Evangelion: Shattered Thresholds
21 Episódio 21: Mente em Ruínas, Coração Inabalável
Capítulo 177: Tensão Doméstica / O Perigo do Café da Manhã
O sol da manhã mal atravessava as cortinas fechadas do apartamento de Misato, lançando raios suaves sobre a sala bagunçada. Latas de refrigerante vazias. O zumbido leve da televisão ainda ligada. E no sofá — calor.
Kai se mexeu lentamente, ainda meio adormecido. Asuka estava encolhida ao lado dele, a cabeça repousando contra o peito dele, uma mão agarrada ao tecido da camisa como um salva-vidas, mesmo dormindo. A respiração dela era calma, os traços suaves, suavizados pela rara paz do descanso.
A TV murmurava ao fundo, reprisando um programa noturno que ninguém se importava. Nenhum dos dois se deu ao trabalho de desligá-la. O único som era o brilho da tela e o zumbido distante da cidade de Tokyo-3.
E então — um clique.
A porta da frente se abriu com um rangido.
Um par de botas pesadas tocou o chão.
O estalo familiar — o som inconfundível de uma lata de cerveja sendo aberta.
Misato.
Ela suspirou alto, murmurando pra si mesma: "Ughh... cedo demais pra isso..."
Houve uma pausa.
"Ora, ora, ora," cantou a voz de Misato, carregada de veneno divertido. "O que temos aqui?"
Asuka despertou como se tivessem jogado água gelada nela.
Os olhos se arregalaram, o cérebro tentando alcançar os acontecimentos.
Kai mal teve tempo de entender o que acontecia antes que Asuka explodisse, empurrando-o com tanta força que ele caiu do sofá.
Ele entrou em pânico no meio da queda, os braços agitando-se ao vento antes de bater no chão.
"AAAAHHH!!! O QUE TÁ ACONTECENDO???"
"O-O QUÊ?!" gritou Asuka, o rosto já completamente vermelho.
Misato caiu na risada. "Oh-ho-hooo, isso tá melhor do que eu imaginava!"
Ela deu um longo gole na cerveja, sorrindo com crueldade. "Interrompi alguma coisa?"
"N-NÃO!!!" Asuka praticamente berrou, os braços se debatendo em pânico. "NÃO ACONTECEU NADA! NADA MESMO!"
Misato inclinou a cabeça como uma predadora brincando com a presa. "Ah é? Nada, é?"
Ela olhou do cabelo bagunçado de Asuka até a camisa amassada de Kai.
E sorriu.
"Então, Selvinha," provocou, com olhos brilhando. "Vai ficar pro café da manhã?"
Tudo parou.
Tempo.
Respiração.
Lógica.
O cérebro ainda sonolento de Kai demorava a acompanhar o caos. Ele olhou para Misato. Depois para Asuka, que o encarava como uma pantera prestes a atacar.
Kai esfregou os olhos e piscou, confuso.
"Café da manhã?" perguntou, grogue. "Eu aceitaria um café da manhã."
A sobrancelha de Misato subiu, e o sorriso só aumentou.
Asuka gemeu como se estivesse sendo exorcizada.
"MEU DEUS — VOCÊ É UM CASO PERDIDO!!!"
Misato riu tanto que quase derrubou a cerveja. "Pfft—HAAHAHAHA!!!"
Kai estava cansado demais pra se importar. Ainda piscando pra acordar.
Asuka o fuzilava com um olhar de traição tão intenso que poderia estilhaçar vidro, depois virou a raiva para Misato.
A voz saiu alta e venenosa. "Eu JURO, Misato, se você não calar a boca—"
Mas Misato estava impassível. "Ahhh, como eu senti falta disso," riu, vendo Asuka marchar em direção à cozinha. "Vocês dois são tão divertidos."
Kai se sentou direito, o peso da situação finalmente caindo sobre ele.
Misato se inclinou, abaixando a voz num sussurro conspiratório.
"...Então," disse, com um sorriso de quem já venceu, "já está com privilégios de namorado, é?"
Ela tomou outro gole, como se saboreasse a vitória.
Kai suspirou. Ainda zonzo, sussurrou de volta: "Shhh, não fala isso alto! Vai que ela desiste de cozinhar pra mim."
Misato quase cuspiu a cerveja. "PFFT—HAHAHAHA!!!"
Ela deu um tapa carinhoso nas costas dele. "Ahh, ainda bem que eu voltei pra casa cedo."
Da cozinha: "EU TÔ OUVINDO TUDO, IDIOTA!!!"
Misato riu mais alto, a voz ecoando de pura alegria. "Você que se cuide, Selvinha."
Ela se encostou no balcão, cerveja na mão. "Mas ó — se ela tá cozinhando pra você, você já é uma lenda."
Kai forçou um sorriso nervoso.
Misato sorriu ainda mais. "Só espero que ela não tente te envenenar por vingança."
Da cozinha: um estalo alto.
A voz de Asuka, afiada como lâmina: "EU OUVI ISSO TAMBÉM!"
Misato piscou. "Espero que goste dos ovos bem passados."
Agora Kai estava genuinamente preocupado. Tentou manter a calma.
"Até parece, Misato," gaguejou. "D-devo me preocupar?"
Ela se inclinou mais uma vez, sussurrando como um demônio no ombro dele.
"Hmm... não sei, não... você já viu a Asuka cozinhando com raiva?"
Um barulho assustador ecoou da cozinha.
Kai congelou.
O sorriso de Misato ficou maligno. "Diria que suas chances estão em... 50/50."
Ela deu um tapinha no ombro dele.
"Boa sorte, Selvinha."
O cheiro de óleo fervendo e ovos supercozidos encheu o apartamento como um aviso.
Kai se aproximou da cozinha com passos cuidadosos, como quem sabia exatamente o quão perto estava do perigo. O coração ainda acelerado pelo susto de Misato e o empurrão violento de Asuka. Cada instinto gritava para ele recuar.
Mas ele foi mesmo assim.
Ela estava lá — vermelha de raiva, furiosa, e em colapso culinário total. A frigideira chiava, os ovos borbulhavam com caos mal contido. A espátula repousava no balcão como uma arma abandonada no meio da guerra.
Kai deu um passo.
"Precisa de... ajuda?" perguntou, voz baixa.
Asuka se virou lentamente. Muito lentamente.
Os olhos travaram nos dele como lasers. A expressão? Pura descrença perigosa.
"...Ajuda?"
O tom dela era um pavio aceso.
Ela pegou a espátula novamente — não para usar. Só para dar ênfase.
Depois, WHACK. A espátula bateu no balcão.
"EU TÔ COM CARA DE QUEM PRECISA DE AJUDA, SELVINHA?!"
Os instintos de sobrevivência de Kai entraram em ação.
"Não mesmo," respondeu rápido, mãos erguidas. "Você tá com tudo... sob controle. Vou só esperar ali no sofá, tá bom?"
Ele virou pra sair. E então parou.
Olhou de novo e disse, um pouco mais suave:
"...E não é que você fica linda cozinhando?"
E então correu.
Atrás dele, um barulho metálico contra a pedra da bancada.
"Q-QUE DROGA FOI ESSA?!"
Ele não olhou pra trás. Nem ousou.
Kai se lançou no sofá como se fosse uma zona segura, o coração disparado. Misato levantou a sobrancelha, observando ele aterrissar com toda a graça de uma torre desmoronando em câmera lenta.
Ela deu um gole longo e lento na cerveja.
"Essa foi ousada, Selvinha."
Ela se inclinou, com um sorriso. "Acha que vai sobreviver ao café da manhã?"
Antes que ele respondesse —
O som de ovos sendo mexidos com a fúria de mil sóis ecoou da cozinha.
"TCH! IDIOTA!" A voz de Asuka cortou o ar como uma lâmina.
Misato sorriu, dando tapinhas no ombro dele como se ele fosse embarcar pra guerra.
"É. Ela tá toda mexida."
Kai suspirou e se recostou no sofá.
Ele precisava de uma distração. Uma inversão da pressão.
Olhou de lado para Misato, levantando uma sobrancelha.
"E quanto a você, hein?" perguntou, tentando soar casual. "Onde você passou a noite toda? A gente tava preocupado."
Misato parou.
Só por um segundo. No meio de um gole.
Os olhos deslizaram até Kai, um leve ajuste na postura.
Então — o sorriso voltou. Mais devagar. Mais calculado.
"Oooh? Tentando inverter o jogo, é?" ronronou.
Ela se recostou, cruzando as pernas com um ar exagerado de mistério.
Deu de ombros como alguém com segredos demais e vergonha de menos.
"Ah, você sabe. Só... trabalhando. Negócios importantes, secretos e adultos da NERV."
Outro gole lento.
Então — ela se inclinou.
"...E talvez, quem sabe, me divertindo um pouco."
Um brilho perigoso surgiu nos olhos dela.
"Quer arriscar um palpite de onde eu estava, Selvinha?"
Kai cruzou os braços e bateu o queixo com os dedos, olhos semicerrados com exagero teatral. Vasculhou Misato de cima a baixo como um detetive experiente.
Mesma roupa de ontem. Jaqueta um pouco amarrotada, saia meio torta. Cabelo? Um pouco mais bagunçado que o normal — não como quem acabou de sair da cama, mas como quem tentou se arrumar no retrovisor de um carro em movimento.
E o cheiro. Não só cerveja. Outra coisa. Colônia.
Ela o observava analisar, sorriso nos lábios, sobrancelha arqueada em desafio.
"E aí? Qual é o veredito, detetive?"
Kai sorriu.
"Eu podia dizer só que você tava bebendo," começou, abaixando a voz teatralmente, "mas até o Pen-Pen perceberia isso."
Misato riu.
Ele se inclinou um pouco.
"Mas esse cheiro... não é de cerveja. Não é seu. Parece que você esteve bem ocupada com alguém, hein???"
Misato congelou — só por um instante.
"PFFT—HAHAHAHA!!!" Explodiu em risos, jogando-se de volta no sofá e quase derrubando a cerveja. "Ahhh, seu merdinha."
Ela apontou pra ele, gargalhando. "Detetive Selvinha, hein? Olha só você, juntando as peças."
Ela tomou um gole lento, quase teatral, saboreando o momento.
Depois, a voz baixou um pouco. A brincadeira deu lugar a algo mais sincero.
"...Tá bom, tá bom. Você me pegou."
Ela inclinou a cabeça, observando a reação dele.
"Eu estava com o Kaji."
Falou como se fosse a coisa mais normal do mundo.
Mas havia algo de orgulhoso nos olhos — como uma raposa exibindo a presa.
"E," completou, com um sorriso, "me diverti bastante."
A mente de Kai girava. Nem teve tempo de formular um pensamento antes que—
Um barulho alto veio da cozinha.
"TCH! MISATO, CALA A BOCA!!!"
A voz de Asuka, nervosa e furiosa, cortou as paredes como estilhaços.
O sorriso de Misato se ampliou perigosamente.
"Ohhh? Que foi, Asuka?" gritou, melosa. "Tá se sentindo atingida?"
Outro estrondo vindo da cozinha.
"EU VOU JOGAR ESSA FRIGIDEIRA EM VOCÊ!!!"
Misato piscou pra Kai como se tivesse completado uma cartela de bingo.
"Ahhh, essa manhã tá ficando cada vez melhor."
Mas o rosto de Kai franzia.
O maxilar tenso.
A testa fechada.
E sem pensar, ele murmurou:
"Pera aí... por que a Asuka se sentiria atingida por isso?"
Misato congelou.
Só por um segundo.
Então o demônio voltou.
"Ohhh," cantarolou, espreguiçando-se. "Essa é uma boa pergunta."
Da cozinha — silêncio absoluto.
Misato se inclinou como uma aranha tecendo sua teia.
"Então, Selvinha," ronronou, "você é o detetive. Me diz você."
Kai não teve tempo de responder.
Asuka surgiu da cozinha como um furacão, marchando até a sala com força suficiente pra estremecer os móveis.
Espátula numa mão. Frigideira com ovo pela metade na outra. Cabelo eriçado. Rosto em chamas.
"CALA A BOCA! CALA A BOCA! CALA A BOCA!!!" rugiu. "PARA DE FALAR! PARA DE PENSAR! PARA—TUDO!!!"
Misato se dobrava de tanto rir.
Kai? Estava perdido nos próprios pensamentos. Bravo demais pra rir.
A voz saiu baixa. Irritada. Honesta.
"Eu... odeio... aquele... cara."
Misato arfava.
"MEU DEUS—" gargalhou, segurando o estômago. "Isso salvou meu dia!"
Asuka congelou.
Os olhos fixaram em Kai.
E foi então que Misato, com um sorriso demoníaco, deu o golpe final.
"Ahhh, já entendi o que tá rolando aqui," disse, carregada de malícia. "Você tá com ciúmes."
O mundo parou.
Até o Pen-Pen, onde quer que estivesse, deve ter estremecido.
O corpo inteiro de Asuka ficou tenso.
Depois, ela explodiu.
"EU—QUE—NÃO—AH, MEU DEUS, MISATO, CALA A BOCA!!!" gritou.
A espátula voou pela sala.
Misato desviou com facilidade, ainda sorrindo.
Kai ficou ali, maxilar travado, fervendo. "Ai, meu deus... só... chega..."
Misato se inclinou de novo, tranquila.
"Ahhh, o Selvinha tá apaixonado até o pescoço."
Ela piscou.
Ele estava no inferno.
Capítulo 178: Sinais Confusos / Cozinhando com Raiva
A cozinha do apartamento era uma zona de guerra.
Não no sentido literal — ainda não —, mas as minas emocionais já haviam sido ativadas, a frigideira chiava como se compartilhasse o humor de Asuka, e as risadas demoníacas de Misato ecoavam pela sala como o sino da vitória anunciando sua condenação.
Kai se afundou ainda mais no sofá, olhando de lado para Misato.
"Você não tá cansada?" perguntou, cheio de esperança. "Sabe, não deveria ir dormir? Bem longe daqui?"
Misato exibiu um sorriso.
"Ooooh, tentando me mandar embora, é?" provocou. "Não. Tô bem aqui mesmo. Acho que vou aproveitar minha manhã, relaxar um pouco... e assistir você sofrer."
Da cozinha:
"TCH! EU JURO POR DEUS, VOCÊS DOIS—"
Barulho de frigideira. Chiado.
Misato brilhava de diversão.
"Tá vendo?" disse, piscando. "Como eu ia embora agora? Esse é o melhor entretenimento que eu tive em semanas."
Ela se espreguiçou como um gato. "Ahhh, amor jovem. Tão burro. Tão violento. Tão divertido."
Virou-se para Kai, fingindo admiração.
"Você fica fofo quando tá sem graça, Selvinha."
Os ovos chiavam mais alto sob a fúria de Asuka.
Misato cutucou Kai. "Devia dizer outra coisa pra deixar ela sem graça. Só pra ver o que acontece."
Kai piscou. Devagar.
"Ah, você acha que eu vou cair nessa??" murmurou. "Pra sua informação, ela não estava NEM UM POUCO sem graça ontem à noite."
Misato abaixou a cerveja. Os olhos se arregalaram.
"OHHHH???"
Da cozinha — um barulho metálico.
Silêncio.
Asuka congelou.
A espátula escorregou do fogão.
Misato se inclinou, predadora. "Nem um pouco sem graça, é?"
Elevou a voz só um pouco.
"Asuka, o que exatamente ele quis dizer com isso?"
A resposta foi instantânea e nuclear.
"TCH—ISSO—NÃO É—CALA A BOCA!!!"
Um pano de prato voou.
WHAP.
Acertou em cheio nele.
Kai mal reagiu. Já esperava. E talvez, desta vez, ele merecesse.
Misato ria tanto que mal conseguia respirar.
Asuka apontava como se o mundo estivesse acabando.
"VOCÊ—CALA ESSA BOCA!!!"
Depois para Misato:
"E VOCÊ—MORRE!!!"
Misato, ainda enxugando as lágrimas, respondeu doce:
"Ah, querida, por dentro eu já tô morta. Vai ter que se esforçar mais."
Kai abriu a boca. "Mas eu não..."
E parou.
Aquilo já era o bastante.
Ficou quieto.
Finalmente.
Misato bateu palmas, satisfeita. "Aí está. O momento em que ele percebe que tá completamente ferrado."
Asuka, ainda fervendo, girou e arrancou a frigideira do fogão.
"Tanto faz! Eu vou terminar esse maldito café da manhã, e depois nunca mais cozinho pra nenhum de vocês!"
Ela jogou os ovos no prato com força desnecessária.
Misato mal conseguia conter o riso. "Claro, claro. A gente acredita muito nisso."
Asuka marchou até Kai com o prato na mão.
Ela o bateu na frente dele com tanta força que o garfo pulou.
"Tá aí. Come. E se reclamar de qualquer coisa, eu vou pessoalmente garantir que se arrependa."
Kai olhou pro prato.
Surpreendentemente... os ovos pareciam ótimos.
Perfeitamente mexidos.
Fofos.
Douradinhos nas bordas.
O estômago dele roncou.
Misato se inclinou, sorrindo.
"Ahhh, o Selvinha ganhou tratamento especial."
Kai lançou um olhar para ela.
Misato piscou.
Asuka apenas levantou a espátula de novo, mirando nele.
"CALA A BOCA E COME."
Kai olhou para a espátula ainda apontada em sua direção, depois para o prato à sua frente. Os ovos estavam bonitos, vapor subindo devagar das bordas. Hesitou só um segundo antes de pegar o garfo e levar uma garfada à boca.
O primeiro gosto tocou a língua.
Macio. Temperado na medida. Rico, amanteigado. Um toque de pimenta.
Delicioso.
Olhou para Asuka, que havia marchado de volta à cozinha e fingia que não o observava pelo canto do olho.
"Tá... d-delicioso," disse, com a voz sincera, mesmo que um pouco trêmula sob a tensão. "E você sabe que eu adoro ovos mexidos! Como você conseguiu isso?"
Asuka congelou.
Piscou. Uma vez.
O corpo todo deu um espasmo, como uma máquina bugando.
Virou-se o suficiente pra encará-lo, braços cruzados com força.
"Tsc... q-que tipo de pergunta é essa?!" disparou, rápido demais. "São só ovos, idiota! Você mistura, cozinha, pronto!"
Mas ela não o olhava diretamente.
Os dedos mexiam inquietos na barra da camisa.
Misato, esticada no sofá, sorria como uma rainha assistindo à peça perfeita.
"Ohooo? Essa é nova. O Selvinha elogiou Asuka Langley Soryu e ela fingiu humildade?"
Ela tomou um longo gole de cerveja.
"Marquem o dia no calendário."
O rosto de Asuka ficou ainda mais vermelho.
"EU—ISSO NÃO—TCH!!!" gritou, girando e marchando de volta pra cozinha. "TANTO FAZ! SÓ COME, CALA A BOCA E—E PARA DE FAZER ESCÂNDALO!"
Mas Kai viu.
Aquele pequeno sorriso que ela tentou esconder ao se virar.
Um momento de orgulho. Ela queria que ele gostasse. E ficou feliz que ele gostou.
Kai sorriu, pegando mais uma garfada, saboreando devagar.
"Talvez..." disse com a boca meio cheia, "o segredo... seja cozinhar com raiva... e funcionou!"
Asuka parou.
Virou.
O rosto pegando fogo.
"C-COZINHAR COM RAIVA?!"
Ela marchou de volta até a mesa, batendo as duas mãos com força.
"QUE DROGA VOCÊ QUER DIZER COM ISSO?!"
Misato se inclinou, rindo por dentro.
"Ahhh, eu adoro essa teoria. Talvez você devesse cozinhar brava o tempo todo. Vai ver tem uma chef genial escondida aí."
"TCH! EU NÃO—" Asuka gritou, depois gemeu e puxou o próprio cabelo. "EU ODEIO VOCÊS DOIS!!!"
Ela se afastou de novo, agora se jogando no sofá e cruzando os braços com tanta força que os estofados tremeram.
"...Selvinha Idiota," resmungou.
Misato se inclinou em direção a Kai, sussurrando:
"Ela tá tão feliz agora."
"EU AINDA TÔ OUVINDO!!!"
Kai deixou o calor do café da manhã tomar conta.
Então — um rangido suave.
Um rangido hesitante.
Kai virou.
Misato virou.
A porta do quarto se abriu devagar.
Shinji estava ali, cabelo bagunçado, olhos pesados com a exaustão de quem ouviu demais e não queria fazer parte de nada.
"...Já terminaram de gritar?" perguntou, seco.
Misato se iluminou.
"Ohhh, bom dia, Shinji! Gostou do show?"
Shinji olhou pra ela.
Depois pra Kai.
Depois pra Asuka.
E só... encarou.
Asuka imediatamente se endireitou no sofá, braços ainda mais firmes.
"O QUÊ?!" disparou.
Shinji piscou.
"...Nada," murmurou.
Mas o rosto dele dizia tudo.
Ele sabia.
Ele ouviu tudo.
Capítulo 179: Ecos do Café da Manhã / Corações em Crescimento
Kai se recostou, observando a expressão de Shinji ao entrar no caos que havia definido a manhã. Não adiantava esconder mais nada. Com um sorriso de canto, Kai o saudou como um velho amigo que chegou tarde ao campo de batalha.
"Bom dia, Shinji! Bem-vindo à zona de guerra!"
Assim que terminou de comer, Kai se levantou e caminhou até o sofá, sentando-se ao lado de Asuka.
Asuka se enrijeceu quando ele se sentou, mas não se afastou. Os braços ainda cruzados, o corpo ligeiramente virado para o lado, mas os dedos tamborilavam suavemente no braço. Ela estava hiperconsciente da presença dele. Hiperconsciente do calor ao lado.
"...Tch," murmurou.
Misato, agora a maior fã do show, se inclinou para Shinji.
"Ohh sim. Tá rolando."
Shinji suspirou, esfregando o rosto. "Eu realmente esperava que estivesse sonhando."
Misato deu um tapinha no ombro dele, solidária. "Bem-vindo à realidade, garoto. Essa é sua vida agora."
Kai se virou para Asuka, sorrindo suavemente. Reconfortante. Silencioso. Inclinou-se levemente, perto do ouvido dela, e sussurrou:
"Obrigado pelo café da manhã. Eu gostei de verdade."
Ela estremeceu. A respiração prendeu, só por um momento.
Os dedos se tensionaram. O rosto ficou vermelho. Bem vermelho. Ela não olhou para ele. Mas os cantos dos lábios se moveram.
E então — quase inaudível:
"...É. Tanto faz."
Ela se mexeu.
Relaxou.
E ainda assim não se afastou.
Kai sorriu de novo.
Levantou-se, se espreguiçando um pouco.
"Bom... essa manhã foi bem... diferente... mas acho que eu devia ir pra casa."
Misato arqueou uma sobrancelha. "Ohhh? Já vai fugir? Não vai ficar pra deixar tudo ainda mais constrangedor?"
Asuka bufou. "Tsc. É. Vai logo, Selvinha. Cai fora."
Ela pegou o controle remoto e ligou a TV com força teatral, fingindo que não se importava. Mas Kai percebeu — o olhar de canto, os dedos se movendo, o pé inquieto. Ela não queria que ele fosse embora. Não de verdade.
Misato se recostou, convencida. "Aww, olha só. Vai tanto sentir falta dele."
Asuka se virou como uma tempestade.
"NÃO VOU!!!"
Ele olhou pra ela.
"...Eu preferia ficar. Mas... eu meio que preciso ir. Tomar banho e me arrumar. Mas eu volto depois, tá?"
Asuka estalou a língua de novo. "É. Tanto faz."
Ela zapeava os canais como se quisesse destruir o controle.
Misato, incansável, sorriu. "Saímos de `eu te odeio' pra `acho que não vou te matar se você sair'. Isso é progresso."
Shinji suspirou. "...Preciso de café."
Kai foi até a porta.
Assim que chegou lá —
"...Tsc."
Ele parou.
Virou-se.
Asuka ainda estava no sofá, olhos na TV. A voz veio mais baixa que antes.
"...Me manda mensagem quando chegar, idiota."
Misato congelou no meio do gole.
Shinji levantou os olhos.
O sorriso de Kai se abriu como sol da manhã.
Ele levantou a mão. "Até mais. Desculpa por eles. Eles vão crescer um dia."
Virou-se para Shinji e Misato e completou com uma piscadela:
"E desculpa por ela. Ela vai crescer um dia."
E correu.
Silêncio ecoou no apartamento.
Por um segundo.
"É O QUÊ, SELVINHA?!"
"PFFT—MEU DEUS."
O apartamento explodiu em caos.
Misato gargalhava.
Shinji suspirava como um senhor de quarenta anos.
E Asuka —
"EU JÁ SOU CRESCIDA, SEU IMBECIL!!! VOLTA AQUI PRA EU ACABAR COM VOCÊ!!!"
Kai não voltou.
Correu escada abaixo como se sua vida dependesse disso.
Porque provavelmente dependia.
Kai entrou em seu apartamento e soltou um longo suspiro, deixando o caos da manhã se assentar atrás dele como poeira nos ombros. Jogou o celular na cama com um baque suave, a mensagem já meio escrita na cabeça.
Sorrindo, digitou:
"Oi! Cheguei em casa! 😘"
Enviou sem hesitar.
E então, sem esperar resposta, foi direto pro banheiro, tirando o resto das roupas do dia anterior. A água esquentou rápido. Logo, vapor preenchia o pequeno espaço, e ele deixou o fluxo passar por ele.
Já se foi a tensão do café da manhã. As provocações. O caos.
Restava o calor. A calma.
O silêncio.
Quando saiu e enrolou a toalha na cintura, a mente estava mais leve. Mais clara.
Secou o cabelo, caminhou até a cama e pegou o celular.
Uma nova mensagem.
De Asuka.
"PARA DE MANDAR ESSAS DROGAS DE EMOJI. EU JURO POR DEUS."
Ele riu.
Sem pensar, mandou outro.
"😘"
Pausa.
Nenhuma resposta.
Então—
BZZT.
"EU TE ODEIO. TE ODEIO. TE ODEIO. APAGA ISSO. NUNCA MAIS ME MANDA MENSAGEM."
BZZT.
"EU JURO POR DEUS, KAI."
Um momento de silêncio.
BZZT.
"NÃO TÔ SORRINDO, SEU IDIOTA."
Ele sorriu ainda mais.
Se jogou na cama, o calor do banho ainda grudado à pele, o celular ao lado como um fio silencioso ligando ele a ela.
O mundo lá fora ainda existia — o peso do dever, a inevitabilidade do próximo combate. Mas por agora?
Só agora?
Ele podia respirar.
Olhou o horário.
Ainda era cedo.
O dia nem tinha começado de verdade.
Mas o que quer que viesse —
Ele sentia que conseguiria lidar.
Capítulo 180: A Quietude Entre / Queda Iminente
10:42 da manhã.
Ainda era cedo.
Kai encarava a hora no celular. Nenhum som de sirenes. Nenhum alerta súbito da NERV. Apenas silêncio.
Uma paz rara, fugaz.
Ele se jogou de volta na cama, deixando o corpo descansar, a mente divagar. E, pela primeira vez em muito tempo, permitiu-se lembrar.
Desde que chegou a Tokyo-3, tudo parecia um sonho rápido demais pra se perceber por completo.
O primeiro dia foi um borrão: a entrada intensa de Misato na sua vida, a descida surreal até a NERV, os corredores frios, a impossível Unidade Evangelion-04 esperando por ele.
Seu Eva. Seu começo. Uma falha nesse mundo.
Agora ele sabia que não deveria existir ali. E, ainda assim — ali estava ele. Lutando. Vivendo.
E sobrevivendo.
Pensou nas batalhas. Nos rugidos ensurdecedores dos Anjos. Nos ataques desesperados e impensados. No sangue, na dor, nos momentos que poderiam tê-lo encerrado. Deveriam tê-lo encerrado.
Mas não encerraram.
Então — Shinji.
O garoto de fala mansa, lutando com seus próprios medos, suas próprias dúvidas, mas com uma intensidade tão profunda que fazia Kai sentir vontade de protegê-lo. Como se fosse instintivo parecer corajoso e confiante, pra que Shinji talvez pudesse espelhar aquilo. Pra que tudo parecesse melhor pra todo mundo no meio daquela loucura. Em algum ponto, deixaram de ser só colegas pilotos. Viraram irmãos de armas. Apoio silencioso. Peso compartilhado. Amigos.
Misato. A impossível Misato. Que ria alto demais, bebia demais e se importava mais do que qualquer outra pessoa. Nunca o fez sentir-se um fardo. Nem uma vez.
Rei. No início, uma garota silenciosa e misteriosa demais. E agora... bem... ainda uma garota silenciosa e misteriosa. Mas Kai notou as mudanças. O modo como ela sempre ouvia, quieta. A forma protetora como agia com Shinji. Talvez até... curiosidade? Interesse? Kai não conseguia entendê-la direito, mas sentia, no fundo, que ela era uma amiga.
E Asuka.
No começo? Uma muralha em chamas. Rivalidade constante. Conflito. Gritos. Brincadeiras. Desafios. Apostas bobas. E, mesmo assim, cada briga os aproximava. Cada insulto vinha com uma verdade tão real que nenhum dos dois queria encarar diretamente.
Até que, um dia, pararam de fingir. Toda a implicância virou algo real. Algo que ele nem conseguia explicar direito.
Agora?
Agora ela o deixava sentar ao lado. Sussurrar perto dela. Encostar. E, mesmo quando fingia não se importar, os olhos dela sempre a entregavam.
"Eu não vou deixar você desaparecer," ela tinha sussurrado.
E ela realmente o salvou. Várias vezes. Sempre ali.
Ele jamais esqueceria.
Soltou o ar lentamente.
É... que jornada.
Mas ainda não tinha acabado.
A SEELE ainda agia por trás das cortinas, puxando os fios.
Gendo Ikari ainda jogava deuses e monstros como peças de xadrez.
E em algum lugar, outro Anjo se preparava pra cair.
Kai abriu os olhos.
Ele sentia agora.
Algo errado no ar.
O silêncio já não era mais pacífico — era pesado.
BZZT.
O celular acendeu.
Uma mensagem.
De Misato.
"Vem pra NERV. Agora."
Quatro palavras. Sem piadas. Sem provocações. Só urgência.
Kai não hesitou.
Digitou rápido:
"Ei! Acabei de ser convocado pela Misato."
BZZT.
Asuka respondeu na hora:
"É, é. Já tô aqui. Tá com inveja porque eu não preciso andar?"
BZZT.
"...Se apressa."
Kai soltou o ar, levantando-se, já puxando as roupas.
Era isso. Ele tinha treinado. Estava melhor do que nunca.
Hora de compensar o desastre que foram as últimas batalhas.
Capítulo 181: O Anjo Acima / O Olho que Observa
Kai disparava pelas ruas de Tokyo-3, os calçados batendo no asfalto a cada passada ofegante. Não havia sirenes, nem explosões — apenas uma quietude tão antinatural que fazia cada nervo de seu corpo ficar em alerta.
Algo estava errado.
Seus pensamentos corriam enquanto ele também corria. A última batalha quase tinha destruído todos eles.
Chegou aos portões da NERV, parando bruscamente, respirando com dificuldade. Os guardas nem sequer olharam duas vezes.
Entrou correndo, guiado pelo instinto através dos corredores de metal em direção ao Centro de Comando.
E quando as portas se abriram com um chiado, ele congelou.
Silêncio.
Todos os técnicos estavam com os olhos presos nas telas, calados, tensos. Maya digitava freneticamente, os dedos dançando em ritmo nervoso. Aoba tinha as sobrancelhas franzidas em concentração. Hyuga nem levantou o olhar.
Ritsuko estava diante do painel central, braços cruzados, um frio ao redor dela mais afiado do que nunca.
Lá em cima, por trás do vidro da sala de observação — Gendo Ikari assistia.
Expressão ilegível.
"Temos confirmação visual do Anjo." A voz de Aoba era baixa, tensa. "Esta é a ampliação máxima."
"A órbita dele está logo fora do nosso alcance defensivo," acrescentou Hyuga, os olhos grudados nos dados em espiral.
Aoba continuou. "E está mantendo uma distância constante de nós."
Ritsuko finalmente falou. Sua voz era clínica. Fria.
"Arael. O Décimo Quinto Anjo. Já rodamos múltiplas varreduras. Nenhuma emissão de energia. Nenhum movimento detectado."
Uma pausa.
"Mas ele está nos observando."
Misato pairava perto do centro, encarando a projeção holográfica que pulsava com uma luz lenta e ominosa.
Kai seguiu seu olhar.
E viu.
O Anjo.
Não atacando. Nem sequer se movendo.
Flutuando.
Alto acima da Terra, logo fora da atmosfera, posicionado como um sentinela angelical. Uma forma radiante e luminosa, com asas que se estendiam como estruturas de luz fractal e sagrada. Seu corpo era um prisma cintilante de filamentos dourados, um padrão que distorcia a percepção — como luz através d'água, como som sem origem. Não havia olhos, boca, nem membros.
Mas ele sabia.
Estava olhando direto para eles.
Pairava em silêncio. Como se sempre tivesse estado ali. Como se sempre estivesse destinado a estar ali.
Kai viu que os outros já estavam lá — Shinji, Rei, Asuka — todos com os plugsuits e prontos.
Asuka não disse nada, mas seu corpo estava tenso. Ela encontrou seus olhos com um olhar que dizia: eu também estou sentindo.
Misato estava séria, braços cruzados firmemente diante do peito, encarando a projeção. "Das duas, uma. Ou esse Anjo está esperando uma chance para descer, ou então vai tentar nos destruir sem ter que se aproximar."
As palavras provocaram um desconforto geral na sala. Nenhuma resposta.
A imagem holográfica pairava sobre todos como um presságio azul.
Kai soltou o ar.
"Então... ele está no espaço? Aquela coisa enorme tá só ali parada?"
Ele encarava o gráfico orbital, o monitor. Tudo estável. Tudo quieto.
"Parece um alvo gigante pra mim."
Misato deu uma risadinha seca, sem humor.
"Sim. Ele está em órbita baixa." Ela apontou para a projeção. "O problema é que está fora de alcance. Não podemos atingi-lo com nada convencional. Não daqui de baixo."
Kai franziu a testa, ainda tentando recuperar o fôlego. "Então não podemos simplesmente atirar nele?"
Ritsuko balçou a cabeça.
"Os Evas não foram projetados para combater um inimigo ainda em órbita."
Kai deu um passo à frente, soltando um suspiro fundo.
"Ok. Enquanto os cientistas sabichões resolvem isso, vou me preparar como os outros."
Ele olhou para Asuka.
Apenas um aceno.
Silencioso. Sutil.
Ela retribuiu o olhar.
Olhos azuis semicerrados.
Mas ela acenou de volta.
Eles se afastaram dos outros e seguiram rumo ao vestiário.
O corredor atrás deles ficou em silêncio. Lá dentro, o ar zumbia com a luz fria dos fluorescentes. Nenhum som vindo do centro de comando. Apenas o eco silencioso da tensão prestes a se romper.
Asuka se encostou num dos armários, braços cruzados.
"Tsc. O quê foi?" ela murmurou.
Mas não havia agressividade. Apenas uma esperança quieta.
Kai olhou em volta. Ninguém por perto. Nem Shinji. Nem Rei. Nem Misato.
Apenas eles.
Um sorriso gentil.
"Nada, só... senti sua falta."
Asuka congelou por um segundo.
Depois, lentamente, descruzou um dos braços e o puxou pela gola do plugsuit. Firme.
Ela o beijou.
Não como antes. Não com fogo. Não com explosão.
Mas com carinho.
Quando se separaram, o rosto dela estava vermelho.
A respiração acelerada.
"...Idiota," ela murmurou.
Empurrou o ombro dele levemente.
Mas não recuou.
Não fugiu.
Ficou ali.
Kai a observou e sorriu.
"O que acha de voltar lá e matar um monstrão do mal?"
Então veio aquele sorriso de canto.
Aquele sorriso afiado e incendiário que significava que ela estava de volta.
Ela girou nos calcanhares, jogando o cabelo como uma capa.
"Anda," disse ela, com a voz confiante de novo. "Vamos mostrar pra esse Anjo idiota quem é o verdadeiro predador aqui."
Marchou na frente — mas parou.
Meio passo.
Tempo suficiente para ele alcançar.
Não liderando sozinha.
Não arrastando ele.
Juntos.
Ele caminhou ao lado dela.
Lado a lado.
Rumo à batalha.
Não importava o que viesse a seguir —
Eles enfrentariam juntos.
Capítulo 182: Alvo Celestial / Uma Promessa na Tempestade
As portas do centro de comando se abriram, e Kai entrou com Asuka ao seu lado.
A tensão o atingiu de imediato.
Arael ainda pairava sobre a Terra, sua enorme forma azul celeste imóvel na alta atmosfera. Não havia atacado. Não havia falado. Apenas observava.
Misato se virou quando eles se aproximaram, braços cruzados com força, o rosto sério.
"Muito bem," disse ela friamente. "Agora que Romeu e Julieta terminaram de se agarrar no vestiário—"
Asuka gemeu, jogando as mãos para o alto. "AI MEU DEUS, CA-LA-DA."
Misato permitiu-se um sorriso.
Por apenas um momento.
Depois, os olhos voltaram para a projeção.
"Ouçam com atenção, porque não temos muito tempo," continuou Misato. Ela apontou para o holograma imenso do Anjo flutuando silenciosamente acima deles. "Vamos tentar um disparo de longo alcance a partir da superfície. É nossa única opção viável."
Kai cruzou os braços, inclinando levemente a cabeça com exagerada arrogância. "Uau, Misato. Que ideia brilhante. Alguém aqui já não tinha sugerido exatamente isso?"
Misato lançou a ele um olhar breve, sem humor. "Guarde o sarcasmo, Selvinha." Voltou a encarar o holograma. "O Shinji é nosso atirador com mais experiência, mas infelizmente a Unidade-01 está fora de operação dessa vez."
A testa de Kai se franziu na hora. "O quê? Por quê?"
Ritsuko avançou da lateral, ajustando os óculos e falando com seu tom habitual calmo e preciso. "A Unidade-01 deve permanecer em criostase. O dispositivo S2 que ela absorveu de Zeruel ainda é imprevisível. O Comandante Ikari insiste que não podemos correr o risco de reativá-la agora."
Kai olhou instintivamente para cima.
Acima, Gendo Ikari observava a todos em silêncio. Seu rosto era ilegível por trás das lentes escuras, as mãos unidas de forma impassível. Kai não pôde evitar um arrepio.
Misato suspirou, trazendo todos de volta. "Nossa segunda atiradora mais experiente, com base nas simulações contra Matarael, é a Rei. A Unidade-00—"
"Não será lançada."
A interrupção ecoou nitidamente pela sala. Cabeças se voltaram imediatamente para a sala de observação.
Gendo não havia se movido, mas sua voz cortou com clareza pelo intercomunicador.
Misato piscou, surpresa. "Comandante? A Unidade-00 teve desempenho excepcional nas simulações. A Rei está pronta para—"
"A Unidade-00 está atualmente inadequada para esta missão," Gendo interrompeu friamente. "Ela permanecerá inativa até segunda ordem."
Misato abriu a boca para protestar, mas foi silenciada por Ritsuko, que deu um passo à frente, claramente tensa.
"O Comandante Ikari está certo. A Unidade-00 apresentou... flutuações anormais de sincronização durante o último diagnóstico. Lançar a Rei agora seria imprudente."
Os olhos de Kai se estreitaram. Flutuações de sincronização? Aquilo não soava certo. Ele olhou para Asuka, que devolveu o olhar. Ela claramente pensava o mesmo — havia algo errado.
Misato soltou um suspiro frustrado. "Certo. Isso deixa tudo para Asuka e o Kai. De novo." Ela se virou para eles, a expressão endurecendo. "Asuka, você vai manusear o rifle de precisão. Kai, sua função é protegê-la."
Asuka sorriu com confiança, se prontificando instantaneamente. "Por mim, tudo bem. Parece que vou ter que fazer mais um Anjo virar poeira."
Ritsuko assentiu. "O Campo A.T. do Kai demonstrou força extraordinária, especialmente durante a batalha contra Zeruel. Ele é nossa melhor chance de proteger a Unidade-02 durante o ataque."
Kai sentiu a determinação crescer no peito. Encontrou o olhar de Asuka mais uma vez, firme e seguro.
"Você só precisa se concentrar no disparo," garantiu ele, calmo e confiante. "Eu prometo que não vou deixar nada te atingir."
Ela bufou, erguendo o queixo com desafio. "É claro que não vai deixar, idiota. Estou contando com você pra fazer o seu trabalho direito."
Kai sorriu de volta, assentindo com firmeza. "E eu tô contando com você pra acabar com esse Anjo. Não erra."
Os olhos dela brilharam com confiança incendiária. "Eu nunca erro."
Misato pigarreou, interrompendo o momento. "Certo, chega de flerte. Em posição. Vamos lançar imediatamente."
Enquanto seguiam para as baias de lançamento, a mente de Kai girava em silêncio. Ele sabia por que Misato o colocara na defesa, além do Campo A.T. poderoso. Por razões que ninguém compreendia completamente, os Anjos sempre o atacavam primeiro. Já acontecera antes — várias vezes.
E lá no fundo, ele era grato por isso.
Porque se esse Anjo resolvesse atacar... viria atrás dele primeiro, mantendo a Asuka segura.
Minutos depois, Kai se acomodou no calor familiar do plug de entrada, sentindo o LCL preencher o espaço ao seu redor. A sincronização veio rápido, clara e precisa. Ele expirou devagar, focando os pensamentos.
A plataforma de lançamento estremeceu sob ele.
"Unidades Eva, lançamento!" ordenou Misato com firmeza.
Os trilhos dispararam.
A gravidade o empurrou para trás.
A luz artificial abaixo de Tokyo-3 desapareceu. Acima, o céu se estendia infinitamente. Escuro e ameaçador. Apesar de ainda ser começo da tarde, o céu estava completamente negro. Uma tempestade rugia, como se o céu estivesse desabando sobre eles. Arael ainda flutuava acima, intocado e indiferente aos preparativos.
À sua direita, a Unidade-02 surgiu, empunhando o enorme rifle de precisão especial. A voz de Asuka soou no canal de comunicação, firme e precisa. "Posicionada. Lembra da sua promessa, Selvinha."
Kai posicionou a Unidade-04 à frente dela, pronto para projetar seu Campo A.T. o mais amplo e forte possível, sentindo o poder vibrar ao redor.
"Não se preocupa," respondeu, a voz firme. "Hoje nada vai passar por mim."
Ele olhou para o Anjo luminoso lá em cima, em um desafio silencioso, a tensão pulsando em cada músculo.
Esperando.
Pronto.
Capítulo 183: Impacto Radiante / A Luz que Viola
O campo de batalha se estendia diante deles, envolto por uma chuva pesada que cobria Tokyo-3 com uma escuridão opressora. A água martelava sem parar contra os cascos blindados das Unidades Evangelion-04 e 02, cada gota como um tambor minúsculo no silêncio que engolia a cidade.
Kai respirou fundo, apertando os controles com força, o coração pulsando no mesmo ritmo do zumbido surdo de energia que se acumulava dentro do rifle de pósitrons da Asuka.
"Unidade-02, iniciar calibração final," ecoou a voz firme de Misato pelo comunicador.
"Entendido," respondeu Asuka, a voz tensa, mas decidida. "Ajustando estabilização, compensando rotação da Terra e força gravitacional. Quero potência máxima."
"Confirmado, Unidade-02. Potência no máximo," confirmou Hyuga rapidamente do centro de comando.
Kai ativou o Campo A.T. com cautela, observando o brilho distante do Anjo através da cortina de chuva. Cada músculo estava em tensão.
"Droga! Desce logo aqui, seu Anjo preguiçoso! Eu tô ficando irritada!" Asuka gritou, a frustração evidente.
Kai abriu a boca para responder — mas congelou, o ar sumindo de seus pulmões.
Um feixe fino e dourado de luz iluminou a testa do seu Eva, cortando silenciosamente o céu escuro e tempestuoso. Kai reconheceu a sensação na hora — fria, invasiva, sondando sua mente.
Sua mente se fechou instintivamente, resistindo ao contato. Ele estava mais forte agora, resoluto, inatingível. O Anjo não conseguiria alcançá-lo — ele tinha certeza.
Mas então, o pavor o tomou de assalto. O Anjo havia encontrado outra coisa. Sua verdadeira vulnerabilidade. O olhar dele se voltou, alarmado, para Asuka.
"ASUKA, ATIRA AGORA!" Kai gritou desesperado, avançando com tudo, projetando seu Campo A.T. ao máximo.
Asuka puxou o gatilho com perfeição. O disparo do rifle de pósitrons explodiu em um clarão cegante. Mas, ao mesmo tempo, um feixe de luz radiante partiu do Anjo direto em direção à Unidade-02.
Alarmes vermelhos tomaram os monitores da NERV.
"AAAHHH!!!" gritou Asuka, a voz crua de terror repentino. "Não... NÃÃÃOOO!!!"
Kai gritou também, seu Campo A.T. brilhando ainda mais forte. "ASUKA!!! POR QUÊ?? POR QUE NÃO ESTÁ FUNCIONANDO?"
Misato bateu com força no console. "O inimigo tem uma arma direcional?!"
"Não!" respondeu Aoba, frenético. "Não detectamos energia térmica!"
"Padrões anormais no psicográfico!" gritou Maya, em pânico. "Haverá contaminação mental!"
Os gritos de Asuka se intensificavam. "NÃO!!! NÃO ENTRA EM MIM! POR FAVOR, PARA! NÃO OLHA DENTRO DE MIM!"
"Um ataque mental à barreira do ego?" sussurrou Ritsuko, visivelmente chocada. "Os Anjos entendem nossa psicologia nesse nível agora?"
O disparo de Asuka atingiu inutilmente o Campo A.T. do Anjo, dissipando-se sem efeito.
"Não adiantou! Não teve energia suficiente pra perfurar o Campo A.T.!" gritou Aoba.
"Já estamos na potência máxima!" respondeu Hyuga, o desespero evidente. "Não dá pra forçar mais!"
"AAAHHH!!! DÓI! DÓI MUITO!" a voz de Asuka ecoava pelo comunicador, distorcida pela agonia. "NÃO ME FAZ LEMBRAR! POR FAVOR, NÃO! PÁRA!"
"ASUKA!!!" Kai rugiu, colocando seu Eva entre ela e o feixe do Anjo. "EU TÔ AQUI! TÔ TE PROTEGENDO! AGUENTA FIRME!"
Mas o ataque atravessava o Campo A.T. dele como se não existisse, atingindo diretamente a mente de Asuka.
Flashes começaram a passar por seus olhos. A faca ensanguentada. O homem sobre sua mãe. Os movimentos. Os gritos de desespero. Implorando. E sua incapacidade de fazer qualquer coisa. Seu coração disparou, doendo mais profundamente a cada grito de Asuka.
A Unidade-02 começou a se debater descontroladamente, disparando o rifle em todas as direções. Os tiros explodiam pela cidade, destruindo prédios e quase atingindo Kai.
"ASUKA, PARA!" gritou Kai, com o desespero apertando sua garganta. Ele agarrou o rifle, arrancando-o das mãos do Eva. "POR FAVOR, LUTA CONTRA ISSO!"
"DÓI! FAZ PARAR, KAI! POR FAVOR!" Os gritos de Asuka cortavam mais fundo que qualquer arma, cada palavra rasgando a alma de Kai. "Meu coração... está sujo... POR FAVOR, PARA! NÃO AGUENTO MAIS!"
Misato se virou para Ritsuko e Gendo. "O QUE É ESSE FEIXE? DO QUE ELE É FEITO?!"
"É uma onda de energia no espectro visível, parecida com um Campo A.T., mas os detalhes são desconhecidos!" gritou Hyuga.
"E a Asuka?" exigiu Ritsuko.
"Está em perigo! A contaminação mental atravessou a barreira do ego!" Maya chorava. "Desse jeito, a mente dela vai colapsar!"
"O QUE TÁ ACONTECENDO COM ELA?!" berrou Kai.
"Ele está forçando contato com memórias reprimidas," respondeu Ritsuko, ofegante. "Tudo que ela teme. Tudo que ela reprime. Estão sendo arrancados pra fora. A psique dela tá sendo despida à força."
"Estamos perdendo ela!" soluçou Maya. "O sinal tá se apagando!"
"ME DEIXA IR AJUDAR NA UNIDADE-01!" Shinji gritou, o desespero tomando sua voz.
"Não vai! Você não pode ir, o alvo invade a mente dos pilotos!" retrucou Fuyutsuki.
"Temos que evitar um cenário de invasão da Unidade-01," declarou Gendo friamente.
"Mas o Kai tá lá!" protestou Shinji. "Ele não tá sendo atacado!"
"Está sim," cortou Ritsuko. "O Anjo analisou o padrão psicológico dele. Está atacando a maior vulnerabilidade do Kai."
"Se não fizermos algo, a Asuka vai morrer!" gritou Shinji, a voz falhando.
Um silêncio pesado caiu, rompido pela voz de Gendo. "Rei, desça para o Dogma e use a Lança."
Fuyutsuki se virou, surpreso. "A Lança de Longinus? Mas, Ikari, isso..."
"Não temos outra opção para destruir um alvo que está em órbita com o seu campo A.T. ativado," respondeu Gendo, impassível. "Depressa."
Rei não hesitou. Ela nunca hesitava.
No campo de batalha, Kai segurava a Unidade-02 com força, desesperado enquanto o Eva de Asuka se debatia em agonia.
"ALGUÉM, POR FAVOR, AJUDA ELA!" A voz de Kai se quebrou, o coração despedaçado com cada grito de Asuka. "RÁPIDO!"
Ela ainda gritava. "KAI, NÃO OLHA PRA MIM! EU TÔ SUJA!"
A Unidade-04 manteve a 02 firme, desesperada pra ancorá-la em meio ao caos, como se seu toque pudesse impedir que ela se perdesse de vez.
Das profundezas, a Unidade-00 surgiu lentamente, empunhando a lança colossal. Kai a reconheceu na hora — a Lança que ele e Asuka haviam visto nos vídeos de segurança, cravada no ser branco sob o Dogma Central.
"Unidade-00 em posição para lançamento," anunciou Aoba.
"Alvo confirmado," completou Hyuga. "Correções finalizadas."
"Iniciando contagem regressiva. Dez segundos," sussurrou Maya, ofegante.
"10... 9... 8..."
A voz de Kai saiu fraca, quase uma prece no comunicador. "Asuka... por favor... aguenta..."
"5... 4... 3..."
Os gritos de Asuka ficavam mais baixos. "Mamãe... não..."
"1... 0!"
Rei lançou a Lança com precisão perfeita. Ela rasgou os céus tempestuosos, perfurando o Anjo em um lampejo. Arael se despedaçou, o feixe invasivo cessando instantaneamente.
O Eva da Asuka tombou para a frente, silencioso, os gritos subitamente cessando.
"Qual é o status da Lança?" exigiu Fuyutsuki.
"Ultrapassou a velocidade de escape," informou Hyuga, sem cor. "Está se movimentando em órbita lunar."
"Vai ser impossível recuperar," murmurou Fuyutsuki, sombrio.
Dentro da Unidade-02, Asuka parou de gritar.
Kai olhava para o Eva imóvel, os dedos brancos nos controles.
A voz dele se quebrou ao gritar pelo comunicador:
"TIREM A GENTE DAQUI AGORA! A ASUKA PRECISA DE AJUDA! AGORA, DROGA!"
Misato não hesitou.
"TODAS AS UNIDADES, RETIRADA! TRAGAM ELES DE VOLTA AGORA!"
Kai se recusou a sair de perto, permanecendo ao lado do Eva dela, sentindo-se completamente impotente sob a chuva torrencial.
Cabos de resgate se lançaram, prendendo os Evas e puxando-os para baixo da terra.
A Unidade-02 permaneceu imóvel, os sinais de sincronização de Asuka despencando.
Ele não conseguiu protegê-la.
Capítulo 184: Chama Silenciosa / E Se Ela Nunca Acordar
Kai não se moveu.
Nem quando chegaram à ala médica. Nem quando os outros pilotos foram levados. Nem quando os técnicos lhe ofereceram uma cadeira.
Ele ficou.
De pé ao lado da cama dela, os dedos entrelaçados com os de Asuka, segurando sua mão como se fosse a única coisa que o mantinha preso ao mundo.
O quarto estava silencioso, exceto pelos bipes dos monitores e o sussurro dos respiradores.
Ela estava viva. Mas não estava ali.
A pele pálida. Os lábios entreabertos. Os cílios pousados nas bochechas que antes coravam de raiva — dele, do mundo.
Agora? Silêncio.
Sua respiração falhou, o peito subindo e descendo num ritmo irregular. E as palavras vieram, sussurradas e cruas:
"Foi culpa minha... foi culpa minha... eu devia ter protegido ela... Asuka..."
A culpa o corroía mais fundo do que qualquer ferida. Porque ele tinha pedido por isso. Queria ela no campo de batalha — acreditava que podia protegê-la de tudo.
Presunçoso.
Mas agora Asuka estava quebrada.
E Kai —
Ele estava em pedaços.
Ele mantinha os olhos fixos no rosto dela, procurando qualquer movimento. Um tremor. Um piscar. Qualquer coisa. Mas não havia nada.
A voz de Misato veio de algum lugar atrás dele, suave, dolorida:
"Kai... não foi sua culpa."
Mas ele não a ouviu. Não queria ouvir.
Porque aquela voz — a parte dele que zombava, sorria, encontrava luz nas sombras — tinha desaparecido.
O Anjo a levou.
Levou ela.
Então ele ficou.
O resto do mundo se dissolveu. Não havia guerra, nem Anjos, nem ordens, nem propósito. Apenas o peso frágil da mão dela na sua.
O calor ainda não a tinha deixado. Mas parecia que logo deixaria. E quando isso acontecesse—
Ele não sabia o que sobraria dele.
Sussurrou de novo. Não pra ela. Nem pra ninguém. Apenas pra não enlouquecer:
"Eu tô aqui. Não vou sair. Essa é uma promessa que eu posso cumprir."
O tempo perdeu o sentido.
Pessoas iam e vinham. Médicos, enfermeiros, técnicos, até Misato de novo. Mas ninguém tentou afastá-lo.
Eles sabiam.
Sabiam que não havia força no mundo que faria Kai sair dali.
Então ele ficou.
Mãos trêmulas, coração em pedaços, alma escancarada.
Esperando.
Rezando.
E ele se agarrou à esperança de que ela voltaria para ele, a qualquer custo.
Que ela lutaria para encontrar o caminho de volta.
Porque, se não voltasse—
Ele simplesmente não sabia como continuar.
O ar na sala de observação médica estava espesso.
Misato se apoiava no vidro, olhando para dentro do quarto, os braços cruzados — não em desafio. Em cansaço.
Kai não havia se mexido.
Ainda ao lado da cama de Asuka. Ainda segurando sua mão como se fosse a última coisa sólida no mundo.
O peito dela subia e descia com o ritmo raso da inconsciência. Os monitores apitavam, frios e impiedosos.
Misato não disse nada. Não de imediato. Só observava.
Então ouviu passos. Não precisou se virar para saber que era Ritsuko.
A doutora entrou com sua presença habitual — clínica, contida — mas algo em seu caminhar denunciava um peso. Uma hesitação.
Misato soltou o ar com força. Ainda sem desviar os olhos dele.
"Diz logo," murmurou.
Ritsuko parou ao lado dela, o olhar se voltando para os dois lá dentro.
Kai e Asuka.
"A mente dela está fraturada," disse por fim. A voz baixa, fria — mas não sem peso. Ela não parecia perceber que Kai podia ouvir.
Os braços de Misato se retesaram. O maxilar trincado.
A voz de Ritsuko continuou estável, mas algo tremia por baixo — arrependimento, talvez.
"Ela está viva. Mas os circuitos neurais..."
Pausou.
Misato se virou. Esperando.
Ritsuko abaixou o olhar.
"Arael atacou o centro da consciência dela. Os danos são... severos."
Inspirou fundo, vacilou — e completou:
"Foi ainda mais devastador porque ela estava se curando. Superando os traumas. As memórias que vieram à tona estavam enterradas — protegidas. Revivê-las por completo... deixou a mente dela sem defesa."
Ela não terminou. Até ela estava visivelmente abalada.
Misato engoliu um palavrão.
Então — quase inaudível:
"...Ela pode acordar?"
Ritsuko hesitou.
Isso já era resposta suficiente.
Mas ela disse mesmo assim:
"...Eu não sei."
O silêncio voltou. Pesado.
Atrás do vidro, Misato observava enquanto a cabeça de Kai se abaixava ainda mais. O aperto na mão de Asuka não havia afrouxado. Ele parecia uma pedra moldada pela dor.
A voz de Misato vacilou:
"...O que a gente diz pra ele?"
Ritsuko não respondeu.
Porque ela não sabia.
Porque ninguém sabia.
A culpa estava consumindo Kai.
Ele começou a falar, baixinho, quase sem som, devagar, entre lágrimas:
"Seus traumas... eu sabia deles. Eu sabia sobre sua mãe, você me contou o que aconteceu... e eu não fiz nada. Nem tentei falar disso com você... sei lá, talvez só... pra te ouvir. Mas não... eu só te fiz esquecer de você mesma, te fazendo se preocupar só com os meus problemas idiotas... Fui tão egoísta... Me perdoa. Por favor."
Ele apertou a mão dela com mais força. Não pra machucar — só pra sentir que ela ainda estava ali.
Lá fora, o mundo continuava girando.
Outro Anjo se aproximava no horizonte.
SEELE movia suas peças no tabuleiro.
Gendo observava e esperava.
Mas dentro daquele quarto — Kai não se mexeu.
Ainda ali. Ainda segurando a mão dela. Ainda esperando contra tudo e todos que Asuka voltasse.
Porque se ela não voltasse —
Então o que ainda havia pra salvar?
Capítulo 185: O Cenário Continua / As Crianças se Quebram
\textit{INTERLÚDIO}
Na vasta e escura câmara da SEELE, o silêncio reinava.
Monolitos brilhavam fracamente, maciços e enigmáticos, sem emitir calor — apenas sombras. Cada número tinha uma presença, cada voz um peso invisível que pressionava o ambiente como gravidade.
Gendo estava sozinho diante deles. Imóvel. Inabalável. Olhos ocultos pelo brilho dos óculos.
A voz do SEELE 01 rompeu o silêncio primeiro:
"A Lança de Longinus... está perdida."
Seguiu-se uma pausa. De aceitação, não de surpresa.
O SEELE 02 falou em seguida, o tom frio e preciso:
"Por que você usou a Lança, Ikari?"
A resposta de Gendo foi calma, ensaiada:
"Destruir o Anjo era minha prioridade no momento. Foi inevitável."
A voz do SEELE 05 se acentuou, a desaprovação cortando o ar:
"Inevitável? É melhor você elaborar mais as suas desculpas. Suas ações recentes são intoleráveis."
Gendo não respondeu.
O SEELE 02 continuou, sem um pingo de empatia:
"E a Segunda Criança está... perdida."
As palavras pairaram, pesadas e definitivas.
Mesmo assim, Gendo permaneceu em silêncio.
A voz do SEELE 04 surgiu a seguir. Fria:
"Tudo de acordo com o cenário."
Um esboço de sorriso quase tocou o rosto de Gendo. Ele ajustou os óculos, as mãos ainda firmemente entrelaçadas.
"Tudo está seguindo conforme o planejado," disse ele.
O SEELE 06 respondeu com um leve murmúrio meditativo:
"A Lança foi uma perda aceitável. A Série Eva está em andamento conforme o previsto."
Então o SEELE 05 indagou novamente, com a voz aguda e clínica:
"E quanto à Quarta Criança? Ele é... imprevisível."
O silêncio que se seguiu foi longo. Calculado.
Gendo não se apressou para responder. Quando finalmente o fez — ele sorriu.
"Ele já cumpriu seu papel."
O SEELE 01 respondeu, final e firme:
"Então a próxima fase terá início."
Um momento se passou.
Então, as palavras que mudariam o mundo:
"Tabris descerá em breve."
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