Everlong
7 Capítulo 7
Notas iniciais
Naquela noite, enquanto eu observava o fogo da lareira, sentada no tapete, bebericando uma xícara de chá, Kyro veio me fazer uma visita. Ele ficou um bom tempo sentado ao meu lado, sem falar nada. Recordei os dias que ele passou no meu castelo, como ele era estranho e exilado.
– Eu sinto muito pelo Charlie. — começou mas eu interrompi.
– Não, não! Ele vai ficar vivo, eu sei. Tenho certeza.
Ele suspirou e disse:
– Tudo bem, vou te mostrar umas coisas. Venha comigo. — ele me puxou pela mão.
De novo, estavámos na biblioteca. Ele arrumou outro livro gigante e o colocou a minha frente e ordenou:
– Leia.
Puxei o livro para mais perto da luz e me curvei sobre ele.
" A Marca Do Inferno: A pior marca que se pode ter. O marcado passa por diferentes tipos de dor. A Marca do Inferno pode ser feita por um bruxo, mas só por um bruxo muito poderoso, um mago, com a intenção de trazer dor e sofrimento para o seu reino e os reinos vizinhos. Ela só pode ser feita por um bruxo, para outro bruxo. A única forma de acabar com ela é matando o marcado. As consequências são a destruição de um reino, trazendo a peste para as pessoas e lavouras, matando todos os seres vivos. "
– Tudo bem. — eu disse baixinho, prendendo o choro na garganta — Eu vou me deitar.
– Ah, Mad... não... eu... — ele tentou falar. Balancei a mão como se estivesse tudo bem.
Segui para o quarto sozinha. Estava escuro e eu teimava em querer chorar, o que me causou alguns problemas como, consegui me perder. Eu não fazia a mínima ideia de onde estava, deveria ser o terceiro andar ou o quarto, talvez até o quinto. Eu estava um pouco desesperada porquê até aquele momento eu não tinha visto nenhuma empregado, o único que eu tinha visto era o Kyro. Tudo bem, eu tinha chances de pedir ajuda para Hayley ou Richard, mas não fazia a mínima idéia de onde eles estavam.
Eu realmente estava muito cansada quando encontrei uma luz. A maldita luz vinha de uma fresta de uma porta no final do corredor, segui com passos acelerados. Então, eu empurrei a porta e a frase que se formava em minha garganta, morreu.
Quantas vezes você já se apaixonou? Você tem idéia do que é o amor? Pois bem, eu espero que sim, vou te dar uma dica: não é a primeira pessoa que aparecer na sua frente que vai se tornar a grande paixão da sua vida. Acredite em mim, eu imploro. Você tem uma vida inteira pela frente, pode se apaixonar por quem quiser. Mas por favor, não se apaixone pelo seu melhor amigo.
Sabe aquela sensação de frio que circula pelo seu corpo quando você está com medo? Foi isso que eu senti naquele momento, mas eu não estava com dor, não fisicamente.
– Desculpe. — eu disse fechando a porta.
Os próximos minutos foram apenas sobre correr salas sem fim, descer e subir escadas gigantes. Eu estava fazendo aquilo apenas para esquecer tudo o que tinha acontecido antes. Só parei quando fiz a proeza de dar de cara em uma parede, não sei como, mas eu consegui. Então eu fiquei deitada no chão, sem me importar com o frio ou com o chão duro.
Do outro lado da sala tinha um espelho que eu conseguia enxergar apenas por causa da luz que vinha de fora. Dava para ver meu rosto, as linhas bem desenhadas, o cabelo comprido que agora estava tão embaraçado como um ninho de rato, o formato de coração que minha boca tinha.
Adormeci pensando na cena que tinha visto. Se eu pudesse apagar isso das minhas memórias, eu apagava. A forma que Charlie beijava Hayley com cuidado, suas mãos na cintura dela e ela sorria de leve, demonstrando felicidade.
Na manhã seguinte, fui acordada por Kyro que fez uma cara de incerteza ao olhar para mim. Ele sorriu, aquele sorriso que não demonstrava nenhum tipo de emoção.
– Quer me falar o motivo de ter passado a noite na sala de música? — ele se senta ao meu lado.
– Você já teve a sensação de estar se perdendo? — perguntei.
– Quem nunca teve essa sensação? — ele mexeu nos cabelos.
Silêncio.
– É muita perda de tempo ficar se importando com o Charlie, e eu não estou falando de amizade. — sorriu, sárcastico.
Eu o segui até a sala de jantar, que neste momento estava sendo usada como mesa para o café da manhã. Todos estavam reunidos, conversavam. Charlie tinha olheiras maiores que o normal, estava mais pálido e parecia um tanto cansado. Hayley sorria como louca, parecia mais animada. E Richard, ah... Richard estava como sempre.
Depois do café da manhã, cada um foi fazer algo. Charlie foi para os campos do castelo junto com a Hayley, Richard foi treinar e eu, fui para minha "aula" com o Kyro.
Era apenas uma grande sala vazia com um tapete branco no chão. Uma janela que ficava as minhas costas, era grande e ia até o teto. Em todas as paredes tinham espelhos que as cobriam. Posso dizer que era tudo sinistro.
– Sente-se. — ele pediu — Relaxe, mantenha calma e esqueça todos os sentimentos que você tem ou já teve. Sinta-se vazia, apenas isso.
Depois de muito tempo me concentrando e de olhos fechados, ouvindo apenas a respiração da pessoa a minha frente, eu senti como se estivesse flutuando. Era como se eu fosse preenchida de ar, ou como se o vento pudesse me levar.
– Pensa no que te traz dor, a coisa que mais te machuca. — ele praticamente sussurou.
Então de várias coisas que eu poderia ter pensado, eu pensei em minha mãe. Imaginei a dor dela na hora de morrer e saber que não ia conseguir ver sua filha crescer. Será que ela sabia que era uma menina? Pensei que eu nunca tinha a visto além de fotos. Como ela fazia falta.
– Você consegue pensar na infância dela? — perguntou.
Tentar imaginar de várias formas, mas de súbito, senti como se estivesse sendo levada cachoeira abaixo. Me vi em uma casa pobre, pequena e velha. Uma garota sentada no chão, ela rabiscava em papel. Tinha cabelos dourados na altura do ombro, sorria a cada palavra escrita. Quando terminou, dobrou o papel e enfiou em um bolso do vestido. Sai correndo, gritando para a mãe que antes do anoitecer estaria em casa, correu até o castelo. Ela abriu um grande sorriso quando encontrou um garoto loiro no gramado. Então, era verdade, era meu pai e minha mãe.
– Madley. — a voz de Kyro invadiu meus ouvidos, então sai do transe.
Abri meus olhos, sentia extremamente cansada.
– Agora eu quero que você tente isso todas noites, certo? — eu fiz um sinal positivo com a cabeça — OK. Quero tentar outra forma com você, me dê sua mão.
Ele segurou minha mão direita com a dele, e olhou nos meus olhos.
– É um pouco mais complicado, mas não é impossível. Tente ver meu passado, minhas memórias, o que você conseguir, com o seu toque.
Kyro soltou minha mão, e ficou a me encarar.
Não fechei meus olhos, apenas me concentrei nos dele. Eu estava cansada mas era possível fazer isso. Sua íris era colorida por um tom de laranja e verde, demonstravam vontade de viver. Eu o toquei e senti um choque, como se uma raio passasse por nós. Era como se nós estivéssemos ligados, como se um pedaço dele pertencesse a mim, e um pedaço meu fosse dele.
A primeira imagem que eu vi foi de um homem já de idade avançada. Ele era loiro como Kyro, uma cicatriz marcando seu rosto. Eu já o conhecia a tempos. Então, eu vi ele encarando o chão. Mudei meu olhar para o chão também, uma mulher morta. Ela estava dura como uma árvore, pele branca, sua face não demonstrava calma e sua roupa estava manchada de sangue.
"Por que você fez isso pai? Por que?", passei um bom tempo analisando aquele homem até perceber que era o pai de Kyro.
"Ela era uma bruxa, iria amaldiçoar nosso reino. Você sabia das visões que ela tinha?"
Então, o pai de Kyro deu um tapa no rosto do velho. Eu podia sentir a raiva e a dor vinda dele. No momento que o velho iria retribuir, uma criança apareceu na porta. Gaguejou as palavras e saiu correndo. Eu segui o pai e a criança, que teimava em chorar. A criança era Kyro.
Todo aquele vínculo foi quebrado quando Kyro puxou a mão dele, ele parecia um tanto abalado. Eu quis abraça-lo e dizer que tudo iria ficar bem, mas ele se levantou e saiu.
Eu tinha invadido a parte mais íntima dele. Eu tinha certeza que essa parte ele fazia de tudo para esquecer. Eu pensei nisso por um bom tempo, até me tocar que o garoto da cicatriz era o avô de Kyro. Devia ter algum motivo para ele estar envolvido em uma das minhas primeiras visões, um motivo para ele ter assassinado o namorado da minha avó.
– Vai passar a tarde toda nessa sala? — Charlie disse naquele tom irônico de sempre.
– Vou. — respondi.
Ele se sentou ao meu lado. Olhando para o mesmo horizonte que eu.
– Ontem a noite, sobre o que você viu...
– O que eu vi? Você me iludindo. Lindo isso, Charlie! Parabéns, parabéns por ser esse idiota. — eu o cortei.
Ele riu baixinho.
– Eu estou falando sério. — disse fria, então ele ficou sério.
– Mad, você tem que entender que as pessoas são trocadas por outras. Eu gosto da Hayley. — ele suspirou.
– Gosta de uma garota que conheceu a menos de um mês. Me iludiu, machucou algo aqui — apontei para o meu peito — Quando você for magoado, eu espero que não venha pedir consolos para mim, pois eu não iriei te ajudar. — tentei manter a calma.
Ele olhou para mim como se sentisse pena, então murmurou algo como "tudo bem" e saiu. Sumiu, foi para bem longe de mim, levando consigo meus sentimentos.
O resto do dia foi tão monótono quanto eu esperava. Aconteceram alguns incidentes como a marca de Charlie começar a sangrar, ou Richard ter cortado a mão enquanto treinava. O sol brilhava forte lá fora, um vento quente entrava pela janela. Algumas vezes os pássaros faziam voltas no céu, normal, como a profecia dizia. Então, eu resolvi andar um pouco pelo castelo até encontrar alguma sala que tivesse vista para a praia, mas encontrei algo melhor. Uma parte do castelo ficava em um penhasco a beira do mar, olhando lá de cima, dava para ver as ondas batendo nas pedras.
Os dias seguintes se basearam em mais treinamentos. Tudo indicava que Kyro não estava bravo comigo, ele até tinha me elogiado. Richard passava a maior parte do tempo na floresta ou na praia. Hayley preferia ficar cuidando de Charlie, ele estava aparentemente bem.
Um dia Kyro me levou até a floresta, era um dia chuvoso. Ele disse que iria me fazer bem, desestressar. Fizemos uma trilha, a floresta parecia intacta até encontrarmos um corpo de um cervo. Ele não tinha ferimentos, tudo indicava que tinha sido por causa da peste. Foi a primeira de seguidas vezes que encontramos animais mortos. Era agonizante.
Já fazia quase duas semanas que estávamos naquele castelo. Charlie teimava em querer conversar comigo, o que apenas me machucava ainda mais. Então, em uma noite de chuva, nós tínhamos terminado o jantar. Discutíamos o que iriamos fazer apartir dali.
Invadir o castelo do rei de Victins? Matar Charlie? Deixar a praga acabar com tudo?
Charlie não parecia nem um pouco abalado com o fato de que a morte o esperava. Ele só se sentia cansado e com dor, até tinha dito que seria melhor morrer assim não iria prejudicar as pessoas a sua volta. Tinha dito também que assim não iria magoar mais ninguém. Não posso negar que estava me sentindo mal por isso.
– Você não idéia do que é se sentir horrível todos os dias. — ele disse olhando para mim.
– Você não tem idéia do que é se sentir horrível por causa de uma pessoa. — respondi.
– Você se sente mal por que ninguém te ama.
Todos se calaram e se voltaram para mim.
Não conseguia fazer as palavras saírem da minha garganta. Eu estava tão surpresa com o que ele disse, eu estava paralisada.
– Não fale assim dela. — Kyro se intrometeu, levantando-se da cadeira. Charlie fez o mesmo.
– Você é o novo namoradinho dela? Legal. Muito bom. — ele moveu o olhar para mim — Madley, só espero que você saiba que ele é tão podre quanto o resto da família dele.
Tudo aconteceu tão rápido. Eu vi apenas o punho de Kyro voando até o rosto de Charlie, então o sangue escorreu imediatamente do nariz dele. Pensei que os dois fossem se atracar em uma briga, mas não. Charlie subiu as escadas furioso e Hayley, como eu esperava, foi átras do namorado.
Olhei para Kyro que também olhava para mim.
– Ah, meu Deus... — arregalei os olhos — Você está bem?
– Estou. — sorriu — As vezes temos que fazer algumas loucuras pelas pessoas que amamos.
Retribui o sorriso. Richard me encarava, ele parecia entediado. Olhei novamente para Kyro, ele estava tão calmo. Eu gostava de observar ele, era... engraçado.
– Tudo bem, crianças. Vou dormir. — Richard me assustou, logo depois beijou minha testa.
Ficamos a observar as chamas da lareira, demos toda nossa atenção para esse pequeno ato. A janela batia a cada rajada de vento, um som tão irritante. Para nossa surpresa, uma coruja entrou, voando a nossa volta até que Kyro tomasse a atitude de pegar ela. A ave teimou em tentar bater as asas, deixou um envelope cair. Me curvei e peguei o papel, a coruja piou e voou pela janela.
– O que é? — ele se abaixou, olhando para a escrita no envelope.
– A avó da Hayley, a Madame Xavier... — abri, rasgando.
Minha boca se abriu em um perfeito "o", arregalei meus olhos.
O outro puxou o papel da minha mão, tendo as mesmas reações que eu.
– Como ela sabe que eles vão nos atacar? COMO? — perguntou em um tom alterado.
– Ela pode prever o futuro. — respondi desanimada.
A carta falava que nós seriamos atacados pelo reino dos Victins em menos de uma semana. Era morte, na certa. Eles queriam a morte do último príncipe e da última princesa ainda vivos. É óbvio, como ele pode reinar em quatro reinos diferentes se ainda tem herdeiros de Sywn e Odjin vivos?
Era o meu fim. O fim de Charlie, Hayley, Richard, Kyro. O fim de todos nós. Quem ficaria vivo para contar a história da princesa maluca e do príncipe esquisito? Quem iria falar sobre a garota sem poderes que vinha da família de bruxos? Ou até mesmo do caçador que perdeu o amor da sua vida? Alguém iria comentar sobre o garoto bruxo que tinha medo de usar seus poderes?
Isso mesmo, foi o que você pensou. Ninguém.
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