Everlong
11 Capítulo 11
Notas iniciais
Tinha uma grande diferença em andar pela floresta a noite do que no dia. A noite as árvores pareciam milhares de vezes maior e eu mal conseguia enxergar minha mão a frente. Kyro carregava um lampião, iluminava o que vinha a frente.
Já fazia quase vinte minutos que andavamos e era cansativo. O loiro achou melhor fazermos isso enquanto a área de risco não passava. Eu ia ao lado dele, segurando sua camisa com medo de me perder ou simplesmente, que as trevas me engolissem.
Ele parecia tenso e o estado piorou quando ouvimos um uivo ao longe. Era agudo e frio como de um matador.
– Lobisomem? — eu sussurei ao pé do ouvido de Kyro.
– Provavelmente. — me pegou pela cintura — Suba no cavalo — e me ajudou a subir.
Ele continou ao lado do cavalo com o lampião, os olhos semi-cerrados tentando ver a frente. Mas nada parecia ajudar. O cavalo pareceu mais agitado quando outro uivo ecôou pela floresta. Era naquele ponto que as coisas começaram a me assustar.
– Shh, Madley... — Kyro não teve tempo de terminar a frase, um lobo apareceu a nossa frente. Ele era gigante, os pelos escuros com falhas em tons de cinza, olhos cor de âmbar. Isso me fez suspeitar que fosse um dos mandados do Rei de Sywn.
Praguejei. Ele rosnou, baba escorria entre suas presas e pingavam. Ele tinha manchas cinzas escuras abaixo dos olhos e no fucinho que de certa forma o deixavam menos mal.
Ele rosnou novamente e mordeu o vazio entre nós. Kyro segurava a espada no cinto com força, juro que podia ver o branco entre suas juntas. O cavalo tentava a todo custo fugir daquela situação, a qualquer momento eu caíria. Mas nada disso me assustou mais do que aconteceu com o lobo. Ele, aos poucos, fez uma transformação que o deixou em homem.
O lobo, digo, o homem ou na verdade, jovem. Isso tudo é muito confuso. Ele era jovem, cabelo escuro e porte magro, muito magro, dava para ver os ossos ressaltando. Mas nada disso chamava mais atenção que os olhos cor de âmbar. Ele deu um passo em nossa direção e Kyro apontou a arma na direção da gargante do outro, fazendo o parar. Sorriu, era um sorriso largo e louco.
– Eu não tenho medo da morte, muito menos da dor. — riu baixo, insâno. Essas palavras me lembraram a alguém.
– Vá... vá embora! — eu disse assustada — Não queremos pacto.
Ele me jogou um olhar confuso.
– Não sou nenhum bruxo para fazer pacto, mas se você acha que eu quero te transformar, vai ficar achando.
Ele cruzou os braços e encarou a arma apontada para o pescoço.
– Não vou abaixá-la. — Kyro sussurou e logo aumentou o tom de voz — Diga o que você quer.
– Não tenho assuntos com você e sim com ela. — apontou para mim, diretamente para mim. E naquele instante eu tive vontade de gritar que não tinha feito pacto nenhum com lobisomens, e que não entendia nada daquilo. Mas ele esperou que eu agisse como a boa pessoa da realeza e me apresentasse. E foi o que eu fiz. — Você não pode voltar para o seu reino, Odjin. Repito, não pode e não deve. O nosso Senhor, ele irá atrás de você e o que tiver entre os dois, ele irá destruir.
– Por que eu devia confiar em você?
– Porquê eu trai meu mestre para proteger dois estranhos, acima de tudo, para deter o fim dos reinos. — ele ficou vesgo ao encarar a arma que agora estava na ponta do seu nariz.
– Lobisomens nunca mentem, e a lealdade ao seu mestre é a parte mais dolorosa de tudo. — Kyro pareceu por um momento, triste. O lobisomem deixou um olhar pesar sobre Kyro, um olhar de, talvez, agradecimento.
– Calário tem sangue de poder. Ele quer você. — o lobo me olhou de forma maliciosa — Ele sabe que você está voltando para o reino, ele irá atrás de você. Ele não quer você por um simples motivo, você tem sangue de realeza, seu reino é o mais rico atual. Mais guerra, mais sangue terá e você não esta fazendo nada para impedir.
Ele pareceu triste. Sinceramente, acho que ele perdeu alguém na guerra.
– Se você quer fazer algo realmente útil, mate-o.
E foi tudo o que ele disse até sumir na escuridão da floresta.
Já estava amanhecendo quando chegamos no reino. Era horrível ver a situação que estavam, as pessoas atiradas nas ruas, morrendo aos poucos da mesma forma que os animais.
Quando chegamos ao portão do castelo fomos barrados. Os guardas ainda estavam lá e por um breve momento, me perguntei quem estaria governando. Mas tudo parecia calmo, o que era estranho.
– Quem deseja entrar no castelo? — perguntou um dos guardas, segurando firme a espada na cintura.
Tirei o capuz e ele soltou uma exclamação.
– Princesa... — fez uma reverencia.
– Rainha. — eu disse arrogante.
Ele abriu a boca em um pefeito "O" e nos deixou passar, fez uma reverência e sorriu. Os outros guardas ficaram em uma posição ereta. Estufei o peito tentando parecer mais arrogante como meu pai era, mas juro que não devia ter ficado nada parecido. Os guardas iam atrás de mim, outro carregava o cavalo e alguns olhavam feio para Kyro.
Os corredores estavam limpos mas ainda tinham marcas da guerra recente, algumas manchas que não tinham abandonado a parede, algumas coisas que faltavam nos corredores.
Aquilo tudo deixa um vazio e nostalgia. Parecia que fazia menos de alguns dias que eu estava sentada com meu pai à mesa do café falando sobre pássaros ou estavamos brigando por questões politicas que nem eu entendia direito.
– Uma hora, toda a dor que você está sentindo no momento irá passar. — o loiro disse como se lesse os meus pensamentos.
Me limitei a um simples resmungo como resposta. Eu não queria pensar na dor agora, queria saber quem era o rei atual. Só.
– Madley, acho melhor você esperar. — Kyro deixou a mão pesar sobre meu ombro.
Eu o encarei, olhei para mão e para seus olhos e ele sorriu fraco, parecia triste ou apenas, vazio. E em uma fração de minutos, senti suas duas mãos sobre meu rosto, apertando e me beijando com vontade.
No momento, não pensei em nós. Pensei em como estava repetitivo, os momentos, as situações, tudo. Eu queria terminar com aquilo logo, matar o feiticeiro que jogou a praga, liderar o reino e ser feliz para sempre. Não é tão difícil, mas estava tudo em chamas.
– Desculpe. — eu disse e me afastei indo em direção ao salão principal, onde ficava a cadeira do rei.
Segui confiante, o queixo erguido, o olhar frio. Algo que eu aprendi com meu pai todo esse tempo, é que alguém de sangue puro tem que se manter arrogante em certos momentos, e esse era o momento. Mesmo que eu achasse essa atitude idiota.
Abri a grande porta e dei de cara com os seguidores do meu pai em volta da cadeira, a frente do rei. Continuei e quando meus passos começaram a ecoar, eles se voltaram para mim e foi nesse momento que eu paralizei. Lá estava o seguidor mais fiel do meu pai, sentado ao trono enquanto acariciava o cavanhaque.
– Madley? — a voz dele soou assustada, quase como um múrmurio.
– Sr.Filch... — eu sussurei.
Ele se levantou em um pulo e caminhou rápido até mim. Ficou paralizado a minha frente.
– Todos nós julgamos que você estava morta. Você desapareceu por tanto tempo... princesa. — e ele disse isso com lágrimas nos olhos, como se fosse me abraçar a qualquer momento. Mas seu olhar se voltou para além dos meus ombros, abriu a boca em um perfeito sinal de horror.
Quando virei, eu vi Kyro com sua postura de arrogante e vários guardas com espadas apontada para ele.
– Ele está comigo, se afastem. — eu disse e eles encararam o Sr.Filch, não a mim. Mas ele foi caloroso e fez um sinal positivo com a cabeça.
O Sr.Filch me encarou com um olhar severo e murmurou algo como "eu preciso falar com você". Eu concordei e o segui, fomos até a uma sala aconchegante. A sala ficava em uma porta que passava despercebida a direita do salão. Tinha apenas uma janela, poltronas e uma lareira, sem contar na mesa de centro e as bebidas em uma prateleira.
– Vinho? — ele ofecereu enquanto eu me sentava e colocava minha mochila no chão.
Concordei e ele levou a taça até mihas mãos, agradeci. E então ele sentou a minha frente e esperou, e eu apenas o encarei.
– O que te faz confiar nele? Arrogante, filho do pior rei. Talvez da pior pessoa existente. — não pude deixar de encará-lo com olhos bravos. Com tantos assuntos importantes para discutir ele me vem falar sobre Kyro.
– Não! Ele não é assim. — coloquei a taça com força na mesa e logo mudei de assunto — Eu quero o trono, tenho o direito.
Ele bufou e acaricicou as têmporas. Parecia irritado, ou só apenas cansado.
– Sim, o trono é seu. Quando completar quinze anos, você poderá assumir. Mas você não pode manter uma relação amigável com aquele garoto, ele não é nosso aliado. A guerra ainda não terminou, entende? Ou o Rei Calário morre, ou nós morremos. — ralhou comigo.
– Não, eu tenho o direito de mandar na minha própria vida. — levantei, puxando a mochila para os meus ombros e sai.
Kyro estava parado ao lado de fora do salão, encostado na parede. Ele olhava para a janela, parecia longe.
– Mad. — disse e sorriu.
Eu sorri com os lábios cerrados e disse para ele me seguir. Ele o fez.
O meu quarto estava como deixei da última vez. Kyro pareceu desconfortável ali dentro, sem saber para onde ir ou o que fazer.
– Tudo bem, irei providenciar outro quarto para você. Não se preocupe. — eu ri baixinho e ele sorriu com as bochechas vermelhas.
Kyro sentou no sofá, esparramado e olhando novamente pela janela. Sua pele translúcida parecia brilhar a luz do sol, e o seu cabelo parecia ter crescido significamente. Então, abriu um largo sorriso ao perceber que eu o observava.
– Eu vou dormir. — disse, abrindo a porta e o garoto levantou, parou no lado de fora, eu me encostei na porta. — Hum, vou ir. — mordeu os lábios.
Rapidamente, ele me agarrou e me beijou com vontade. Me empurrou suavemente fechando a porta atrás de si. Os beijos seguiram dos meus lábios a minha bochecha, indo ao meu pescoço e apertando levemente a minha cintura com as mãos. Arfei e ele grudou os lábios contra os meus, desfez o nó do laço que prendia o meu vestido, acariciou minhas costas. Quando pisquei, ele estava sobre o meu corpo, minhas mãos arranhavam levemente seu peitoral e costas. Sua pele era clara e tinha algumas cicatrizes, mas era macia e os músculos eram rígidos.
– O que nós estamos fazendo? Isso é... — comecei, interrompendo o ato.
– Isso é o que duas pessoas fazem quando se sentem atraídas, ou quando se amam. — calou minhas palavras selando nossos lábios.
As bochechas dele estavam vermelhas, e meu cabelo caía como um véu sobre o garoto. Minhas pernas estavam sobre seu quadril e meus dedos faziam linhas imaginarias sobre seu peitoral. Ele brincava com pequenos cachinhos do meu cabelo e sussurava besteiras.
Foi o momento que me fez esquecer toda a maluquice que acontecia a minha volta. Me fez esquecer Charlie e Richard, e até mesmo minha posição como rainha.
Quando acordei o sol ainda brilhava. Kyro tinha boa parte do corpo iluminado pela estrela, dormia como um bebê. Estava calmo. Percebi que estava despida sem nenhuma peça de roupa, como ele, e logo me lembrei do acontecido. No primeiro momento me senti bem, amada. Lembrei o quão errado era aquilo, o que eu tinha feito era proibido e me senti mal logo.
Tropeçando, fui até a janela e encarei o mundo lá fora. Estava horrível, parecia que uma tempestade estava por vir mas o clima era quente, as plantas já estavam mais do que mortas e não se via pássaros.
– Você acorda realmente cedo. — Kyro disse quando me abraçou por trás e beijou o topo a minha cabeça.
– São apenas cinco horas da tarde. — eu ri.
– Do mesmo dia? — pude sentir a confusão que vinha da voz dele. Ri.
Esfreguei meus olhos e bocejei — Preciso de um banho. No exato momento três batidas vieram da porta e as empregadas entraram. Sinceramente, elas tinham rostos tristes e cansados.
– Desculpe, viemos limpar o quarto e banhar a senhora. — súbitamente elas encararam Kyro.
Nós não estavamos nus. E foi ai que eu percebi que elas temiam Kyro, mas o achavam de uma beleza estúpida. Mas na real, quem não o achava lindo?
– Tudo bem. Kyro, elas te mostrarão seu quarto. — eu disse, soltando nossas mãos. Ele pareceu parar de respirar e ao mesmo tempo, não saber o que fazer.
– Ahh, sim. — murmurou em meio a um sorriso.
Eu acenei e fechei os olhos, me senti tonta. Tonta como se caísse em um redemoinho e entendi o que estava por vir.
"Lá estava o loiro, o avô de Kyro. Ele tinha os olhos totalmente escuros, parecia um demônio. Mas algo o denunciava, ele não estava bem. Podia se ver as grandes olheiras escuras abaixo dos olhos, tossia com facilidade.
Enquanto ele escrevia em uma folha de carta, o seu nariz sangrou. Quando olhou para a folha, tinha apenas uma macha de sangue. Limpou o nariz rápido com medo de alguém ver e voltou a escrever, suas mãos tremiam fazendo-o borrar.
Levantou com uma dor insuportável e levou as mãos ao peito. Segurou um berro entre os lábios. Tirou o suéter e desabotou a camisa, viu a queimadura. Ela já estava ali a alguns dias, talvez, mais que uma semana, mas era horrível. Feia. Iria ficar marcado para sempre, se não morresse.
Ele foi até o espelho e encarou a marca, eram asas de anjo. Será que era bom sinal? Provavelmente, não. Já que só trazia dor. Então, ele tossiu novamente e sangue saiu. Sentiu a dor no peito e se aninhou no chão."
Quando acordei, ainda estava no quarto. O sol ainda não tinha nascido, devia ser cinco horas da manhã, algo assim. Prendi o cabelo em um coque alto e me sentei na cama, tentando ver além das cortinas.
Kyro não estava ali. Nem no chão, ao meu lado, ou muito menos no sofá. Gruni, queria que ele estivesse por perto para me ajudar a passar o tempo mas... Mas por quais motivos eu estava acordada a essa hora mesmo? Um "cri cri cri" agudo invadiu minha cabeça por minutos, tudo o que eu lembrava era de Kyro me amando. Apenas.
Sabe quando você sonha com algo que era muito legal, ou que você quer lembrar muito, mas não consegue? Foi assim que me senti. Eu queria muito me lembrar de tudo, mas nada vinha. Lembrei de Richard, e uma pontada de tristeza me alfinetou. Lembrei do meu pai e não pude deixar de sentir culpa, eu não tinha participado da cremação e, nem ao menos fui a praia jogar suas cinzas. Lembrei de Charlie e Hayley, e raiva me fez morder os lábios mas ao mesmo tempo, pena por Charlie.
Suspirei.
A marca de Charlie, as asas de anjo. A visão da noite passada correu a minha frente, era isso. O avô de Kyro, ele possuia a marca? Como?
Não posso negar que as vezes me sentia muito burra por minha lerdeza. Abri o guarda roupas como quem procura ouro e puxei a mochila, sentei no chão e puxei o diário mais antigo do avô.
Eu simplesmente, não entendia o porquê do avô de Kyro estar envolvido em tudo isso. Não eram os Sywn que tinham começado a briga, eram os Victins, era Calário. O loiro amaldiçoado não tinha nada a ver, muito menos Kyro.
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