Evangelion: Shattered Thresholds

16 Episódio 16: Crime de Inocência


Capítulo 134: Atraso de Sincronização / Inércia do Cotidiano

O alarme tocou, mas Kai já estava acordado.

O sono viera em fragmentos, como vidro quebrado mal sustentando um reflexo de descanso. Ele esperava que o cansaço o derrubasse depois de tudo — o abismo dimensional de Leliel, o tempo na ala médica, a presença constante de Asuka ao seu lado. Mas sua mente seguia girando, rebobinando conversas, revivendo emoções, presa entre sonhos e memória.

A luz do sol atravessava as persianas, desenhando linhas douradas no teto. O apartamento estava quieto demais, comum demais. Tokyo-3 despertava do lado de fora — o ronco do tráfego, o zumbido distante de uma patrulha VTOL. O mundo seguia em frente, como sempre. Mas algo dentro dele ainda não tinha alcançado esse movimento.

Hoje era para ser um dia normal. Um dia de escola, como qualquer outro. Exceto que não era.

Seu celular vibrou.

Asuka: "Se não estiver de pé ainda, vou arrombar sua porta. Você que não me faça esperar, Selvinha."

Kai soltou um suspiro entre risada e resignação. Ela realmente estava animada com o dia de hoje. Ele respondeu:

Kai: "Tá virando hábito você me acordar, sabia... Tô começando a me acostumar!"

E logo depois:

Kai: "Te vejo lá! 😘"

A resposta foi instantânea.

Asuka: "Não é culpa minha se você dorme igual uma pedra."

Depois, outra:

Asuka: "E PARA DE MANDAR ESSAS DROGAS DE EMOJI!!!"

Ele riu ao sair da cama.

Na cozinha, pegou ovos e manteiga, repetindo mecanicamente a rotina do café da manhã. Quebrar, bater, fritar. O cheiro de ovos mexidos encheu o ar — reconfortante, familiar. Uma vitória minúscula da rotina num mundo onde ela era rara.

Depois, banho. O vapor tomou conta do banheiro, embaçando o espelho. Por um instante, o mundo além do vidro não existia. Sem NERV. Sem Anjos. Sem segredos. Apenas ele. Apenas o agora. Secou o cabelo devagar, ouvindo os pulsos da cidade do lado de fora.

Buzz.

Asuka: "Anda logo. Se eu tenho que aguentar aula, você também. Por enquanto."

Ele respondeu enquanto vestia o uniforme:

Kai: "Como você sabe que eu ainda não saí?"

Asuka: "Porque você é lento. E previsível. E está claramente me mandando mensagem em vez de estar indo pra escola."

Asuka: "AGORA ANDA, Selvinha!"

Antes de sair, ele mandou a última:

Kai: "Eu só perdi a hora UMA vez! UMA!!!"

Celular no bolso, mochila nas costas, ele saiu.

O ar da manhã estava fresco. Tokyo-3 acordava completamente, naquela mistura estranha de calma suburbana e prontidão militar. Os estudantes se dirigiam vagarosamente para suas salas. Kai os acompanhou, passos leves, coração estranhamente energizado.

A primeira metade do dia seria normal. Mas no intervalo? Tudo podia acontecer.

Hora de bancar o aluno comportado só mais um pouquinho.


No momento em que Kai pisou no pátio da escola, ele a viu.

Asuka estava de braços cruzados próxima à entrada principal, examinando os alunos que chegavam como uma águia caçando presa. Sua expressão já beirava a impaciência, com os cabelos vermelhos captando a luz da manhã.

Kai nem piscou. Passou bem na frente dela—olhar fixo à frente, sem uma palavra, sem um olhar. Nem mesmo um sorriso de canto.

Andou como se ela nem existisse.

Sentiu o olhar dela se fixar nele como a mira de um sniper. Houve uma pausa—um silêncio agudo, surpreso—antes que viesse o impacto.

"—Tsc! Ei!"

Passos. Rápidos.

A voz dela veio como um estalo de chicote enquanto ela marchava atrás dele. "É sério que você acabou de me ignorar?!"

Ele ouvia a incredulidade—não, a indignação—transbordando em cada palavra. "Ah, então agora você é tão legal que vai só sair andando de nariz empinado, é isso?! Hã?!"

Ela já estava ao lado dele, olhos semicerrados, desafiando-o a dizer algo.

Kai finalmente se virou, explodindo em gargalhadas. "SUA CARA! Já valeu meu dia."

Por um glorioso segundo, Asuka ficou genuinamente sem palavras.

Depois seu rosto se contorceu. "VOCÊ—!!"

Ela o empurrou com força no ombro—não o suficiente pra machucar, mas o bastante pra deixar claro seu ponto. "Você achou isso engraçado?! Se acha esperto, é isso?! HÃ?!"

Kai riu ainda mais. O jeito como ela tinha caído direitinho, era simplesmente perfeito. A mistura de indignação e embaraço estampada no rosto dela tornava tudo ainda melhor.

"Inacreditável! Eu já sabia que você era um idiota, mas não achei que fosse um idiota infantil!"

E mesmo assim, ela ainda caminhava ao lado dele. Ainda acompanhava seu ritmo.

Ainda com ele.

Ele viu—o menor indício de um sorriso puxando o canto da boca dela. Mesmo brava, ela permanecia por perto. Talvez especialmente quando estava brava. E, de algum modo, isso fazia tudo parecer... certo.

"Tanto faz! Da próxima vez, você vai se arrepender!"

Kai apenas sorriu quando o sinal da escola tocou.

Uma manhã. Era só isso que precisava aguentar.

Enquanto seguiam rumo à sala de aula, ele olhou de lado pra ela. "Conseguiu dormir um pouco?"

Asuka bufou, os braços ainda cruzados com força.

"Tsc. Quase nada. Graças a um certo imbecil que decidiu quase morrer ontem."

Ela lhe lançou um olhar cortante de lado, mas a voz suavizou um pouco. "Mas sim... consegui dormir."

Não era muito. Mas já era o suficiente pra tranquilizá-lo.

A porta se abriu.

Toji e Kensuke já estavam lá dentro, com ouvidos atentos na conversa. Pararam no instante em que viram Kai e Asuka entrando juntos.

"OOOOOH?! OLHA QUEM CHEGOU JUNTINHO NA ESCOLA!"

Toji sorria como o diabo em pessoa.

"Caramba, Asuka, nem deixou ele dormir também?!"

A sala explodiu em risadas. Todos os olhares se voltaram pra eles.

O rosto da Asuka ficou escarlate.

Kai não perdeu o ritmo. "Pois é, viemos juntos. E você? Veio com seu namorado Kentucky, ou finalmente criou coragem pra dizer à Hikari que gosta dela?"

A sala detonou.

Toji travou. Totalmente em pane.

"Q-QUÊ?! EU— EU NÃO— ISSO— CALA A BOCA!!!"

Kensuke ergueu as mãos dramaticamente.

"EI, EI! Pera lá, eu não sou o tipo do Toji, cara! Ele é TODO da Hikari!"

Até os alunos mais tímidos estavam rindo agora. Era contagiante. Elétrico.

Toji se debatia, preso entre raiva e humilhação, fazendo de tudo pra não olhar pra Hikari—que, apesar dos esforços, escondia um sorriso corado com a mão.

Kai viu. Ela ouviu. E não estava brava.

Asuka, ainda vermelha, empurrou ele com força de novo. "NÃO ME ENVOLVE NAS SUAS BRIGAS IDIOTAS, TONTO!"

Mas agora ela estava encarando o Toji, não ele.

Toji gritou do outro lado da sala: "EU JURO POR DEUS, EU VOU TE MATAR, KAI!!!"

Kai foi até sua carteira e se jogou ao lado do Shinji com um sorriso vitorioso.

"Sem ressentimentos, cara," disse para Toji por cima do ombro. "Você não me deu escolha."

Toji parecia prestes a explodir. "SEM ESCOLHA?! VOCÊ PODIA TER FICADO QUIETO, SEU IDIOTA!!"

Kensuke, empolgado, se apoiou no Toji com um sorriso largo. "Vai, cara, talvez agora você possa parar de fingir que não fica babando pra Hikari durante a aula!"

Toji praticamente o arremessou longe. "EU NÃO FICO—!!"

Kai se recostou, assistindo a cena como uma sinfonia perfeitamente orquestrada.

Ao lado dele, Shinji piscou, atônito. "Você é... louco."

Kai inclinou levemente a cabeça.

Shinji voltou a olhar pra frente, mais quieto agora. "Mas... queria conseguir fazer isso."

Kai olhou pra ele com um sorriso compreensivo.

Rei já estava sentada próxima à janela, serena como sempre.

Kai levantou a mão na direção dela enquanto se ajeitava no assento. Como esperado, a resposta dela foi sutil, quase invisível. Um único piscar. O menor aceno de cabeça. Depois, o olhar voltou pra frente, perdido em seu mundo indecifravél.

Clássica Rei.

Olhando de volta para Shinji, Kai notou que ele continuou olhando pra ela.

Kai sorriu. "O que foi, tá querendo que eu te exponha também?"

A espinha do Shinji endureceu, a voz virou um sussurro desesperado. "O-O QUÊ?! N-NÃO!! Kai, por tudo que é sagrado, NÃO FAZ ISSO—"

Asuka se inclinou sobre a carteira como uma leoa farejando fraqueza, os olhos brilhando. "Hah? O que está acontecendo, Terceira Criança?"

Shinji se encolheu, rosto em chamas, a alma claramente abandonando o corpo.

Kai riu baixo, balançando a cabeça. "Relaxa, cara. Eu sei que você precisa do seu tempo. Nunca faria algo pra te atrapalhar."

Olhou para Asuka e acrescentou: "Né, Asuka?"

Houve uma pausa. Ela o encarou, indecifravél, por um segundo a mais do que o esperado.

Então veio o revirar de olhos. "Tsc. É, é, tanto faz. Não sou um monstro, sabe."

Ela se recostou na cadeira, os braços ainda cruzados. "Aliás, tenho certeza de que a Terceira Criança vai conseguir estragar tudo sozinho."

Shinji gemeu e afundou o rosto nos braços. "Podemos, por favor, falar de QUALQUER OUTRA COISA?"

Capítulo 135: Rastro do Outro / Eu Existo Porque Você Diz Que Sim

Kai se virou para Shinji novamente, com a voz mais suave agora.

"Então, o que aconteceu ontem depois que eu... bom... dei uma sumida por algumas horas?"

Shinji levantou a cabeça, a vergonha dando lugar a algo mais pesado. "Bom... depois que você foi engolido, a Misato entrou em pânico. Tentou de tudo pra te trazer de volta. A Ritsuko ficava dizendo que a gente precisava de mais dados, mais tempo... mas a Asuka—"

Seu olhar foi até ela. "Ela insistia que a gente tinha que ir atrás de você."

Asuka fez um estalo com a língua e virou o rosto. "Tsc. Alguém precisava fazer isso."

"Mas a Misato não deixava. Dizia que era perigoso demais, que a gente só ia perder mais um piloto."

Rei não se mexia. Não reagia. Apenas sentava ali, como se toda a conversa fosse um eco distante.

"Na hora, ninguém sabia o que fazer. Mas a Ritsuko começou a analisar os padrões da sombra, tentando achar uma solução."

Shinji abaixou os olhos, depois voltou a encará-lo.

"A Asuka surtou. Disse que a gente tava perdendo tempo, que se ninguém ia fazer nada, ela faria."

Outro olhar para ela — e esse carregava peso.

"E aí ela fez algo que ninguém esperava. Quando a sombra parou de se expandir... ela simplesmente entrou no Eva e enfiou o braço lá dentro. Ela colocou toda a força no Campo A.T., por horas, pra não ter o braço arrancado fora. Foi... surreal, Kai."

Kai se virou para Asuka, boquiaberto.

Ela cruzou os braços com mais força.

"Você tava demorando demais. Alguém tinha que te puxar, idiota."

Shinji assentiu.

"E quando você chegou até ela, parecia que... o Anjo tava se desfazendo. Como se não conseguisse mais se manter com você lá dentro. A Asuka te puxou e então... bom. Você sabe o resto. A Ritsuko falou algo sobre você ter `rompido o circuito imaginário do Anjo', ou algo assim. E aí: bombas."

Por um instante, todos ficaram em silêncio.

Então, ele se virou para Kai, hesitante.

"Como foi? Lá dentro?"

A pergunta caiu como uma queda brusca de pressão. Até Asuka ficou quieta, sem provocação. Rei, pela primeira vez, virou levemente a cabeça, o suficiente para mostrar que estava ouvindo.

Todos esperavam.

Todos queriam saber.

Mas Kai não conseguia parar de olhar para Asuka.

Se ela não tivesse se arriscado, ele nunca teria visto uma saída.

Ele realmente devia a vida a ela.

A sala nunca pareceu tão silenciosa.

E, curiosamente, ninguém — nem mesmo o professor — interferiu.

Por um momento, era como se toda a sala tivesse mudado. Como se até os adultos estivessem começando a entender o peso que aquelas crianças carregavam.

A voz de Kai era baixa, o olhar distante.

"Não foi... nada legal. Primeiro, era só um vazio infinito. Tentei manter a calma, coloquei a Unidade-04 em suporte de vida pra ganhar tempo. Mas aí começou a ficar estranho. O Anjo... parecia que ele estava tentando entrar na minha cabeça. Como se quisesse me quebrar."

Ele olhou para as próprias mãos. "Droga... Agora nem sei se aquilo não era só eu mesmo enlouquecendo sozinho."

Olhou de volta para os outros.

"Eu vi um reflexo distorcido de mim mesmo. Pesadelos. Memórias quebradas que eu nem sabia que tinha. Pensamentos que... bem... foi bem ruim."

O ar ficou mais pesado.

Shinji o encarava, olhos arregalados. Asuka virou o rosto, tensa. Até a expressão neutra de Rei parecia diferente agora — havia atenção silenciosa.

Shinji perguntou com gentileza. "Memórias quebradas? Tipo... coisas que você esqueceu?"

Asuka bufou, mas sem o tom cortante de sempre. "Claro. Truque mental de Anjo. Como se engolir ele não fosse o bastante, tinha que bagunçar a cabeça também."

Kai assentiu, mais baixo. "É..."

Olhou para eles, mais vulnerável agora. "Eu... comecei a duvidar de quem eu sou."

A sala ficou em silêncio de novo.

Asuka se inclinou pra frente, voz afiada mas incerta. "Como assim, ‘quem você é’?"

Kai respirou fundo.

"Disse que eu era errado. Como se fosse... uma peça de quebra-cabeças na caixa errada. Eu vi coisas... visões. Um trem bizarro. Nevada. Nem sei mais o que era real e o que não era."

Silêncio.

Rei observava em silêncio, expressão indecifrável. Então, ela falou. "Uma distorção."

Sua voz era suave. Mas deliberada. "Algo que não deveria existir, mas existe."

Shinji piscou. "Rei?"

Ela não disse mais nada. Apenas estudava Kai.

Asuka falou novamente. A voz baixa. Desafiadora. "E daí? Você acha que isso significa que você não é real? Que não existe?"

Kai encontrou seus olhos. "Claro que eu existo. E não pretendo parar... de existir."

Asuka o encarou.

Então, murmurou, "Ótimo."

A voz era quase dura demais. Como se escondesse algo mais frágil por baixo.

Não era só uma palavra. Era o jeito dela dizer que também tinha tido medo.

"Porque se você começar com esse papo de crise existencial, eu juro por Deus que—"

Ela não terminou. Não precisava.

Shinji assentiu. "Não importa de onde você veio. Você tá aqui agora."

Até Rei falou de novo. "Você existe."

Simples. Final.

Kai sorriu, o calor das palavras deles suavizando algo em seu peito. "Obrigado, gente. Acho que agora vocês mesmo tão presos comigo, gostem ou não."

Ele se recostou, sorrindo agora. "Pra ser sincero? Ainda bem que fui eu lá dentro. Vai saber que tipo de trauma aquela coisa ia puxar de vocês. No fim, eu sou o mais normalzinho, né?"

Shinji deu uma risadinha. "É... acho que eu ainda estaria preso lá."

Asuka bufou. "Nem me fale. Você teria surtado completamente, Terceira Criança."

Shinji não rebateu.

Rei seguia observando Kai. Não com vazio — com algo que parecia reconhecimento.

Um silêncio impossível caiu sobre a sala de novo, espesso e denso.

E então, finalmente, uma voz atravessou o clima como um furo de luz.

Era Hikari.

"Ahm... gente? A gente... continua a aula?"

Todos os olhos se voltaram para a representante de classe. Ela segurava o caderno junto ao peito, o rosto numa mistura de preocupação educada. Olhou para o professor, para o grupo dos pilotos, e voltou ao professor.

O professor se sobressaltou como se só agora tivesse voltado à realidade.

"C-certo," murmurou. "Vamos... continuar a aula. Então. Como eu dizia... os tratados econômicos pós-Segundo Impacto..."

A voz dele seguiu. Alguns alunos tentaram prestar atenção, mas a maioria só se remexia nos assentos, olhos arregalados — provavelmente em choque com tudo o que tinham acabado de ouvir.

E assim, a ilusão da normalidade começou outra vez.

Capítulo 136: Intervalo Tático / Fase Um

O sinal tocou. Intervalo. Hora de escapar.

A turma se dispersou, voltando às suas vidas como se tivessem acabado de ouvir um conto de fadas assustador — e fictício.

Kai se virou para Asuka com um sorriso, a tensão de antes derretendo em algo mais leve, algo empolgante.

"Certo," disse ele, braços abertos em rendição cômica. "Só nós dois agora."

Asuka revirou os olhos, mas ele notou o leve tremor no canto dos lábios dela. Um sorriso tentando nascer. "Tsc. Como se isso fosse novidade."

Ela girou nos calcanhares, o retrato perfeito de arrogância casual, e saiu da sala. Nem olhou pra trás. Sabia que ele a seguiria.

O pátio fervilhava com o caos da hora do almoço — alunos conversando, rindo, comendo, completamente alheios ao fato de que dois pilotos de Evangelion estavam prestes a iniciar outro tipo de missão.

Asuka olhou para Kai com um brilho desafiador. "Tá legal, gênio. Como vamos sair daqui sem sermos pegos?"

Kai observou o campus. "Não pode ser mais difícil do que nossas infiltrações na NERV, né?"

Asuka sorriu. "Nem me fale. Se conseguimos driblar segurança armada, com certeza podemos enganar uns professores."

A mente dele começou a trabalhar.

Portão dos fundos? Arriscado. Muito exposto.

Depósito da quadra? Trancado.

Caminhão de entregas? Imprevisível demais.

Então — o muro externo.

Ele se virou para ela.

"Podemos escalar o muro. Se cronometrarmos direito, ninguém vai ver. Mas vamos precisar de uma distração."

Asuka arqueou uma sobrancelha. "Vai me fazer escalar de novo? Eu sou sua ginasta pessoal agora?"

Mas ela sorria. E isso já era um sim.

"Nem vem com ideia de puxar o alarme de incêndio," acrescentou, braços cruzados. "Tem que ser algo sutil."

Então os olhos dela brilharam de malícia. "Me diz, Selvinha... quanto caos você acha que o Toji consegue causar em 30 segundos?"

Kai sorriu. "Ahh, gostei do seu jeito de pensar! Ele foi meio babaca hoje cedo, então é perfeito."

Asuka se aproximou, voz baixa. "É o seguinte: você vai lá e fala alguma besteira. Algo pessoal. Só o suficiente pra ele surtar. Eu tropeço e derrubo bebida em um professor. O caos vai ser lindo."

Kai assentiu. "O tempo tem que ser preciso. O professor pensa que o Toji foi o culpado, e pronto, confusão."

Asuka já se posicionava, completamente à vontade. "Vai lá causar. Eu tô pronta."

Kai passou casualmente por Toji e disse alto o suficiente: "Ei... aquilo é a Hikari beijando o Shinji ali?"

Toji engasgou no meio do gole. "Q-QUÊ?!"

Quase levantou voando do banco, a cabeça girando como radar. Kensuke entrou no jogo na hora, inflamando tudo. "NÃO ACREDITO! O Shinji tá mandando bem assim?!"

Shinji, no meio da mordida do almoço, ficou completamente perdido. "H-Hã?! E-Espera, O QUÊ?!"

Toji já estava de pé, escaneando o pátio em completo pânico.

BAM

Um copo de suco voou pelo ar, lançado pelo "tropeço" impecável da Asuka. O líquido descreveu um arco cinematográfico perfeito — e acertou.

Bem no professor.

Silêncio.

Depois —

"SUZUHARA!!"

A voz do professor explodiu de fúria.

Toji virou bem a tempo de ver a tempestade caindo sobre ele. "E-EU NÃO—!!"

Tarde demais.

O caos estava completo.

A distração perfeita.

Asuka olhou para Kai do outro lado do pátio, o sorriso dela absolutamente diabólico.

Hora de agir.

Toji tentava se defender freneticamente, mãos erguidas enquanto o professor berrava com ele. Kensuke estava se acabando de rir. Shinji ainda parecia perdido num universo alternativo.

Kai correu para o muro, segurando o riso. Asuka já estava lá, examinando a escalada.

"Vamos lá, Selvinha, hora de mostrar suas habilidades de escalador de novo. Tenta me acompanhar."

Ela se moveu rápido, músculos fluidos, se puxando com facilidade.

Atrás deles, a cena virava uma confusão generalizada. Mais professores apareciam. Kensuke ria tanto que mal conseguia ficar de pé. Shinji parecia no meio de um circo.

Asuka se equilibrou no topo do muro e olhou para baixo. "Anda logo, molenga! Ou quer que eu desça e te carregue?!"

Kai saltou, agarrou a borda e, com um impulso ágil, caiu do outro lado.

Então, com um sorriso, olhou para ela: "Vai vir ou não? ...Você sabe que tá de saia, né?"

Asuka congelou.

Por um glorioso e terrível segundo.

"SEU—!!!"

O rosto dela ficou completamente vermelho.

Com uma graça movida a fúria, ela pulou e caiu ao lado dele, socando seu ombro com força. "VOCÊ FEZ ISSO DE PROPÓSITO, SEU PERVERTIDO!!"

Ele ria.

"Você tem SORTE que não tenho tempo pra te enfiar a porrada!"

Ela se recompôs e se virou com um olhar flamejante. "E aí? Estamos livres. Cadê meu almoço caro, hein?!"

Ela ainda estava vermelha.

Mas estava sorrindo.

Hora da fase dois.

Capítulo 137: Santuário Temporário / Algo Pelo Que Vale Sobreviver

As ruas de Tokyo-3 se estendiam sob o sol do meio-dia, o caos do pátio escolar ficando para trás. Pela primeira vez em muito tempo, não havia nenhuma ameaça no horizonte. Sem alarmes, sem testes de sincronização, sem Comandantes observando por janelas sombrias.

Só Kai.

E Asuka.

Caminhando. Livres.

Ele olhou para ela, que já andava alguns passos à frente, cheia de sua habitual energia.

"Vamos lá, como eu disse," falou com um sorriso brincalhão, "você escolhe, eu pago. Você merece depois de tudo ontem. Só lembra que ainda preciso guardar dinheiro pro seu presente, então escolhe bem o almoço."

Asuka sorriu, os olhos brilhando como os de uma predadora em ação. "Tsc. Não se preocupa, Selvinha. Eu vou tirar o máximo disso."

Ela entrelaçou as mãos atrás da cabeça e andou devagar, como se saboreasse seu poder.

"Hmm… sushi? Nah. Muito fácil. Churrasco? Tentador. Italiano? Caro e te faz sofrer? Melhor ainda."

Ela o encarou de lado, os lábios se curvando. "O que você acha, hein? O que vai te fazer chorar mais? A conta ou me ver aproveitando?"

Ele riu, os olhos provocando. "É bom tomar cuidado com esse seu sorriso aí. Alguém pode achar que você tá se divertindo com o namorado."

Ela travou.

Parou completamente.

Então o corpo todo girou em direção a ele, as bochechas já vermelhas. "COMO É QUE É?!"

Ela apontou pra ele como se ele tivesse cometido um crime de guerra. "VOCÊ—VOCÊ—!! EU NÃO—!!"

As palavras desabaram sozinhas quando ela o empurrou com força no ombro.

"P-PARA DE FALAR ESSE TIPO DE COISA, IDIOTA!!"

O corpo dela vibrava de frustração, punhos cerrados, olhos em chamas.

Ela se virou de volta, mais rápida agora. Como se fugisse da conversa antes que ele forçasse mais.

Ele a alcançou com facilidade, rindo. "Espera aí... A valente e feroz Asuka tá com medo de mim agora?"

Asuka o olhou de canto, acelerando o passo. "Não tô com medo de você!" retrucou, a voz aguda mas hesitante. "Só não quero perder tempo com um idiota que não sabe calar a boca!"

Ainda assim, ela diminuiu o passo quando ele chegou ao lado.

Ela não o afastou.

Ele caminhava tranquilo, o riso ainda ecoando. Ela parecia se esforçar pra não sorrir.

Ela revirou os olhos. "Você é um tonto mesmo."

E completou, mais baixo: "Tem sorte de eu deixar você pagar meu almoço."

Kai sorriu, a voz mais suave agora. "É. Eu sei que tenho sorte."

Só isso. Sem piada. Sem provocação.

Asuka piscou, o passo diminuindo levemente. Ela virou a cabeça, esperando outra brincadeira.

Mas não veio. Só silêncio. E calor.

Ela olhou pro lado, jogando o cabelo por cima do ombro. "Tsc. Tanto faz."

Uma leve tonalidade rosada tomou suas bochechas.

Por alguns quarteirões, seguiram em silêncio. Só andando.

Então, sem olhar pra ele: "...Definitivamente não vamos pra um lugar barato."

Ainda Asuka.

O cheiro de carne grelhada no ar fez Asuka parar de repente, os olhos focando uma churrascaria rústica num canto tranquilo da cidade. "Ah, aí sim... isso aqui parece promissor."

Kai acompanhou o olhar dela, levantando uma sobrancelha.

"Churrasco? Gostei. Nunca fui numa por aqui... o que significa que você vai me zoar o almoço inteiro."

Asuka sorriu. "Óbvio. Vamos. Quero ver o vexame que você vai passar dessa vez."

Eles entraram. A porta pesada de madeira se fechou atrás deles. O restaurante era bem iluminado, conversas suaves se misturavam a música instrumental. O cheiro era de perfeição selada na grelha.

Asuka se virou para Kai enquanto se sentavam. "Esse lugar que não me decepcione."

Ela se jogou na cadeira como se fosse dona do lugar, abrindo o cardápio com olhos brilhantes.

Kai sentou do outro lado, já fazendo careta pros preços, tentando calcular a sobrevivência da carteira.

Ela percebeu na hora. "O quê? Vai amarelar só porque o lugar é um pouquinho chique?"

O sorriso dela era implacável. Mas por baixo havia algo suave. Algo que dizia que ela tava gostando, mesmo que nunca fosse admitir.

Ela apontou pro prato mais caro. "Esse aqui, com todos os acompanhamentos. E os molhos especiais. Ah — e bebidas. Uma refeição boa merece a bebida certa."

O garçom anotou tudo com um aceno e olhou para Kai.

Ele hesitou um segundo. Depois olhou de volta, decidido. "Vou querer o mesmo que ela."

Asuka o encarou. "Pffft — tem certeza? Eu sou acostumada com isso. Mas você? Vai chorar na hora da conta."

Kai se recostou. "Acabei de escapar de um vazio interdimensional com sua ajuda. Se a gente não comemorar agora, quem sabe quando vamos poder de novo?"

Asuka piscou. As palavras tocaram alguma coisa.

O sorriso dela sumiu por um momento.

Então ela bufou. "Tsc. Tá. Beleza, Selvinha. Se quer fingir que isso é uma festa de vitória, eu deixo."

Mas ela tava sorrindo. E dessa vez, era de verdade.

"Acho que você tem razão. A gente quase nunca consegue relaxar de verdade."

A comida chegou. Pratos impecáveis. Aroma rico. Vapor subindo.

Os olhos de Asuka brilharam como se tivesse ganhado um presente. Kai não pôde deixar de sorrir.

"Sabe," disse ela, cortando o bife com uma alegria quase reverente, "vou te dar um desconto hoje. Isso aqui tá realmente bom."

Ela apontou os hashis pra ele, brincando com ameaça. "Mas nem pensa em estragar com essa sua boca idiota!"

Ele sorriu, já mastigando a primeira mordida.

E por um tempo, só comeram.

Os sabores ainda dançavam no paladar quando Kai se recostou, olhos brilhando de satisfação.

"Delicioso! E nem é difícil comer! Acho que achei meu lugar."

Asuka arqueou a sobrancelha, divertida. "Claro que gostou. Eu que escolhi, né, Selvinha? Você só precisa melhorar o uso do hashis."

Os olhos dela suavizaram um pouco ao observá-lo — uma admissão silenciosa de que estava feliz por ele estar curtindo.

Então ela se inclinou um pouco, a voz mais baixa. "Nunca pensei como é bom dar uma pausa de toda aquela merda. Anjos, vida ou morte... Só sentar aqui."

Kai assentiu, comendo mais uma mordida. "É. A gente precisa comemorar as vitórias. Ninguém vai fazer isso por nós. Se não, viramos um bando de soldados obedientes, fazendo só o que mandam."

Asuka parou, o hashi ainda na mão. Ela o olhou, expressão distante.

Depois suspirou, largando os hashis. "Tsc. Você parece até filósofo falando assim."

Mas não era deboche. O tom era suave.

"Mas é... você tem razão. Ninguém vai montar um desfile pra gente. Se não aproveitarmos pra viver entre todos os problemas..."

Ela não terminou.

Depois sorriu de novo, voltando ao tom dela. "Acho que vou ter que continuar te arrastando pra sair, então. Alguém tem que impedir você de virar um cachorrinho adestrado da NERV."

Kai sorriu, riu leve. "Filósofo? Melhor do que idiota, eu acho."

"Um filósofo idiota," ela retrucou na hora.

Ele riu enquanto comia mais um pouco, então a olhou mais sério.

"Ei, não me entenda mal. Eu gosto de pilotar. Na real, adoraria ter mais pilotos por perto. A sensação de ter uma equipe, de confiar um no outro? É boa."

Ele fez uma pausa. "Mas... não acho que lutar deva nos definir."

Largou os talheres, olhando nos olhos dela.

"Me diz. Se tudo acabasse hoje... se destruíssemos o último Anjo e impedíssemos o Gendo de transformar o mundo numa sopa coletiva de gente... o que você faria? Tipo... voltaria pra Alemanha ou algo assim?"

Asuka piscou. As mãos pararam.

A pergunta acertou mais fundo do que ela esperava.

"Nunca pensei nisso," ela cutucou a comida. "Não tenho exatamente um `lar' pra voltar. Alemanha? Não. Meu pai e minha madrasta... não são o motivo de eu estar aqui."

Olhou pro lado. "Mas acho que, se o mundo não fosse destruído... talvez eu tirasse férias. Procurasse algo que não fosse só... lutar. Não parece ruim, né?"

Uma pausa.

Depois ela balançou a cabeça, tentando se recompor.

"Enfim, para de perguntar besteira, gênio. Quer saber o que eu faria? Espera a gente sair vivo disso tudo primeiro."

Kai mastigou mais um pouco, depois sorriu. "Bem... eu meio que tenho uma ideia... do que quero. Quando tudo isso acabar."

Silêncio.

Asuka estreitou os olhos. "E aí?? Ah, para. Vai jogar essa bomba e NÃO contar? Tsc. Tá bom."

"Esquece," disse ele com um sorriso. "Como você disse, temos que sobreviver primeiro."

Ela explodiu. "O QUÊ?!"

Se inclinou, hashis erguidos como armas. "Você NÃO PODE soltar isso e depois se recusar a contar, SEU IDIOTA!!"

Bufou, espetou um pedaço de carne com raiva. "Tsc. Tanto faz! Nem queria saber mesmo!"

Mas tava corada. E emburrada.

O momento ficou ali entre eles. Um entendimento silencioso.

Kai se recostou, terminando o prato, e suspirou, satisfeito. "Uau... comi muito. Melhor refeição desde que cheguei."

Asuka sorriu, vitoriosa. "Claro que foi. Quem escolheu fui eu! Deveria me agradecer."

Ela terminou a bebida, largou os hashis com satisfação. "E aí... pronto pra me comprar meu presente ou quer que eu te role até o shopping?"

Kai riu alto. "Não precisa me rolar... Eu acho. Mas vamos andar devagar, tá?"

A conta chegou. E sim — doeu.

Asuka se inclinou, os olhos brilhando. "Heh. Já tá se arrependendo das escolhas da vida?"

Ela tava radiante. Absolutamente radiante de satisfação.

Kai pagou tentando manter a pokerface. Asuka se levantou, espreguiçando com um suspiro satisfeito. "Beleza, molenga. Vamos. Tem um shopping esperando e você tem uma promessa pra cumprir."

Com barrigas cheias e corações mais leves, eles saíram de volta para a tarde dourada. Próxima parada?

O presente da Asuka.

Capítulo 138: Fios Cruzados / Aquilo Que Você Não Esperava

Quando a porta da churrascaria se fechou atrás deles, Kai soltou um suspiro dramático, dando um tapinha no estômago.

"Acho que vou precisar arrumar um segundo emprego..."

Ele olhou para Asuka, vendo o quanto ela estava se divertindo, e sorriu, pensando consigo mesmo.

Mas valeu totalmente a pena!

Um pequeno arroto escapou antes que ele pudesse evitar.

Asuka congelou.

Depois virou para encará-lo. "Ai MEU DEUS, que nojo!"

Ela o empurrou com força no ombro, fingindo horror no rosto. "Ugh! Retiro tudo o que eu disse! Você é COMPLETAMENTE sem salvação!"

Mas ela estava rindo.

Tentava parecer ofendida, mas falhava. O sorriso a traía. "Anda logo, seu bárbaro. Vamos pro shopping antes que você se envergonhe ainda mais."

Ela agarrou o pulso dele e puxou, apressada, mas radiante de alegria.

Kai seguiu sem dizer nada, pego de surpresa pela velocidade dela. Mas o calor do riso e a energia vibrante dela faziam tudo parecer mais leve.

Ao chegarem à entrada do shopping, Asuka se virou, os olhos brilhando. "Muito bem, Selvinha. Hora de escolher o presente perfeito."

Kai sorriu. "Beleza, você escolhe o que quiser, algo que seja totalmente a sua cara. Mas só uma coisa, então escolhe bem."

Asuka ergueu uma sobrancelha. "Tsc. Por favor. Como se eu precisasse das suas regras idiotas pra fazer a escolha perfeita."

Ela se espreguiçou dramaticamente, como uma predadora se preparando para caçar o shopping inteiro. "Certo, Selvinha. Você disse que eu podia levar o tempo que quisesse, então não reclama quando eu te fizer me seguir por horas."

Ela inclinou a cabeça, estudando-o com falsa análise. "Hmmmm. O que será que te faz sofrer mais... algo ridiculamente caro, ou te fazer carregar sacolas enquanto eu experimento roupas?"

O brilho nos olhos dela dizia que isso era um jogo agora.

Ela agarrou o pulso dele de novo. "Anda, vamos ver qual vai ser o seu destino trágico."

Kai seguiu de bom grado. Ela achava que estava punindo ele, mas ele adorava vê-la assim — cheia de vida, determinada, feliz.

E começou a caçada.

Asuka o guiava de loja em loja com a precisão de uma general veterana. Os olhos varriam vitrines como um sniper. Parava nas vitrines, mergulhava em boutiques, brincava com acessórios, examinava eletrônicos, passava os dedos nas araras sem nem reduzir o passo.

Ela sempre olhava para ver se ele ainda estava atrás. "Vamos lá! Fica esperto! Sei que você tá acostumado a andar pelos corredores da NERV, mas agora é hora de ver se tem cardio de verdade."

Kai resmungou, tentando acompanhar. "Você vai mesmo entrar em TODAS as lojas do shopping, né? Acha que consegue me quebrar? Pois se enganou! Eu aguento!"

Asuka virou de repente, encarando-o como uma duelista. "Ohhh? Então acha que consegue me acompanhar, é?"

Ela cruzou os braços, batendo o pé com uma falsa cara de decepção. Então, num pulo, agarrou o pulso dele de novo. "Então vamos ver quanto tempo você dura, Selvinha!"

O ritmo aumentou. Agora ela estava testando ele.

Joalheria. Boutique. Loja de games. Tecnologia. Cosméticos. Roupas da moda. De volta a outra boutique.

Não comprava nada. Era um teste de resistência.

Depois de uma hora, ela olhou pra ele, os lábios curvados de satisfação. "Ainda de pé? Nada mal."

Ela jogou o cabelo pra trás com um sorriso. "Mas vamos ver se você ainda tá sorrindo depois das próximas cinco!"

Girou nos calcanhares e saiu desfilando como se fosse dona do shopping. O desafio estava lançado. E Kai não ia ficar pra trás.

O sol já começava a descer pelas janelas altas do shopping, lançando faixas douradas sobre o piso polido quando Kai se arrastava para manter o ritmo de Asuka.

"Pelo menos," ele arfou, "depois de tanta escolha, TEM que ser um bom presente. Você não tá brincando."

Asuka olhou para ele, sorriso brincalhão, passos leves. "Você tá começando a parecer que vai desistir."

Ela diminuiu um pouco o ritmo, só o suficiente pra ele alcançar. "Mas você tá certo. Tem que ser o melhor. Então não me decepciona e continua acompanhando."

Kai apertou o passo, vendo-a explorar as lojas com uma energia contagiante. Ver ela assim — viva, expressiva, despreocupada — dava gás de novo pra ele.

Finalmente, ela parou diante de uma loja moderna, vitrines de vidro e linhas elegantes. Virou-se pra ele, olhos afiados. "Muito bem, Selvinha. Hora de te fazer sofrer só mais um pouco."

Mas ao olhar para dentro, algo mudou. O olhar dela suavizou. Ficou sério. Estava decidindo.

Momentos depois, ela se virou pra ele. "Já escolhi."

Ela apontou para uma vitrine. "É isso."

Kai ergueu uma sobrancelha. "Você realmente sabe criar expectativa! Agora eu tô doido pra ver o que é!"

Asuka sorriu. "Confia. Você vai entender. Não é o que você esperava, mas vai fazer sentido."

Ela se virou para o atendente, a voz firme. Confiante. "Vou levar esse."

Enquanto aguardavam, ela olhou pra ele — de verdade. Pela primeira vez, sem a armadura de sempre, mesmo que só por um instante. "Você vai entender assim que ver."

Kai gemeu. "AAAH! Você tá me matando!!!"

Asuka riu. "Hah! Ótimo. Sinal de que fiz certo."

O atendente entregou uma pequena sacola preta, e ela segurou por um segundo antes de entregar na mão de Kai.

"Tá aí, Selvinha. Vai. Abre."

Kai piscou. "Quer que eu abra? Mas o presente é pra você!"

Ele olhou para a sacola. "Eu... vou entender? Que mistério é esse?"

Mas não resistiu. Abriu, a curiosidade em chamas.

Dentro: uma pequena caixa preta fosca. Ele abriu.

Uma pulseira.

Resistente. Masculina. Elos de metal escuro. Uma única gravação prateada no fecho interno.

Uma estrela.

A mesma estrela do colar que ele havia dado a ela.

Ele ficou olhando, depois ergueu os olhos, o peito apertado. "Isso é... eu achei que você tinha esquecido daquele colar."

Asuka desviou o olhar, as bochechas rosadas enquanto o colar pendia à mostra. "Tsc. Como se eu fosse esquecer, idiota."

Ela cruzou os braços, mas a voz baixou. "Só achei que, já que você vive bancando o senhor `não-pertenço-a-esse-mundo', era bom ter algo pra lembrar que pertence, sim."

Ela voltou a encará-lo, o olhar firme. "Então é bom não perder."

O sorriso voltou, suave e seguro. "Além disso, agora a gente tá combinando. Isso torna oficial, né?"

Kai ficou boquiaberto. "Pera... esse tempo todo você tava escolhendo um presente... PRA MIM? Isso NÃO era o combinado! Eu devia comprar o presente que você escolhesse pra VOCÊ!"

Asuka bufou. "Ah, cala a boca, Selvinha! Acha mesmo que eu ia desperdiçar a chance do `presente perfeito' com bobagem?!"

Agora ela estava vermelha, claramente irritada com a falta de percepção dele. "Além do mais... eu já tenho tudo o que quero. E não é como se a gente tivesse conseguido vencer aquele Anjo sem a sua... ajuda."

O olhar dela passou rapidamente pela pulseira.

Então, num giro rápido, ela virou de costas. "Ugh. Da próxima vez, vou te fazer comprar algo caro e idiota. Só pra compensar isso."

Kai ainda olhava pra pulseira, sem palavras.

Ele a colocou, a voz baixa. "Garota espertinha, hein... Eu adorei. Ficou legal, nunca mais vou tirar."

Olhou para ela novamente, mais sério. "Obrigado. Significa... mais do que você imagina."

Asuka parou.

Depois se virou lentamente pra ele. "Tsc. Claro que ficou legal. Eu tenho bom gosto, afinal."

Dessa vez, ela segurou o olhar dele. A confiança habitual suavizada por algo mais vulnerável. "Só não perde, tá?"

A voz dela quase virou um sussurro.

Então, num piscar de olhos, ela cobriu tudo com uma bufada. "E nem vem ficar todo esquisito! Não é grande coisa! Agora vamos embora antes que você comece a chorar ou sei lá."

Ela pegou o pulso dele, puxando-o.

Mas não soltou de imediato.

Nem mesmo quando entraram na multidão.

E mesmo depois, Kai ainda sentia—

A pressão da mão dela.

Ainda ali.


O sol já tinha descido no céu de Tokyo-3, lançando raios dourados entre os prédios e janelas de vidro quando Kai saiu do shopping com Asuka ao lado. O peso no peito não era pressão. Era calor. A pulseira, o momento compartilhado. Tinha sido melhor do que ele jamais imaginou.

Ele sorriu pra si mesmo, depois falou em voz alta: "Esse SIM é um bom jeito de matar aula. Admita, sua vida era um tédio antes de eu chegar."

Asuka bufou, como esperado. "Hah! Agora você acha que é tudo isso, é?"

Kai observou ela por um instante, o coração batendo forte. O céu ao redor começava a se pintar de tons do entardecer.

Ela cruzou os braços de forma exagerada, mas a pose estava leve demais. Kai sabia. "Eu estava indo muito bem antes de você aparecer, Selvinha. Sem anomalias esquisitas, sem um idiota me arrastando pra encrenca, sem—"

Bzzzzzt.

O celular de Kai vibrou de repente, cortando a frase. Ele franziu a testa e tirou o aparelho do bolso, os olhos correndo pela tela.

Misato: "Você e Asuka estão se divertindo matando aula? Nem tenta mentir. QG. AGORA."

Kai engoliu seco. "Ah, merda."

Asuka ergueu uma sobrancelha. "O quê?"

Kai virou o celular na direção dela, a mensagem brilhando como uma sentença.

Os olhos de Asuka se arregalaram. A expressão confiante desmoronou em pânico. "A Misato vai matar a gente! Era pra estarmos de castigo!"

Ela agarrou o braço dele, apertando forte. "Se eu morrer por sua culpa, juro que vou te assombrar pra sempre!"

Kai piscou, mal processando a ameaça enquanto ela disparava como um míssil, arrastando-o.

Eles correram pelas calçadas movimentadas de Tokyo-3, desviando das pessoas, dos obstáculos, com a agilidade de quem já passou por cenários bem piores.

O coração de Kai batia acelerado — não só pela corrida, mas por outra coisa. Mesmo com problemas, mesmo agora, estar com ela assim fazia tudo parecer certo.

Apesar do pânico, apesar da bronca inevitável, havia algo elétrico em tudo aquilo. No meio do vento e dos passos apressados, a voz de Asuka soou, meio desesperada, meio rindo. "É bom você ter uma desculpa boa, Selvinha! Senão a gente tá FERRADO!"

A cidade passava ao redor deles, a luz dourada escorregando por trás dos prédios.

E talvez, pela última vez, eles corriam juntos.

Capítulo 139: Órbitas em Colisão / Danos Colaterais

O olhar de Misato se voltou para Kai. "Então... se divertiram bastante?"

Kai abriu a boca. "Isso é... uma pegadinha?"

Misato tomou um gole de café lentamente. "Não, Kai. Isso é uma punição."

Asuka gemeu alto, afundando ainda mais na cadeira. "Ugh. Eu te odeio."

Misato pousou o café sobre o console e cruzou os braços, encarando os dois com firmeza. "Deixa eu ver se entendi. Vocês quase morrem num Mar de Dirac, faltam à aula quando ainda deveriam estar em recuperação, passam o dia inteiro perambulando pela cidade como adolescentes de dorama e depois voltam pra cá como se eu fosse esquecer que, apesar de tudo, vocês dois ainda estão de castigo?"

Ela suspirou dramaticamente, fechando os olhos e apertando a ponte do nariz. "Sinceramente, eu devia suspender os privilégios de campo de vocês e trancar os dois numa cela por um mês."

Asuka se endireitou de um pulo. "O QUÊ?! Isso é—"

"—Mas não vou," cortou Misato, silenciando os protestos. "Porque eu preciso de vocês em campo. Então bolei uma punição mais... criativa."

Um silêncio frio e ameaçador caiu sobre o centro de comando.

"Asuka," disse Misato docemente, os olhos brilhando com um perigo contido. "Você vai vir morar comigo e com o Shinji. Parabéns!"

Silêncio.

Silêncio absoluto.

Então Asuka explodiu, a cadeira deslizando violentamente quando ela se levantou num salto.

"NEM PENSAR!!!!" ela gritou, os punhos cerrados. "Eu moro sozinha por um motivo!!!"

Misato deu de ombros com naturalidade. "Você morava. Não mais. É a única forma de eu manter você sob vigilância."

Asuka girou nos calcanhares para encarar Kai, os olhos em chamas. "A CULPA É SUA!!!"

Ele deu um passo à frente instintivamente, erguendo as mãos em rendição. "Misato, a ideia foi toda minha. Não tem motivo pra punir ela assim. Deixa ela manter o apartamento, faz eu me mudar no lugar."

A mandíbula de Asuka caiu em choque. "QUAL É O SEU PROBLEMA?!"

Misato riu baixinho, claramente se divertindo. "Aww, Kai. Isso foi... surpreendentemente nobre." Ela olhou para Asuka, os olhos brilhando. "Ouviu isso? Ele tá disposto a se sacrificar por você."

"ELE É SÓ UM IDIOTA!!!" berrou Asuka, o rosto em chamas.

Misato piscou com malícia. "Tarde demais. Já tomei minha decisão. A mudança é no fim da semana. De nada."

Asuka girou novamente para Kai, tremendo de raiva. "VOCÊ. FEZ. ISSO!!!"

Ele abaixou ligeiramente a cabeça, os ombros caídos. Então, em voz baixa mas clara, murmurou: "Desculpa... mas... não me arrependo... de nada."

Ela avançou, agarrando-o pela gola. "EU NÃO ACREDITO EM VOCÊ!!!"

Misato ergueu a caneca triunfante. "Ah, o amor juvenil."

"ISSO NÃO É AMOR!!! ISSO É UM INFERNO!!!" gritou Asuka.

A Dra. Ritsuko apareceu no corredor, mal levantando os olhos do bloco de anotações. "Misato, se terminou de torturar os pilotos, precisamos partir."

Misato fez uma saudação preguiçosa. "Indo já." Ela se voltou para os dois. "Muito bem, pombinhos, escutem. Normalmente eu faria vocês sofrerem mais um pouco, mas estou indo pra Matsushiro com a Ritsuko supervisionar o teste de ativação da Unidade-03."

Kai ergueu a cabeça de repente, a surpresa superando o constrangimento. "Unidade-03? Finalmente alguém fala disso! Era óbvio que existia, eu piloto a Unidade-04! Isso quer dizer que não sou mais o novato?"

Misato deu uma risadinha. "Isso mesmo. Sua era como novato acabou."

"Quem é o piloto?" perguntou Asuka de repente, a curiosidade vencendo a raiva por um momento.

Misato hesitou, depois suspirou. "Eu não devia dizer. Mas vocês dois já provaram que lidam melhor com informações do que o Shinji. Só... prometam que vão ajudar ele a lidar com isso quando souber."

Asuka e Kai trocaram um olhar rápido, apreensivos. Misato continuou em tom baixo. "O piloto da Unidade-03 vai ser... Toji Suzuhara."

Os olhos de Kai se arregalaram. "O Toji? Mas... ele odeia os Evas. Por que aceitaria?"

Misato balançou a cabeça. O semblante ficou sério. "Não sei. Só sei que ele vai precisar de amigos — amigos de verdade — pra dar apoio. Estejam lá por ele. E principalmente por Shinji, tá?"

Eles assentiram, atônitos.

Com um último olhar, Misato se endireitou e fez um gesto de dispensa. "Agora vão. E Asuka — comece a arrumar suas coisas."

Asuka continuava encarando Kai como se quisesse matá-lo. Ele apenas sorriu. Ela congelou por um segundo, claramente abalada.

"Você acha isso engraçado?" ela sussurrou, a voz baixa e perigosa.

Mas não bateu nele. Nem o afastou.

Misato, observando, abriu um sorriso de orelha a orelha. "Aww, olha só — já estão agindo como se estivessem casados!"

"CALA A BOCA, MISATO!!!" gritou Asuka, cada vez mais vermelha.

"Só estou falando o que estou vendo," disse Misato, dando de ombros. "Agora andem logo, antes que a Ritsuko resolva me dissecar no lugar da Unidade-03."

Com um último olhar furioso, Asuka soltou a gola de Kai bruscamente. Virou-se e marchou em direção ao elevador.

Ao passar por Misato, Kai não resistiu a uma última provocação. "Bom... não esquece que é você quem vai ter que aguentar o humor da Asuka todo dia agora, hein."

Misato parou o gole de café no meio. Por um breve instante, Kai viu o arrependimento passar nos olhos dela.

Ela exalou, inclinando a cabeça como se repensasse tudo. "...Merda."

Rapidamente se recompondo, lançou um sorriso doce e maligno. "Ah, não se preocupe comigo, garoto. Eu fico bem. O Shinji, por outro lado? Tô rezando por aquele garoto."

Em algum lugar de Tokyo-3, Kai jurou ter ouvido Shinji espirrar.

Sorrindo de leve, Kai correu atrás de Asuka rumo ao elevador, se preparando para a tempestade que vinha por aí.

As portas se abriram — e ali dentro, esperando calmamente, estava Rei.

Capítulo 140: Hostilidade Contida / Corações de Vidro

As portas do elevador se fecharam suavemente atrás deles, selando Kai, Asuka e Rei em uma câmara silenciosa e claustrofóbica. O silêncio se assentou de forma espessa, pontuado apenas pelo zumbido das máquinas e pelo ocasional sinal sonoro dos andares passando.

Asuka estava rígida, os olhos fixos à frente, o maxilar trincado como se contivesse palavras que ansiavam por explodir. Kai, sentindo a tempestade se formar, tentou manter a respiração estável, encostado contra a parede do elevador, observando o silêncio crescer.

Rei permanecia perfeitamente imóvel, o rosto pálido e fantasmagórico refletido no metal do elevador. Sua compostura serena parecia quase provocativa diante da tensão opressiva.

Os andares passavam, e o silêncio se estendia até se tornar insuportável. Finalmente, Asuka quebrou o gelo.

"Você é sempre tão... perfeitinha, né?" Sua voz transbordava desprezo, os olhos cravados no reflexo impassível de Rei. "Nada nunca te abala, nada te atinge. A bonequinha preferida da NERV, sempre correndo pra reuniões secretas com o comandante Ikari."

Rei não respondeu, nem se mexeu. Seus olhos rubros apenas se moveram levemente em direção a Asuka, encarando-a com uma curiosidade distante, como se observasse um fenômeno e não uma pessoa.

Os punhos de Asuka tremiam ao lado do corpo. "Você nem liga, né? Se o resto de nós tá desmoronando enquanto você só fica parada aí, igual a uma marionete sem alma!"

Mesmo assim, Rei permaneceu em silêncio. Seu mutismo era ensurdecedor, preenchendo o espaço confinado com uma tensão cada vez maior. Kai se remexeu desconfortável, sentindo o perigo crescer.

Asuka deu um passo à frente, a voz reduzida a um sussurro amargo. "Fala alguma coisa! Qualquer coisa! Ou tá muito ocupada planejando quando vai correr de novo pros bracinhos do seu comandantezinho?"

Finalmente, o olhar de Rei se aguçou. Ela virou ligeiramente a cabeça. Sua voz saiu calma, mas cortante como vidro. "Talvez o problema não seja a minha falta de emoções, mas a sua incapacidade de controlar as suas."

Algo se quebrou dentro de Asuka. Os olhos se arregalaram, faiscando. Antes que Kai pudesse reagir por completo, ela já tinha se lançado à frente, a mão erguida na direção do rosto de Rei.

SLAP!

Instintivamente, Kai se colocou entre elas, interceptando o tapa que era destinado à Rei e sendo atingido em seu lugar. O estalo ecoou alto no espaço apertado, ardendo com força em sua bochecha.

"Ai! Mas... pra quê isso?!" Kai cambaleou ligeiramente, levando a mão ao rosto e olhando para Asuka com surpresa e confusão.

Asuka congelou, a mão ainda erguida, os olhos arregalados com uma mistura de raiva e horror. "Por que diabos você entrou na frente?! Não era pra você!" Sua voz tremia, a fúria lutando contra uma culpa inesperada.

"Talvez não fosse," murmurou Kai, ainda esfregando a bochecha. "Mas bater na Rei não ia te fazer se sentir melhor."

Rei observava em silêncio, a expressão inalterada, mas os olhos fixos em Kai, analisando. Após um momento, as portas se abriram silenciosamente no andar dela.

Ao sair, Kai falou suavemente: "Desculpa, Rei... isso não era realmente sobre você."

Rei parou fora do elevador, olhando por sobre o ombro — para Kai. Sua voz, afiada e exata: "Você a protege como se ela fosse frágil. Mas essa fragilidade é justamente o que ela mais odeia."

As portas se fecharam, deixando apenas Asuka e Kai no silêncio pesado.

A respiração de Asuka estava rápida e irregular, os olhos fixos no ponto onde Rei estivera. Então, lentamente, ela voltou o olhar para Kai.

"Nem ouse sentir pena de mim," ela avisou, a voz trêmula. "Eu não preciso da sua maldita compaixão."

Kai abaixou a mão do rosto, olhando para ela com firmeza. "Quem falou em pena? Eu te impedi porque isso não é quem você é. Você é melhor que isso."

Asuka desviou o olhar, piscando rápido, os punhos relaxando aos poucos. A tensão nos ombros diminuiu um pouco. "Você não sabe nada sobre mim," murmurou.

Kai se aproximou, encostando o ombro de leve no dela. "Talvez eu não saiba tudo. Mas sei o suficiente. Você tá com raiva porque se importa... demais, até. E isso não é motivo de vergonha."

Ela não respondeu por um longo tempo, os olhos presos no chão do elevador. Eventualmente, o elevador desacelerou no térreo, as portas deslizando em silêncio.

Asuka saiu rápido, evitando encarar Kai. Parou na soleira, a voz baixa, quase derrotada. "Da próxima vez, fica fora disso."

Kai a observou se afastar, os passos apressados mas hesitantes. Seguiu em silêncio, sem insistir.

Apesar de tudo, apesar da dor latejando no rosto, algo quente permanecia ali — uma estranha certeza de que havia feito a coisa certa.

E talvez, pensou ele, talvez Asuka soubesse disso também.

Capítulo 141: Limiar do Crepúsculo / Vestígios de Calor

Quando finalmente saíram da NERV, Tokyo-3 estava mergulhada nos tons âmbar do início da noite. As ruas brilhavam suavemente, e uma brisa fresca agitava as árvores ao longo do caminho. Kai caminhava ao lado de Asuka, com o ardor recente na bochecha servindo de lembrete do dia complicado que haviam enfrentado. Seus pensamentos ainda estavam em Misato, nas revelações sobre Toji, e na tensão do elevador, que permanecia no ar.

"Unidade-03... e o Toji," murmurou Kai, quebrando o silêncio incômodo. Ele olhou para Asuka, o olhar dela distante, os passos pesados com pensamentos não ditos.

"É," respondeu ela baixinho. "Logo o Toji."

Kai balançou levemente a cabeça e suspirou. "O Kensuke vai surtar. O que será que fez o Toji aceitar isso?"

A voz de Asuka ganhou um tom mais duro. "Provavelmente alguma idiotice como orgulho ou senso de dever. Ele é exatamente o tipo de imbecil que se arriscaria só pra provar alguma coisa."

Caminharam em silêncio por mais alguns minutos, cada um perdido em suas reflexões. Depois, Asuka falou de novo, o tom mais suave. "E o Shinji... ele não vai lidar bem com isso."

"A Misato tem razão," disse Kai, com a voz baixa. "Ele vai precisar da gente. O Toji também."

Asuka assentiu levemente, os olhos ainda voltados para a frente. O silêncio voltou, mas agora era mais confortável. Kai a observava de canto de olho, o rosto dela suavizado pela luz da lua, mais vulnerável do que costumava mostrar.

Kai tocou a pulseira no pulso, o metal frio o ancorando em meio ao turbilhão de pensamentos. "Esse dia tava sendo bom até... até a Misato nos pegar."

Asuka bufou, a tensão se aliviando um pouco. "Tsc. Era questão de tempo. A gente nunca tem sossego."

Kai sorriu de leve, ousando provocá-la. "Mas valeu a pena, né?"

Ela lançou um olhar breve, com um brilho suave nos olhos. "Talvez."

Chegaram ao prédio dela mais rápido do que Kai esperava. Asuka parou na entrada, virando-se lentamente para ele, o peso do dia ainda pairando entre os dois.

Kai hesitou, depois tocou levemente a bochecha, fazendo uma careta teatral. "Sabe, pra alguém que pilota um Eva com precisão cirúrgica, sua mão é bem pesada."

Asuka se enrijeceu, os olhos se arregalando levemente antes de estreitarem. "Você deu sorte de não ser pra você. Da próxima vez, não se mete."

Kai riu baixinho, abaixando a mão. "Vou pensar no caso."

Ela o encarou por mais alguns segundos, e então, de repente, deu um passo à frente. Sem aviso, se aproximou e deu um beijo rápido e suave na bochecha avermelhada dele. Logo em seguida, recuou, o rosto ruborizado.

"Pronto. Melhorou?" resmungou, tentando esconder o embaraço com indignação.

Kai piscou, surpreso, e sentiu o calor se espalhar do peito para o resto do corpo. "Ah... c-com certeza."

Asuka revirou os olhos. "Idiota. Agora vai embora antes que você estrague tudo com algum comentário idiota."

Kai sorriu com ternura. "Boa noite, Asuka."

A mão dela parou por um instante na maçaneta, a voz mais suave do que ele esperava. "Boa noite."

Quando a porta se fechou com um clique, Kai ficou parado ali por um momento, sentindo ainda o calor do beijo rápido. Apesar de tudo — a punição da Misato, as palavras cortantes da Rei, e a notícia sobre a Unidade-03 —, aquele momento brilhava.

O ar da noite era fresco, calmo, e pela primeira vez em muito tempo, sua mente parecia em paz. A pulseira continuava ali, como um lembrete reconfortante, enquanto ele se afastava com passos leves, estranhamente tranquilo.

Em casa, deixou a água quente do chuveiro lavar a tensão do dia. Enrolado na toalha, desabou na cama, a exaustão pesando nos músculos.

Antes de dormir, pegou o celular e digitou:

"Boa noite! 😘"

A resposta de Asuka chegou quase instantaneamente:

"Nem pense que vai receber mensagem fofa por causa de hoje. Boa noite, idiota. 😏"

Kai sorriu, largando o celular ao lado e fechando os olhos.

Apesar de tudo, o dia de hoje ainda tinha sido um presente.

E o que quer que o amanhã trouxesse, ele se sentia pronto pra encarar.