Everlong
14 Capítulo 14
Notas iniciais
O cabelo de Hayley ficava de um ruivo escuro birlhoso muito bonito ao sol. Eu sentia tanta inveja quando ela corria nos gramados, seus cabelos ficavam de um tom perfeito.
Ela continuava aquela garota perfeita, sorridente e que sempre procurava um motivo diferente para sorrir.
E Charlie? Charlie estava louco. Ele tinha alucinações o tempo todo, febre e sintomas de uma infecção. Ele não conseguia se locomover de forma correta, então, tinha que se manter no castelo. Ele não conseguia subir ou descer mais que dois andares, o que o deixava muito deprimido. É, ele estava mal.
Passei muitas noites dormindo no chão do quarto dele com Hayley, às vezes, nem dormia.
Kyro soube assumir uma postura de Rei-guerreiro naqueles dois meses. Agia friamente, os passos calculados, planejava tudo, preparava os homens. Fazia tudo melhor que eu, e até convocou os guerreiros do seu reino! Mas não posso deixar de concordar que ele estava certo, não era apenas uma guerra por meu reino e sim por todos.
A cada dia que se passava as coisas ficavam mais dificeis. Já não era fácil achar animais vivos, muito menos alimentos. A peste tinha devorado boa parte da população. Era chocante, as ruas do reino agora eram desertas. Não tinha música, alegria, risos ou crianças brincando. Era apenas silêncio e lamentações.
Eu meditava quando Hayley entrou na sala. Ouvi que ela deu alguns passos hesitantes, desistiu e abriu a porta.
– Pode ficar. — eu disse me virando e sorrindo, então, meu sorriso ficou ainda maior quando a vi a pessoa que a acompanhava. — Samie!
Ela me abraçou e riu tímida.
– Achei que fosse útil alguém que sabe usar arco e flecha, se você deixar, posso ajudar. — sorriu e mostrou o arco em suas mãos.
Eu agradeci, de verdade. Me senti bem, não pela a ajuda na guerra, de certa forma por isso também, mas sim por ter amigas de verdade.
Aquela tarde ficamos sentadas na biblioteca, tomando chá e conversando sobre coisas normais. Falamos sobre assuntos que qualquer outra garota da nossa idade falaria, o que me deixou ainda melhor.
Não podia deixar de comentar que Samie continua uma garota maravilhosa, ainda tinha as sardas em forma de beijinhos de anjo e os cachinhos agora já chegavam na altura da cintura.
Após uma reunião com os seguidores, encontrei com Kyro no corredor. Ele tinha o rosto sujo de terra, as roupas também e por um breve momento lembrei de mim mesma a um tempo atrás — talvez já tivesse se passado meses desde da época onde as coisas eram normais, quem sabe, até um ano.
– Eu estava treinando. — ele disse coçando o nariz.
Me senti fraca, desprotegida e solitária naquele momento. Eu nunca mais tinha tido um momento com Kyro, nem mesmo conversavamos como antes. Estavamos distantes, frios, arruinados. Talvez, ele estava dormindo com uma das cozinheiras — eu sempre o via conversar com ela, eles pareciam muito felizes juntos.
– Você irá ao jantar essa noite, não é? — ele perguntou tirando as luvas de couro.
– Claro, porque não iria? — eu disse fazendo uma careta de mal-entendida.
– Porque nas últimas duas noites você teve reuniões e não compareceu. — riu baixinho e apertou meu ombro, da mesma forma que ele fazia quando falava com um amigo. — Até depois.
Eu fiquei a encarar o chão enquanto ele ia embora, me sentia como um daqueles amigos que sempre acompanham o grupo mas são desprezados por todos. Eu me sentia a garota mais feia de toda a terra, mais inútil e sem importância. Sentia como se eu nunca mais pudesse ser amada novamente.
– Mad? Desculpa interromper, mas... — Hayley pausou, então aumentou o tom de voz — estamos com problemas.
Então, eu olhei para onde ela também olhava. Para o horizonte. Não conseguiamos ver direito o que era, mas naquele momento era apenas um vulto se mexendo. Não pensei duas vezes, corri para escadas. Ela me seguiu e no caminhos, encontramos Samie. Ela também subia.
Corremos, subimos até a torre mais alta onde eu tinha aula de astronomia. Lá dava para ver, não perfeitamente, mas dava. Era um dragão.
– Um dragão! — Kyro berrou atrás de nós.
– É. — eu disse sem ânimo.
Estavamos reunidos na mesa do jantar. Ninguém tocava na comida, ninguém falava nada. Apenas encaravamos o nada.
– Eu estudei dragões. Aquele é um dragão das montanhas do oeste — suspirou — são temíveis. — Kyro voltou a encarar o nada.
– Devemos começar a nos preparar? -Samie perguntou, ela foi a primeira a mexer nos talheres e morder um pedaço de bife.
– Sim, eles não estão longe. — eu disse.
Kyro se levantou.
– Quero que leve Charlie para um lugar seguro. Todos os homens estarão reunidos no portão daqui a meia hora, quero todas vocês pronta nesse período de tempo. Samie, você já sabe, os postos mais altos. Hayley, você controla a cavalaria. Madley, nós ficamos com os homens no portão. — disse confiante, porém, falhou na última frase.
As sete e meia, quando o sol já estava morto, eu e Kyro subimos nos cavalos e nos preparamos a frente do portão. Ouvia o berro de guerra dos homens a nossa volta. Era um canto para Thor nos proteger. Nas torres e no muro, os arqueiros estavam preparados. Samie sabia muito bem como os comandar. Ao longe, no fundo, eu vi Hayley empunhar a espada e logo após, acariciar o cavalo.
Eu me assegurei que Charlie ficasse seguro em uma das salas secretas do castelo. Deixei ele na sala que eu demorei mais tempo para achar, era também a que eu mais gostava.
Então, olhei para Kyro ao meu lado. Meus olhos se encheram de lágrimas. Estava tudo perdido, era o meu último dia.
– Pai, me perdoe. Me perdoe por o que farei. — eu disse baixo o bastante para que ninguém ouvisse.
Em alguns momentos, você tem que ser frio o bastante para conseguir empunhar uma espada e ferir alguém com aquilo.
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