Evangeline E Pietro - Um Amor Impossível
1 OneShot - Um Amor Impossível
Notas iniciais
E no meio do baile, enquanto algumas moças fugiam para cômodos distantes do salão de danças, Evangeline se sentia cada vez mais viva nos braços de Pietro.
A música ficava distante aos poucos quando os passos de valsa ficavam rápidos e precisos. Quanto menos prestavam atenção no público que os assistia, a facilidade de sentirem todo o esplendor tocado pela orquestra aumentava. Violinos, violoncelos e piano predominavam no recinto iluminista.
Tudo tão distinto e ao mesmo tempo, intrínseco na mente dos dois, assim como o amor. 1,2,3,4,5,6. Um hexágono de passos contínuos. Bailarinos amantes. Amantes bailarinos. Ousavam olharem-se nos olhos e o mundo se iluminava, como fanais no breu. A confiança nos dois crescia frequentemente.
Ele já havia escutado aquela música antes, em algum lugar, ou sonho, e já sabia que as notas estavam no limiar.
- Eva, – o modo como a chamava soava tão doce como uvas mergulhadas no chocolate – falarei com seu pai esta noite.
- És louco, por suposto. Sabes que ele jamais aceitaria. Levar-me-ia para qualquer outro lugar só para não nos vermos novamente.
- Então iria até os confins do mundo para achar-te. Mesmo que tudo durasse a minha vida inteira. Não vou perder-te, Eva.
- A dois dias deste baile estou a ir para a França e logo em seguida para a Romênia. Como nos veríamos com toda a guarda de cada cidadela e casa nas quais ficarei?
- Torno-me mensageiro, camareiro, guarda, ou continuo a ser um simples lorde inglês que segue a amada, não importam os quês.
- Espero-te à meia-noite em meu quarto. Depois podes fazer o que bem entendes por ti.
- Por nós, querida Eva. Encontrar-te-ei lá.
E assim, a melodia sucumbiu à sequência de outra música. Evangeline e Pietro se afastaram, dando espaço para que os outros casais se dispusessem a comentar: “Eles ainda encontram-se secretamente”, ou “Finalmente eles se separaram, ela não o merece”, ou, o mais absurdo dos comentários, “Essa menina não merece meu sobrinho. Ela não é nada enquanto ele é um lorde.” – comentou a tia do rapaz, com sua amarga falsidade.
“Deixa-se o xadrez para quem o joga em divino”, pensou a dama de companhia da senhora, que, por não entender muito bem o inglês carregado de sua senhora, ao ser alemã, ficava em silêncio e de cabeça baixa.
Enquanto isso, do outro lado do salão, Pietro localizava pai de sua amada. Não cedia ao capricho de Evangeline. Falaria com o pai dela essa noite, ainda. Não importava se se iniciasse um conflito direto ali mesmo no baile.
- Sir Lucius. – ele aproximou-se.
- Lorde Pietro, estás entretido?
- Em demasia, mas tenho algo a falar-lhe.
- Que seja dito, então.
- Gostaria de ter Evangeline como minha, mais uma vez lhe peço, amo-a mais que tudo e respeito-a vindo aqui revelar-lhe o que sinto, primeiro.
O senhor baixinho, quase engasgando enquanto escutava ao jovem à sua frente, puxou-o a uma espécie de sala secreta.
- Pela última vez, lorde Flint, não! – o homenzinho aumentava o tom de voz, segundo em segundo – Evangeline irá se casar em dois dias e irá para a França. Bem longe de infortúnios e agonias nas quais vive agora. Jamais volte a este assunto! – e saiu batendo os pés, deixando seu lorde em choque. Não poderia ir até ela. Não se mexia.
- Até os confins do mundo, Eva – sussurrou para si e saiu, controlando seu temor.
Seu melhor amigo, Sir Michal, o acompanhou até a entrada da mansão e andaram até o lado sul, ficando de frente à sacada do quarto de Eva, depois de ter de subir uns doze metros sem proteções.
Eva estava de frente para outra janela, chorando em silêncio. Já não escutava música nenhuma, somente sua respiração e em seguida a de Pietro, que a observava quase dispa com seu longo cabelo ruivo encaracolado lhe descendo as costas. Nenhum dos dois falou por um breve momento.
- Por que não contou-me antes, Eva?
Ela nada respondeu.
- Por quê? – ele seguiu até onde ela estava, abraçando-a.
- Não queria que me deixasses antes de tudo.
- Nunca duvide: Jamais irei deixar-te. – e a beijou com tanto fervor que até ferro poderia derreter.
Assim tiveram sua última noite de amor até que ela se casasse e partisse.
Depois de casada, os dois continuaram a se encontrar e por muitos anos, ele, lorde, ela, viscondessa, ele sempre a seguia quando ela ia a outros países ou cidades, até que um dia seu marido descobriu as traições e com autorização dada pelo próprio Rei George II, mandou decapitá-lo, mas como não queria que o caso se estendesse à toda a região, Pietro não foi morto em praça pública e como punição, Evangeline foi obrigada a ver Pietro morrer.
No último momento, ele olhou-a nos olhos e lembrou-se de todos os momentos que tiveram juntos e sussurrou para ela: “Nada foi em vão, Eva. Eu te amo” e as lágrimas desceram quentes pelo rosto da mulher e o ceifador baixou a lâmina no pescoço do rapaz. Evangeline gritou de ódio, de tristeza, de dor. Gritou juras de morte ao marido. Gritou inutilmente a um Pietro com corpo à esquerda, cabeça à direita.
Os dias passavam-se lentamente. As tardes já não pareciam ensolaradas e as noites eram frias em demasia. Depois de meses em agonia, por não ter Pietro, Evangeline foi acometida de tuberculose. Tossia até que seus pulmões não aguentassem mais e a deixassem sem ar. A cama estava sempre quente e parecia suja de todas as formas. Não queria ver ninguém, somente se levantava para observar o campo que se estendia para fora da janela. Vez em quando escutava a melodia de sua última valsa com Pietro.
Numa noite, depois de dispensar todas as criadas, menos a alemã que era a dama de companhia da tia de Pietro, Eva decidiu conversar qualquer coisa com a mulher, enquanto tomava banho, se vestia para voltar ao infortúnio que era aquela cama e dormir novamente.
- Não importa o que aconteça minha senhora, lorde Pietro estará esperando-a. Ele jamais a deixaria.
- Como você sabe disso, Gael?
- Sempre que lorde Pietro e Sir Michal conversavam, sua tia me mandava para saber se estavam falando sobre a senhora, e claro, enquanto eu os servia, escutava parte de suas conversas.
- Por que está me falando isso?
- Por que sei que ele sabia sobre sua tia me mandar para escutar suas conversas. Só queria que a senhora soubesse. Lorde Pietro não pensava em outrem.
Nesse momento, Eva sorriu e olhou para o além. “Ele nunca me deixou, de fato”, pensou e lentamente fechou os olhos. Aos poucos seu peito parava de subir e descer. Eva apertou a mão da criada, como se fosse uma despedida e partiu, pensando em Pietro.
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