Notas iniciais
OPA, OPA. AINDA NÃO É O ÚLTIMO. ♥

Acordei com um filete de luz invadindo meu quarto. A cortina clara balançava levemente, eu conseguia ouvir os pássaros lá fora. Braços fortes e marcados me envolveram, um sorriso se formou no meu rosto e ele me agarrou com força. Quando ele finalmente me soltou, eu me virei e encarei aquele belo rosto. Estava em paz, dormindo como uma criança.
– Por que está a me encarar com tanta vontade? — perguntou abrindo um sorriso de dentes desalinhados.
– Como você sabe que estou te encarando? — perguntei soltando um risinho baixo.
– Sexto sentido de lobisomem. — ele me abraçou e beijou o topo da minha cabeça.
Por muito tempo desejei ver os olhos dele em paz. Chris se mantia muito agitado na maioria do tempo, o seu maior medo era se transformar na minha frente e me ferir, mas isso não aconteceu e agora ele estava em paz consigo.
Levantei. Meu corpo nu ainda tinha marcas da noite passada, segui para o banheiro e me lavei. Não vesti um vestido e sim, calças. Era algo inapropriado para damas daquela época, mas não para mim.
Quando voltei para o quarto, Chris estava apoiado na janela. A cabeça inclinada para trás, os olhos fechados, era como se estivesse absorvendo a energia positiva do sol. A beleza que ele tinha era inexplicável. Os lábios semi-abertos e rachados, os pequenos cortes cicatrizados no rosto e o cabelo ainda bagunçado estavam em perfeita harmonia.
Nem todas as histórias de amor são lindas, a minha nunca foi, mas agora, eu sabia o real sentido de amar: sofrer sem se importar.

"Chris estava ansioso. As mãos tremiam, mordia a boca com tanta vontade que estava prestes a sangrar, não conseguia se manter parado. Então, ele se ajoelhou no chão e começou a soca-lo e eu pude ver os punhos dele ficarem vermelhos. Não pensei, apenas corri em sua direção. Ele me encarou com medo e apreensão, se afastou alguns passos.
– Chris, tá tudo bem? — perguntei tentando tocá-lo.
– Não, não! Se afasta, não me toca! — ele suava. Atrapalhado, ele rastejou mais alguns passos.
Sem pensar nas consequências, eu segurei o braço dele impedindo-o de se afastar mais. Ele olhou para minha mão como se eu fosse o machucar, ou pior, ele me machucar.
– Eu... faz muito tempo... Minha cabeça lateja, eu não aguento mais. — os lábios deles tremiam e a pele estava fria. — Faz tempo que... o lobo não aparece.
Eu conseguia ver os sentimentos nos olhos dele. O medo, a ansiedade, a dor e a vontade de descansar. Sem pensar, eu o beijei. Deixei que nossos lábios se tocassem e ele rejeitou.
Me olhou com dor. Era como se estivesse se desculpando. Então, sumiu, por semanas eu me remoí pensando que era tudo minha culpa."

– Você tem que parar de pensar tanto. Eu sempre tenho que repetir o que digo, Mad. — ele disse com um tom de risada.
Eu o encarei sem entender, esperava que ele repetisse o que tinha dito. Sorriu, já sabia que eu era assim.
– O seu dia, hoje, é livre. Nada de reuniões, nada de preocupações com o reino. — ele beijou o topo da minha cabeça.
Chris saiu do quarto, a porta ficou semi-aberta. Eu já sabia que ele iria para a floresta, iria se transformar em lobo e se sentir livre. Eu não me importava em namorar um lobisomem, nem mesmo com as marcas que o corpo dele possuía, eu me importava se ele estava feliz ou não.
Pela primeira vez após Kyro, eu estava amando. Eu o amava mais que minha própria pele, mais que meu próprio pai amava minha mãe.
Desci as escadas seguindo direto para o salão. Encontrei Samie no caminho, ela carregava seu arco récem polido em mãos.
– Bom dia, Mad. — ela sorriu — Irei treinar, até mais.
Eu acenei e ela saiu correndo, o cabelo balançava suavemente. Ela parecia feliz em estar treinando novamente. Nos últimos dias ela tinha ficado triste após Hayley ir viajar com sua avó, iria ficar meses fora. Mesmo Hayley não sendo uma feiticeira, ela tinha nascido com um dom diferente: todos os desenhos dela tinham vida se ela quisesse. Mas Samie tinha passado essas últimas semanas ocupada em ir as aulas de música do castelo e aprender a tocar violão-celo.
Passei pelo reino cumprimentando o povo que trabalhava nas ruas. As crianças corriam, sujas, mas felizes. Os portões foram abertos para mim passar, segui até encontrar a trilha da floresta e depois sair dela.
Eu já estava dentro da floresta o bastante para saber a cabana não estava longe, foi quando eu ouvi o uivo. Eu sabia o que tinha que fazer: correr, correr até encontrar abrigo. Corri até que meus pulmões estivessem secos e minha garganta dolorida, eu conseguia ver a cabana ao longe, mas foi nesse momento que eu o vi. Ele estava a poucos metros de distância.
O pelo era cheio. Seus olhos me encaravam com raiva, com sede de sangue, de dor e morte. As enormes patas estavam no chão como se fossem grudadas a ele, mas de súbito, elas saíram. Ele avançou sobre mim, minha primeira reação era correr, mas não consegui, caí de costas. Não iria deixa-lo, e se ele estivesse precisando de mim?
Ele voou, caíria sobre meu corpo, a boca aberta direto no pescoço. Iria rasgar a pele, os musculos. Eu morreria nas mãos(ou patas?) do meu amado.
Tentei me proteger com as mãos sobre o rosto mesmo sabendo que era inútil, mas ele não avançou mais do que meus pés. Senti que uma parte da humanidade dele ainda prevalecia. Ele apenas saiu correndo pela floresta, eu corri também, mas em direção a cabana.
Quando cheguei, nas camas do pequeno porão eu deitei. Adormeci.
Acordei com o som da porta batendo e passos se aproximando de mim. Levantei pertubada.
– Ele teve a chance de te matar, você tem noção do que é isso? Te matar. Eu iria perder você, Madley, te ferir. — Chris deixou que todas as palavras caíssem sobre mim como facas.
– Me desculpa. Não pensei que fossemos nos encontrar. — eu alterei o tom de voz, estava preocupada.
– Mas nós tinhamos combinado: nos dias que eu não passasse com você eu estaria na floresta! Madley! Você está louca? Ele teve tudo para te matar! Madley! — ele gritava as palavras.
– Eu pensei que pudesse te ajudar, Christopher! Eu POSSO te ajudar e eu VOU. — gritei mais alto — Eu te amo, Christopher, não quero que você se machuque!
– Não pode me ajudar se eu te matar. — o tom de voz tinha baixado, olhos tristes e focados nas próprias mãos.
Engatinhei até a ponta da cama onde ele estava de pé, peguei nas mãos dele e segurei firme.
– Eu não quero te perder, Madley. — pela primeira vez, eu o vi chorar.
Eu o abracei. Forte, apertado. Queria envolvê-lo a ponto de todas as dores dele sumir.
Chris se abaixou ficando alguns centímetros mais baixo que eu. Limpou as lágrimas e colocou as mãos no meu rosto, elas deslizaram até o meu pescoço. Senti o toque suave dos lábios dele sobre os meus. Prendi minhas pernas na cintura dele e o puxei, meus braços envolviam o pescoço dele. Estavamos grudados completamente.
– Eu quero que você seja minha, para sempre. — ele sorriu ainda escondendo os momentos de tristeza que teve a pouco atrás — Eu te amo. Casa comigo?
Os momentos seguintes eu passei encarando ele. Eu queria soca-lo e perguntar porque se casar com uma pessoa como eu, mas eu também queria abraça-lo e beijá-lo e dizer que sim. Optei pela segunda opção.
Ele sorriu, tirou a camiseta mostrando o corpo definido. Estava rindo quando me pegou no colo — sussurou no meu ouvido: eu amo você — beijava feliz todas as partes do meu corpo que não estavam cobertas com tecido, então, deitou-se na cama com o meu corpo acima do dele. Sentei sobre a cintura dele, as mãos no peito forte, meu cabelo caia em filetes que ele teimava em assoprar. Eu vestia apenas minha camiseta quando ele desistiu de assoprar meus fios ruivos. Lembro que no final, eu deitei no peito dele e ouvi o seu coração bater rápido, o corpo quente e as maõs acariciavam as minhas, então adormeci. Quando abri meus olhos estava na mesma posição quando adormeci, levantei rápido procurando minhas roupas e fazendo um coque alto no cabelo.
– Onde vai com tanta pressa, princesinha? — ele perguntou sentando na cama e colocando a própria camiseta.
– Já é tarde. Temos que voltar, já devem ter mandado patrulhas a nossa procura.
Começava a anoitecer quando saímos da cabana e íamos para o castelo, antes disso, tinhavamos feito um lanche e eu tinha perdido meu tempo em discutir com Chris onde ele tinha escondido minhas botas. No final, eu sabia que ele fazia isso apenas para passar mais tempo perto de mim e eu não achava isso ruim. Era reconfortante tê-lo junto.

A floresta era mais calma que o normal aquele horário. Já começava a esfriar novamente e eu conseguia sentir a brisa balaçar alguns fios do meu cabelo. Chris segurava minha mão e sorria, era lindo ver ele sorrir de verdade. Ele fazia me seguir viva.
Quando chegamos no castelo, eu fui recebida com uma enchurada de advertencias dos meus seguidores. Eu apenas balançava a cabeça e concordava, era mais fácil assim.
Após o jantar entediante, eu segui para o meu quarto. O castelo era silencioso. Encontrei Samie no caminho — ela não tinha comparecido ao jantar, suspeitei que ela estivesse em alguma aula. Abri um largo sorriso e puxei ela, levando-a ao meu quarto e a deixando curiosa — ela já tinha pergutado "o que aconteceu?" umas trinta vezes desde que eu comecei a arrastar ela. Chegando nos meus aposentos, eu fechei a porta e ela se sentou no tapete e eu soltei tudo o que tinha para dizer:
– ELE ME PEDIU EM CASAMENTO! — gritei e ela riu.
Depois de um mini ataque de felicidades que tivemos, ela foi para o próprio quarto e eu fiquei sozinha.
Eu sabia que Charlie sempre teria um lugar no meu coração, mas agora ele estava morto e eu tinha uma vida para viver. Uma longa vida. Mas doía saber que ele não estaria presente no casamento ou em qualquer outro momento. A morte dele e do meu pai iriam me atormentar para sempre.
Só sai do transe de "pensamentos sobre morte" quando Chris entrou no quarto se aviso. Tive um pequeno susto e ele riu.

Ele dormiu como um bebê e eu, simplesmente, não dormi. Meus olhos doíam, meu corpo sentia necessidade de ser aquecido, mas eu não me importei, passei a noite sentada na varanda. Vestindo apenas uma camisola e o casaco de Chris, eu fiquei sentada lá até o amanhecer. Meu quarto tinha uma bela visão da floresta, da escuridão escondendo algo entre as árvores, mas naquela noite tinha um brilho especial no céu.