Eve e Adam
1 Comecem o Nosso Mundo Novamente
Notas iniciais
Eu não deveria estar chorando. Pelo menos não naquele dia. Limpei meu rosto e respirei fundo, ainda lutando comigo mesma e repetindo que, infelizmente, aquilo não era um pesadelo. Puxei a cortina e verifiquei a multidão que aguardava meu tão esperado discurso de presidente do grêmio. Tantos defeitos que eu poderia ter adquirido e eu tinha que ter medo de palco? Poderia ser de barata, como minha amiga, Kathe.
— Agora, a presidente do grêmio, Eve Wothwoody — a diretora anunciou.
Comecei a hiperventilar e andar de um lado para o outro, ignorando o soar das palmas.
Estava presa em meus pensamentos de como escapar daquela confusão, quando senti duas mãos em meus ombros. Soltei um grito abafado que se tornou um gemido de frustração quando me vi encarando os olhos castanhos de Kathe.
— Você está horrível.
Revirei os olhos.
— Obrigada, gênio — Estava pronta para recomeçar meu desespero quando entendi o real motivo por ela estar na coxia comigo. Dei um passo para trás, erguendo as minhas mãos. — Não ouse. Já disse que não.
Kathe fez um bico.
— Estou querendo te ajudar, por favor.
Balancei a cabeça.
— Não vou deixar que você me hipnotize.
Ela cruzou os braços me dando um olhar altivo.
— Lembra-se que vai ter que fazer um discurso daqui a poucos instantes? Ou que terá que fazer um discurso de abertura no baile dos namorados daqui a dois dias?
Passei a mão por meu rosto, exasperada.
— Você tinha que me lembrar disso? — Bufei — Por essas e outras que evito o dia dos namorados.
Ela ergueu uma sobrancelha.
— O fato de você odiar o dia dos namorados não tem nada a ver com seu ex ter terminado com você nesse exato dia?
Senti uma pontada em meu peito e ajeitei meus óculos na ponta de meu nariz. Kathe sabia exatamente onde tocar na ferida, o que era desnecessário naquele momento. Falar dele era desnecessário. Minha amiga ficou parada observando minha reação e saboreando-se com ela.
— Eu não odeio o dia dos namorados. Apenas evito. — Desviei meu olhar para minhas mãos trêmulas. Estava protelando por muito tempo e sabia que logo alguém viria atrás de mim. — E não tem a ver com o Adam. Não daríamos certo e todos já sabiam disso.
— Mas você nunca quis descobrir o motivo dele ter terminado com você?
Dei de ombros.
— Ele percebeu que clichês não dão certo. A nerd da sala nunca iria acertar o comportamento do bad boy e vice versa. — Ergui uma mão, interrompendo as palavras que meus ouvidos já estavam acostumados a escutar quando esse assunto era abordado. — Eu sei, eu sei. Não estereotipar as pessoas, Eve. Só que essa é a verdade, Kathe.
Ela estava pronta para rebater o meu argumento quando a cortina na qual eu estava devidamente escondida se abriu abruptamente e a diretora veio na minha direção com os olhos em brasa. Recuei por puro instinto, imaginando que ela iria me pegar pela orelha e me arrastar até aquele palco de qualquer jeito. Era o que acontecia quase todas as vezes em que tinha que discursar. Só que antigamente eu tinha escapatória. Uma escapatória que não fazia mais parte de minha vida há quase um ano.
— Senhorita Wothwoody, não irei permitir que faça a mesma coisa da última vez — Correr para a casa em uma velocidade que era desconhecida até para mim —
Todos estão esperando. Então, vá e faça o seu discurso.
Abri a boca, sentindo minha cabeça rodar e minha garganta secar. Passei a língua pelos lábios e pensei na possibilidade de dizer que havia acordado sem voz. Olhei para Kathe, em um pedido silencioso de ajuda. Ela apenas deu de ombros me dando um olhar altivo. Ela estava jogando na minha cara que tinha me oferecido ajuda e eu havia recusado. Só que não iria servir de cobaia para a nova arte dela e a sua ideia de ser seguidora de Freud.
— Falta alguma coisa, senhorita Wothwoody? — A diretora insistiu.
— Eu acho que não — Respondi acabando com meu plano de mudez. Suspirei e acenei com a cabeça lentamente, com medo de meu estômago sucumbir — Não, não falta nada.
Ela assentiu satisfeita.
— Então podemos ir — Ela sinalizou para a cortina e deu um passo para o lado, dando-me passagem.
Derrotada por meu medo, andei com cautela temendo que minhas pernas cedessem. Talvez se eu desmaiasse, fugisse dessa responsabilidade. Essa era a maldição de morar em cidade pequena. Todos os seus professores já deram aula para os seus pais e se seus pais foram prestigiados oradores — como os meus foram — tem a tendência de querer que você também seja. Todos têm. E por mais que implore e mostre inúmeros sinais de que irá desmaiar ao abrir a boca na frente de uma multidão, ninguém lhe dá ouvido e diz que vai se acostumar.
Meus olhos se encheram de água mais uma vez e minha respiração se tornou arfantes. Conseguia sentir meu coração querendo saltar em minhas mãos. Todos me encaravam com expectativa enquanto me aproximava do microfone. Espiei por cima dos meus ombros e vi a expressão rígida da diretora. Voltei a encarar as pessoas e puxei o pedaço amassado em meu pescoço enquanto limpava a garganta.
— Boa tarde — Cumprimentei e respirei fundo. Pausei, rezando mentalmente para que se eu saísse daquela situação. Iria aceitar a oferta de Kathe. — Meu nome é…
As luzes se apagaram e piscaram em vermelho, seguido pelo alarme de incêndio. Todos se levantaram temerosos com o que estava acontecendo. Já eu estava me segurando para não sentar no chão e agradecer pela velocidade que minhas preces eram atendidas. As mãos de Kathe em meu antebraço foram as únicas coisas que me impediram de fazê-lo.
— Temos que sair daqui, Eve — Ela disse com a voz urgente — Não está escutando o alarme de incêndio?
Ela começou a me puxar para a multidão que se encaminhava para a saída simultaneamente em que minha mente estalou. Aquele milagre era muito conhecido por mim como uma escapatória. Levantei os olhos até o alto do anfiteatro, acima dos refletores, e vi uma sombra descendo as escadas com a velocidade e a destreza que só alguém parkour poderia. Segurei Kathe pelos ombros, interrompendo seu surto.
— Foi ele, Kathe.
Ela franziu o cenho.
— Ele quem? — Questionou. Demorou apenas um segundo para que a verdade também aparecesse em seus olhos. — Adam fez isso? Por quê?
Retornamos ao fluxo de pessoas em direção a saída do prédio.
— Não sei e nem irei perguntar — Retorqui. Respirei fundo, lembrando de minha promessa e encarei-a. — Você venceu. Faça. Me hipnotize.
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— Como está se sentindo? — Kathe perguntou guardando o relógio antigo no bolso de sua calça jeans. Ela se inclinou na minha direção, ansiosa. Dei de ombros. Na verdade não estava sentindo nada de diferente. — Não sou profissional, então não sei se isso significa que funcionou ou não. Fiz uma coisa básica. Só irá até onze e cinquenta e nove do dia dos namorados, até lá você já terá feito o discurso e não precisará mais disso.
— O que especificamente você está me obrigando a fazer?
Ela pressionou os lábios juntos,ofendida.
— Não estou te obrigando a nada. É uma sugestão. E é para que você não tenha medo de dizer o que tiver que dizer.
Meus olhos se arregalaram.
— Você está brincando comigo! — Exclamei — Vou dizer o que me vier à cabeça? Kathe, o mundo só funciona porque as pessoas sabem quando é hora de calar a maldita boca. Puta merda, estou com vontade de jogar você pela janela.
Minha amiga sorriu com a ameaça.
— Viu? Já está funcionando.
— Eu diria isso sem a hipnose.
Ela bufou.
— Duvido muito — Deu um sorriso perverso — Sabe o que deveria fazer agora?
Cruzei os braços.
— Trancar-me em um quarto e esperar a morte lenta?
Ela balançou a cabeça com força.
— Confrontar Adam.
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Era apenas um teste, que falharia, com certeza. Então qual era o motivo para eu estar tremendo como se estivesse diante de uma multidão furiosa? Fazia apenas um ano que não nos falávamos. Não, fazia 364 dias. Ergui o pulso e bati na madeira maciça, engolindo a seco em seguida. Esperava que Kathe tivesse conseguido, caso contrário iria abaixar minha cabeça e correr como nunca. Dei um passo para trás, pronta para ir embora, e senti algo pressionado em minhas costas.
— Deus, eu não sabia que o Senhor era tão sacana.
Senti seu peito balançando em uma risada controlada.
— Culpando os superiores, Eve? Pensei que isso fosse uma coisa minha — Ele gracejou. Fechei meus olhos com força e me afastei, por mais que minha pele ainda possuísse o rastro quente e seu cheiro tomasse conta de meu olfato. — Algum motivo especial para essa visita?
Engoli a seco. Era a hora. Virei-me para ele e calei-me diante de sua visão. Por mais que estudássemos na mesma escola, nos evitávamos como cão e gato. Não, apenas eu o evitava. Sua pele morena parecia chocolate derretido com o suor descendo por seu rosto, seus olhos escuros encaravam-me com diversão acompanhando seu meio sorriso. Seus cabelos ondulados estavam úmidos e não precisei ser nenhum gênio para saber que ele estava voltando do treinamento de parkour.
— Gosta do que vê?
— Muito — Respondi sem pensar. Tomando consciência do que havia acabado de falar, senti meu rosto ficando vermelho. Seu sorriso se ampliou. — Muito mesmo — Pus a mão em minha boca, deixando que apenas palavras incompreensíveis saíssem. Esperei até recuperar o controle e o encarei com os braços cruzados — Por que você fez aquilo?
— Não sei do que está falando — Ele respondeu desviando o olhar para o vizinho.
— Não se faça de estúpido, Adam — Rebati e ele voltou a me olhar. Presa em meu discurso, não percebi o brilho estranho em seus olhos. — Eu te vi saindo do teatro com aqueles saltos incrivelmente difíceis de serem feitos. E quer saber de uma coisa? — Ele ergueu uma sobrancelha e eu pus as mãos na cintura — Não preciso mais da sua ajuda.
— Ah, não? — Debochou pondo uma mão no queixo. — Eu percebi o quanto estava se saindo bem quase desmaiando e/ou vomitando em cima do pessoal da turma. Ah, você tem um novo discurso amanhã, não é?
— Isso não vem ao caso! — Fechei os punhos com força, sentindo o meu rosto ficando vermelho — Não quero que se meta na minha vida. Você não tem mais esse direito desde que fez o favor de sair dela.
Seus olhos se arregalaram.
— Desde quando você briga com as pessoas por te abandonarem?
Levantei um dedo na direção de seu rosto.
— Não ouse! — Virei-me para longe de seu rosto rígido — Já dei o meu recado. Não preciso mais de você, exatamente como você nunca precisou de mim.
Estava estupefata com as palavras que tinham saído da minha boca, mas nada tiraria a satisfação de ver o espanto nos olhos de Adam. Ergui meu queixo e pisei com força na direção da saída. Nunca tinha me sentido tão poderosa quanto naquele momento. Pelo menos foi o que senti antes de ser puxada para trás e trombar com o corpo de Adam.
— O que aconteceu com você? — Perguntou desconfiado.
— Não interessa.
Ele me soltou lentamente e passou a mão pelo rosto.
— Olha, eu queria conversar com você há um tempo — Disse com cautela observando minha reação — Muito tempo, na verdade — Deu um sorriso triste — Será que podemos nos encontrar mais tarde quando você estiver mais calma?
Franzi o cenho.
— Estou ótima — Retorqui — Se quiser dizer algo, diga agora.
Seu sorriso se tornou genuíno e ele deu um passo para trás.
— Não seja ansiosa, Eve.
Ele se inclinou na minha direção e pressionou os lábios em minha bochecha. Fiquei de boca aberta com a demonstração de afetividade e só fui capaz de ver ele se afastando como se fosse a coisa mais normal do mundo. Assim que a porta se fechou tive vontade de bater minha cabeça no asfalto. Era isso o que sempre acontecia. Eu tentava argumentar e Adam me envolvia com os seus olhos e sorriso que fazia suas covinhas se destacarem. Mas Kathe tinha me dado um poder. E eu não iria desperdiçar.
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— Isso é uma boa coisa, não é, Eve? Adam quer conversar— Kathe questionou do outro lado da linha. Revirei os olhos. — Pelo silêncio, acho que não — Riu — Teve algum problema em casa por causa do seu dom?
Joguei meu corpo para trás na cama.
— Disse que a comida da minha mãe é horrível.
Escutei o riso abafado de Kathe.
— Mas é.
— Só que ela não precisava saber — Passei a mão pelo rosto tendo vontade de arrancar os cabelos. — Ela me pôs de castigo por uma semana depois do meu discurso do dia dos namorados...
Escutei algo estalando em minha janela.
— Ela vai estar lá?
— Acho que sim — Respondi com a mente vaga ao escutar mais um estalar na janela. Aproximei-me com cautela, com medo de que fosse um assaltante — Kathe, acho que tem alguém aqui.
— O quê? Liga para o polícia.
— Eu vou, mas preciso ter certeza — Abaixei o celular, deixando-a falando sozinha por alguns segundos e abri a janela. Tive que ficar encarando o chão do primeiro andar por conta da escuridão até os meus olhos se acostumarem. Tomei um susto — Adam! O que você está fazendo aqui? São… — Pausei olhando para o celular — Quase duas da manhã.
Sorriu.
— Você deveria estar dormindo.
— E você deveria se jogar do segundo andar — murmurei comigo mesma colocando o celular no ouvido — Kathe, sem pânico. É o idiota do Adam.
— Eu ouvi isso! — Ele disse no andar de baixo.
Coloquei minha cabeça na janela.
— Se eu fosse você, calaria a boca.
— O Adam está aí? — Kathe repetiu espantada — Quando ele disse que queria conversar, pensei que seria amanhã. A luz do dia, sei lá. Mas isso é tão romântico. Macabro também, mas muito romântico.
— E clichê. Muito clichê. — Acrescentei. — Pelo menos com essa coisa de estar hipnotizada, posso falar umas boas verdades para ele.
Kathe limpou a garganta.
— Eve, espere. Tenho que te falar algo.
— Kathe, depois você fala. Adam está jogando pedras na minha janela e se acordar minha mãe, sou uma mulher morta. — Não esperei a resposta e desliguei o telefone, focando no que acontecia embaixo da minha janela. — Se você tacar mais um pedra, juro que devolvo todas ela.
— Ainda afiada, Eve?
— Ainda aqui, Adam?
Ele deu um passo para trás e veio correndo na direção de minha janela. Dei um passo para trás, dando-lhe espaço. Adam passou a mão por sua jaqueta como se isso não tivesse sido nada. Na verdade, para ele, realmente não tinha. Só que por conta dos poucos passos que eu havia dado para trás, Adam parou com o corpo incrivelmente perto do meu. Engoli a seco, me concentrando em seu olhar sério.
— Você estava ocupado e não podia vir amanhã? — Cutuquei, indo me sentar na cama e querendo fugir de seus olhos. — O que quer, Adam?
— Conversar, Eve — Ele caminhou até onde eu estava e se ajoelhou na minha frente — Sabe que não sou de ficar enrolando, por isso serei direto. Quero me redimir do que fiz. Quero você de volta. Estou cansado de fingir que irá ficar melhor com outra pessoa que tem menos problemas do que eu. Caramba, a gente se encaixa tão bem por mais que sejamos totalmente diferentes. Você é minha ex-namorada, mas eu quero que comecemos nosso mundo novamente. Recomeçar como Eve e Adam. — Ele aproveitou meu estado estático e pegou a minha mão, beijando-a levemente. Tremi contra a vontade — Você é quase meu pecado capital, Eve.
Tive que piscar com força e quase cuspir as palavras.
— Por que terminou comigo?
Ele franziu o cenho (algo que sempre fazia quando estava frustrado)
— Você não me escutou? — Perguntou — Aquela velha história de sermos de mundo diferentes na escola e eu querer que tenha o melhor. Só que eu preciso de você, Eve. — Ele abaixou a voz, mantendo a urgência de suas palavras. Eu ainda estava estática — Tive medo que precisasse demais de você e me abandonasse.
— Não sou seu pai — Respondi automaticamente — Eu sempre estive ali por você, Adam. Nos bons e maus momentos. Quando me quis e quando me empurrou. Amei-te e entreguei o meu coração, cortei minha pele ao meio e te expus cada músculo, veia, osso. E o que você fez? Terminou sem me dar uma explicação. Sabe quantas noites eu passei pensando que estava com outra? Que eu não tinha sido o suficiente? 365 noites, Adam. Um maldito ano — Levantei-me com os olhos marejados de água. Limpei-os com raiva — Agradeço a ajuda, mas quero que saia daqui.
Ele se levantou magoado.
— Eve…
Apontei para a janela.
— Saia, Adam. Por favor.
Ele suspirou e seus ombros caíram enquanto ia para a janela. Só que eu sabia que não seria tão fácil. Adam nunca desistia com facilidade, isso tinha sido uma coisa que eu aprendi com ele.
— Boa sorte amanhã — Desejou-me.
Assenti e o vi atravessando uma perna. Ergui uma mão.
— Adam, espere — Ele parou arrastando os olhos ansiosos na minha direção — Não quero que me ajude amanhã. Farei o discurso e não quero que ninguém me atrapalhe.
Pressionou os lábios juntos.
— Tudo bem — Abriu a boca para acrescentar algo, mas parou e balançou a cabeça — Boa noite, Eve. Feliz dia dos namorados.
Escutei o baque surdo de seu corpo contra a grama simultaneamente que me jogava em minha cama soltando mais uma rodada de lágrimas e noites acordada. Não! Pulei da cama e fui pegar o papel em minha mesa de cabeceira, relendo o discurso que havia preparado e memorizando até que o sono me dominasse.
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— Acho que foi dura demais — Kathe disse ajeitando meu vestido. Todos estavam no salão principal esperando minhas palavras de abertura do baile. Seriam poucas, nada para se preocupar — Ele está realmente arrependido. Demorou? Sim, mas antes tarde do que nunca.
Coloquei as mãos em seus ombros.
— Olhe, Kathe, agradeço tudo o que fez por mim, mas não quero mais falar disso — Dei um sorriso orgulhoso — Obrigada por me dar coragem com aquela hipnose. Nunca teria dito aquilo em um dia normal.
Kathe abaixou os olhos, envergonhada e soltou o ar.
— Eve, tenho que te contar uma coisa.
— Senhorita Wothwoody, está na sua hora — a diretora chamou e apontou o dedo na minha direção — Espero que não tenha nenhum acidente dessa vez — Pressionou os lábios juntos, rígida e sumiu atrás da cortina.
Voltei meu olhar para a minha amiga.
— O que queria me dizer?
Ela balançou a cabeça com força e sorriu.
— Boa sorte — Começou a me empurrar até que eu atravessasse a cortina. — Estarei aqui atrás caso queira fugir para a Cuba.
— Obrigada — Sorri.
Parei de frente da multidão e diferente das outras vezes, não foi a visão de todos esperando as minhas palavras que aumentou minha pulsação. Foi ver que Adam estava ali na frente, com os braços cruzados esperando escutar tudo o que eu tinha a dizer sobre o amor. E eu tinha tanto.
Ajeitei o microfone.
— Eu já me apaixonei e deu errado — Comecei mantendo os olhos no de Adam, vendo-o engolir a seco — Doeu e eu fico me perguntando o que deu errado em um amor tão bom até hoje. Ele era perfeito com as imperfeições dele e as suas palavras era verdadeiras mesmo quando eram mentiras. Eu tinha planos e ele vontades. Nos completávamos, e eu poderia dizer que o amor é só isso. Porém não é. Você, ás vezes, tem que errar para saber se realmente aquela pessoa que está é a certa. A prova de que é um amor verdadeiro é que mesmo você tendo errado, ele ainda vai estar do seu lado dizendo que tudo vai ficar bem e que irão superar juntos. É dar apoio mesmo quando você for o motivo da queda. Meu amor foi dolorido, mas foi meu. Vivam o seu clichê, por mais inovador que ele seja. Simplesmente porque o amor é clichê e… Ah, eu não consigo. Amar é uma droga. Está vendo aquele garoto ali — Apontei na direção do meu ex — Adam, você foi o pior acerto de toda a minha vida e não tinha a porra do direito de voltar a ela desse jeito tão súbito e de mexer comigo. Você me rasgou e assistiu sangrar. Agora quer me suturar? Começar o nosso mundo novamente?
— Sim, Eve — Ele se apoiou na ponta do palco e tomou impulso, subindo — Eu quero o nosso mundo de volta. Sim, doeu terminar com você, porque era o meu apoio e eu caí de cara no chão com a realidade que tinha te perdido — Ele passou o braço ao redor de minha cintura e me puxou com força — Quero te suturar e quero que me suture. Você não foi a única a sangrar, Eve. Só foi a única que aparentou sentir a dor.
— Seja direto, Adam — Pedi ainda presa em seus olhos — Diga.
Ele sorriu, pondo uma mecha do meu cabelo atrás da orelha.
— Eu quero morder a maçã de novo, Eve — Gracejou fazendo-me sorrir. — Eu te amo.
Abri a boca para responder quando o relógio anunciou a chegada da meia noite. Abaixei os meus olhos e percebi que estava sendo observada por mais da metade da escola. Minha pulsação aumentou e eu me vi prestes a desmaiar. Desvencilhei-me dos braços de Adam e corri para a cochia, trombando no corpo de Kathe.
— O que você está fazendo, Eve? — Ela berrou me sacudindo pelos ombros — Você o deixou sozinho no palco.
— Meia-noite, Kathe — Lamentei — O medo voltou.
Ela suspirou, parecendo cansada.
— Você nunca esteve hipnotizada, Eve. Era placebo — Meus olhos se arregalaram e Kathe assentiu, impaciente — Sim, sim. Sou uma péssima amiga, mas você precisava superar isso. Agora vai atrás dele, Eve. E diz o que sente.
Pisque, acordando daquele sonho e fui em direção ao palco, parando apenas para apontar para Kathe o meu olhar mortal.
— Vou me vingar, Katherine.
Ela balançou a mão.
— Ok, agora vai atrás dele.
Urgência me tomou quando vi que Adam não estava mais no palco e todos perceberam, já que abriram um caminho até ele — que caminhava com ódio para a saída, típica cena de filme adolescente. Pena que não tive tempo de fazer piada — e não perdi tempo antes de pular do palco e correr até ele. Puxei-o pelo antebraço e antes que pudesse escapar novamente, o beijei, fazendo com que todos os sentimentos que me privei durantes esses 365 dias tomassem conta do meu corpo e daquele momento.
— Seu amor dói, mas eu quero recomeçar o nosso mundo, Adam — Sorrimos juntos — Eu te amo, por mais clichê que seja isso.
Ele tocou o meu rosto levemente.
— Pare de ser lógica, Eve.
— Ah, Adam. Você esqueceu que o amor é ilógico?
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