Ever since New York
1 Capítulo Único
Notas iniciais
— Tá gravando?
— Espera só um—
— E agora?
— Agora sim, vai em—
— Já?
— Ação!
— Qual a lembrança que você tem mais marcante em sua cabeça daquele dia? — A voz feminina soou ao fundo. No visor da câmera era possível ver Park Jimin sorrindo, os olhos quase fechados, e a mente começando a viajar no tempo, mais especificamente vinte anos antes.
— São tantas coisas… — Começou ele, a voz doce, o sorriso ainda dançando nos lábios levemente rosados.
— O show no estádio, em Nova Iorque no Citi Field, foi o primeiro estádio dos Estados Unidos? — Continuou a mulher, seu olhar nunca deixando a figura que estava sentada na cadeira simples de madeira à sua frente. O vento balançava levemente os cabelos cortados, e levava do jardim, às costas do homem, as folhas soltas pelo outono.
— Sim, foi o primeiro.
— Deve ter sido emocionante, ver tantas fãs reunidas, ver que o seu trabalho estava sendo reconhecido…
— Sim. Foi gratificante ver todas reunidas, todas gritando nosso nome, cantando conosco. — Disse ele, a voz se perdendo no caminho assim como o olhar que tinha se levantado para a entrevistadora. — O mar de cores, todo o amor delas… — Jimin sorriu, voltando a olhar para a mais jovem, o sorriso nunca se perdendo. — Foi o dia mais maravilhoso da minha vida.
As pessoas presentes, todas atrás da câmera sorriram junto dele. Apesar das lembranças caóticas que eles tinham daquele dia, era o sorriso aberto e sincero que Park Jimin dava que eles sabiam que nunca esqueceriam.
— Conte-nos sobre aquele dia. O que levou àquele acontecimento.
Assim que a voz da mulher se calou, o silêncio se instaurou perante a câmera. O zoom focou bem no sorriso do homem sumindo e em como os ombros deste caiam assim como sua cabeça. Um suspiro foi suficiente para que a jovem o entrevistando mergulhasse em nervosismo.
— Foram várias coisas. — Jimin voltou a olhar para a câmera assim como deveria ser. Agora o sorriso voltava ao seu rosto com um resquício de tristeza, não deixando entrever os dentes brancos ou aquele brilho alegre no olhar. — Minha vida era um caos naquela época. Show atrás de show. Comeback atrás de comeback. Apesar de amar o que fazia, e amar até hoje, era cansativo, bem cansativo.
Outro suspiro saiu da boca de Jimin, e este sem perceber deixou o olhar ir para outra direção. Sua cabeça voltando novamente para vários anos antes.
— Naqueles anos eu achei que tinha superado tudo, que a falta de tempo era o que estava me deixando louco e sentindo aquelas coisas. — Um balançar de cabeça e um sorriso sem graça foram a única interrupção. — Naquela época eu não sabia o que era ser como eu era. Era errado, pelo menos me haviam dito que era errado. Passei a infância inteira ouvindo isso, passei os primeiros anos na empresa ouvindo aquilo, e mesmo com Namjoon sendo cabeça aberta como ele sempre foi… Mesmo ouvindo dele durante todo aquele tempo, eu não consegui aceitar até muito tempo depois que ser gay era o que eu era.
— Você ter declarado isso no show, em Nova Iorque, foi um marco na indústria. — Comentou a mulher percebendo que a sombra da tristeza consumia o homem que ela tanto respeitava à sua frente.
— Foi um escândalo, você quer dizer. — Jimin riu amargo e até um pouco feliz ao lembrar os tabloides apenas segundos depois de sua declaração. — Passei dias recebendo ligações de todos meus amigos, colegas e até de desafetos dentro da música. — Jimin riu de novo, a imagem de um chocado Taemin gritando pela tela do iPad ainda viva na sua mente.
— Você chegou alguma vez a imaginar o tamanho da mudança que sua declaração iria causar a partir daquele dia?
— Nenhum pouco! — Respondeu Jimin desta vez rindo, seu olhar vagando por trás da câmera, vendo Namjoon sorrir para ele e balançar a cabeça. — Eu sabia que ia ser difícil, eu sabia que ia ser um risco enorme, ainda mais em meu país, mas eu nunca cheguei a imaginar que literalmente metade do mundo fosse me dar as costas. — Jimin parou para respirar, deixando a entrevistadora um pouco tensa novamente. — Mas também não cheguei a imaginar o tamanho do apoio da outra metade. — Continuou ele arrancando dela um suspiro de alívio. — É incrível como as pessoas podem chegar a ser cruéis, e ao mesmo tempo é incrível como elas podem se juntar para fazer algo tão bom.
— Vários ícones da música naquela época saíram nas ruas de Seul dias depois. Inclusive o seu chefe, como foi para você chegar na Coreia e ver aquilo, aquele tipo de apoio? Você esperava por isso?
Jimin negou. Lembrava flashes daquele dia. Do seu nervosismo, de como esteve chocado, surpreso e como desmaiou ao menos umas três vezes antes de poder encarar a multidão. Os gritos o ovacionando, os gritos o xingando, os gritos de pessoas que não sabiam o que dizer…
— Foi… — As palavras não chegaram a sair de sua boca. A simples lembrança da greve do kpop, como os jornais chamaram a modo de piada, era uma bagunça em sua cabeça, apesar de lembrar claramente como foi o antes e o depois. Chegar em casa, exausto, emocionalmente abalado e protegido foi quase um alívio. Naquele dia sentiu o horror e o amor ao mesmo tempo. — Foi o que eu menos imaginei e ao mesmo tempo o que eu mais precisava.
— Desde Nova Iorque… — A jovem começou a falar, mas o olhar de Jimin a interrompeu, o silêncio povoando o espaço entre eles após suas palavras.
— Desde Nova Iorque eu senti que tudo tinha mudado. — Park voltou com o olhar para a câmera, concentrando-se no que havia ensaiado durante horas a fio dias antes. — Sair do armário para quarenta mil pessoas foi aparentemente o mais fácil da minha vida. O complicado veio depois. O BTS teve muito apoio pelo mundo todo, inclusive causou uma guerra entre os meios de comunicação em Seul… Tivemos shows cancelados, gravações prorrogadas e até prêmios devolvidos… Os meses depois disso foram cruéis para todos nós.
— O seu anúncio, além da óbvia tribulação que teve com a imprensa, teve alguma consequência dentro do grupo? — A pergunta era arriscada, e se ela não fosse quem era, Jimin sabia que dificilmente seria feita. Um sorriso saiu dos lábios carnudos novamente, seu olhar vagou entre a jovem e a câmera, e mesmo sabendo que tinha que seguir o roteiro dado por seu agente e Namjoon, ele decidiu que deixaria seu coração tomar as rédeas de mais aquela declaração.
— Se o BTS mudou minha vida, eu posso dizer que depois de Nova Iorque eu mudei o BTS.
— Seus colegas já sabiam de você?
— Na verdade foram eles que me jogaram na cova dos leões. — Jimin riu ao lembrar de insistência de Seokjin em encontrar primeiro seus pais antes de contar ao mundo a mais nova notícia. — Durante vários meses antes do show, foram deixadas pistas, pequenas coisas aqui e ali que fariam qualquer um com olhos atentos e muitas paranoias desconfiar. Entre eles, um muito nervoso eu e nosso chefe planejamos aquilo tudo.
— O seu namoro, naquela época, já era de conhecimento deles?
— Ah, não. Isso foi depois do show, depois da declaração. Éramos muito novos, ele era muito novo. Já era difícil de lidar comigo fora do armário...
— Poderia nos contar um pouco dos dois? Como era a vida de vocês no meio de tanto preconceito?
Jimin sorriu para a mulher, agradecendo por ter chegado ali tão rápido. Ele não havia aceitado aquela entrevista para reviver os traumas e alegrias do show em Nova Iorque, apesar de muita coisa ter sido resultado daquele dia. Não. Jimin tinha cedido aquele tempo de sua vida para falar sobre algo que ele esteve guardado durante anos, algo que ele já não aguentava mais esconder.
— O interesse dele sempre foi muito… Estranho. Eu lembro que sempre nos chamavam de irmãos, mesmo quando ele insistia que era apaixonado por mim. Foi difícil dizer não tantas vezes. Foi difícil negar que eu estava sim também apaixonado por ele.
— Pelo que me foi dito antes desta entrevista, os dois sempre foram muito unidos.
— Sim. Eu via nele o que eu sentia falta. Meu irmão mais novo morava em outra cidade, e eu passava tempo demais longe dele. Entre a saudade e ele, acabei por confundir muita coisa.
— Mas vocês ataram, não é verdade?
— Isso tomou mais tempo do que eu gostaria de admitir. — Confessou Jimin sorrindo embaraçado. Perguntou-se se naquela altura as pessoas que assistiriam o documentário já saberiam de quem estava falando… Era difícil imaginar que as fãs antigas de BTS fossem esquecer dele e de seu mais amado maknae.
— Como foi para vocês namorarem e trabalharem lado a lado?
Jimin mais uma vez respirou fundo e lembrou do sorriso doce e inocente que Jeon Jungkook sempre tinha nos lábios. Sorriu e suspirou olhando novamente para a câmera, deixando seu peito aberto, procurando aquele sentimento de leveza que ele sentia toda vez que estava ao redor dos que mais amava. As poucas rugas presentes em seu rosto se acentuaram quando o barulho de uma porta sendo aberta distraiu todos os presentes.
A pessoa que acabara de entrar sorriu tanto para Jimin quanto para a jovem sentada por trás da câmera. Park pensou por alguns segundos que o rumo daquela entrevista poderia mudar, mas era sua vez de contar os fatos.
— Depois de todo o caos, de me assumir e dizer ao mundo que eu era gay, que sou gay, o tempo passou rápido, a gente vivia brigando, vivia fazendo as pazes. Vocês jovens sabem como é, temos ânimo e tempo para tudo. E se não tem tempo, como era nosso caso, inventamos. — Jimin riu novamente, uma mão foi aos cabelos, segurando os fios rebeldes que teimaram em fugir do penteado com o leve vento que passava. — No começo foi difícil. Entre a pressão dele de que devíamos estar juntos, e meu medo de dificultar ainda mais as coisas… Acho que é a primeira vez que admito diante das câmeras que eu fui o covarde em assumir nosso amor. — O olhar sábio e brilhante percorreu a sala por trás da câmera, encontrando o olhar de Namjoon e seu sorriso eterno, e aqueles olhos grandes e expressivos que o encorajaram e até zombavam de si ao longe e no silêncio.
O silêncio depois de suas palavras foi interrompido apenas por um risinho involuntário de Namjoon a algo que Jeon Jungkook falou em sua orelha. Jimin os encarou curioso, e um pouco distraído, pensando bem em suas palavras, mas o seu contemplamento foi mais longo do que ele pensou. Com um olhar de aviso do marido, Park Jimin voltou com os olhos à lente da câmera e sorriu.
— Aceitar um idol gay naquela época foi… Drástico. Foram precisos alguns anos, e muitas chantagens, admito, para voltar tudo ao lugar. Claro que voltou a desabar quando descobriram sobre o nosso namoro… — Jimin balançou a cabeça rindo baixinho lembrando claramente do desespero de seu chefe com o jornal matutino daquele ano. — Se você pensar direito foi até engraçado. Eu causei uma revolução na indústria, mas não foi até o perfeito hetero do BTS sair do armário puxado por mim que tudo ruiu de vez. — À esta altura o sorriso de Jimin sumiu e causou em todos os presentes um sentimento familiar à de muitos anos antes quando o BTS teve de se separar. — As pessoas não entenderam sua orientação, muitos me acusar de torná-lo gay. Eu digo que é engraçado porque mesmo depois de tanto me defenderem, quando foi sua vez, parece que o que falaram antes sumiu no vento. Aquelas palavras de apoio que me foram dadas evaporaram quando foi a vez dele. E de repente estávamos de novo no meio do redemoinho outra vez.
— O BTS passou três anos parado, não é?
— Não foi bem parado, o grupo se desfez. A pressão foi tão grande que não tivemos alternativa. — Disse Jimin bem mais sério do que no começo da entrevista. Era palpável como o assunto o abalava. — Passamos três anos vivendo do que sabíamos melhor, dançando, cantando, compondo, um para cada lado. Foram os três anos que passei quase solteiro. — Jimin deixou um risinho escapar ao ouvir um murmúrio malcriado do marido. A expressão séria tinha caído por terra, indicando que as próximas palavras não eram tão cruéis assim. — Foram três anos que me fizeram perceber, que nos fizeram perceber na verdade, que somos uma família. Não existia Park Jimin sem Jeon Jungkook, e não existia mais Jikook sem BTS.
— É ISSO AÍ! — A voz grave de Namjoon se ouviu por trás das câmeras assim como várias exclamações por silêncio. Jimin riu voltando a animar a entrevistadora.
— Como impactou a volta do grupo na relação de vocês?
— Ah, foi estranho de verdade. Passamos três anos entre idas e vindas, comigo mais nos Estados Unidos e ele em Seul. As especulações nos jornais depois de ano e meio pararam, e para quando o BTS se reformulou, a maioria já tinha até parado de nos colocar nas manchetes principais. No primeiro show que fizemos foi até esquisito, fora os anos a mais, sabe, os joelhos já não eram os mesmos, a nossa sincronia estava… Totalmente errada. — Jimin piscou rapidamente, sua memória o levando as brigas que os sete tinham depois que se juntaram novamente.
— Mas isso foi ultrapassado, não é? Considerando que hoje estão casados e vivendo juntos.
— Sim, sim. Mas não foi fácil. As pessoas costumam romantizar muito amor. Dizer que almas gêmeas são feitas para sempre e que nada pode abalar o que o amor de verdade junta. Sabe o que eu digo para elas? — Sussurrou ele e voz audível, inclinando-se para frente com o piscar de apenas um olho.
— A verdade?
— Bem longe disso. — Jimin riu alto e bateu com uma mão no joelho, voltando a encostar o corpo na cadeira. Balançando a cabeça negativamente, e ainda rindo, ele continuou: — A ilusão em grande medida é o que nos mantém sonhando. E são nossos sonhos que nos mantém vivos. Claro que não aconselho a dizer que tudo é um conto de fadas, eu sempre deixo aquele gostinho de romance adolescente no ar. — Jimin ainda soltou um risinho ao ver como a jovem também lhe sorria feliz. Com um pigarreio a entrevistadora voltou os olhos ao papel, seguindo a sequência de perguntas que haviam sido combinadas.
— Da volta do BTS até o seu casamento, quanto anos se passaram? Vendo que é a primeira vez vocês falam sobre.
— Ah, uns, deixa ver, sete anos? — Jimin procurou Jeon com o olhar, vendo como ele concordava com a cabeça. — Isso, sete anos.
— E foi em segredo?
— Mais ou menos. Nunca nos pronunciamos, mas também nunca negamos. Eu não queria festa nenhuma, mas nossos amigos nos surpreenderam com uma semana de celebração nas Bahamas. — A lembrança do cheiro salgado da brisa foi o que primeiro que lhe veio à mente. — Já estava lá, frente a frente com o homem que eu amava e tinha passado tantos anos juntos, era difícil dizer não.
Jimin ainda alcançou a ouvir um ‘E nem iria’ vindo de trás da câmera que resolveu ignorar para não perder de novo o fio da entrevista.
— E depois?
— Se passou mais um ano, e o BTS se desfez de vez.
— Mas agora foi pela aposentadoria, não é?
— Os fãs chamaram assim. — Jimin riu e negou com a cabeça. — Jeon e eu queríamos ter uma família. Diferente do que eu pensei antes, de que nunca teria o espaço para ter filhos ou netos, ele me mostrou que estávamos prontos e dispostos a deixar o estrelato de lado. Eu não conseguiria criar meus filhos naquele meio. — Jimin negou com a cabeça lembrando bem as palavras sábias de um orgulhoso Taemin com um bebê rosado no colo.
— Sua carreira ainda segue na ativa apesar disso?
— Bem, sim. Eu ainda sou convidado em alguns programas em Seul, apesar de não gostar muito de voltar lá. — A careta que fez no final da frase foi inevitável. Namjoon e Jungkook já podiam sentir que teriam de editar aquilo antes de ir ao ar.
— Soube que o governo é contra as medidas de adoção entre casais homossexuais. É por isso que não voltou?
— Com certeza. Paramos tudo por uma família, e continuar lá era basicamente regredir em tudo o que queríamos. Pegamos nossas poucas malas, poucos familiares e viemos morar aqui definitivamente. Adotamos uma linda garotinha de doze anos e convencemos ao chefe que era importante ter uma filial da BigHit na América. — Jimin sorriu alegre de estar contando pela primeira vez sobre sua família, assunto que era um tabu em seu país natal. E feliz também de provar que sua carreira não se resumia apenas à um ex-Idol.
— Desde Nova Iorque muita coisa aconteceu, não é, Papai? — A entrevistadora disse entre lágrimas finas. O homem que ainda sorria alegre concordou. Jimin poderia dizer que naquele momento sua alma estava livre, seu peito estava leve. E foi aquele sorriso que a câmera congelou, o momento em que um pai olhava para sua filha com todo o amor que ele sentia por ela. Foi aquele momento que Jeon Jungkook armazenou em sua mente e sempre carregou consigo.
Foi aquele frame que as antigas Armys espalharam ao mundo mostrando que mais uma vez elas seriam fiéis aos seus meninos. Se o resto do mundo apoiava ou não… Bem, não era esse o assunto do Documentário.
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