Notas iniciais
Boa leitura, pessoinhas :3

Derrubei todos os livros da estante. Eu sabia que em algum lugar iria ter uma porta, só não sabia o lugar exato. Já estava entrando em pânico quando derrubei um quadro e a passagem se abriu. Era a minha salvação.
Teias de aranha enfeitavam as paredes frias feitas de pedra, a escadaria que também era feita de pedra, estava suja e escorregadia. Os degraus eram estreitos e eu não levava nenhuma fonte de luz, o que dificultava muito. Agradeci quando os degraus acabaram e eu só tinha que escolher um longo corredor, no final dele tinha das saídas que levavam para mais corredores. Optei pelo direito, virei novamente a direita e segui pelo esquerdo. Sinceramente, eu não fazia a mínima ideia de onde iria parar.
De súbito, parei. Conseguia ouvir passos que não eram os meus, não estavam longe.
Corri, a outra pessoa fez o mesmo. Ótimo, ótimo. Senti algo ou alguma coisa, sei lá o que era, colidir contra o meu corpo. Gritei como uma garotinha medrosa, a morte me esperava.
– Cala a boca. — as palavras soaram calmas porém irritadas. Eu conheci aquele tom de voz, aquela forma de falar, aquela forma de me tratar.
– Charlie! — exclamei saltando para um abraço. Ele comprimiu meu corpo contra o dele, naquele momento eu pude me sentir segura. Seus dedos entrelaçaram os meus, levando-me para o lado oposto.
Ele andava rápido. Sempre entrava nos corredores a esquerda. Meus pés doíam quando ele finalmente disse "achei!". A saída estava bloqueada por pedaços de madeira, deu trabalho para tira-las mas sim, a luz de inverno trouxe um pouco de irritação para os meus olhos quando saímos. Nós estávamos nos fundos do castelo, bem a frente do muro que fazia fronteira com a floresta.
– Vamos. — ele disse fazendo uma escada para mim subir.
Olhei em volta. Podia ouvir os gritos de revolta... droga, a guerra já tinha começado? Então, me perguntei onde estaria meu pai.

As árvores se erguiam impiedosas, gigantescas e cinzentas. O chão estava branco, gelado. O sol já estava perdendo a vida. Era tudo tão nostálgico e estranho. Olhei para o céu, estava ficando tonta, o chão ia ficando profundo. Tudo a minha volta se movia.
Cai de joelhos e vomitei. Sentia tontura e dores de cabeça.
Olhei novamente em volta, as árvores dançavam, o céu estava em tons de rosa.
Podia ouvir vagamente as palavras de Charlie. Acho que ele se importava. A mão fria dele pousou sobre meu ombro, apertando-o levemente.
Eu não conseguia pensar em nada, tudo girava, meu corpo completamente dolorido. Reijetei tudo o que tinha no meu estomago e então, escuro.
Arregalei meus olhos. A primeira coisa que vi foi o rosto ossudo de Charlie que se contraiu num sorriso preocupado. Ele mantia minha cabeça no seu colo, como se cuidasse de mim.
– Quanto... — bocejei — quanto tempo fiquei desmaiada?
– Segundos. — respondeu, acariciando meus cabelos.
Fiquei deitada, olhando para o céu. Os pássaros agitavam suas asas, voando para longe... era tão fácil para eles, podiam mudar quando as coisas ficavam difíceis... livres...
– Madley, temos que sair daqui. — Charlie parecia realmente mal.
Será que ele sabia sobre sua mãe? Qual seria sua reação quando descobrisse?
– Mad, levanta. Vamos sair do frio.
Continuei no chão. Respirava baixo, os olhos fechados.

" 'Madley, sente aqui.' A senhora disse, ela trajava um bonito vestido cor de vinho, bochechas rosadas e cabelos finos ruivos. Já estava no finalzinho da vida.
A neta fez o mandado, sentando-se ao lado da senhora. Sorriu, era apenas uma criança que ainda não tinha uma ideia fixa do que era a morte.
'Sua mãe... ela era uma ótima moça. Pequena, ela se foi quando você ainda era um bebê... as pessoas morrem cedo, você pode me entender? — a menina acenou com a cabeça — Quero que me prometa algo... aproveite cada segundo da sua vida, os anos podem parecer longos mas no final você verá, verá o pouco que viveu. Tudo o que você passou são apenas lembranças.'
A senhora sussurou algo, a jovem teve que se aproximar, aproximou tanto suas orelhas da outra que os lábios da avó quase a tocaram.
'Você é muito parecida com ela.'
Então, com um sopro, a vida da velha senhora se foi deixando apenas um corpo gelado sem alma."

Senti braços me envolverem, eram quentes e me seguravam com força.
– Ela morreu. — eu disse.
– Shhh, vai passar. — respondeu.
– Por que ela teve que morrer? — perguntei.
– Você vai ficar bem.
– Quase não tenho lembranças dela.

"Os tons de rosa e laranja coloriam o céu. A jovem, aquele pobre jovem sentada a frente da janela observava os outros lá fora. As crianças corriam pela grama, os mais velhos entrelaçavam suas mãos. Casais perfeitos. Mas não a jovem. A esquecida, amargurada, cada vez pior. Suas pernas estavam pesadas, ela iria morrer sem nunca andar.
'Você está cada dia mais linda, Anna.'
Os olhos dela se moveram vagarosamente até o jovem moço, ela sorriu.
'Veio me ver?'
'Não tenho outros motivos para estar aqui.'
Ele se aproximou, acariciando o rosto dela. Seus lábios encostaram na bochecha dela, moveram-se até o canto da boca dela e novamente a beijou, sorriu e finalmente selou os lábios deles.
Ela o empurrou gentilmente com as mãos. Suspirou. Ele sentou ao lado dela e manteve-se ocupado a segurar a mão da jovem.
'Não... eu nunca mais vou poder andar novamente.'
'Não diga isso, você vai melhorar...'
'Não, não! Eu não vou.'
Já fazia mais de um mês que a jovem tinha caído do cavalo. Quebrou as duas pernas, iria ficar melhor mas maluca do jeito que era, tinha certeza que nunca mais andaria.
Ele riu da teimosia dela. A amava por isso, por ela ser maluca mas isso se tornava um suicídio, dois reinos inimigos não deveriam se juntar."