Evangelion: Shattered Thresholds
17 Episódio 17: (Des)obediência colateral
Capítulo 142: Antes do Colapso / Sombras no Horizonte
A luz suave da alvorada filtrava-se pelas cortinas, tingindo as paredes do apartamento de Kai com tons dourados e tranquilos. Ele permanecia deitado, com um braço sob a cabeça e o outro repousando sobre o peito, os dedos enroscados levemente na pulseira. Aquilo o mantinha conectado à memória de ontem.
O restaurante, as risadas, o beijo na bochecha. E Misato. Unidade-03.
Ele franziu a testa.
Não tinham dito muita coisa sobre ela — só que seria ativada naquele dia, e que Misato e Ritsuko estariam em Matsushiro supervisionando o processo. Sem horário, sem detalhes.
Toji. Um novo piloto de Evangelion. Kai não conseguia afastar a mistura de preocupação e expectativa diante do que um novo companheiro traria. Um leve arrepio percorreu sua espinha, logo substituído pelo calor da lembrança do riso de Asuka no dia anterior.
Seu celular vibrou ruidosamente ao lado do travesseiro, quebrando sua contemplação silenciosa. Ele pegou o aparelho, a tela iluminada com uma mensagem.
Asuka: "Se ainda estiver dormindo, eu juro que vou até aí jogar água gelada na sua cara idiota."
Kai sorriu, os dedos deslizando pelo teclado.
"Já tô acordado. Tá com saudade? 😘"
Ele riu quando a resposta chegou quase imediatamente.
Asuka: "ARHG! PARA COM OS EMOJIS! Anda logo, idiota. Não vou sofrer sozinha na aula."
Ainda com o sorriso no rosto, digitou uma última resposta:
"NÃO ME ARREPENDO DE NADA!!! 😎 ⭐️"
A próxima mensagem fez seu coração bater mais forte:
Asuka: "Você é impossível. 🙄 Te vejo na escola."
Kai tomou banho, tomou café, se vestiu e saiu. O ar fresco tocava sua pele enquanto Tokyo-3 despertava aos poucos, sua tensão habitual momentaneamente escondida sob o silêncio dourado da manhã.
Na escola, avistou Asuka imediatamente. Ela estava perto do portão com Hikari. Quando ele se aproximou, ela se virou de propósito, falando animadamente com a amiga e ignorando-o completamente. Kai sorriu, entendendo o recado. Ela estava devolvendo a brincadeira do dia anterior. Ele notou o leve brilho no olhar dela ao espiar discretamente em sua direção. Ah, ela era boa nisso. Guardava rancor com maestria.
Ao entrar na sala, viu Shinji já sentado, o olhar distante, os ombros curvados como se carregasse um peso invisível.
"Ah... Kai," murmurou Shinji, em tom baixo.
Kai parou, percebendo a tensão. "Ugh. Que cara é essa? Parece que tá carregando um peso invisível."
Shinji suspirou, coçando a nuca com desconforto. "Estava pensando numa coisa que a Rei disse ontem. Sobre... meu pai."
Antes que Kai pudesse responder, Asuka entrou na sala, captando o fim da frase.
"Tsc. Ótimo, mais enigmas," murmurou com irritação, antes de resmungar com relutância: "Tá bom, Terceira Criança, desembucha."
Shinji hesitou, claramente desconfortável com a atenção dos dois. "...Ela disse que o meu pai falou pra ela que ‘não espera ser compreendido agora. Só depois’. Que eu sou quem deve entendê-lo — quando chegar a hora."
Kai ficou sério, os olhos estreitando.
Afinal, qual é o verdadeiro objetivo do Gendo?
Shinji olhou entre os dois, confuso. "Eu não entendo. Mas... acho que ela não quis dizer isso de forma ruim. Só que um dia a gente vai entender algo importante. Mas, sinceramente? Nem sei se quero entender."
"AH, CHEGA!" explodiu Asuka de repente, assustando os dois. "Não aguento mais esse monte de mistério!" E foi direto para sua carteira, irritada.
Shinji a observou se afastar, desanimado. "...Falei alguma besteira?"
Kai balançou a cabeça com compreensão. "Não foi você. É que ela recebeu umas notícias... ruins ontem. Na verdade, você provavelmente ainda nem sabe."
Shinji o olhou com desconfiança. "O quê?"
Kai suspirou, apoiando a mão no ombro do amigo. "A Misato decidiu que... a Asuka vai morar com vocês."
O tempo parou. Shinji ficou paralisado, completamente atônito. "...O quê?"
"É. Vai se mudar no fim da semana."
Os olhos de Shinji se arregalaram, o pânico tomando conta. "Não... Você tá brincando! Fala que é brincadeira!"
Kai deu de ombros, tentando conter o riso. "Quem me dera. E é meio culpa minha. Foi mal, Shinji."
A voz de Shinji subiu quase num grito agudo. "Culpa sua? Como assim—por quê—KAI! EU NÃO VOU CONSEGUIR VIVER ASSIM!"
Kai finalmente não conseguiu segurar a gargalhada. Shinji o encarou, derrotado. "Isso não tem graça!"
A aula começou no mesmo ritmo monótono de sempre — entediante e inalterável.
Kai se pegava olhando para Asuka com frequência, percebendo a tensão sutil em sua postura. Sempre havia algo não resolvido entre eles, silencioso, mas presente.
Depois, lançou um olhar para Rei. Sentada perto da janela, como sempre — quieta, imóvel, quase uma sombra de si mesma. Mas os olhos estavam abertos, atentos. Não para o quadro. Nem para o professor.
Para ele.
Kai desviou o olhar, desconcertado.
No meio da aula, percebeu que o lugar de Toji seguia vazio. A ansiedade aumentou, alimentada pelas palavras de Misato na noite anterior. Toji devia estar passando pelo teste de ativação naquele exato momento. Um nó se formou no estômago de Kai.
O tédio da aula foi interrompido por um som agudo. O interfone estalou.
"Os seguintes alunos devem se dirigir imediatamente ao pátio: Ayanami Rei. Ikari Shinji. Soryu Asuka. Kai. Um carro os aguarda."
Kai se enrijeceu. Asuka levantou a cabeça. Shinji piscou.
Kai olhou o celular. Nenhuma mensagem da Misato. Nenhum alerta no aplicativo. Nada.
Só o sistema da escola.
A sala murmurava discretamente. Kai trocou olhares tensos com Shinji, Asuka e Rei. Levantaram-se em silêncio, recolhendo os materiais.
Do lado de fora, um carro preto da NERV aguardava, motor ligado. Kai parou por um instante, olhando para os outros.
"Alguém ouviu da Misato?" perguntou em voz baixa.
Shinji balançou a cabeça. "Não... desde ontem."
Asuka franziu a testa. "Ela disse que estaria em Matsushiro com a Ritsuko. Acompanhando o teste da Unidade-03."
Kai a encarou. "É. Mas isso não impede ela de mandar uma mensagem, né?"
A voz de Asuka baixou. "...É isso que tô dizendo. E se tão chamando a gente assim, é porque alguma coisa tá errada."
O peso da tensão aumentou.
O coração de Kai afundou. Asuka estava certa. Eles só eram convocados assim quando o desastre já estava a caminho.
Ele deu um passo à frente e abriu a porta, deixando Rei, Shinji e Asuka entrarem primeiro. Quando se sentou ao lado de Asuka, as portas se fecharam. O motor ronronou suavemente, conduzindo-os rumo à NERV, rumo à incerteza.
Capítulo 143: Vetores Convergentes / A Montanha em Chamas
O carro preto da NERV deslizou suavemente para dentro do estacionamento subterrâneo do quartel-general, o motor zumbindo em silêncio até desligar. As portas se abriram com um sibilo, liberando os pilotos para uma quietude estéril e opressiva.
Kai foi o primeiro a sair, examinando a garagem com inquietação. Nada de Misato ou Ritsuko. Seu pulso acelerou quando Asuka apareceu ao seu lado, a expressão carregada.
"A Misato não tá aqui," murmurou, os olhos vasculhando o ambiente. "Isso não é um bom sinal."
Atrás deles, Shinji e Rei desceram em silêncio. O rosto de Rei, como sempre, era indecifrável — pálido, inexpressivo, os olhos carmesim distantes. Shinji olhava ao redor com hesitação, a ansiedade já corroendo sua postura.
Antes que pudessem dizer algo, uma voz fria e dura estalou pelo interfone.
"Pilotos, apresentem-se na sala de briefing. Imediatamente."
Gendo Ikari.
Kai trocou um olhar com Asuka — o dela carregava irritação e desconfiança. Não precisavam falar para saber que pensavam o mesmo.
Caminharam rápido, os passos ecoando no chão polido e frio, limpo demais para o que quer que estivesse prestes a acontecer.
Na sala de briefing, mal iluminada, Gendo os aguardava na ponta da mesa, as mãos enluvadas unidas, os olhos escondidos pelo brilho de seus óculos. Um único display tático piscava atrás dele.
"Nada de Misato hoje?" arriscou Kai com cuidado.
Gendo o ignorou. Sua voz era mais gélida que o ar-condicionado. "Um Anjo apareceu, aproximando-se do noroeste. As Unidades 00, 01, 02 e 04 irão interceptá-lo. Os preparativos de lançamento começam imediatamente."
Kai hesitou, a preocupação escapando em sua voz. "Senhor, e a Misato? E a Dra. Akagi?"
Um segundo de silêncio. Então, a voz de Maya surgiu no terminal — hesitante, pálida sob o brilho da tela. "Houve um incidente em Matsushiro... um acidente. A Major Katsuragi e a Dra. Akagi foram atingidas. Os ferimentos são sérios, mas estáveis. Misato foi a mais afetada, mas vai se recuperar."
O peito de Kai apertou. "Um acidente? Isso é..."
A voz de Gendo cortou como lâmina. "Estamos perdendo tempo. Vocês já deveriam estar em posição."
O display aumentou, mostrando um mapa tático — linhas de movimento rastreando uma rota do Monte Nobe até Tokyo-3. O tom de Gendo tornou-se clínico.
"Devido às restrições de cabos umbilicais fora da cidade, vocês atuarão em defesa linear. Ayanami na Posição Um. Soryu, Posição Dois. Quarta Criança, Posição Três. Ikari, retaguarda."
A voz de Shinji tremeu, os olhos arregalando-se em compreensão. "Espera... Monte Nobe — isso é perto de Matsushiro, não é?"
Gendo prosseguiu como se não tivesse ouvido. "Desloquem-se imediatamente. Fim do briefing."
A voz de Asuka rasgou o silêncio. "Espera — Por que a boneca vai primeiro? Essa posição é minha! Eu devia liderar isso!"
Kai tentou intervir. "Asuka—"
"Aceitável. Soryu assume a Posição Um. Movam-se." Ele se virou, encerrando o assunto.
No vestiário, Asuka esmurrou seu armário com raiva visível. "Idiota da Rei. Favoritismo nojento."
Kai, vestindo o plugsuit, a observava em silêncio. "Tem algo errado com tudo isso. Um acidente em Matsushiro? E agora um Anjo vindo de lá?"
Shinji estava pálido. "Talvez seja pior do que disseram pra gente."
Kai assentiu, sombrio. "Essa estratégia me incomoda. Seria mais seguro lutarmos juntos, mesmo sem cabos."
Asuka fechou o zíper com um movimento brusco. "Não preciso de apoio. Se eu ver primeiro, eu derroto primeiro."
Kai ergueu uma sobrancelha. "Isso aí, espírito de equipe..."
"Pelo menos esse parece ser direto," murmurou Shinji, nervoso.
Kai tentou se animar. "É. Um Anjo normal. Algo que dá pra socar. Já é um alívio."
Asuka bufou. "Tsc. Nunca são normais. E soco só resolve quando acerta."
Mais tarde, seus Evas subiram em transportes aéreos individuais. O céu escurecia conforme voavam em direção às montanhas. O rádio permanecia silencioso, carregado de tensão não dita.
"Será que o teste da Unidade-03 deu certo, apesar do... acidente?" arriscou Kai, tentando aliviar o clima. "Talvez o novato venha nos ajudar?"
Shinji hesitou. "Você sabe quem é o piloto?"
"Sei." Kai trocou um olhar com Asuka, perguntando com o olhar se era hora de contar. Misato parecia querer evitar essa conversa por medo da reação dele.
Mas por que não contar?
Kai falou com leveza. "É o Toji."
Longo silêncio. A voz de Shinji saiu baixa, quase quebradiça. "O Toji?"
Kai sorriu. "É. Legal, né? Acho que ele vai se sair bem. Casca grossa, mas no fundo sempre pareceu ser um cara decente."
Shinji hesitou de novo, antes de murmurar: "É... pelo menos sei que ele bate forte."
Kai franziu a testa. "Como assim?"
Shinji suspirou. "Quando cheguei aqui, ele me deu um soco porque a irmã dele se feriu na minha primeira luta. Me culpou por isso."
Kai ficou em silêncio por um momento, assimilando. "Caramba. Eu não fazia ideia."
Depois de um tempo, Kai quebrou o silêncio. "Engraçado, né? Quem era obcecado por Eva era o Kensuke, não o Toji. Fico pensando no que fez ele aceitar."
A voz de Shinji veio firme. "A irmã dele. Tudo que ele faz é por ela."
Kai pensou por um instante, com respeito. "Pilotar pra proteger a irmã. É um bom motivo."
Abaixo deles, o Monte Nobe se erguia imponente, sentinela silenciosa do campo de batalha. A sombra de fumaça vinda de Matsushiro se estendia pelo horizonte como um aviso sombrio.
"Certo," murmurou Kai, apertando os controles, os olhos atentos. "Vamos acabar com esse Anjo."
A voz de Asuka surgiu no rádio, agora firme. "Só não atrapalha, Selvinha. O primeiro golpe é meu."
Capítulo 144: Perda de Controle / Penalidades Sombrias
As mãos de Kai apertavam os controles, a respiração curta enquanto observava o vale se estendendo sob o Monte Nobe. Posicionados a intervalos pela paisagem, os Evas aguardavam em silêncio opressor. A tensão apertava seu peito, se enroscando como uma serpente a cada segundo que passava.
"O Anjo se aproxima," veio a voz fria de Gendo pelo comunicador, sem um pingo de calor. "Detenham-no a qualquer custo."
Kai semicerrava os olhos, examinando o horizonte. Ao longe, uma figura começava a emergir, distorcida contra a luz enevoada.
A voz trêmula de Shinji atravessou os alto-falantes. "Não pode ser... É um Anjo? Aquilo é o Anjo?"
Um instante.
Gendo respondeu friamente. "Exato. É o seu alvo."
Shinji hesitou, a confusão pesando em seu tom. "Como ele pode ser o alvo... Ele é um Eva! Como é que—"
O coração de Kai disparou. Shinji estava certo — a silhueta era inconfundível. Aquela forma, aquela armadura — danificada, mas reconhecível.
A voz de Asuka explodiu, irritada. "Como assim? Como ele foi controlado por um Anjo?"
A mente de Kai girava. "Um Eva? É a Unidade-03? Você tá dizendo que um Anjo possuiu a Unidade-03?!"
A figura distorcida avançava com movimentos espasmódicos. Antes que pudessem reagir, ela disparou com velocidade aterradora, colidindo contra Asuka. Ela gritou, completamente desprevenida.
"ASUKA!" gritou Kai, o pânico crescendo.
Os membros do Eva-03 se contorciam grotescamente, torcendo-se em ângulos impossíveis, se realinhando como carne viva. Os braços se alongaram em tendões de metal e músculo, golpeando a Unidade-02 com força brutal e a lançando longe.
Os gritos de Asuka ecoaram pelos comunicadores — e cessaram subitamente.
"Asuka! O que aconteceu?!" Kai exigiu, o desespero cravando seu estômago.
A voz de Maya entrou com urgência. "O plug de entrada foi ejetado — ela está viva! Equipes de resgate a caminho!"
Alívio e raiva explodiram dentro de Kai. "Asuka... Que se dane esse plano idiota!" rugiu. "Desconectando cabo umbilical!"
Um bip alto soou, e o cronômetro apareceu implacável na tela.
MODO DE BATERIA INTERNA — 5:00 MINUTOS RESTANTES
"Quarta Criança, mantenha sua posição!" ordenou Gendo friamente. "Não quebre a formação!"
"Cala a boca!" Kai retrucou, fazendo o Eva-04 avançar sem hesitação, o coração disparado. "Não vou ficar aqui parado!"
O Eva-03 se movia em direção à posição de Rei. A voz de Shinji tremia de horror. "Espera — o Toji ainda tá lá dentro?!"
A resposta de Maya veio sufocada. "O sistema de ejeção falhou. O piloto da Unidade-03... ainda está lá."
O estômago de Kai virou. "Toji... Aguenta firme, cara!"
O Eva-03 atacou novamente, rápida como um raio, agarrando a Unidade-00.
Atingiu com força avassaladora.
Os braços se expandiram com tecido negro, tendrículos penetrando o ombro da Unidade-00 e se espalhando como uma infecção.
Rei tentou resistir, mas a contaminação avançava.
Maya gritou: "Anjo invadindo o braço esquerdo da Unidade-00! Sistema nervoso corrompido!"
"Depressa, arranque o braço," ordenou Gendo.
"Mas, se não cortarmos as conexões nervosas primeiro—" protestou Maya.
A voz dele foi gélida. "Mandei arrancar."
Uma explosão sacudiu o campo quando o braço da Unidade-00 foi arrancado. O grito de Rei atravessou o canal de voz, agudo e dilacerante.
"Droga! Lento demais!" Kai se xingou, ativando os propulsores nos pés do Eva-04. O cronômetro piscava—um minuto precioso se esvaíra na ativação—03:27 restantes.
O Eva-04 disparou aos céus, ultrapassando a elevação num enorme arco antes de despencar violentamente sobre o Eva-03 com um impacto estrondoso, empurrando-a para trás.
"Desculpa, Toji," rosnou Kai, golpeando a armadura corrompida com os punhos repetidas vezes, cada golpe carregado de uma resolução dolorosa. "Vou te derrubar primeiro, depois a gente te tira daí. Eu juro!"
O Eva-04 continuava a desferir golpe após golpe brutal, mas o Eva-03 revidava com ferocidade monstruosa. Ela guinchou—um som que não era mecânico, nem humano. Movia-se como um fantoche com os fios cortados, os braços se contorcendo em formas grotescas para se proteger.
Ele revidava. Seus membros deformados desviavam os ataques com facilidade, cada contorção antinatural zombando dos esforços de Kai. O cronômetro seguia implacável. —03:27... 02:54... 02:07...
"Kai!" Shinji chamou, a voz tremendo. "O que eu faço? Eu não posso atacar ele! É o Toji!"
"Fica calmo, Shinji! Eu cuido disso!" gritou Kai, desesperado, ao desferir mais um golpe.
Ele continuava golpeando com força, um golpe após o outro, cada soco forçando o Eva-03 a recuar um passo. Mas aquela coisa não vacilava. Não parecia sentir dor. Não emitia som de agonia. A massa contorcida de músculo negro e armadura se movia com um instinto animalesco e implacável, absorvendo os golpes sem diminuir o ritmo. Simplesmente não parava.
Mas Kai também não.
Ele precisava acabar com aquilo sem matar Toji. Isso significava nada de faca progressiva, nada de armas, nenhuma medida letal. Apenas força bruta e esmagadora. Se conseguisse derrubá-lo, imobilizá-lo, talvez atordoá-lo tempo o suficiente para tirar Toji dali...
Cerrou os dentes e desferiu outro soco no centro da besta. O cronômetro continuava perigosamente a contar—01:23 restantes.
Mas o Eva-03 avançou de repente, os membros se enroscando ao redor do Eva-04 com uma força grotesca, como bocas serrilhadas, um líquido de cor biliosa perfurando os dois braços do Eva de Kai.
Os sentidos de Kai vacilaram de imediato, uma nova onda de pânico o atingindo em cheio.
O HUD ficou vermelho.
CONTAMINAÇÃO NEURAL DETECTADA
A voz de Maya transbordava terror. "Está infectando os braços da Unidade-04! Contaminação neural se espalhando rapidamente!"
"Arranque ambos os braços", declarou Gendo friamente, com um tom de satisfação gélida.
"Comandante!" implorou Maya, desesperada. "O piloto ainda está conectado! O feedback neural..."
"É uma ordem." A voz de Gendo era calma e cruel.
A respiração de Kai falhou, a fúria o invadindo de novo. "NEM FUDENDO!" Ele fincou os pés do Eva-04 contra o peito do Eva-03 e acionou os propulsores, disparando para trás e arrancando violentamente os braços corrompidos do Eva-03.
Os braços infectados do Eva-03 foram totalmente arrancados, rasgados das juntas em um jato de gosma oleosa e metal retalhado. Os nervos recuaram como tentáculos seccionados.
O movimento lançou ambas as unidades em direções opostas, colidindo com força contra o solo.
ENERGIA ESGOTADA
Kai aterrissou com brutalidade, alarmes berrando enquanto o cronômetro zerava. O Eva-04 congelou instantaneamente, com a energia completamente drenada. O desespero explodiu dentro dele com violência.
"Não! De novo, não!" gritou, impotente, enquanto o plug de entrada era ejetado automaticamente, despencando de forma abrupta ao solo.
Kai emergiu cambaleando, levantando-se com dificuldade, o coração martelando no peito.
Ao longe, o Eva-03 se ergueu novamente. Distorcido. A cabeça inclinada de forma antinatural. Um fluido negro e espesso escorria de suas cavidades rasgadas onde antes havia braços.
E ele continuava se movendo.
Shinji estava estático, completamente paralisado.
Kai assistia, impotente, respirando com dificuldade. "Shinji...", sussurrou, desesperado. "Shinji, por favor... pare ele. Agora depende de você."
A marionete grotesca do Anjo avançava, seu corpo se contorcendo, espasmando, se remodelando a cada passo como um inseto grotesco trocando de exoesqueleto.
"Não deixe ele vencer", murmurou Kai.
A escuridão colossal avançava inexoravelmente, deixando Kai para trás em uma dor desesperadora, rezando em silêncio para que Shinji encontrasse forças para agir.
Capítulo 145: Além do Controle / Horizonte Carmesim
O corpo de Kai tremia violentamente enquanto ele permanecia impotente diante das formas colossais dos Evas. A Unidade-04 jazia em silêncio, drenada e sem vida atrás dele. Um vento frio e amargo cortava seu rosto, afiado e punitivo.
À frente, a Unidade-03 avançava inexoravelmente rumo à última linha de defesa — a Unidade-01. O Eva de Shinji permanecia imóvel, assustadoramente passivo. O coração de Kai batia descontrolado, afundando em pavor crescente.
"Shinji!" ele gritou desesperado, a voz falhando em puro pânico — mesmo sabendo que ninguém podia ouvi-lo dali. "Shinji, se mexe! Você tem que lutar!"
A Unidade-03 se aproximava com propósito aterrador, movendo-se como um fantoche quebrado. Então, num salto brutal, ela se lançou sobre a Unidade-01, cravando o joelho com força brutal na garganta do Eva de Shinji, esmagando-o contra o solo.
"NÃO! SHINJI!" Kai urrou, uma dor aguda rasgando seu peito. Deu alguns passos cambaleantes à frente, os punhos cerrados até sangrar. Mas era inútil — ele só podia assistir.
O Eva-01 permanecia passiva, completamente subjugada sob o peso da Unidade-03, que pressionava sem piedade. Cada segundo se esticava como tortura. A respiração de Kai vinha em soluços, o desespero tomando conta.
"SHINJI, PELO AMOR DE DEUS! FAZ ALGUMA COISA!" Sua voz se esfacelava em frustração, raiva e impotência. As lágrimas ardiam nos olhos.
Então, algo mudou. O Eva-01 se contorceu subitamente, os membros se movendo de forma brusca. O coração de Kai disparou com esperança.
"Shinji! Isso!" gritou, quase eufórico. "Você consegue, Shinji! Revida!"
O Eva-01 explodiu em ação, lançando o Eva-03 longe com um golpe devastador. Uma onda triunfante atravessou o peito de Kai. Ele ergueu o punho com força. "Isso mesmo! Vai com tudo!"
O Eva-01 avançou com determinação, golpeando com precisão e poder. Seus movimentos eram controlados, mas implacáveis, forçando o Eva-03 a recuar a cada impacto. Kai assistia em suspense, o coração batendo com adrenalina e alívio. Shinji havia retomado o controle, ele havia virado o jogo. O Eva-03 cambaleava, mal conseguindo resistir à investida incessante, até finalmente desabar de costas, totalmente subjugada.
Mas o alívio evaporou tão rápido quanto veio. Os movimentos do Eva-01 tornaram-se de repente cruéis, animalescos. O Eva-01 agarrou as pernas do Eva-03, e o estalo grotesco das juntas se rompendo ecoou pelo ar enquanto eram arrancadas, jorrando um fluido espesso e carmesim.
"Espera… Shinji, o que você—" A voz de Kai vacilou, o pavor substituindo rápido toda a alegria.
O Eva-01 não parou. Rasgava com ferocidade o torso do Eva-03, arrancando placas de blindagem e carne, expondo as entranhas retorcidas e manchadas de sangue. Os sons de tendões sendo dilacerados e de sangue espirrando preenchiam os ouvidos de Kai, sobrecarregando seus sentidos. Ele cambaleou para trás, o horror estampado no rosto.
"Não..." Kai sussurrou, enjoado. "Shinji, para! Você tá matando ele!"
Mas a carnificina continuava. As mãos do Eva-01 mergulhavam mais fundo, agarrando fios, órgãos e ossos, arrancando tudo em punhados brutais e horrendos. O Eva-03 se contorcia espasmodicamente, mas já não resistia—e ainda assim o Eva-01 continuava sua monstruosa atrocidade com uma violência implacável e fria.
Kai caiu de joelhos. "Por favor... Para... Shinji, por quê?" sua voz falhando, a garganta em carne viva de tanto gritar.
Então, o Eva-01 agarrou a cabeça da Unidade-03 e a arrancou com um estalo molhado, grotesco. Um jato de fluido espirrou violentamente do pescoço destruído, tingindo o chão de um vermelho nauseante.
E, por fim, os dedos do Eva-01 encontraram o plug de entrada.
"Toji… Não…" Kai sussurrou, horrorizado.
O punho do Eva esmagou impiedosamente o plug com facilidade. O som metálico do colapso final ecoou.
Kai desabou no chão. Olhava fixo, em choque, para a silhueta triunfante do Eva-01 sobre o cadáver mutilado da Unidade-03. Sua visão se turvava com lágrimas, a respiração rasa e irregular.
"Como você pôde... Shinji?" sussurrou, a voz quase inaudível.
Ao fundo, sirenes soavam. Veículos de resgate chegaram em frenesi. Kai mal percebeu.
"KAI!"
A voz de Asuka foi a primeira a alcançá-lo, aguda e assustada. Ela correu cambaleante em sua direção, com um cobertor jogado sobre os ombros, os olhos arregalados de choque. Rei estava sentada silenciosamente em outro veículo, os olhos vermelhos fixos no vazio à frente.
Asuka ajoelhou ao lado dele, segurando seu braço com força. "Kai... o quê que aconteceu? Sua cara... o que você viu?"
Kai não tirava os olhos do Eva-01. Sua voz saiu oca:
"O Shinji... matou ele."
Capítulo 146: O Silêncio Após / Verdades Não Ditas
O silêncio dentro da ala médica era espesso, pressionando como o peso do próprio Geofront. A luz branca zumbia sobre a cabeça de Kai enquanto ele caminhava, Asuka ao lado, ambos ainda com seus plugsuits úmidos. Os corredores pareciam mais longos que o normal. Cada passo ecoava.
Kai estava furioso. Com Shinji. Consigo mesmo. Como ele pôde falhar daquela forma? Ele olhou para Asuka, andando ao seu lado. A expressão dela. Parecia estar pensando exatamente a mesma coisa.
Eles não pediram informações. Já sabiam para onde ir:
O quarto de Shinji.
O coração de Kai ainda disparava — mais de raiva do que de adrenalina agora. Raiva do que havia visto. Do que Shinji havia feito.
A porta deslizou sem resistência. Shinji estava deitado na cama hospitalar, pálido, inconsciente, preso a fios de monitoramento e soro. O rosto estava sereno — o que só fez Kai cerrar os punhos com mais força.
"Ele tá apagado," murmurou Asuka.
Kai deu alguns passos. "Por quê? Por que ele tá assim? Ele venceu. Ele destruiu aquela coisa... como um monstro. Não era pra estar apagado."
Uma enfermeira entrou em silêncio logo atrás deles. "Ele não retomou a consciência desde a extração."
Kai se virou, a testa franzida. "Por quê? O que aconteceu com ele?"
A enfermeira hesitou. "Não nos informaram. Algo sobre a operação. Estresse mental, talvez. Reação neural... ainda estamos fazendo exames."
Kai encarou o rosto de Shinji, o maxilar travado. Não sabia se gritava ou se o sacudia.
Uma voz soou no corredor — trêmula, desesperada.
"Hikari?" disse Asuka, virando.
Hikari vinha correndo, os cabelos bagunçados, os olhos vermelhos de tanto chorar. "Cadê ele? Onde tá o Toji?"
Outra enfermeira se aproximou rapidamente, tentando guiá-la para longe do quarto de Shinji. "Por aqui. Ele está estável, mas precisa manter a calma."
Kai e Asuka seguiram.
O quarto de Toji era do outro lado do corredor. A luz era mais baixa, o ambiente mais pesado. Ele estava ali, inconsciente como Shinji — mas pior. Uma perna havia sido amputada. O lençol cobria o local, mas a forma era inconfundível.
Hikari soltou um soluço e correu até ele, segurando sua mão. "Toji... Toji..."
O médico ao pé da cama falou com calma. "Ele vai sobreviver. Sofreu traumas severos, e a amputação foi necessária. Mas fisicamente... vai se recuperar."
Hikari enxugou os olhos com as costas da mão, tremendo.
Kai engoliu seco. Nada daquilo estava certo. Ele olhou para Asuka. Ela estava pálida, os braços cruzados, mas observava Hikari atentamente.
Depois de alguns minutos, Kai deu um passo em direção ao corredor. "Tem algo errado."
Asuka assentiu, rígida. "Shinji não poderia ter feito aquilo. Não daquele jeito."
Kai completou. "E se fez... então por que tá inconsciente? Não faz sentido."
Eles ficaram em silêncio por um momento, até Kai dizer o que os dois pensavam. "A gente precisa conversar com alguém."
A mandíbula de Asuka se contraiu. "Gendo."
Ao virarem para sair, Rei surgiu silenciosamente no corredor. O olhar dela os percorreu.
"Vai com a gente?" perguntou Kai.
Asuka completou. "Vamos atrás de respostas."
"Eu vou ficar," respondeu Rei, simplesmente.
"Claro que vai," murmurou Asuka.
Kai olhou para trás. Rei estava entrando no quarto de Shinji.
Os corredores da NERV pareciam mais frios do que o normal. A movimentação típica estava ausente. Quando chegaram à sala de comando, só Maya estava ali, curvada sobre um dos terminais.
"Maya!" chamou Asuka. "Onde ele tá? Onde tá o Ikari?"
Maya levantou os olhos, surpresa. O cansaço e a culpa estavam gravados fundo no rosto. "Ele foi embora. Logo depois da operação."
"Claro que foi," resmungou Kai. "Então conta pra gente. O que diabos aconteceu?"
Maya hesitou, visivelmente em conflito. Mas, devagar, se levantou.
"Misato e a Dra. Akagi se feriram na ativação da Unidade-03. Estão se recuperando, mas não conseguiram voltar a tempo."
"Isso a gente sabe," disse Kai. "O que aconteceu durante a luta?"
Os olhos de Maya se abaixaram. "Quando o Shinji recusou lutar... o Comandante ativou o Dummy Plug."
Kai franziu a testa. "Ativou o quê?"
"É um sistema de controle automatizado," explicou Maya. "Ele anula o piloto. A Unidade-01 não estava sendo controlada pelo Shinji."
Os olhos de Asuka se arregalaram. "Ele foi... retirado do controle?"
"Sim. E quando a batalha acabou, o Shinji estava... em choque. Não queria sair do plug. Trancou tudo. Disse que iria destruir o centro de comando."
Kai ficou sem ar. "O quê?"
Maya assentiu. "O Comandante ordenou o aumento da pressão no plug. O LCL foi extraído à força. Por isso ele está inconsciente."
Kai deu um passo para trás, a mente girando. "Ele não estava no controle. Ele não... não foi ele."
Asuka cruzou os braços com força. "Então quem esmagou o plug do Toji?"
A voz de Maya se quebrou. "O sistema. O Dummy Plug."
O silêncio caiu pesado entre eles.
Kai se virou sem dizer nada, saindo da sala. Asuka o seguiu de perto, o rosto indecifrável.
Nenhum dos dois disse uma palavra ao deixar a sala de comando.
Mas não deixariam aquilo terminar assim.
Capítulo 147: Ponto de Ruptura / A Escolha de Resistir
O silêncio entre Kai e Asuka pairava como fumaça enquanto eles caminhavam pelos corredores da NERV, afastando-se do centro de comando — afastando-se de tudo o que pensavam entender.
Kai quebrou o silêncio primeiro.
"Inacreditável."
Asuka não respondeu.
Continuou andando, cada passo uma explosão contida.
Então ela parou.
As mãos cerradas em punhos, os ombros tensos. "...Eu odeio esse lugar."
A voz era baixa, quase um sussurro, mas cheia de algo bruto.
Ela se virou para ele, olhos arregalados e em chamas. "O que diabos a gente tá fazendo aqui, Kai?"
Ele não tinha resposta.
Nada que consertasse aquilo.
"Se esse sistema dummy funciona assim... eles não precisam da gente," disse ele, em voz baixa.
"Vamos," ela disse, agora mais calma. "Vamos sair daqui."
Os passos não eram mais apressados.
Eles saíram para o anoitecer. O céu sobre Tokyo-3 estava tingido de violeta e preto, mas não havia beleza ali naquele dia.
Tudo parecia contaminado.
A cidade ao redor estava quieta, quieta demais, como se o mundo inteiro estivesse pausado, reconhecendo o que havia acabado de acontecer.
Ela chutou uma pedra pela calçada, observando-a quicar adiante.
"O Shinji tá um caco, o Suzuhara nunca mais vai andar, e a NERV vai fingir que nada aconteceu," murmurou. "E a gente tem que simplesmente `seguir em frente' como se estivesse tudo bem."
As mãos dela se cerraram dentro dos bolsos da jaqueta.
"Tsc. Dane-se eles."
A luz da lua banhava Tokyo-3 em um azul esmaecido, mas para Kai, parecia mais como se o céu estivesse queimando. O dia havia rachado algo dentro de todos eles.
Caminharam lado a lado pelas ruas caladas, cada passo ecoando suavemente contra prédios que já tinham visto demais. Não havia pressa agora. Nenhum alarme. Nenhuma convocação. Apenas gravidade. Apenas silêncio.
Kai acompanhou Asuka em silêncio até chegarem ao apartamento dela. Quando ela destrancou a porta e entrou, jogou a mochila no sofá com um baque surdo. Parou no centro da sala, convidando Kai a entrar, como se não soubesse o que viria a seguir.
O zumbido silencioso do apartamento preenchia o espaço, quebrado apenas pelo ocasional lampejo da TV e o murmúrio distante do trânsito lá embaixo. Do lado de fora, o nevoeiro neon de Tokyo-3 vazava pelas cortinas, projetando brilhos suaves pelo ambiente. Lá dentro, o ar era pesado — mas compartilhado. Menos isolado. O silêncio não era desconfortável — era um tipo de silêncio que só se divide com quem já viu demais para falar.
"Você sabe que não precisa ficar," ela disse sem se virar. A voz não era afiada. Se alguma coisa, era suave. Incerta. Um teste frágil de algo mais profundo.
Kai largou suas coisas ao lado das dela e respondeu: "Claro que fico. Mas ei, pode fingir que eu não te dei escolha, tá?"
Asuka bufou e se jogou no sofá. "Tsc. Como se eu tivesse escolha com você."
Abraçou uma almofada contra o peito — não com força, nem de forma defensiva, mas como quem precisava de algo pra segurar. Os olhos se voltaram pro teto, e um suspiro longo e cansado escapou.
"...Obrigada."
Ela não olhou para ele ao dizer.
Kai sentou ao lado dela e imitou sua postura, recostando-se com os olhos também fixos no teto. "Obrigado você."
Ela o olhou de relance, surpresa. Virou o rosto logo em seguida.
"...Idiota."
Havia um tipo de carinho gasto, embrulhado em exaustão, na voz dela.
A sala escurecia com a hora. A televisão piscava sem propósito. A pizza que haviam pedido estava pela metade, esquecida na mesa. Ela se encolheu no sofá, a lata de refrigerante amassada na mão, a mente claramente em outro lugar.
"Eu fico pensando," disse ela, finalmente. A voz era baixa. Vulnerável. "Se a gente tivesse ficado até o fim... você acha mesmo que dava pra salvar ele?"
Kai ainda encarava a TV, mas os pensamentos giravam. Lentamente, virou-se para ela.
"Você fez o que pôde. A gente não sabia o que estava enfrentando e aquilo te pegou de surpresa. Eu culpo o Gendo por isso. Mas..."
Kai abaixou o tom. "...Foi tudo culpa minha. Se eu não tivesse deixado o Shinji sozinho, só porque perdi a cabeça... se eu tivesse seguido ordens, talvez houvesse uma chance. Com toda essa história de eu ser uma anomalia, achei que... precisava fazer diferente."
Asuka ficou em silêncio. Então seus dedos apertaram a lata até ela amassar. A respiração vacilou. "Tsc. Você é um tonto mesmo."
Ela se virou para ele, frustração nos olhos — não com ele, mas com a injustiça de tudo aquilo. "Você acha que a culpa é sua? Que se a gente tivesse ficado tentando salvar o Toji, ia impedir o Gendo de fazer o que ele já tinha decidido?"
A voz tremia sob o peso de tudo que não foi dito. "Até parece, Kai. Aquele desgraçado nunca ia deixar a gente ter voz. Não com aquele Dummy Plug pronto."
Ela se recostou, a cabeça contra a almofada, encarando o teto como se ele fosse culpado. "É, talvez desse pra fazer mais. Mas no segundo em que ligaram aquele sistema, já era. A gente nunca foi importante. A gente é só — só peça descartável pra eles."
As mãos se fecharam em punhos. "Eu odeio isso. Odeio ficar aqui, discutindo possibilidades enquanto o Gendo continua fazendo o que quer. Eu odeio me sentir inútil."
Kai também cerrou os punhos, as palavras dela ecoando por dentro.
"É... eu também."
Olhou pro chão, depois de volta pra ela. A voz mais firme, mais nítida.
"Não. Eu não vou deixar assim. Eu decidi. Se eles estão preocupados comigo, é porque eu posso sim fazer alguma coisa."
Ele se levantou, ficando de pé diante dela.
"O Kaji me avisou — o Gendo não é o único problema. Existem outras forças, organizações como a SEELE por trás dele. Mas somos nós que estamos no campo de batalha. A gente deveria ter voz nisso."
Kai continuou, os olhos fixos nos dela.
"Mas eu... não consigo fazer isso sem você. É sempre você que me faz seguir em frente. Juntos, sinto que a gente pode fazer qualquer coisa. Até impedir esse maldito ‘Projeto de Instrumentalização Humana’."
Asuka piscou.
A expressão dela mudou — de surpresa pra consideração. E então, finalmente, um bufar. "Tsc. Você é mesmo um idiota impulsivo, né?"
Mas a voz mudou. Estava mais forte agora. Focada.
"Quer enfrentar o Gendo? O sistema todo?" Ela se inclinou à frente. "Isso é guerra, Selvinha. Não é só pilotar Eva. É tudo."
Um instante se passou. Então ela sorriu de lado. "Ótimo. Eu também não vou ficar sentada vendo tudo acontecer."
Cruzou os braços e inclinou a cabeça pra ele. "Você acha que eu ia deixar você começar uma revolução sem mim? Sonha. Mas se vamos fazer isso, vai ser direito. Sem mais entrar de cabeça. Sem mais se matar pra provar alguma coisa."
Os olhos dela encontraram os dele, firmes. "E você não vai se meter em perigo sem mim. Entendeu?"
Então, com um leve empurrão no braço dele, acrescentou:
"Além disso... alguém tem que te manter na linha."
Kai sorriu. "Quer dizer que não posso só subir no Eva e pisar na sede da NERV?"
Asuka deu um riso curto, revirando os olhos. "Plano genial. Vamos esmagar a base inteira e encerrar o dia. Viu como deu certo pro Shinji?"
Ela se recostou, balançando a cabeça. "Tsc. Você tem um pensamento rebelde e já se acha herói revolucionário."
Apesar do sarcasmo, a confiança estava ali. O compromisso.
Então ela cutucou ele de novo.
"E aí? Qual é o próximo passo, revolucionário destemido? Vamos montar uma resistência agora?"
O sorriso de Kai desapareceu um pouco, só o suficiente pra mostrar a seriedade.
"A verdade é que... a gente ainda precisa da NERV pra lutar contra os Anjos. A gente tem que aguentar. Até o dia em que eles pararem de vir."
Ele respirou fundo.
"Mas também temos que estar prontos. No momento em que o Gendo se mexer... a gente impede. E eu já pensei no nosso primeiro passo."
Asuka arqueou uma sobrancelha. "Ah, é? E qual exatamente seria esse primeiro passo ‘brilhante’?"
Kai ficou diante dela, o rosto resoluto.
"O primeiro passo é eliminar a única coisa que realmente pode ser um problema pra nós: a gente tem que destruir o Sistema Dummy Plug."
Asuka piscou.
Então a expressão dela mudou — lenta, metodicamente. Da dúvida. Pra compreensão. E então pra algo muito mais perigoso.
Ela se inclinou à frente.
O sorriso dela ficou afiado como navalha.
"Agora essa... é uma ideia que eu posso apoiar."
Capítulo 148: Flertes Táticos / Encontro à Meia-Noite
Algo na expressão de Asuka havia mudado.
Não era só a intensidade nos olhos — era o retorno de algo perdido mais cedo naquele dia. Controle. Determinação. Um fogo que fora apagado pela impotência e agora reacendia com uma missão concreta.
Ela se colocou diante de Kai, braços cruzados, olhar afiado. "Aquele Sistema Dummy é a única coisa que nos torna descartáveis. O motivo pelo qual o Shinji não teve escolha a não ser sentar e assistir tudo acontecer."
O maxilar dela se contraiu, e a voz baixou. "O motivo pelo qual o Suzuhara quase morreu."
Kai assentiu lentamente, observando-a. Havia um pulso por trás das palavras dela que batia no mesmo ritmo do próprio coração.
Asuka expirou e inclinou levemente a cabeça, já analisando. "Mas como você pretende fazer isso? Isso não é só invadir uma biblioteca ou brincar de espião. Aquilo é o xodó do Gendo. Se a gente for mexer com aquilo, tem que ser com inteligência."
Ela o encarou, desafiando-o. "E aí? Tem um plano? Ou vamos torcer pra ele se autodestruir magicamente?"
Kai não conseguiu evitar o sorriso que surgiu no canto dos lábios. "Kaji. Ele já nos deu motivos pra acreditar que está do lado certo. E quando me encontrou, ele ofereceu ajuda."
Ela abriu um sorriso no instante em que ele mencionou o nome.
"Hah! Era isso que eu queria ouvir!" Ela cutucou o peito dele com o dedo. "Tá vendo? Você tem um pouco de juízo, afinal!"
Ele estreitou os olhos, num tom brincalhão. "Mas ainda não gosto dele."
Asuka o observou por um instante e então sorriu de canto. "Quer não gostar dele? Beleza. Mas o Kaji não é idiota. Ele sempre tem um plano — mesmo quando finge que não."
Kai olhou para o lado. "Ah, então ELE não é idiota? Tooodo mundo é idiota, mas o KAJI não. É isso que você tá dizendo."
Ela o encarou por um instante e caiu na risada. "Olha só você, Selvinha ciumento. Tá bom. Ele é irritante e muito cheio de si, eu entendo."
Ela jogou o cabelo por cima do ombro com um olhar teatral. "Ainda bem que ele é fácil de manipular. Só precisa pedir do jeito certo."
O rosto de Kai escureceu quando deu um passo à frente. "O quê? Tipo da última vez? DE JEITO NENHUM. Eu odiei aquilo. Você não vai fazer isso de novo. Nem pensar."
Asuka soltou um gemido dramático, jogando os braços pro alto. "Ai, meu Deus, Kai, você ainda tá bravo com aquilo?! Aquilo foi flerte tático! E funcionou!"
Ela cruzou os braços, encarando-o. "E não é como se eu tivesse gostado! Ugh, o Kaji nem é tudo isso." Ela deu um chute leve no sofá. "Mas ele caiu direitinho."
Então sua expressão se torceu num sorriso malicioso. "Peraí… é mesmo por isso que você não gosta dele? Você tá com ciúmes assim, Selvinha?"
Ela se inclinou, cutucando o peito dele. "Tem certeza que não quer tentar você mesmo jogar um ‘flertezinho tático’ nele também? Dar uma piscadinha, usar aquele seu sorrisinho sedutor idiota—"
Ela congelou, percebendo o que tinha acabado de dizer. O rosto ficou mais vermelho. "E-esquece, isso seria nojento! Finge que eu não falei nada!"
Kai caiu na risada, sem conseguir se conter. "Você é terrível!"
Então abriu um sorriso provocador. "Então você acha meu sorriso sedutor, é?"
Asuka virou de costas com um grunhido, os braços cruzados como um escudo. "Ugh, cala a boca!"
Mas os lábios dela tremiam. Só um pouquinho.
"Você é o pior," murmurou. "Tento ter uma conversa séria de estratégia e você fica rindo de mim."
Depois de um instante, ela lançou um olhar de lado. "Mas falando sério. Se vamos falar com o Kaji, precisamos de um plano. Ele não vai entregar informação confidencial só porque pedimos com jeitinho. E aí? Vamos na sutileza? Ou só infernizar até ele ceder?"
Ela sorriu de novo. "Porque eu posso ser muito irritante quando quero."
Kai riu e inclinou a cabeça. "Na verdade, eu tava pensando... lembra como ele entrou em contato comigo da última vez?"
Asuka franziu os olhos. "Sim... foi ele que te procurou. Então... a gente faz ele vir até nós."
Ela começou a bater o dedo no queixo. "Podemos fazer algo suspeito. Algo que faça ele aparecer. Uma isca... não, uma armadilha! Não..."
Kai se inclinou e sussurrou bem ao lado da orelha dela, como se fosse revelar o plano mais genial do mundo. "Eu posso só... mandar uma mensagem pra ele e marcar um encontro. Ainda tenho o número dele daquela vez, sabe?"
Asuka congelou.
Então empurrou ele com força.
"VOCÊ TÁ DE BRINCADEIRA?!" Ela levou as mãos às têmporas. "Deus. Inacreditável! Eu aqui bolando um plano brilhante de espionagem e você... vai mandar UMA MENSAGEM?!"
Ela jogou as mãos pro alto. "Uau, Kai. Que gênio. Tenho certeza de que ninguém nunca pensou em mandar uma mensagem antes."
Kai riu de novo, adorando o drama dela. "Ué, da outra vez ele me mandou mensagem e marcou o encontro. Vou fazer igual, parece que é um movimento legítimo de espião."
Vendo ela bufar, ele acrescentou com um sorriso: "Posso ser sombrio e misterioso, tipo: Encontre-me nas docas. Ao nascer do sol. Sozinho. Que tal?"
Asuka o encarou. Depois soltou um gemido e se jogou no sofá.
"Meu Deus. Você é um caso perdido."
Ela o espiou por cima do braço do sofá. "Nas docas, ao nascer do sol? O que é isso, um romance policial barato? Você ao menos sabe onde ficam `as docas'?"
Ela ergueu a cabeça, os olhos semicerrados. "Primeiro: não vamos nos encontrar `ao nascer do sol'. Eu gosto de dormir, e não vou acordar no fim da madrugada só porque você acha estiloso."
Então, seu sorriso voltou com força total. "Segundo... se vai ser todo sombrio e misterioso, pelo menos faça direito. Bota um pouco de suspense."
Ela parou. "Pera — onde foi que ele te encontrou da outra vez?"
Kai piscou. "Depósito velho de trens. Galpão 3."
Os olhos dela se iluminaram. "Perfeito. Sinistro o suficiente pra parecer cinematográfico."
Ela se inclinou e digitou no celular dele.
"Algo como... Precisamos conversar. Sobre o Dummy Plug. Me encontre pessoalmente. Venha sozinho. Meia-noite. Mesmo lugar."
Ela se recostou com um olhar satisfeito. "Viu? Agora sim parece movimento de espião."
Kai se animou. "É ISSO!!! Arrasou!"
O sorriso dela era pura malícia. "É dramático. É sombrio. É perfeito."
Ela se inclinou na direção dele, sorrindo. "E então? Vai mandar, ou precisa que eu segure sua mão?"
Kai abriu um sorriso, os dedos já voando na tela.
"Tô mandando agora!"
Capítulo 149: Protocolo Clandestino / A Arte do Sabotagem
Mensagem enviada, Kai baixou o celular e piscou.
"Peraí... que horas são?"
Asuka olhou para o relógio da parede e sorriu de canto. "Hah. 23:17."
Ela cruzou os braços, encostando casualmente no batente da porta. "Bom, Selvinha, parece que demos exatamente quarenta e três minutos pra ele dar um jeito de aparecer no encontro."
O olhar dela voltou pra ele, uma sobrancelha erguida. "Acha que ele vem mesmo?"
Kai deu de ombros. "Não faço ideia. Mas a gente tem que estar lá." Pausou. "Ou... você acha que eu devia ir sozinho?"
Asuka bufou e se endireitou na hora. "Pfft. Aham. Até parece que eu vou deixar você encontrar aquele metido cretino sozinho."
Kai percebeu que o jeito dela falar do Kaji tinha mudado um pouco. Pra quê chamá-lo de `metido cretino'? Parecia que queria garantir que Kai acreditasse que ela não sentia nada especial por ele. Talvez estivesse tentando demais. O efeito, ironicamente, era o oposto — fazia Kai pensar que ela realmente sentia algo pelo Kaji. Ou talvez fosse só paranoia. Vai saber.
Ela cutucou o peito dele. "Vai que ele só quer te enrolar e dar meia informação. Você precisa de mim lá pra manter ele na linha."
E com um sorriso travesso, completou: "Além disso... se cair em uma armadilha, quem vai salvar sua bunda, hein?"
Ela pegou a jaqueta e conferiu a hora. "Vamos, temos quarenta minutos. Se mexe."
"Vamos!" O entusiasmo subiu em Kai, mas ele parou por um instante. Só o suficiente para o peso de tudo voltar a se assentar.
Olhou para ela com algo mais suave, mais pé no chão. "Então... se sente melhor agora?"
Asuka congelou no meio do passo.
A mão apertou um pouco mais forte a borda da jaqueta. Respirou fundo — soltando lentamente. Quando virou pra ele de novo, o sorriso ainda estava lá, mas mais leve.
"...Tsc. Sim."
Ela inclinou levemente a cabeça, e por um breve momento, o fogo nos olhos suavizou num brilho mais vulnerável.
"Ainda tô com raiva. Ainda odeio aquele lugar. Ainda quero socar alguma coisa." Os lábios se curvaram num meio sorriso. "Mas... ajuda. Ter algo pra fazer a respeito."
Desviou o olhar, puxando a manga do casaco. A voz baixou, quase inaudível.
"E alguém pra fazer junto."
Kai abriu a boca, mas antes que conseguisse responder, ela virou de novo com os olhos afiados.
"Mas nem pense em tirar conclusões idiotas disso, entendeu?!" Deu um empurrão leve no ombro dele. "Agora anda, temos um espião pra interrogar!"
E como se nada tivesse acontecido, ela voltou a ser ela mesma.
Kai sorriu, aliviado pela mudança. Ela realmente estava de volta.
E sim... ele tinha várias conclusões idiotas. Mas não era o momento.
Tokyo-3 à noite tinha um silêncio estranho. As ruas vazias, banhadas em neon tênue e o zumbido distante de transformadores. O ar fresco e cortante tocava a pele como um lembrete de que o mundo ainda girava — mesmo depois de tudo.
Kai e Asuka avançavam rápido por becos e ruas secundárias. Havia uma energia diferente nela agora — calma, focada, eficiente. Como se tivesse recolhido os próprios cacos e transformado em algo perigoso.
Quando chegaram ao galpão, as luzes da cidade já tinham ficado para trás, restando apenas o brilho distante de um vento enferrujado vindo do velho depósito ferroviário. Contêineres antigos se alinhavam como monólitos em silêncio, projetando sombras longas sob lâmpadas intermitentes.
Kai olhou a hora.
23:59.
Pontual.
Virou para Asuka. "Foi aqui que ele me encontrou da outra vez... Saiu das sombras com umas falas cafonas."
Asuka bufou, braços cruzados. "Claro que saiu. Aquele exibido deve achar que tá num filme de espião." Os olhos vasculhavam o ambiente. "E aí? Cadê ele? Já tá um minuto atrasado."
Ela começou a bater o pé. "Tsc. Se ele fizer entrada dramática, eu juro que vou—"
Uma voz cortou suavemente o silêncio:
"Ora, ora, Asuka, paciência é uma virtude."
De trás de uma pilha de contêineres, Ryoji Kaji surgiu, mãos nos bolsos do casaco, sorriso já pronto. O cabelo levemente bagunçado pelo vento, os passos tranquilos, como se fosse só mais uma parada noturna qualquer.
Olhou de um para o outro, claramente entretido.
"Os dois, hein? Acho que sou mais importante do que pensei."
Então fixou o olhar em Kai com mais intensidade. "E então, Kai... me chamou aqui só pra relembrar nosso último encontro ou tem coisa mais interessante em mente?"
O sorriso de Kaji pairava como uma lâmina.
Kai respondeu com firmeza. "Acho que você já sabe por que chamamos. E, como veio mesmo assim, acho que tá disposto a ajudar."
Kaji soltou uma risada leve. "Direto ao ponto, hein?"
O olhar dele passeou entre Kai e Asuka, avaliando como se já enxergasse dez jogadas à frente. Então suspirou e coçou a nuca.
"Tá bom. Vocês têm minha atenção. Do que se trata?"
Asuka deu um passo à frente, braços cruzados, voz afiada. "O Dummy Plug."
O sorriso de Kaji afinou.
Não sumiu — mas mudou.
Mais calculado.
"Ah. Isso." Olhou em volta como se de repente sentisse todos os olhos ocultos. A voz baixou. "É... imaginei que isso apareceria depois de hoje."
Encarou Kai diretamente, sem mais traços de humor. "Então me diz, Selvinha — o que exatamente acha que posso fazer a respeito?"
Kai piscou. "Selvinha? Até de você??"
Virou-se para Asuka com cara de indignado. "A culpa disso é SUA. Eu odeio esse apelido."
Asuka sorriu vitoriosa.
Kai voltou a encarar Kaji, agora sério.
Hesitou só por um instante — e decidiu. Sem jogos. Sem segredos.
"A gente precisa sabotar aquilo. Destruir. É poder demais nas mãos do Gendo. Isso anula os pilotos. A gente não pode deixar."
A leveza de Kaji caiu como uma máscara ao chão.
Ouviu atentamente. Cada palavra parecia pesar mais que a anterior.
Então suspirou. Longo, lento.
"...Ohh, garoto." Passou a mão na testa. "Vocês não fazem nada pela metade, né?"
Os olhos de Asuka se acenderam. "Pode apostar que não. Aquilo transformou o Eva-01 num assassino sanguinário."
Kaji os olhou. "E o que faz vocês acharem que podem conseguir? Isso não é o carro da Misato. É coisa nível SEELE. Se forem pegos... não vai ser bronquinha."
Deu um passo mais perto, voz baixa.
"Então me diz, Selvinha — até onde está disposto a ir?"
Os olhos de Kai se estreitaram. Ele se endireitou e apontou para Asuka.
"Da última vez, você disse que ninguém sabe nada sobre mim. Nem os superiores. Que eu sou um elemento imprevisível... Hora de usar isso."
Apontou para Asuka de novo, com fogo na voz. "E o meu caos é contagioso. É por isso que a gente tem uma chance. Vou até o fim."
Kaji encarou.
Depois riu — baixo, quase amargo. "Nossa."
Mais um segundo. Outra risada, mais suave. "Você realmente é diferente, moleque."
Olhou para Asuka, que não desviou. Observou os dois, então soltou um longo suspiro.
"Tá bom. Beleza."
Deu mais um passo, olhos varrendo o galpão. "Aqui vai o que posso dizer — sem assinar minha própria sentença de morte."
"O Dummy Plug?" disse. "Vocês têm razão — é perigoso. Mas não foi o Gendo que criou. Ele só executou a ordem da SEELE."
Asuka enrijeceu.
Kai também sentiu. Aquele nome. Sempre presente. Sempre à sombra.
"Não é só automação. É substituição. Uma forma de tornar vocês... descartáveis. Tirar o piloto. Colocar um fantasma. Funciona sempre que o comandante quiser. Isso é o perigo real."
Olhou nos olhos de Kai.
"Se destruírem? Eles reconstroem. Mas pode ganhar tempo. Plantar dúvida. E acreditem — é isso que a SEELE teme."
Pausou, a voz baixando.
"Agora... por sorte, o sistema tem uma falha proposital. Uma backdoor que ativa a auto-destruição da parte principal do sistema. Eu sei porque alguém se certificou de que ela existisse, caso desejasse apagar tudo. E, felizmente, eu tive... acesso a essa pessoa. Mas ela não vai ficar nada feliz quando souber o que eu peguei."
"Isto," disse, entregando um drive para Asuka, "é um software disfarçado de atualização. Quando o Dummy Plug for ativado, vai disparar um colapso controlado, ativando o protocolo de autodestruição."
Asuka pegou, franzindo a testa. "Parece tão... pequeno."
Kaji sorriu. "Essa é a ideia. Mas lembrem-se: uma vez ativado, não tem volta. As consequências podem ser... piores do que esperam."
Kai murmurou. "É só plugar isso?"
"Quase," disse Kaji. "Tem que ser pelo terminal da Dra. Akagi. Só ela tem acesso que ignora os firewalls. É como a gente entra sem soar alarme."
Asuka gemeu alto. "Ugh! Eu sabia! Odeio essa mulher!"
Virou-se para Kai. "Se você me obrigar a ser legal com ela, juro por Deus —"
Kaji deu de ombros. "Então é melhor serem criativos."
Olhou para Kai. "Alguma ideia, Selvinha?"
Kai abriu um sorriso.
"A Ritsuko tá me observando desde o primeiro dia. Transbordando em curiosidade. Eu sou a incógnita que ela não consegue resolver. Vou dar a ela o que quer, só o suficiente pra distraí-la."
Kaji riu, impressionado. "Pensando como um verdadeiro sabotador."
Asuka gemeu de novo. "Ótimo. Você vai deixar a Rainha do Gelo te cutucar enquanto eu invado o laboratório? Não sei o que é pior — ser pega ou assistir a isso."
Mesmo assim, cruzou os braços. "Tá. Você distrai ela, eu dou um jeito no terminal."
Kaji assentiu. "Cuidado. Ela é esperta. Se desconfiar, caiam fora."
Ela sorriu. "Enquanto Kai distrai a Dra. Frankenstein, eu vou até o laboratório dela. Sem erro."
Kaji assentiu, satisfeito. "Ótimo. Façam limpo. Sem rastros. Sem levantar suspeitas. Se ela aumentar a segurança, já era."
Olhou de novo para Kai, o olhar firme. "Consegue mantê-la distraída tempo suficiente?"
Kai virou para Asuka, com um sorriso provocador. "Com certeza. Consegue pensar em algo mais intrigante do que eu? Qual é! Eu fiz até a Asuka ficar caidinha por mim!"
Asuka engasgou.
"Q-QUÊ?! COMO É QUE É?!"
Ela girou no lugar, punhos cerrados, o rosto pegando fogo. "EU NÃO TÔ—!" Parou no meio da frase, percebendo que a reação só alimentava a provocação.
Kaji caiu na gargalhada, se curvando. "Ai, meu Deus. Kai, você tem instinto suicida."
A voz de Asuka tremia de raiva. "VOCÊ ACHA QUE EU TÔ CAIDINHA POR VOCÊ?! HA! SE ENXERGA, SELVINHA!"
Ela agarrou a gola dele e começou a sacudi-lo. "EU JURO QUE—"
Kaji enxugou uma lágrima. "Ah... vocês dois são um casalzinho adorável."
"A GENTE NÃO É UM CASAL!!"
Kaji deu um sorrisinho. "Claro, claro. O que você disser."
Endireitou-se, sério de novo. "Certo. Eu gosto desse plano. Sejam espertos. Façam em silêncio. Nada de erros."
Lançou um último olhar para Kai. "E tenta não fazer todas as garotas se apaixonarem por você, combinado?"
"EU TÔ INDO EMBORA. AGORA." Asuka girou nos calcanhares e saiu pisando duro, ainda vermelha, resmungando palavrões.
Kaji riu para Kai. "Gosto de você, garoto. Só... não brilha demais."
Desapareceu nas sombras.
Kai saiu correndo atrás da Asuka, tentando — e falhando — segurar a risada. "Asuka! Asuka! Espera aí! Eu tava brincando!"
Ela girou em chamas, olhos faiscando. "AH, VOCÊ ACHA ENGRAÇADO?!"
Deu um empurrão no ombro dele. "Tinha MESMO que dizer isso NA FRENTE DO KAJI?! TINHA?!"
Gemeu, bagunçando o próprio cabelo, depois apontou o dedo pra ele. "Eu te odeio. EU TE ODEIO!"
Mas lá estava. Aquele pequeno tremor no canto da boca. O brilho embaraçado nos olhos.
Cruzou os braços e virou de costas com força. "Tsc. Tanto faz. Temos uma missão, Selvinha. E você me deve por essa humilhação."
Ela lançou um olhar fulminante por cima do ombro.
"E ME DEVE MUITO."
Kai sorriu.
Mesmo com toda a fúria... ela tava dentro.
E ele também.
Capítulo 150: Luzes Apagadas / Ainda Estou Aqui
A noite ainda se agarrava ao céu enquanto Kai e Asuka voltavam pelas ruas silenciosas de Tokyo-3, iluminadas apenas pelos postes piscando e pela onipresente neblina de néon. A cidade parecia contida, como se prendesse a respiração, com o zumbido distante dos cabos sendo o único som ao redor.
Kai caminhava bem perto dela, com a voz mais suave agora, carregada de sinceridade. "Ei, não fica brava. Na verdade, eu fiquei aliviado que você não fez aquilo de ficar flertando com ele. Isso... ia ser difícil de assistir."
Asuka parou no meio do passo.
Ela não olhou para trás de imediato. Os braços cruzados com força, os dedos tremendo com emoções contidas. Então, um suspiro curto. Rápido pelo nariz.
"Tsc. Idiota."
Ela finalmente olhou por sobre o ombro—só o suficiente para que ele visse as bordas da sua expressão, mais suave agora, entre a irritação e algo que ela não queria nomear.
"Como se eu fosse perder tempo flertando com aquele imbecil," murmurou, revirando os olhos. "Francamente."
Mas então—quase sem querer, seu cotovelo roçou no braço dele.
"...Além disso. Se eu fizesse isso, você nunca ia me deixar em paz."
Antes que ele pudesse responder, ela voltou a andar rápido.
Kai sorriu e a alcançou com alguns passos largos. "É, acho que você já me conhece bem."
Asuka soltou um gemido dramático, jogando a cabeça para trás como se o próprio céu a tivesse amaldiçoado. "AAARGH! Não me lembra disso!"
Mas ela não se afastou.
Não o empurrou.
Ela sorriu de lado. "Mas isso significa que você está preso comigo. E pode acreditar, Selvinha... eu não pego leve com ninguém."
Ela deu um peteleco forte na testa dele—depois se virou e disparou na frente. "Agora anda logo! Temos uma sabotagem para planejar!"
Dentro do apartamento dela, a tensão derreteu em foco. O cômodo estava na penumbra, iluminado apenas pelo brilho alaranjado da cidade através das cortinas. Asuka jogou a jaqueta numa cadeira e caiu no sofá. Kai sentou ao lado, levemente inclinado para frente enquanto entravam no modo estratégico.
"Amanhã de manhã é nossa melhor chance," disse Kai, voz baixa e centrada. "A gente visita o Shinji e os outros na ala médica, e enquanto eu distraio a Ritsuko, você entra."
Asuka assentiu, jogando os pés na mesa de centro. "É, ala médica faz sentido. Ninguém vai desconfiar. E enquanto você estiver ocupado sendo o fenômeno mais fascinante que a Ritsuko já viu, eu entro no terminal dela."
Ela sorriu de lado. "Ela é tão obcecada por você que nem vai notar minha presença."
Kai riu—mas hesitou. "Mas... a parte perigosa do plano é sua. Não gosto disso. Talvez devêssemos trocar?"
Asuka lhe deu um olhar direto. "É o quê?!"
Ela o empurrou, mas de leve. "Primeiro, só você é esquisito o suficiente pra manter a Doutora Loira entretida. Eu surtaria em cinco minutos. Segundo? Não vem fingir que eu não sei me virar."
O tom era afiado, mas não bravo. Apenas honesto.
Então o sorriso voltou. "Além do mais, eu gosto da minha parte. Furtividade. Sabotagem. Garantir que você me deva mais favores. O que não amar?"
Ela cutucou o braço dele. "Ou o quê? Você acha que precisa me proteger?"
O sorriso de Kai se igualou ao dela. "Pode apostar que quero te proteger. Que você queira ou não. Mas beleza, entendi. Nada de mudar o plano."
"Isso mesmo, Selvinha. Você está aprendendo."
Ela deu uma cotovelada nele e se recostou, braços atrás da cabeça. "Pronto. Temos nosso plano. Agora é só não ferrar tudo. Acha que consegue?"
Kai assentiu, relaxando nos almofadões. "Distrair uma cientista loira obcecada por mim? Moleza. Você que se concentra na sua parte."
Asuka revirou os olhos. "Tsc. Tenho certeza de que ela vai adorar cada segundo das suas filosofadas."
A voz dela baixou um pouco. "Mas falando sério. Toma cuidado."
Ela gemeu logo em seguida. "Ugh! Olha o que você fez comigo! Eu tô me preocupando com você! Eu odeio isso!"
Apontou um dedo pra ele. "Se você acabar trancado num laboratório porque falou alguma coisa esquisita demais, eu não vou te resgatar, entendeu?"
Kai sorriu. "Quem você quer enganar? É claro que você ia me resgatar. Mesmo se ela me lobotomizasse ou me transformasse num sapo gigante, você ia dar um jeito de me trazer de volta."
"COMO É?!"
Ela pegou uma almofada e atirou nele. "UM SAPO GIGANTE?! Qual o seu problema?!"
Ela o cutucou no peito outra vez. "Se você for lobotomizado, a culpa é sua! E eu não vou resgatar nenhuma versão anfíbia e gosmenta sua! Vou te jogar num lago e te deixar lá!"
Mas ela não foi embora. Ela se largou de volta no sofá com um suspiro dramático.
"Agora CALA A BOCA e dorme! Temos uma missão amanhã, e eu me recuso a deixar você atrapalhar tudo porque está com sono!"
Kai, ainda rindo baixinho, inclinou a cabeça para trás, olhando para o teto escuro. "Ok, ok. Amanhã é importante. Mas vai dar tudo certo. Ou você está duvidando da minha capacidade de dizer coisas esquisitas e inesperadas?"
Asuka bufou. Agora, já estava deitada no sofá, pernas levemente encolhidas. "Se tem uma coisa que eu não duvido, é da sua capacidade absurda de falar merda. Tô contando com isso."
Ela bocejou, puxando uma almofada para debaixo da cabeça. Os joelhos dobrados, os pés indo em direção ao outro lado do sofá, onde ele estava.
"Tsc. Não estraga tudo, Selvinha... se a gente vai fazer isso, vai ser do jeito certo."
Ela se virou, se aconchegando melhor contra o apoio do sofá. A voz, quando veio de novo, era mais baixa—desgastada.
"...Boa noite, Kai."
Ela poderia tê-lo mandado embora. Poderia ter ido para o quarto, fechado a porta e deixado ele ali sozinho no sofá. Mas não fez isso.
Ela ficou.
Seu pé tocava de leve a mão dele. Não intencionalmente. Talvez. Mas... presente.
E com um suspiro quente e constante, ele respondeu:
"Boa noite, Asuka."
Ela se enrijeceu um pouco com o contato—mas não recuou.
"Tsc... tanto faz..." murmurou.
Ele se recostou mais fundo no sofá, os olhos subindo para o teto escuro. O apartamento estava quieto agora. Sem mais planos. Sem mais risadas. Apenas o peso da presença dela ao lado dele, não dita, mas real.
Talvez, depois de tudo, ela simplesmente não quisesse ficar sozinha esta noite. Talvez nenhum dos dois quisesse.
Kai sentiu o sono puxando, tornando o descanso fácil.
Em algum ponto no meio da noite, um murmúrio chegou aos seus ouvidos—claro, gentil e vulnerável.
"...Mamãe..."
A única palavra, sussurrada por Asuka em seu sono, atravessou a consciência de Kai como um trovão silencioso. Seus olhos se abriram por um instante, o coração apertando em reconhecimento silencioso. Ele conhecia o peso por trás daquele chamado pequeno e desesperado—conhecia as sombras que assombravam os sonhos dela e a dor escondida por trás de sua fachada feroz.
Com cuidado, sem fazer barulho, Kai pousou a mão sobre o pé dela, firme e gentil. Um gesto sutil, silencioso, mas certo—para que ela soubesse que ele estava ali—que ela não estava sozinha, não esta noite.
Sob seu toque, sentiu os músculos dela se relaxarem aos poucos, como se tranquilizados pela promessa silenciosa de sua presença.
Kai sorriu levemente para si, deixando os olhos se fecharem de novo. O quarto voltou ao silêncio, agora preenchido apenas pelo ritmo calmo das suas respirações, firmes e sincronizadas. O amanhã traria incerteza, perigo e tensão—mas por esta noite, neste momento frágil, eles não estavam sozinhos.
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