Eva

13 Cap. 12


Notas iniciais
ALTAS REVELAÇÕES !

–Lucinda narra ...

Maldita! Mil vezes maldita ! Como aquela garota , aquela ... monstra pode ter matado o homem que eu amava e meu próprio irmão? Eu estava meses sem vê-lo ... de todos os meus outros irmãos Theodore era o que mais me acalmava com sua voz doce e infantil .. agora está sem vida, ao lado do homem que eu prometera amar , com a cabeça atravessada por uma forquilha.
Um sentimento horrível de culpa tomou conta do meu ser e precisei sair às pressas correndo do celeiro, pois cheiro forte do sangue e a visão da fratura exposta no pescoço do meu irmão estavam me deixando ao ponto de vomitar. Enquanto corria para longe, para tomar ar fresco, consegui ouvir meu pai dizer a tempo : '' Vamos formar grupos de busca agora e vasculhar pela propriedade!Quero a cabeça daquela garota em uma bandeja de prata! ''
Atravessei rapidamente a campina e acabei indo parar diante de nosso pequeno cemitério particular à céu aberto que ficava algumas milhas atrás da nossa mansão, destinado a enterrar todos os nossos parentes. Parei diante da sepultura de minha mãe, onde se lia ''Ariah Leonheartz — esposa e mãe dedicada''. Ajoelhei-me diante do mármore frio e não pude conter minha lágrimas.
''Eu sou uma tola, como pude deixar Anna sozinha ? Se eu estivesse a vigiando durante a festa nada disto teria acontecido e Ian e Theodore estariam vivos ! Ah mamãe, se a senhora estivesse aqui certamente me entenderia. Porque aquele diário de Frankenstein não diz nada a respeito de problemas que isso poderia ter gerado ? '' -- Solucei, com a testa encostando na pedra fria.
''Porque a culpa não é apenas do diário, mas tanto sua quanto de Victor.'' -- Uma voz rouca mas estranhamente familiar me pegou desprevenida.
Quando virei-me para ver quem ela, pude identificar o tal senhor Walton, que me fizera uma série de interrogações quando desembarquei em Genebra. Mas não era possível: como aquele homem sabia de tudo o que estava acontecendo? Pensando em se tratar de um espião ou sequestrador, preparei-me para me levantar e fugir, mas tudo o que me lembro é de levar uma pancada bem forte na cabeça e tudo se apagou.
Acordei com alguns fracos raios de sol que atravessavam a vidraça de uma janela , iluminando o meu rosto. Conforme minha visão que outrora estava embaralhava se endireitava, pude perceber que me encontrava diante de uma pequena cabana de madeira. A cama em que eu estava e fora coberta por um pano parcialmente empoeirado, era mal esculpida em um tipo de madeira escura que não consegui identificar a princípio de qual árvore fora tirada e preenchida por palha fresca. A única janela da casa era pequena e ficava ao lado da cama onde eu estava e os outros cômodos da casa se resumiam basicamente a uma cozinha de aparência muito humilde, com um pequeno forno a lenha ,um armário de cozinha, algumas panelas de barro penduradas em um canto na parede e um pequeno reservatório que lembrava uma pia. E no mesmo local onde quarto e cozinha ficavam , uma pequena lareira estava localizada na parede oposta, com alguns livros empilhados ao lado e uma cadeira de balanço.
''Bom dia , senhorita ! Que bom que está acordada, acredito que esteja com fome, noite difícil eu suponho ? Caso queira usar o toalete , ele fica do lado de fora. '' O velho apareceu diante de mim , me encarando com um sorriso satisfeito.
''O-onde eu estou ?'' -- Eu gaguejara, confusa.
''Na minha casa, é de se supor. Desculpe-me como a forma que eu a trouxe até aqui, mas achei que jamais concordaria em vir por espontânea vontade.Então tive auxílio.'' -- Ele soltou uma risada, apontando para uma pá encostada ao lado da cama.
''Porque me golpeou ? O senhor está me seguindo desde Genebra? ''-- Eu dissera assustada.
''Digamos que não seja importante o fato de estar me vendo em dois lugares ao mesmo tempo. Eu a trouxe até aqui porque precisamos conversar a respeito de Victor Frankenstein.''-- Ele me encarou de forma séria, puxando um banquinho para se sentar diante de mim.
Meu coração deu um salto. Será que era seu filho ? Como ele poderia entender a respeito do meu autor tão bem ?
''Eu conheci Victor Frankenstein a muito , muito tempo, quando eu era bem jovem. Eu era comandante de uma embarcação e meu objetivo era chegar à Antártica, o continente gelado, em uma tentativa de ser o primeiro homem a ir e voltar para casa com vida, pois muitos marujos morreram no caminho. O fato de querer estar acima dos outros lembra a senhorita de alguma coisa ? ''-- Ele piscou para mim e engoli em seco. Walton já fora ambicioso como eu , mas assenti com a cabeça, sem dizer uma só palavra.
'' Um dia , quando meu navio ficou preso em um bloco de gelo, encontrei Victor à deriva e pedi a minha tripulação que o resgatasse. Não poderia deixar o pobre homem morrer em meio aquela paisagem branca, com fortes nevascas. ''-- Ele continuava a narrar sua história . '' E eu mesmo cuidei dele. Coloquei-o junto ao fogo, o alimentei até que o jovem Victor recuperasse suas forças. O pobre homem estava fortemente abalado psicologicamente, sozinho no mundo, sem amigos e sem aqueles que o amavam. E tudo por conta da criatura que criou.Victor me contou que escrevera um diário com os procedimentos de como criou o monstro , cada detalhe. Ele obteve todas essas informações graças aos seus conhecimentos adquiridos na universidade e com a ajuda de um de seus professores. Claro que Victor nunca contou a ninguém sobre seu projeto, mas ele conseguiu. Criou uma criatura ...''
''A partir de corpos de cadáveres... ''-- Completei a frase lentamente. Então Victor e eu éramos iguais em linha de pensamento. Nunca me identifiquei com um ser humano tanto ! '' -- E o que aconteceu ? ''
''Victor rejeitou a criatura desde o momento em que ela abrira os olhos pela primeira vez. Ele próprio me contou tudo isto em pessoa. O ser sempre fora vítima de humilhação, rejeição, qualquer ato de bondade praticado por ela resultava em palavras de ofensa, praguejos, maldições e agressões físicas. Victor me contou que o monstro o procurou em carne e osso para lhe explicar o porque da sua mudança de comportamento. Estava consciente de que era horroroso fisicamente e que seu tamanho e força colossais assustavam quem o via, mas que culpa o infeliz tem ? Ele não pediu para ser criado, como ele próprio falara a Victor. Ele só queria atenção, coisa que nem o próprio pai, por assim dizer fez. E como vingança , a criatura , cujo Victor não nomeara mas que a chamava de nomes horríveis que não ouso repetir aqui, resolveu matar todos que eram importantes para o mestre , com o objetivo de deixá-lo tão só quanto ela. Desisti na mesa hora da viagem devido ao medo de estar sendo seguido pela fera também.''
''E o que acontece em seguida? Conte-me! O senhor viu a criatura ? Como ela era ? ''-- Eu estava eufórica com tamanha informação.
''Bem, era muito alto, uns dois metros e dez centímetros deveria ter. Cabelos negros, escorridos e compridos. Pele muito pálida, ombros largos, olhos amarelos , costuras pelo corpo. Inteligentíssimo por sinal, possuía um vocabulário impecável. Victor passou meses atrás da criatura para se vingar , percorreu países, atravessou campos para encontrá-lo. O monstro estavam bem a frente dele, fazendo-o com que o seguisse, numa espécie de brincadeira maldita, eu sei lá ! ''-- Ele agitou os braços nervoso, como se quisesse espantar algum inseto invisível. ''--Victor perdeu a fome e o sono, por isso o encontrei tão abalado. Ele não conseguiu matar o monstro , e devido a fraqueza acabou morrendo em minha cama, onde contou-me toda essa história. Minha tripulação e eu preparamos uma fogueira sobre o bloco de gelo onde Victor fora encontrado e ali queimamos seu corpo. De repente o monstro entrou pela janela do quarto onde estávamos e chorou pela morte do dono. Alegou que já não haveria mais razão para que vivesse, pois para o bem ou para o mal ,Victor era a única ''companhia'' que ele tinha, mesmo sendo odiada por ele. E agora morto, não haveria mais o que fazer. Se jogou na fogueira e ambos queimaram juntos.Mas preciso que você entenda que assim como Victor era o reflexo da criatura , isso vale para vocês duas . Você é tão culpada quanto a sua criatura. ''
Aquela história era impressionante para mim, cada detalhe ! Oh Deus e a história estava se repetindo comigo !
''Antes de morrer , ele me pediu que eu escondesse o diário em sua antiga casa para que ninguém o achasse, mas parece que uma certa dama curiosa que eu tentei alertar o achou, não ? '' -- Ele ergueu uma das sombracelhas para mim. Abaixei a cabeça com vergonha. ''-- Creio que a maldição da criatura tenha se apossado do diário e o que aconteceu a Victor acontecerá a você, a menos que a impeçamos.''
'' E como faremos isso ? Oh por favor, me diga ! ''-- Joguei-me diante de seus pés, sem esconder minhas lágrimas . ''-- Ela matará minha família e eu admito, admito ! A culpa é minha , toda minha ! ''-- Eu berrava ao mesmo tempo que chorava, a onda do remorso se apossara de mim.
'' Precisa arrumar um jeito de matá-la, e acho que ...''
Mas Walton não conseguiu terminar sua frase, pois uma forte batida na porta de madeira foi ouvida. Walton fez-me um gesto pedindo silêncio e caminhou até a maçaneta. Ele abriu a porta lentamente mas suspirou de alívio ao ver que era um grupo de militares parados em frente a porta.
''Bom dia, o que desejam ? ''
''Sinto muito senhor, mas fomos avisados pelo governador de que Lucinda Leonheartz estaria aqui. Precisamos que ela nos acompanhe agora mesmo até a praça principal. A cidade está em chamas e uma mulher de cabelos loiros que se identifica como Anna está clamando pela presença dela.''