra trás como eu fiz com ele. Voltei a soltar todo o ar pela boca e a torcer o pescoço, esforçando-me para relaxar.

Eu sabia o que tinha que fazer. Deixar o orgulho e as ordens de lado, pegar o celular e ligar para Nathan. Eu só precisava convencê-lo a vir até aqui. Precisava contar pra ele tudo o que estava acontecendo e perceber qual seria sua reação. Ele estava magoado e, conhecendo-o como eu conhecia, eu sabia que ele se esforçaria ao máximo para me ferir também, mas eu não me importava. Eu apenas precisava ler os olhos dele para saber se ele se importava com a nossa filha.

— Sua gravidez é de risco, Della. – repeti para mim, fazendo-me lembrar das consequências de seguir com aquilo. – Se tudo der errado, você precisa de alguém que fique com ela. Se o Nathan não quiser, você vai encontrar outra pessoa, você consegue fazer isso. – concordei com a cabeça, buscando auto confiança mais fundo que eu podia. – A mamãe vai cuidar de você, amor. Não vou te deixar sozinha, está bem?! – acariciei minha barriga e sorri, sentindo tudo aquilo que eu sempre sentia a olhar pra ela.

— Espero não estar atrapalhando sua conversa. – uma voz baixa falou, fazendo-me erguer a cabeça.

— Brooke. Desapontada, mas não surpresa. – garanti, encarando-a por alguns segundos.

Seu rosto de pele clara estava vermelha, seus olhos claros estavam inchados de tanto chorar e seus cabelos estavam mais horríveis que nunca, presos em um rabo de cavalo desajeitado e mal feito. Estava com uma blusa de moletom preta e uma calça jeans, carregando uma simplicidade que eu sabia que ela não tinha. Mantive meu olhar fixado no dela, com uma das sobrancelhas erguidas e deixando bem claro que eu não estava entendendo um por cento do que aquilo significava.

— Será que a gente poderia conversar um pouco? – dei de ombros, cruzando os braços acima da grande barriga que, além de tudo, ainda servia de apoio em algumas ocasiões. – Eu sei que eu vacilei, Dell. Por favor, não me odeie.

— Não dramatize, Brooke. Você errou feio e sabe disso! – revirei os olhos. Ela abaixou a cabeça. – Meu, você entregou meu paradeiro pra minha mãe!

— Ela estava preocupada, Della! Não seja egoísta e...

— Não me chame de egoísta! – gritei. – Você não sabe um grão do que passei para chegar até aqui. Brooke, você não tem ideia do que tive que deixar pra trás pra poder deixar essa criança exatamente onde ela está! Eu posso ser muitas coisas, mas egoísta não é uma delas.

— Eu sei... – ela abaixou o tom de voz, colocando as mãos atrás do corpo como sempre fazia quando se sentia culpada. – só que ela estava preocupada, Della. Eu juro! Ela me ligou e a voz dela carregava uma voz tensa. Nos últimos meses ela tem me ligado muito pra saber de você, mas eu sempre fazia o que você pediu e dizia que não sabia o que tinha acontecido e que também estava preocupada. – ela explicou, gesticulando com as mãos. – Mas da última vez ela ligou e marcou um encontro. Seus olhos estavam com aparência de choro, seu corpo estava tenso e ela implorou para que eu contasse pra ela. Della, sua mãe foi até à casa do Nathan pra saber de você... – levantei rapidamente a cabeça pra encará-la. Brooke assentiu com a cabeça, confirmando a informação que tinha acabado de dizer.

— E o que foi que ela descobriu? – perguntei, ajeitando-me na janela.

— Não muito. Regina disse pra sua mãe que não sabia nada do que tinha acontecido, apenas que você tinha ido embora e deixado o Nate sozinho na casa. – deu de ombros. – Ela também disse que, apesar das insistências, ele não quis voltar pra casa dela e ainda estava sozinho na casa de vocês. No fundo, acho que ele estava esperando você voltar, Dell... – abaixei a cabeça, encarando o chão de piso bege.

— Não pode ser. Brooke, ele não pode ter ficado lá sozinho. – neguei com a cabeça. – E se ele tiver feito alguma coisa errada? – arregalei os olhos, demonstrando desespero.

— Amiga, calma! Você não pode pensar nisso. – disse, apontando para a minha barriga. – Qualquer estresse é suicídio a esse ponto.

— Homicídio. – corrigi. Ela quem revirou os olhos dessa vez. Caminhei até ela e me joguei em seus braços, enfiando minha cabeça em seu pescoço e sentindo seu cheiro de Victoria’s Secret. – Eu não sei o que fazer. – confessei.

— Por que você não deixa sua mãe resolver as coisas? Ela já vem assinando uns documentos, amiga.

— Acontece que eu quero esse bebê. – abaixei o olhar e depois o reergui novamente. Seus olhos verdes me mediam, como se estivesse procurando o humor. – Eu não quero abrir mão disso, Brooke. É a coisa mais incrível que aconteceu comigo até hoje... eu não tenho nada, como a minha própria mãe disse. E se tudo o que eu tiver for isso? Não posso deixar assim.

— Mas, Della, você corre risco de vida ao continuar com essa gravidez. – assenti com a cabeça. – E você quer mesmo assim. Entendi. – ela concordou sem demonstrar resistência. – Por que não liga para o Nate e pede para que ele venha até aqui? – neguei com a cabeça e apontei a escrivaninha ao lado pra ela.

Meu celular estava com a tela virada para baixo. A escrivaninha de madeira escura era alta e também tinha uma garrafa de água, um vaso de flores e alguns copos descartáveis. Encarei-a por um tempo, até que Brooke caminhou até ela e pegou o aparelho, voltando o olhar para mim. Concordei com a cabeça e virei de costas pra ela, voltando a andar até a janela. Não retornei a virar até que ouvisse o barulho da porta abrindo e fechando atrás da minha não mais melhor amiga de infância.

(...)

A tarde estava linda e ensolarada. Nate e eu tínhamos decidido comemorar nosso aniversário de oito meses de namoro em um parque no centro da cidade. Ele passou a tarde tentando andar de patins enquanto eu tentava o skate. Depois de muitas quedas e risos, chutei longe o brinquedo de madeira do meu namorado e me joguei na grama, finalmente cansando de machucar minhas pernas e mãos com aquela coisa. Segundos depois ele também desistiu do meu esporte de malucos e tirou os patins, deitando-se ao meu lado. O sol brilhava forte, impedindo qualquer um de olhar totalmente para o céu.

Nathan quem tinha tido a ideia de irmos passar um tempo ao ar livre para comemorarmos o fato de termos conseguido nos aguentar por tanto tempo. Eu sempre dizia pra ele que, um dia desses, ele olharia pra mim e pensaria que estava tudo errado, mas ele sempre negava, dizendo que tinha certeza absoluta do que estava falando.

— Eu nunca vou abandonar você, Della. – ele afirmou, acariciando meu braço exposto. – Sabe quando você entende que é amor? Então. – virei de barriga pra baixo e passei a encará-lo.

— Como é que você, tão novo, pode afirmar com tanta certeza que é amor? – perguntei, desafiando-o.

— Porque eu nunca senti algo parecido, oras...

— Mesmo assim. Não é como se você já tivesse gostado de muitas garotas.

— Você que pensa! – ele disse, dando risada da minha feição de espanto. Sem que eu percebesse, ele agarrou minha cabeça e depositou vários beijos por todo o meu rosto, enquanto eu disparava em um ataque de risos.

— Para! – gritei, tentando levantar de seu pequeno ataque de amor. Em meio à tanta bagunça, eu consegui ouvir seu riso frouxo e, na mesma rapidez com que me segurou, deixou-me livre. Franzi as sobrancelhas pra ele, jogando um sorriso sapeca nos meus lábios. Nate me mostrou a língua e sentou-se, apoiando os braços nos joelhos.

— Eu tô faminto. Vamos comer alguma coisa... – falou, olhando ao redor. – Que tal um cachorro quente? – pude vê-lo lambendo os lábios. Estremeci. Odiava cachorro quente.

— Tudo bem, vamos procurar algo pra você comer! – concordei, levantando-me rapidamente da grama e puxando-o pela mão esticada. Ele me abraçou por uns segundos.

— Eu amo você. Não vou te abandonar. Acredite em mim! – sussurrou. E então segurou minha mão, expondo um sorriso confiante.

(...)

Estava imersa em pensamentos, sentada no pequeno sofá de couro azul enquanto esperava Brooke voltar com o resultado da ligação. Balançava as pernas, impaciente. Já havia se passado três horas desde que ela tinha saído do quarto com o meu celular, uma ligação não poderia demorar tanto. Em toda a minha preocupação, estava quase saindo do quarto para procura-la pelo hospital, mas sabia que não podia aprontar essas coisas se quisesse manter minha filha viva. Mordia os lábios com tanto nervosismo, torcia as mãos no colo como se, assim, o tempo fosse passar mais rápido, mas cada hora que eu olhava no relógio, parecia que apenas segundos tinham se passado. Toda a espera estava se tornando quase insuportável. Estava prestes a levantar do sofá e chamar uma enfermeira quando ele entrou, esbaforido, pela porta.

Dei um passo para trás quando o vi. Seu cabelo ondulado que sempre vivia curto, estava enorme e despenteado, estava mais magro do que nunca e parecia que tinha se vestido com enorme rapidez. Passou os olhos pelo quarto tentando me encontrar e, quando finalmente o fez, ficou paralisado. Seus olhos estavam distantes e frios, não pareciam os mesmos olhos que eu amava. Sua pele morena estava pálida e seu nariz carregava uma vermelhidão característica de quando ele chorava por muito tempo. Engoli em seco e me encolhi no sofá até quase sumir. Ele caminhou até mim com grande decisão, mas parou na minha frente e me observou, tentando não sorrir.

— Graças à Deus, você está bem! – Nate disse, respirando aliviado. – Quando Brooke me ligou para dizer que estava no hospital, eu só vim pra cá. Nem mesmo deixei que ela terminasse de explicar o que tinha acontecido.

— Não precisa se preocupar, eu estou bem. – ele assentiu, sentando-se no braço do sofá, deixando claro que queria distância de mim. – Obrigada por vir. – falei, tentando procurar o que dizer.

— Não tem motivos pra agradecer. Eu também não fiz por você. – ele deu de ombros. – Fiz por esse bebê, que, aliás, acabei de descobrir que é uma menina. – ele sorriu, enquanto olhava para a minha barriga. Depois voltou seu olhar para o meu rosto e pude ver um pequeno brilho do olhar que eu sempre admirei. – Você está uma grávida muito bonita...

— As coisas estão estranhas entre a gente, eu sei. Mas é que...

— Estranhas não. – ele disse, interrompendo-me. – Você simplesmente sumiu, Della. Como se eu não estivesse mais ali, você pegou todas as suas coisas e desapareceu. – ele sacudiu os ombros e jogou a cabeça para o lado. – Eu não sei como você pôde ser tão egoísta, sempre pensei que você lutaria pra ficar comigo mesmo com as dificuldades. Quando você saiu da casa dos seus pais pra ficar comigo, eu pensei que daríamos certo pra sempre, sabia? Ninguém fez por mim o que você fez, mas então você foi como todas as outras pessoas. Eu não deveria ter ficado tão surpreso. – ele disse, balançando a cabeça. – Mas, para ser sincero, eu pensei que você iria tirar a criança. Vejo que o motivo não foi esse. Qual foi, então?

— Primeiro, não me chame de egoísta. Eu não fui embora por mim, fui por você. E...

— Espera um segundo. Por mim?! – então ele soltou uma gargalhada tão espontânea que me deixou um pouco assustada. – Que história você criou na sua cabeça para se convencer de que foi por mim?

— Não criei história alguma, mas imaginei mesmo que a santa da sua mãe não iria contar pra você a conversa que ele teve comigo uns quatro meses atrás, quando eu ainda nem sabia o sexo do bebê.

— Conversa? – ele cerrou as sobrancelhas e expressou confusão. Sorri, fazendo sinal de negação com a cabeça. – Tá rindo do que?

— Eu não estou rindo. É um humor amargo. Eu tinha certeza que ela não ia contar, mas que idiota eu fui achando que, talvez um dia, ela pudesse dizer pra você o que ela me disse naquela conversa. Apenas saiba que eu agi no piloto automático. – Nathan sentou-se ao meu lado no sofá e virou-se de frente pra mim, pronto para ouvir tudo o que eu tinha a dizer.

Depois de contar o ocorrido com o maior número de detalhes que eu consegui lembrar, a expressão em seu rosto tinha mudado completamente. Agora, ao em vez de neutralidade e frieza, ele carregava confusão e tristeza. Seus olhos ainda estavam distantes, mas pelo menos transbordavam lágrimas, provando que ele ainda tinha sentimentos por mim. Sua boca estava entreaberta enquanto sua respiração estava entrecortada por segurar o choro. Ele ficou por um longo tempo olhando através de mim, com um olhar perdido em todas as informações que eu tinha jogado em cima dele. Eu não queria ser cruel, mas não dava mais tempo de ser delicada com todos os acontecimentos.

Quando ele finalmente se entregou aos sentimentos arrebatadores que estava sentindo, lágrimas rolaram abundantemente por suas bochechas e seu nariz voltou a possuir a vermelhidão característica. Ele jogou vagarosamente os braços em volta do meu corpo e deitou-se no meu colo, demonstrando que ainda precisava do meu carinho em momentos como aquele. Acariciei seus cabelos por enormes minutos enquanto ele deixava-se sentir. Após soltar tudo pelos olhos, ele fungou com o nariz e reergueu-se calmamente, parando sua cabeça exatamente em frente à minha. Graças à pouca distância, o ar quente que saía de sua boca atingia meu rosto milésimos de segundos depois. Ele se aproximou mais e segurou minha cabeça, olhando-me nos olhos. Fechei os olhos e senti o beijo calmo em minha testa. O mesmo beijo que ele sempre dava pra reafirmar que ele sempre estaria comigo e que nunca, em hipótese alguma, deixar-me-ia sozinha.

— Você não está sozinha. Vou te ajudar com tudo o que for preciso. – ele afirmou, encarando-me nos olhos.

Assenti com a cabeça e contei pra ele sobre o risco que eu corria em manter a gravidez. Ele atentamente ouvia e concordava com a cabeça para mostrar que estava entendendo tudo que eu estava explicando. Aos poucos ele foi entendendo as minhas intenções e foi ficando tenso com o que eu tinha decidido fazer. Esperou eu terminar de falar para que pudesse dar a opinião dele.

— Della, não concordo com a sua decisão. Filho você pode tentar ter outro, agora a sua vida... Ela é apenas uma, você sabe disso.

— Não pedi sua opinião, Nate. – respondi em alto e bom som, fazendo-o olhar pra mim. Ele concordou, mas se manteve hesitante. – É isso que eu vou fazer e pronto. Só preciso que você diga ao médico que estará disposto a ficar com a minha filha se algo acontecer.

— Nossa filha. – Nathan corrigiu, dando um meio sorriso. – Tudo bem, marque a reunião e me mande uma mensagem. – disse, erguendo-se do pequeno sofá. – Vou procurar algo pra comer, pois estou faminto. Quer alguma coisa? – neguei com a cabeça e mantive-me distante enquanto observava-o sair.