Everlong
15 Capítulo 15
Eu já conseguia ouvir o grito de guerra dos inimigos, logo, estariam tentando derrubar os portões. Olhei para cima e vi que Samie já tinha mandado o primeiro posto atirar. Então, eles já estavam aqui. Eu me sentia até ali, nervosa.
Ouvi o primeiro estrondo, parecia um trovão, mas não. Encarei o céu da noite e vi o demônio, o dragão. Ele era gigante, eu digo e repito, gigante. Enorme. Escamas na cor de fogo e um rabo desenhado de espinhos, só faltava mergulhar entre nós e destruir tudo.
Então, Samie, mandou o segundo posto atirar contra o animal. Ele estava revoltado e a qualquer momento lançaria uma chama em nós.
Quando me dei por conta, os portões de madeira tinham ido a baixo. Uma tropa de homens invadiu o reino, com espadas e berros, eles não tinham piedade.
– Vamos! — ouvi o berro de Kyro para seguirmos.
Corremos com os cavalos passando por aquela enxurada de homens, tudo corria bem até que uma flecha atingiu o meu cavalo. Caímos, ele por cima das minhas pernas; o animal urrava. E eu sem ter o que fazer, via os homens passar por mim, berrando empunhando suas espadas com tanto louvor. Até que um dos guerreiros do reino me ajudou. Logo que levantei senti a primeira espada descer sobre meu corpo, à tempo, eu revidei.
Eu lembro que aprendi a usar uma espada com Charlie e os guerreiros treinados do reino, às vezes fugia das aulas apenas para assistir e tentar ter uma oportunidade de pegar em uma daquelas brilhantes espadas. Mas eu percebi que aquilo não era um treinamento, minha vida dependia daquilo, meu reino e pessoas dependiam daquilo. No primeiro erro do homem, eu atravessei a lâmina pelo corpo dele. Fiquei longos minutos apenas encarando a espada suja de sangue quando percebi que a guerra continuava a minha volta
Voltei a correr atrás de Kyro, em algum lugar ele devia estar. Achei-o duelando com alguns homens, mas não era isso o que eu queria, era Calário.
Senti quando um homem me puxou, fui rápida e virei cortando-o. Ele caiu enquanto morria, se debatendo no chão.
Nunca quis tanto não participar de uma guerra. Eu conseguia ver a dor dentro de cada olhar daqueles homens: sua família, sonhos e até mesmo, compaixão. Mas naquele momento, esse não era o seu foco, era matar. Apenas isso, morte. Morrer ou ser morto. Mas, eles queriam voltar para casa com bom dinheiro, talvez, até algum objeto precioso e não iriam se preocupar com uma ou duas cicatrizes a mais, nem mesmo com um olho roxo, tudo o que importava no momento, era sair livre e conseguir ver sua família novamente.
Fui empurrada e cai sobre a lama, com aquela escuridão, eu não conseguia ver nada. Corri engatinhando até minha espada, quando a tive comigo, senti mãos fortes me puxar.
– Olá gatinha. — um sorriso irônico surgiu no meio da multidão, talvez, até conhecido — Achei que pudesse ajudar, trouxe alguns homens rebelados, com raiva, ou até mesmo que querem matar Calário. — ele disse com certa alegria.
– Você... — semi-cerrei os olhos e toquei o rosto do homem — O lobisomem. — eu disse por fim.
– Bingo! — ele disse fazendo um gesto com o braço — Bom, irei lutar.
Ele pulou para frente, dando um salto de mais de dois metros se transformando em um enorme lobo. Alguns outros homens também fizeram o mesmo.
Eu respirei fundo e me abaixei desviando de uma lâmina, cortei as pernas do homem que caiu urrando.
Corri de volta para o castelo, e vi Samie lutando com todas as suas forças. Ela já tinha as mãos sujas de sangue e pequenos pingos sobre o seu cabelo. Eu olhei pra ela fixamente, e sem saber como chamá-la, usei o arco e flecha e atirei no homem que ela tentava se desfazer. Então, ela me encarou com um olhar de desentendida.
– Fecha os portões de ferro! — berrei mas ela não entendeu — Fecha os portões de ferro! — todo o ar dos meus pulmões tinha se ido nessa frase.
Ela cortou a corda que o mantinha aberta e ele, o portão, caiu. Muitos homens ficaram para o lado de fora, mas, quem eu queria, estava aqui dentro.
Corri para o castelo, sendo interrompida várias vezes por homens inimigos. Eles estavam por toda a parte, até mesmo nas ruelas mais estreitas. Aquilo já tinha se tornado cansativo, eu odiava matar.
Quando abri as portas do castelo, as que davam diretamente para o salão do trono, me surpreendi. Não havia ninguém, estava vazio. Entrei vagarosamente, respirava alto, sentia meus pulmões bater contra as costelas.
– Você é tão tola, tão burrinha. É claro que viria até aqui, acha que eu já não previa isso? — Calário riu, se sentou no trono de meu pai e sorriu — Muito confortável, não acha? Ótimo para liderar.
Sentia a raiva da cabeça aos pés e corri em direção a ele, a espada apontada diretamente para seu peito. Imaginei ela o atravessando, atravessando seu coração, o olhar frio que ele soltaria e a dor.
Ele levantou e fez um gesto com as mãos, seu rosto se contorceu e eu cai de dor. Berrei, era como se estivessem me arrancando a pele do corpo.
– Bobinha, novamente agiu fraco. — ele disse com um sorriso nos lábios e se agachou ao meu lado.
Eu não conseguia me mexer, a dor fazia minhas mãos tremerem. Então, ele me puxou pelos cabelos e me fez ficar cara à cara com ele. Seus olhos não tinham vida, nem brilho. Ele tocou com a ponta do dedo indicador minha testa e foi como se eu estivesse caindo em um redemoinho. Abri meus olhos e berrei de dor. Parecia que meu estomâgo fosse sair pela boca, mas não.
Eu me sentei no chão, minhas pernas ainda tremiam e eu não conseguia ter total controle sobre elas.
As portas se abriram novamente e Kyro entrou, carregava o escudo e uma espada. Seu olhar passou sobre mim mas não pousou, sabia que não podia se manter fraco naquele momento, seu maior motivo era matar Calário.
– Seria bom fazer o que esta pensando. Pode deixar o armamento e abraçá-la pela última vez. Vocês dois morrerão está noite. — Calário disse enquanto analisava Kyro.
Mas ele não fez isso, correu em direção ao homem que o jogou sem tocar um dedo na parede contrária. Ele caiu no chão de frente, eu pude ver pouco sangue escorrendo e o pânico tomou conta de mim.
Levantei ainda fraca. Eu não iria desistir, não agora. Ainda tinha uma "carta na manga", caminhei vagarosamente até ele que disse:
– Seu truque da faca não funcionará. Sinto muito.
Tentei os degraus até o trono e cai de boca, senti o gosto de ferrugem e sujeira.
– A dor da perda é muito maior que a felicidade de ter ganho, mas o poder de tirar vidas recompensa isso. — sorriu.
Eu escorrei pelas escadas calmamente e cai no final de costas. Fiquei a encarar o teto feito a mão com pinturas muito antigas de uma luta de Thor e Loki, os deuses. Me virei quando vi duas garotas sendo jogadas dentro do salão, eram Hayley e Samie, eu queria muito conseguir saber se estavam vivas ou não, mas o momento não permitia.
Aquelas horas, minutos, pareciam longos de mais. Tudo girava, meu corpo parecia que ia se desfazer. Virei o rosto em direção ao grande relógio que marcava cinco horas da manhã.
Meus olhos estavam prestes a se fechar quando encarei o primeiro sinal de luz vindo, era bonito. Muito bonito, mas foi interropido por um sombra, queria poder brigar com aquela sombra. Fixei meus olhos nela por bons momentos e lá estava Madame Xavier, a feiticeira que eu acreditei por muito tempo que estava morta, porém, ela estava lá.
Ela entrou arrumando o cabelo e o olhar duro, suas expressões frias. Levantou a colher de pau que segurava na mão e apontou contra o homem.
– Você acha que realmente vai me vencer com uma colhe de pau. A senhora só pode estar maluca. — Calário riu.
Então, ela pronunciou uma palavra rápida e o homem vôou, batendo na parede do fundo. Ele levantou envergonhado e lançou um jato de luz verde contra a senhora que revidou com um azul. As duas cores colidiram, eu as encarava com felicidade. Morreria vendo algo tão bonito, tão belo até que senti quando as mesmas mãos fortes que me ajudaram aquela hora tocaram meus ombros e balançaram.
– Aqui, preste atenção em mim. — ele disse me balançando, mas parecia um borrão ao longe. Sua voz ia e sumia, mas de certa forma, mesmo não ouvindo eu sabia que ele gritava.
Vi a figura das garotas que estavam jogadas juntas, como se estivessem interligadas até mesmo naquele momento. Vi Kyro na mesma posição, os cabelos sujos de sangue. E por último, o jovem que segurava entre as mãos meu rosto.
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