Notas iniciais
Pequeno, "sem muita importância", mas necessário para a história.

Era apertado, rendado, branco e macio, longo. Nos pequenos detalhes do vestido estavam flores tecidas, não tinha camadas. O decote não era profundo, mas justo na cintura. Meu corpo estava bem desenhado com o vestido sobre ele, meu cabelo preso com uma tiara feita por uma trança e os outros cachos ruivos caíam em harmonia pelos ombros e minhas costas.
O meu quarto estava arrumado e quieto. A brisa de verão entrava pela janela fazendo as cortinas se moverem com calma, a luz atingia o chão de pedra, assim como as paredes. Me encarei no espelho, o vestido era lindo e meu rosto estava queimado do sol, acho que era uma boa combinação.
– Você esqueceu das flores no cabelo. — a voz era conhecida, o rosto atrás de mim no espelho também, mas algo tinha mudado. O sotaque, o cabelo, o o corpo. Tudo. — São muitas flores... São bonitas. Me lembram a você.
Ele sorriu e mexeu no cabelo já crescido. As madeixas já estavam nas clavículas, apenas as pontas loiras e a raiz escura. O sotaque era forte, diferente do reino de Sywn, mas ele falava com calma. Os músculos agora eram definidos, braços fortes e pernas firmes. Eu sabia que por baixo de todo aquele jeito "machão", ele desejava correr para me abraçar, se esforçava para não chorar.
– Quando é o casamento? — perguntou se sentando na cama.
– Daqui a uma semana. — eu disse me virando de frente para ele.
Kyro tinha os lábios entre abertos, o seu olhar viajou sobre o meu corpo. Engoliu a saliva e sorriu, disse:
– Você está mais linda do que eu lembro. — ele mordeu os lábios escondendo a tristeza atrás dos fios que caiam sobre o seu rosto.
– Já faz três anos, não é? Não mudei muito. — sorri com desgosto.
Eu conseguia lembrar perfeitamente da última vez que tinha visto Kyro. Ele tinha mudado, e muito.
– Então, quem é o príncipe ou duque que resolveu se casar com você? — riu irônico, falava como se eu fosse a pior pessoa do mundo. Era uma brincadeira.
– É o Christopher. — eu disse com um sorriso estampado nos olhos.
– Christopher? Eu o conheço? Ele é de qual reino? — perguntou muito interessado, coçando a barba rala.
– Sim, o Christopher. O Chris da guerra, lembra? O lobisomem que encontramos na floresta. — eu respondi retirando as luvas rendadas e as colocando na cômoda.
Ele pareceu surpreso, mas ao mesmo tempo, triste. Ele sabia muito bem desfarçar emoções.
– E você? Já está casado com alguma princesa dos sonhos? — perguntei soltando o cabelo.
– Ah, não. — respondeu envergonhado — Eu não consegui amar ninguém após você. — olhou pela janela. Eu não soube o que dizer, apenas balancei a cabeça.
Ele continuava a encarar meu corpo com o vestido. Eu não sabia como reagir, mas resolvi que iria mudar de roupa. Segui para o banheiro e fechei a porta, eu sabia que do outro lado do quarto, sentado em uma cama estava Kyro. Olhei meu rosto cansado no espelho e abri o vestido. Saí com os pés descalços, agora vestia uma roupa mais masculina e com o cabelo preso em um coque, mas nem isso o fez tirar os olhos de mim.
– Nós não podemos dar um passeio na floresta? — ele perguntou entrelaçando as duas mãos.
Fiquei preocupada com o pedido, mas aceitei. Eu estava nervosa com isso, me perguntava o que ele queria.
– Nós podemos ir a cabana, irei fazer chá — tentei parecer simpática.
Desci as escadas com a sombra dele me seguindo, no caminho eu consegui ver vários serviçais do castelo com olhares preocupados.
Quando finalmente saímos do castelo, a chuva começou a cair fraca. Senti meu rosto ser atingido por gotículas, olhei para o meu lado e Kyro também tinha o rosto molhado. As gotas faziam um caminho perfeito: do cabelo dele ao nariz, e caíam nos lábios. Seu rosto era sério e o silêncio entre nós era marcante.
– Acho que seu cabelo nunca esteve tão ruivo. — sorriu para mim, ele tentava puxar um assunto.
– Depois da guerra, da saída de algumas pessoas na minha vida, eu nunca me senti tão bem. — eu disse com as sobrancelhas arqueadas, pulando em cima de um galho caído.
Ele sorriu, tinha entendido a indireta.
Olhei para o chão molhado, minhas botas encharcadas da chuva. Bufei cansada e sentei em um tronco, tirei as botas e as meias. Kyro ficou a me encarar sem surpresa, porém riu.
– Você continua a mesma, sabe? — riu olhando para o chão — Ainda continua durona?
– Idiota. — eu ri socando o braço forte dele.
– É, você não mudou. — ele sussurou e nós rimos.
Encarei o rosto molhado dele. Continuava branco como a neve e eu tinha quase certeza que se tocasse nele, ele ainda seria gelado.
Quando chegamos na cabana, nós já estavamos encharcados. Eu tremia de frio, o meu cabelo grudava contra o meu corpo. Entrei primeiro e torci o cabelo, a água pingou no chão de madeira. Kyro passou por mim, tirou o colete de pelos e o cinto com a espada. Passou a mão pelo cabelo molhado bagunçando-o e puxou as mangas da blusa até o cotovelo. A camisa molhada marcava o peitoral definido.
Ele sabia que profundamente, eu sentia falta dele. Ele iria fazer de tudo para me ter de volta. Sabia que Chris estava fora aquela semana: era um dos costumes de alguns reinos, a última semana antes do casamento o noivo deveria passar longe da amada.
Segui para a cozinha. Coloquei a chaleira no fogão a lenha e esperei que esquentasse. Abri os potes de gostosuras e dividi em pratos pondo-os sobre a mesa. Silencioso, Kyro se sentou a mesa na minha frente. Eu o servi de chá e ele agradeceu. Em um momento de distração — eu juro que ele fez de propósito — quando eu toquei em um cupcake, ele colocou a mão dele sobre a minha. Segurou ela com vontade, acariciando-a enquanto olhava nos meus olhos.
– Eu sinto a sua falta. — sussurou.
Mordi meus lábios. Eu amava Chris de todo o coração, com a minha alma, mas não posso negar que sentia falta de Kyro.
Puxei minha mão de volta, coloquei elas entre os joelhos.
– Me desculpe. — murmurou ao bebericar o chá.
Eu soltei o ar dos meus pulmões. Meu olhar vagou triste até a janela da sala.
– Então — comecei — como está o seu reino? — perguntei.
– Ah, bem... — ele sorriu — Eu não sei ao certo. Logo depois que fui embora, dei uma breve estadia lá por duas noites. Consegui ajeitar alguns problemas, ajeitei um "rei provisório" e fui. Apenas sai navegando por aí, fiz o que nenhum outro rei fez. Conheci reinos que ninguém nunca viu, culturas nunca conhecidas. Existem terras tão fabulosas quanto os reinos que temos aqui e muitos deles, são mais desenvolvidos que os nossos. É magnífico! Então, depois de eu fazer o impossível resolvi voltar, sentia falta de algumas pessoas.
Eu sorri. Eu conhecia bem Kyro para saber que era típico dele.
– E suas visões? — perguntou preocupado.
– Elas... sumiram.
Aquela pergunta me fez lembrar de cinco anos atrás. Da perda do meu pai e Charlie, de Richard.
Kyro sorriu para mim e murmurou um "Isso já passou", mas a dor não tinha passado. Eu queria muito que as visões voltassem. Eu queria poder ver as pessoas que amava novamente. Ele notou minha tristeza e me serviu mais uma xícara de chá.

Ele me perguntou dos preparativos do casamento e a conversa foi evoluindo, e sem eu saber, já estava imundada de raiva.
– Você tem certeza que casará com Chris? — perguntou — Você sabe, ele é um bastardo. Sem reino, sem história fixa. Nem inteiramente humano ele é. Uma aberração.
Senti a raiva subir meu corpo.
Controle-se.
– Madley, você merece algo melhor...
– CALA A BOCA. CALA BOCA. — gritei puxando a raiz dos meus cabelos, eu já estava farta disso — VOCÊ DIZ QUE NÃO PODEMOS FICAR JUNTOS, SOME POR MUITO TEMPO, ME DEIXA DESAMPARADA E AINDA QUER VOLTAR LOGO AGORA QUE ESTOU FELIZ? KYRO, QUAL O SEU PROBLEMA? PORQUE VOCÊ ESTÁ FAZENDO ISSO COMIGO?
Bati com os punhos na mesa, fazendo várias coisas voarem. Ele manteve a calma. Olhou para o chá sobre a mesa com desgosto.
– Tudo bem. — disse se levantando com um olhar amargo.
Eu o segui até a sala. Meus olhos em chamas. Ele colocou o colete e o cinto sem dizer nada, deu uma breve olhada nos meus olhos antes de se aproximar. Beijou o topo da minha cabeça, a mão no meu rosto. Eu tremia, estava assustada com tudo isso. Ele saiu. A porta ficou aberta, gotículas da chuva que estava terminando entravam e molhavam o piso de madeira forte. As árvores lá fora balançavam levemente.