Notas iniciais
Sei que demorou um pouquinho e tal, mas esta aí. Boa leitura

– Você tem certeza que está bem? — Charlie me entregou uma xícara de chá quente.
– Estou, já disse que estou. — respondi.
O caçador sorriu de canto e disse enquanto servia mais uma xícara:
– Você que devia se acalmar, Charlie. Ela está ótima, foi apenas adrenalina.
Charlie o encarou com aquele olhar de "eu não te perguntei" mas não disse nada. Sentou-se encostado na parede, fechou seus olhos e se aquietou.
Porque todos estavam tão calmos? Uma guerra estava a matar pessoas a cada segundo e nós parados tomando chá. Eu devia estar lutando ao lado do meu pai e não escondida em uma cabana.
– Eu não posso ficar aqui. — sussurei.
Charlie me encarou e sorriu amarelo. Ele tinha pequenas covinhas no canto abaixo da boca que combinavam perfeitamente com suas sardas. Seus olhos transmitiam paz e confiança. É, ele era bonito.
No momento seguinte eu já estava deitada em uma cama no porão, aquecida por vários cobertores bem grossos. Estava tudo passando tão rápido.
Já passara das onze da noite quando eu desisti de tentar dormir. Levantei, meus pés tocando o chão frio. Silenciosamente, subi os degraus gastos de madeira e fui até a cozinha. Estava escuro, acendi algumas velas e comecei a preparar outro chá. Meus olhos pesavam mas toda vez que eu os fechava, aquelas lembranças me pertubavam.
Sim, eu me lembrava da primeira. Foi quando minha avó morreu, eu vi, eu estava lá mas aquela segunda lembrança...quem era? Quem eram aqueles jovens? Por que eu "sonhei" com eles?
– Você está bem? — era o caçador.
– Estou. — não queria conversar, não naquele momento.
– Você quer me contar algo? — perguntou como se adivinhasse.
Hesitei, não fazia a minima ideia se ele era confiável. Sinceramente, eu mal o conhecia.
– Meu nomeé Richard. — disse como se eu tivesse perguntado.
Encarei o caçador. As cicatrizes em seu rosto eram bem visiveis, a barba por fazer a mais de dias e o cabelo desgrenhado. Ele não era tão velho assim.
Preparei mais um chá e me sentei de frente para ele. Bebericava o chá, nervosa.
– Minha mulher... — ele começou — ela era linda. Usava cabelos loiros curtos que realçavam seu sorriso, e seus olhos eram de um verde puro, intenso. Certa vez ela disse que queria ter uma filha, mas uma filha parecida comigo. — ele mordeu o lábio reprimindo o choro — Eu amava a forma que ela acariciava meu rosto, deslizando os dedos na linha do meu nariz. As curvas do corpo dela, os vestidos apertados na cintura. Mas tinha algo que eu amava e quase ninguém dava importância: uma manchinha no seu pescoço. Eu amava minha mulher mais que tudo, ela era parte de mim e da minha vida. — sorriu e tomou um bom gole do chá — Em uma noite normal como todas outras, eu demorei a voltar para casa, então, finalmente, quando pude descer do cavalo, percebi que porta de entrada estava arrombada. Minha primeira reação foi sair correndo, tirando tudo do meu caminho... tudo destruído... e minha mulher, ela...
Ele fechou os olhos, mordiscando os lábios e se concentrando em sussurar algo.
– O que você estava falando enquanto estava desmaiada? — perguntou, enquanto eu me ocupava a guardar as xícaras que já estavam limpas.
– Eu estava falando? — gaguejei.
– É, algo como dois jovens... sei lá. — por segundos ele pareceu interessado em me observar.
Ele iria me achar mais maluca do que já sou.
– Eu não sei, senhor. Eu desmaiei e sonhei com o passado. — respondi.
– Sonhou com o passado? — se aproximou da mesa.
– É, sonhei com a minha vó que morreu. Sonhei com o dia que ela morreu, eu vi, eu estava lá. Depois sonhei com um casal de jovens.
Quando Richard começou a fazer mais perguntas eu decidi contar a história por completo, pelo menos ele não iria me importunar mais com aquilo. Levantou-se e começou a andar de um lado para o outro, pensativo.
– Você é uma ocultista. — disse me fazendo sobressaltar.
– Eu não tenho sangue bruxo. — disse com convicção.
– Não sua tola, ocultistas não são bruxos. -ele murmurava as palavras — São pessoas que podem ver tanto o passado ou o futuro das pessoas e, — fez uma pausa arqueando a sombrancelha — podem viajar no tempo.
Permaneci séria. Que besteira de conversa, era óbvio que estava enlouquecendo.
– Você tem que consultar com a Madame Xavier. Sim, sim... — roeu uma unha — O que está fazendo acordada ainda? Vá dormir, amanhã levantaremos cedo pra fazer uma visita a Madame Xavier. — disse me empurrando com as duas mãos.
Me joguei sobre os grossos cobertores. No chão, sobre um colchão velho, dormia Charlie. Ele roncava alto e de vez em quando dizia algo sem nexo. Um crianção.
– Boa noite, Char. — eu disse e beijei a testa dele com esforço para alcançá-lo.

Alguns poucos pássaros se davam ao prazer de cantar. Da cozinha vinha um ótimo cheiro de café, meu estomâgo doía de fome e eu não podia perder aquele café que deveria estar uma delícia.
Charlie fazia a tal bebida. Richard, o caçador, colocava algumas coisas dentro de uma mochila de pano e eu os obsevava.
– Onde você vai? — perguntei.
– Nós vamos para a colina do leste. — ele sorriu de canto, mostrando a presa de ouro.
– Nós? — arregalei os olhos.
– É, você é mais irritante que a sua mãe. — disse, bufando.
– Conheceu minha mãe? — perguntei, interessada.
– É, conheci.
– Como? — insisti.
– Nós eramos amigos... Charlie, o café está bom? — mudou de assunto drasticamente.
Bebemos algumas xícaras do líquido marrom e doce enquanto devoravamos os bolinhos.
– Por que tenho que ir nessa Madame?
– Porque você é uma ocultista. — respondeu sério.
Naquele momento eu quis ter uma faca, não iria fazer nada além de ferir ele gravemente. Nada de mais.

Estava muito frio fora da cabana, a luz do sol ofuscada pelo tempo nublado e as árvores. Ainda tinha gelo e neve, iria ficar um bom tempo assim até a guerra acabar.
Charlie estava estranhamente quieto essa manhã, acho que ele sabe sobre sua mãe. Agora ele era órfão, sem pai e sem mãe. Imagina o que ele deveria estar sentindo, a sensação de estar sozinho no mundo.
– Charlie? Você está bem? — perguntei, tocando com meus dedos frios no pescoço dele.
– Sim. — disse sem reação.
Richard andava na frente, tinha um punhal em mãos e carregava a mochila.
– Como é essa tal de Madame Xavier? — perguntei alto para o homem a frente.
Ele riu mas não respondeu. Tinha a impressão que deveria ser maluca.
O reino do leste era amigável, papai era um grande amigo do rei de lá. Mas dessa vez eu não iria lá para visitar o castelo, eu estava indo pra conhecer uma cartomante charlatã maluca enquando eu deveria estar na guerra.
Então eu me perguntei como deveria estar a guerra. Será que Arthur estaria vivo? Será que o reino dos Sywn tinha enviado apenas homens ou criaturas também?
– Fiquem quietos. — o caçador murmurou.
Nós paramos. Ele tentava ouvir algo ou ver alguém, naquele momento eu não sabia.
– Crianças... — murmurou mas foi interrompido.
No exato momento que a palavra foi dita, dois homens montados a cavalo invadiram o espaço. Consegui entender o grito de "corram" do Richard e larguei na pernada.
Eu conseguia ouvir o galope do cavalo logo átras de mim. Eu estava sozinha, não fazia a mínima idéia para onde os outros tinham ido. Eu só tinha que escapar, fugir, não podia ser aprisionada.
Não! O vestido enganchou no tronco caído, meu pé ficou preso, o tornozelo torceu.
Senti meu braço doer na queda, o cavalo parar e o homem descer. Ele me colocou sobre o ombro e subiu novamente no cavalo. Eu não ia conseguir lutar com alguém duas vezes maior que eu, sem chances.
Então, o cavalo parou, o homem gritou. Ele caiu me levando junto, aterisando sobre mim. Gritei, ele era pesado. Quando abri os olhos, Charlie me encarava. Ele deu a mão como se pedisse pra mim pega-la e levantar, foi o que eu fiz.
Olhei para o soldado no chão, estava morto. Olhei para Richard que observava o corpo do defunto.
– Você matou um homem! — berrrei.
– Pensei que quisesse ser salva. — disse com calma.
Fechei a cara. Ele era cruel, um cretino.
– Com você eu não ando mais. — murmurei.
– O que você disse? — ele se aproximou, segurou meu braço com força.
– Que você é um idiota. — cuspi as palavras no rosto dele.
Só senti a ardência no lado do rosto, quando percebi já estava no chão. Richard me encarava com olhos arregalados e Charlie parecia assustado.
Abaixei o olhar para minhas mãos. Suspirei. Reprimi todas as lágrimas e levantei, murmurando:
– Vamos, vamos antes que outros apareçam. — eu cruzei os braços.
O caçador hesitou, voltou alguns passos e continuou a andar. Apenas segui.
Quando já estava na hora do almoço, nós sentamos a beira de um riacho. A água estava congelada, e a grama escondida pela neve. Não via nenhum animal, nada, ninguém.
Olhei em volta. O único ali era o caçador que preprava algo para nós comermos mas onde estava Charlie? Levantei, limpando o vestido e olhando em volta.
– Charlie? — disse me embrenhando na floresta.
Ele estava encostado em uma árvore, os braços cruzados. Quando me viu, sorriu e mexeu os braços como se estivesse pedindo um abraço. Me aproximei e ele se sentou na neve, sorriu.
– Sente-se comigo.
Então eu sentei. Os olhos dele estavam mais claros que o normal, o seu cabelo já estava bem grande e desarrumado. É, ele era lindo.
– Nem tudo na vida são flores, Madley, você sabe. Mas nem todos os momentos são espinhos, você também sabe disso mas... e se isso não acabar? Se nós não vencermos? Se nós morrermos? Você tem noção do quanto essa guerra é séria? E se todos no castelo estiverem mortos? Mad... eu... — ele olhou para o outro lado, encarando o nada por longos minutos que pareciam intermináveis. — Eu tenho medo de morrer.
Minha mão estava tremendo mas da mesma forma aproximei ela do rosto dele, acariciando-o. Ele cerrou os lábios e entrou nas profundezas do meu olhar.
– Feche os olhos e não se mexa. — ele ordenou, sorrindo.
Foi o que eu fiz. Eu podia sentir o bafo quente dele a centímetros de mim. Seus lábios tocaram minhas bochechas, fechei com força meus olhos. Então, selou nossos lábios dando início a um beijo. Quando ele se afastou, eu abri meus olhos piscando várias vezes. Charlie entrelaçou seus dedos nos meus e me puxou para perto de si.
Parecia que tinhamos ficado horas deitados ali quando na verdade não foram mais que minutos. Eu podia ouvir o coração dele bater e sua respiração calma, ele transmitia uma sensação boa e me aquecia. Naquele momento eu percebi que ele era o único que permaneceria comigo até o fim, até quando eu me transformaria em um corpo sem vida.
– No que está pensando? — perguntou, acariciando meus fios ruivos.
– Nada. — respondi, na verdade pensando em tudo.
– Você mente muito bem mas eu conheço suas mentiras. — murmurou.
– Já percebeu que nós temos apenas um ao outro?
Ele não respondeu, apenas me abraçou com vontade.
Eu só queria ficar com ele ali, deitada para sempre. Queria que tudo aquilo acabasse e eu pudesse deitar e dormir, eu estava tão cansada e meu corpo pesava. Eu sentia uma pontada nas têmporas, como uma agulha.
Não almocei mais que alguns pedaços de pão e um gole de água, não sentia fome. Eu ficaria fraca mas Richard disse que faltava poucas horas para chegar a cabana da Madame Xavier.

Tinhamos acabado de sair da floresta. Estavamos em algum lugar onde as rochas predominavam. Era como um labirinto, o que me assustava bastante já que a possibilidade de eu me perder não era pequena. Era tão bonito, as rochas eram completamente cobertas por desenhos que pareciam infantis, pareciam pãozinhos de açúcar cobertos por neve. Ali, eu me sentia segura. Eu sabia que não iria sair um lobo de um canto e me atacar, era claro e eu podia visualizar tudo a minha volta. Silêncio, conseguia ouvir alguns pássaros ao longe.
– Bom... — o caçador puxou um mapa feito por ele da mochila e colocou no chão — Pelo o que eu entendo, estamos quase lá. Acho que se andarmos mais rápido, chegaremos ao anoitecer.
– Richard. — eu me ajoelhei ao lado dele, encarando o mapa — Você não acha estranho só termos encontrado aqueles dois homens? Não deveriamos ter visto mais animais ou sei lá o que?
Por instantes ele pareceu preocupado mas consegui falar com convicção:
– Talvez, mas com essa guerra eu dúvido que vamos passar por algo.
– Mas e os duendes? Eles não tem medo de nada! E os trolls? Eles são tão irracionais que deveriam estar por ai, e os lobos?
Ele cerrou as sobrancelhas como eu estivesse ficando louca e continuou a andar. Charlie balançou os ombros e o seguiu. Eles estavam muito a frente de mim mas eu não me importava, conseguia ver eles andando.
Um sussuro, alguém tinha sussurado no meu ouvido mas não tinha ninguém ao meu lado. Parei e olhei em volta.
– Alguém... tem alguém ai? — perguntei.
Então, um vento fraco fez meus cabelos dançar e novamente um sussuro. Eu não entendia o que esse sussuro dizia. Eu estava tão distraida com aquilo, então o vento veio contra mim fazendo cair mas eu não estava no chão, estava flutuando. Algo me direcionava para baixo e para cima, como se estivesse tentando me deixar tonta. Então eu caí, batendo contra uma pedra. Gritei, acho que meu nariz tinha quebrado.
Fiquei minutos deitada na neve em posição fetal, as mãos no rosto. Não iria abrir os olhos, não queria ver a criatura que tinha feito aquilo. Ouvi passos e as vozes de Richard e Charlie.
– Madley, você está bem? O que aconteceu? — o mais novo perguntou apertando levemente meu ombro.
– Tem alguém aqui. Eu estava no ar então caí, ele me fez flutuar, Charlie! Mas ele é invísivel. — disse apressada, com a voz embargada.
Quando tirei a mão do rosto, pude ver que Richard estava encarando o horizonte.
– O vento gosta de brincar com as pessoas. — ele disse sárcastico.
Charlie cerou os lábios, preocupado. Então, estendendo os braços na minha direção, disse:
– Acho que posso carregar um pouco você.
Era bom estar perto dele, assim eu me sentia segura. Minha cabeça sobre o peito dele e seus braços me envolvendo. Fechei meus olhos e adormeci.

" Estavam em um grande salão vazio. Estava escuro e parecia que ninguém ia ali a dias. Os dois jovens se encararam, o loiro deu o primeiro passo. O outro, moreno, vidrou o olhar nos passos daquele que ele julgava inimigo. O loiro ja estava a centímetros do moreno, suas mãos frias tocaram as bochechas do que o odiava. Apertaram-as com força, até ficar uma marca vermelha, então o empurrou em direção ao chão. Mas ele não pareceu se importar, apenas ficou na mesma posição, parecia não ter controle sobre seu corpo. O outro o chutou várias vezes e quando o sangue escorria pelo nariz do moreno, ele parou. Se abaixou ao seu lado e murmurou algo no seu ouvido.
Estavam nas masmorras, o moreno estava deitado sobre uma mesa de pedra. Não estava amarrado nem nada, apenas deitado encarando o teto. Algo como uma poção do sono, fazia-o ficar calmo. O loiro entrou na sala com um punhal em mãos, tinha uma grande cicatriz no rosto e parecia bem atordoado.
– Você não tem noção do que fez, você a feriu! — berrou mas o outro continuou quieto.
Ele se aproximou. Com o punhal fez cortes pelo corpo do moreno, depositando toda sua raiva ali. Algumas lágrimas escorriam pela sua face, sentia tanto ódio.
Novamente o tempo muda, e agora o moreno estava acorrentado pelos pulsos, deixando seus pés a centímetros do chão. O loiro estava do outro lado da sala, o ferimento no rosto já tinha cicatrizado, ele avaliava o preso. Levantou-se com um chicote em mãos, contava baixo cada centena de chicotadas. O moreno nada disse e muito menos demonstrou dor, seu olhar era distante. O outro o soltou e pediu que seus servos dessem um banho de água e sal no preso, o que fizeram sem demora. O violentador se divertia em ver o outro passar por tantas humilhações.
Os cenários mudaram novamente. Já devia ter se passado meses pois o loiro tinha a cicatriz completamente curada, sorria.
O moreno estava sentado em um canto da cela, com os joelhos no peito. No fundo ele sabia que era seu último dia, ou morreria pela espada do inimigo ou morreria de fome. Por uma fresta na parede pode ver o mundo do outro lado, um dia fora um grande rei mas naquele momento era apenas uma diversão. Tossiu com dor, ele cuspiu sangue.
Se aproximou, a espada em mãos. Estavam novamente na masmorra, como no passado, o moreno na mesa de pedra em seus últimos momentos. Pela primeira vez em meses o moreno que nunca tinha demonstrado nada disse:
– Vá se danar.
Então, pela última vez, ele sentiu dor. A espada atravessou o peito dele, tirando todos os anos de vida que ele podeira ter tido. Sua alma sumiu, o brilho nos olhos dele desapareceu da mesma forma, estava morto. "

Acordei com um grito, Charlie se assustou e me deixou cair, Richard puxou a espada da cintura. Resmunguei, passando a mão na cabeça.
– O que aconteceu? — o caçador perguntou baixo.
– Eu sonhei novamente com o passado... eu acho. — respondi, aflita, aquilo estava saindo do controle.
– Tudo bem, tudo bem... Já estamos quase lá. — disse como se fosse me acalmar.
Charlie apenas me encarava com olhos arregalados como se eu fosse algo que pudesse lhe trazer dor.
– Eu vi. — ele disse, cruzou os braços e deu alguns passos de distância. — Eu vi o que ela viu.
Então, foi a vez do caçador me encarar com olhos arregalados. Ele mexeu os lábios várias vezes procurando encontrar palavras.
– Você é mais fascinante do que eu pensava.

Notas finais
E ah, quero agradecer aos meus leitores fantasmas. Seus lindos. :3