Eva
15 Cap. 14
Notas iniciais
Quando acordei, estava acordada em uma cela escura, fria e cinzenta. Não havia lugar para dormir, apenas um monte de palha que eu imaginei que estava fazendo papel de uma cama. Havia uma janela minúscula acima da minha cabeça, com grades de ferro e a luz do Sol entrava, mas fraca . Ao me levantar, percebi que estava com dificuldade de caminhar mais do que cinco passos, pois estava acorrentada pela cintura por uma grosso arco de ferro, atado à parede de pedra atrás de mim por uma grossa corrente. Os meus pulsos também estava presos à correntes, e um de meus tornozelos atados a uma pesada esfera de ferro. Então tudo fez sentindo, eu estava presa e alguma coisa me dizia que meu destino não era nem um pouco agradável. Estava tão perdida em pensamentos que não vi quando o carcereiro apareceu diante de mim, jogando-me uma sacola marrom-escura e fazendo com que o pesado molho de chaves atado à sua cintura fizesse um barulho estridente conforme caminhava.
''Comida, Leonheartz.'' -- Ele respondeu , secamente.
''Onde estou ? O que vai acontecer comigo ? '' -- Perguntei em voz baixa, ao mesmo tempo em que conseguia imaginar a resposta.
''O que mais um prisioneiro faria acorrentado em uma cela ? '' -- Ele riu da minha cara de surpresa e eu tinha a consciência de que fizera uma pergunta estúpida. '' -- Você está na prisão, madame. A sua sentença já saiu . A sua e a da sua ''''filha'''' -- Ele enfatizou a palavra filha em tom sarcástico, e cuspiu no chão. Era um homem de aparência assustadora, com a barba mal feita e as unhas cobertas de uma sujeira negra. ''-- Foi levada a julgamento mesmo inconsciente, uma vez que você e aquela abominação pularam juntas e desmaiaram. A loira acordou antes de você ... mas foi em quem tive de carregá-la nas costas até o tribunal enquanto lutavam para enfiar a outra na corrente, o que foi totalmente desnecessário se quer saber, uma vez que toda a cidade já sabia qual era a sentença de vocês.Porque diabos criou uma mulher assim ?'' -- E cuspiu no chão mais uma vez.
''E a minha sentença e a de Anna seria qual? '' -- Perguntei de forma tímida.
'' MORTE ! MORTE SUA TOLA,ASSASSINA E IDIOTA ! '' -- Uma voz raivosa que gritava alto, produzindo ecos na prisão saia da parede ao lado, e pude me dar conta de que Anna fora colocada numa cela ao lado da minha. Ainda bem que existia uma parede entre nós, pois pelo seu tom de voz tão raivoso e agressivo, quase poderia jurar que sua boca espumava de tanta raiva e seus olhos de fera brilhavam com mais intensidade que o normal. ''-- Nós fomos condenadas à forca ! Em sete dias ! E é tudo culpa sua ! ''
Sentei-me no chão empoeirado lentamente. Eu absorvera aquelas palavras , mas não conseguia aceitá-las. Um sentimento de ansiedade e medo tomaram conta do meu ser , mas eu estava em choque demais para esboçar qualquer reação.
''Bem,essas coisas acontecem com quem tenta brincar de Deus, não ? '' -- O homem achava aquela situação muito engraçada.''-- Sou carcereiro a mais de 30 anos, já presenciei vários tipos de crime, mas nada que se parecesse com este. Divirtam-se morrendo. ''-- E após tocar seu chapéu de palha para mais perto do rosto, saiu da cela e trancou-me novamente.
O silêncio foi quebrado por choros angustiantes e altos. Apesar de eu estar terrivelmente arrependida por ter criado Anna , eu não pude deixar de dar razão a ela e ao carcereiro. Sim, eu violara túmulos, o que por si só já é um crime punível por lei , desrespeitando o sono eterno de quem quer que estivesse lá e à família dos mortos, subornara a todos ao meu redor para conseguir sigilo em meus projetos e brincara de Deus, quebrando totalmente as leis naturais impostas por Ele. E sim, ao arrancar a cabeça daquela jovem na floresta Genebrina, não a conhecia e certamente lhe tirei seu futuro, seus sonhos, sua família. Conclui, ao mesmo tempo em que um gosto amargo tomava conta de minha boca que Anna, o homem carcereiro, minha família ( incluindo meu pobre pai , que me negou como filha e mesmo que não fosse condenada não teria mais aonde morar) e toda a cidade de Bruxelas tinham todos os motivos para me odiarem e quererem meu pescoço retorcido na corda da forca a céu aberto, que ficava exposta para qualquer um que quisesse assistir à execução de um prisioneiro, atrás do Palácio da Justiça. Foi quando olhei para o lado e vi um pequeno montinho coberto de terra que escondia alguma coisa. Arrastei-me com dificuldade e desenterrei um pequeno diário em branco. Não entendi porque um prisioneiro esconderia algo que nem sequer foi escrito e automaticamente lembrei-me do diário de Victor Frankenstein. A lembrança do diário deu-me arrepios pelo corpo e uma grande repulsa e nem me dei ao trabalho de imaginar aonde ele foi parar . Estava em posse de Anna, mas uma vez que estávamos presas, certamente estava no gabinete do Governador, ou fora enviado para análise da rainha ou simplesmente destruído, o que na minha opinião era o correto a se fazer.
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E assim os dias se arrastaram até o presente momento no qual escrevo este diário com um pedaço de carvão. Eu mal toco no alimento que o carcereiro me traz, e vou marcando com um traço na parede os dias que faltam até minha execução. Meus cabelos estavam desgrenhados, meu vestido rasgado e irreconhecível e tudo o que ouvi durante esses sete dias foram choros,insultos , praguejos e maldições contra mim vindos da parte de Anna. Eu nem me importava mais com as ofensas, pois conforme os dias se passavam lentamente, eu aprendera a aceitar a minha sina. Não havia mais o que fazer e até eu mesma iria achar absurdo se algum parente meu me visitasse ou providenciasse um advogado para tentar me livrar do meu destino. O que eu fiz era algo desumano e imperdoável e infelizmente eu deveria pagar com a minha vida pelo o que fiz. De fato, o maior monstro dessa história toda não era Anna, mas sim eu mesma. As mortes que ela cometera, assassinando o homem com quem queria casar e meu irmão caçula eu deveria assumir a responsabilidade, afinal eu a criara.
O dia de minha execução chegou. O carcereiro apareceu e soltou a minha cintura, meus braços e pernas, mas amarrou meus pulsos para trás com cordas fortes e colocou um saco grosso de batatas que cheirava a mofo na minha cabeça , para que eu não aprendesse o caminho para a fuga e não tivesse que visualizar Anna, pois de acordo com os passos que eu ouvia na minha frente, outro carcereiro estava a escoltando até o carrasco. Através da conversa dos carcereiros entre si, pude concluir que fora colocada uma espécie de mordaça de ferro em Anna, pois ''seu grito estridente, capaz de gelar as almas, estava incomodando todos os guardas da prisão''.
Através dos meus sentidos, pude sentir a luz do Sol em meu rosto ao mesmo tempo em que era obrigada a subir degraus de madeira que rangiam, e gritos raivosos da população praguejavam ordens como '' executem-nas logo! '' . Uma corda áspera foi colocada em volta de meu pescoço e o saco foi tirado da minha cabeça. Quando olhei ao redor, a praça estava lotada de pessoas que estavam em volta da forca , ao mesmo tempo em que os guardas tentavam conter as pessoas que tentavam pular as cercas para nos linchar com pedras. Anna fora colocada numa forca ao meu lado e não olhou para mim por um segundo. Estava em silêncio e com os olhos fechados, como se orasse , e uma lágrima escorria por seu olho esquerdo. Em comparação à minha aparência de mendiga , ela estava ainda mais bela do que o habitual.
O carrasco , vestido com uma túnica negra e uma touca pontuda que cobria seu rosto de mesma cor, dando espaço para os olhos, apareceu e colocou suas luvas de couro. Um homem enviado pela igreja , que parecia ser um frade , colocou-se diante de nós duas e abriu uma bíblia cuja capa era dourada, ao mesmo tempo em que lia algo a respeito do paraíso,inferno,arrependimento e outras coisas que não dei importância.Duvidada muito de que minha família estivesse lá para acompanhar a nossa execução, ao mesmo tempo em que não sabia se Sophia sabia de alguma coisa. Será que as noticias chegaram até Genebra ?
Após a leitura de um salmo, perguntou se tínhamos alguma última palavra, mas ambas ficamos mudas. O frade se afastou , dando espaço para o carrasco. Era agora. Virei o pescoço para encarar Anna ao mesmo tempo em que ela virou-se para me encarar. Eu estava séria e ela sorriu para mim, um sorriso cruel , doentio , como de uma psicopata. Estava totalmente louca.
A hora chegou. '' Nos encontraremos no inferno'' , Anna sussurrou.
Pensei em Walton. Pensei em Frankenstein. Pensei em minha mãe e o sorriso que me dava quando era criança. Provavelmente não a veria de novo.
Então o carrasco puxou a alavanca. Eu fechei os olhos. Não consegui mais sentir os pés no chão.
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