Nasci em Bruxelas, capital da Bélgica e sou a quarta filha de cinco irmãos, todos homens. Meu pai era um médico famoso na cidade, conhecido por fazer cirurgias complexas e de alto risco. Já mamãe se ocupava com os deveres de dona de casa como bordar,fiar, pintar, tocar piano e dar ordens às nossas babás e criados. Não éramos totalmente ricos, mas meu pai ganhava o suficiente para que tivéssemos um conforto merecido e educação de qualidade.

Tive uma infância aceitável; meu pai contratava os melhores professores para ensinar a mim e meus irmãos ao mesmo tempo em que mamãe me ensinava as tarefas básicas que uma mulher necessitava aprender. Devo dizer que mamãe se decepcionou muito comigo nesse quesito, pois minhas pinturas eram lamentáveis, não tive habilidade para bordar e muito menos fiar. O máximo que eu aprendi é tocar piano de forma um tanto quanto razoável , o que para mamãe serviu, apesar de não ficar muito satisfeita por eu não conseguir ter me tornado uma mulher completa, enquanto que meu pai apenas instruía seus filhos a seguirem profissões de sucesso e de prestígio para serem ‘’ homens à frente de seu tempo’’.

Quando eu tinha doze anos, mamãe engravidou novamente , porém contraiu uma febre alarmante ao mesmo tempo, o que deixou papai bastante apreensivo. Como estávamos enfrentando um inverno rigoroso e com a chegada de mais um membro na família, nossa casa se tornou apertada para todos vivermos juntos. Então meu pobre pai anunciou que nossa última alternativa era mudarmo-nos para uma casa maior , uma mansão que pertencera a minha avó e que lhe foi deixada de herança.

O tempo ia passando e a gravidez de mamãe se desenvolvia normalmente, mas ela continuava ainda pior e meu pai já começava a temer o que poderia acontecer. Mamãe sempre era amparada e conduzida por uma criada para ir até ao quintal tomar banho de sol e assistir-nos brincar , e lembro-me até hoje de quão lamentável estava sua aparência : pele pálida e raquítica, cabelos fracos e levemente grisalhos,sem brilho e lábios e olhos inexpressivos. Aqueles sintomas deixaram meu pai desconfiado de que fosse varíola, pois uma epidemia estava se formando na cidade. E conforme os sintomas foram se tornando ainda mais aparentes, a suspeita do meu pai estava mais do que certa. Posso admitir que sofremos ainda mais do que mamãe, porque numa sexta feira à noite , debaixo de uma tempestade forte , mamãe deu à luz a meu irmão caçula, Theodore, mas como estava muito fraca e perdera sangue excessivo, morreu em seguida.

Passamos por momentos de luto muito dolorosos, eu amava muito aquela mulher que eu chamava de ‘’mãe ‘’, a que penteava meus cabelos longos e negros e que cuidava de nós quando adoecíamos, a que brincava conosco nos jardins, que tecia coroas de cravos para enfeitar meus cabelos e que contava histórias para que dormíssemos. Mas tínhamos que prosseguir com nossas vidas, uma vez que a morte é algo inevitável para o ser humano. Papai não quis casar-se de novo, então ele encarregou uma das criadas de cuidar do meu irmão que acabara de nascer , e também pagou uma ama-de-leite, já que Margareth era uma mulher de meia idade e que não amamentava mais.

O tempo passou e eu e meus irmãos crescemos. Ceasar, Simon e Benjamin , meus irmãos mais velhos, se casaram e passaram a frenquentar universidades diferentes , enquanto que eu e meu irmão caçula , que agora contava com oito anos, continuávamos a morar com meu pai . Graças aos céus ambos não pereceram em minhas mãos, pois uma das criadas teve a boa vontade de me ensinar a agir como a mulher responsável e doméstica que mamãe queria que eu fosse e pude tomar as rédeas da casa enquanto meu pai trabalhava. Eu gostava de escrever cartas à Sophia Blass ,minha melhor e grande amiga que morava em Genebra e que conheci quando esta viajou até a minha cidade para pedir ajuda ao meu pai para que assistisse seu primo que sofria de tuberculose. Sophia era uma mulher extremamente bela , cabelos dourados como a luz do Sol e olhos de uma azul celeste, cuja mãe fazia planos mirabolantes para empurrar a filha para o primeiro homem rico que aparecesse. Em sua ultima carta, Sophia me dissera que estava em uma carruagem à caminho de Bruxelas para uma visita e mal pude esconder minha excitação. A mansão deveria ser bem arrumada e decorada e após ordens incessantes aos criados, sentei-me diante de uma das janelas e fitei o portão de entrada,cheia de expectativas. Aquela visita serviria muito bem para dissipar a nuvem do luto que permanecia em ficar entre nós e mal sabia eu que uma visita aparentemente comum de uma amiga à outra me trariam notícias que mudariam a minha vida para sempre.