Quando acordei, me senti um pouco grogue. Demorei pra perceber que a noite passada teria sido a melhor em muitos anos. Mas olhei para o lado e ela não estava lá. Que raiva! Eu tentei não dormir pra que isso não acontecesse, tentei aproveitar cada segundo olhando para o seu rosto, mas não consegui. Senti raiva de mim mesma. Até cheguei a pensar que tudo aquilo não teria acontecido de verdade. Mas não era possível, o cheiro dela estava em mim. Ainda podia sentir sua pele contra a minha. Mas já estava me preparando para aquilo. Sabia que isso iria acontecer. Que cedo ou tarde ela iria embora, de novo.

Me sentei e olhei para o lado vazio da cama, respirando fundo. Vesti minha roupa e fui para a cozinha preparar um café, quando levei um susto. Ela estava lá, sentada em cima da pia e sorrindo. Pisquei os olhos rapidamente e... ela sumiu. Droga! Achei que isso não aconteceria de novo, que não a veria em todo lugar. Grunhi comigo mesma e fiz meu café. Tomei rapidamente e comi umas frutas. Fui para a academia e descontei toda a raiva lá, pois sabia que me sentiria bem depois do treino. Também não posso reclamar das coisas, pois a noite de ontem foi perfeita. Mas ainda sim estava com raiva de sempre voltar para o mesmo.

Fui tomar um banho, vesti uma roupa social e fui até a garagem. Peguei meu celular e quando entrei no carro percebi que tinha uma mensagem: "Se cuida viu? Me desculpa por sair tão cedo, não podia ficar mais." Pelo menos ela foi sensata ao mandar isso. Mesmo sabendo que essas coisas ainda me magoavam. Liguei o carro e fui até meu escritório. Trabalhei o dia todo com um olhar vago, de quem não fazia a menor ideia do que estava fazendo. A secretária me ligou avisando que uma tal de Camilla estava querendo falar comigo. Não sabia quem era mas pedi pra entrar. Quando a vi, lembrei-me. Era a moça do restaurante.

Ela deu um sorriso pra mim e retribui. Acho que da ultima vez não havia reparado em seus olhos azuis, eram lindos. E eu ainda nem estava em um estado bom para reparar essas coisas. Ela apertou minha mão e me deu um beijo no rosto, como de costume.

— Que aperto de mão firme, reparei que você tem muita força. — Ela disse sorrindo.

— É, procuro me manter em forma.

Ela me olhou estranho e logo percebi que devo ter sido grossa.

— Me desculpa, Camilla. Não estou muito bem hoje. Vamos aos negócios?

— Sim, tudo bem.

Ficamos ali até a noite resolvendo alguns problemas. Mas a metade das coisas que ela disse eu não entendi, pois estava com o pensamento bem distante. No final, ela olhou pra mim por um tempo.

— Ana, você está muito avoada. Acho que não pegou metade do que "resolvemos" hoje. Se quiser posso voltar outro dia.

— Não vou tomar o seu tempo, ok? Eu resolvo sozinha depois e a gente conversa.

— Claro que não, é sempre um prazer trabalhar com você.

— Ah, que bom que você gosta, mas pode deixar a parte mais difícil pra mim, não é justo pra você.

— Que tal jantarmos juntas hoje pra compensar?

Olhei para o relógio e de volta para ela, não sabia se devia aceitar. Como já disse, fazia muito tempo que não saía com alguém assim a não ser aquela que eu amava.

— Pode ser. — Decidi ir pra talvez distrair um pouco.

— Vamos no seu carro ou no meu?

— Podemos ir no meu. — Eu disse pedindo pra que ela me acompanhasse.

Entramos no carro e dirigi até o restaurante que costumava ir. Não sabia o que Camilla esperava daquilo mas eu torci pra que não fosse algo fora do trabalho ou uma possível amizade.

Escolhi uma mesa e nos sentamos. Ela sorriu pra mim e fiquei sem reação, apenas olhei para o lado e chamei o garçom. Perguntei o que ela queria para beber e ela pediu um vinho. Pedi apenas uma água.

— Tenho que dirigir. — Me expliquei. Embora sabia que ela teria de pegar seu carro no estacionamento da empresa, preferi não questionar.

Tomei minha água e ela virou o vinho todo de uma vez.

— Ei, vai com calma. — Eu disse rindo.

— Não se preocupa, estou acostumada.

— Se você diz. Eu já volto, vou ao banheiro. Ok?

Ela balançou a cabeça e mordeu os lábios. Saí dali rapidamente e fui direto ao banheiro. Arrumei minha roupa em frente ao espelho e perguntei a mim mesma: "O que estou fazendo aqui? Acho que essa mulher é louca." Quando me virei, dei de cara com ela. Ela segurou em meus braços e me beijou sem aviso. Não era um beijo desesperado, de quem não fazia aquilo há anos. Mas um beijo calmo, sereno. Ela segurou meu rosto com delicadeza e me envolveu em seu encanto. Segurei em sua cintura em um gesto delicado porém afastando-a, ela olhou pra mim como se perguntando "Por que?" e eu balancei a cabeça negativamente. Coloquei uma das mãos em seu rosto e fiz carinho em seu cabelo.

— Não posso fazer isso, Camilla. Sinto muito.

— Por que não? Você não namora, não tem compromisso com ninguém, não vejo motivos.

— Eu sou apaixonada por uma pessoa. Minha ex. Ela está noiva, mas eu a amo. Sempre amei.

— Se ela não gosta de você por que ainda insiste? Você tem que seguir sua vida. Você mesma disse, ela é sua ex. Quer dizer que não deu certo.

— Deu certo sim!! Eu sei que deu. Não foi nossa culpa! — Eu gritei e bati com força em uma das portas.

— Calma, Ana! Não se sinta assim, eu sei que a culpa não foi sua. Você é maravilhosa.

— Como poderia ser? Se eu fosse assim tão maravilhosa ela não teria me deixado, o destino não teria feito isso conosco. Sei que ela voltaria pra mim, mas pelo visto, existe alguém melhor.

Ela me abraçou apertado e senti que nós nos conhecíamos havia anos. Sem medo, comecei a chorar. Chorava igual uma criança querendo sua mãe, chorava tanto que minha cabeça doía. Mas aos poucos, me sentia liberta. Não totalmente, mas por um breve instante. Sabia que aquele amor não passaria assim, que o limite seria o infinito. Que dia após dia aquele amor cresceria em mim, mas eu não teria a quem dá-lo. Pois ele pertencia à ela. A mais ninguém.

Quando consegui me colocar de volta ao mundo, não pude olhar pra Camilla, apenas me afastei. Ela não podia ver a dor em meus olhos. Dei as costas e saí do banheiro, indo em direção à mesa. Esperava que ela me perdoasse e pelo visto, ela perdoou. Quando ela chegou, sorriu pra mim e sentou ao meu lado. Pedimos o jantar e ficamos conversando até chegar. Ela me fez rir bastante, me fez bem. Pude sentir a dor indo embora lentamente.

Cheguei em casa e fui direto ao quarto, me deitando sem me preocupar em tirar a roupa. Fiquei olhando as estrelas e esperando algum tipo de sinal. Bati na cabeça várias vezes pra tirá-la da cabeça. Atitude inútil. Esperava dormir aquela noite, porque o dia seguinte seria cheio. Então, meu celular tocou. Peguei-o rapidamente e atendi. Era Julyeta, uma amiga festeira que conheci na época do colégio.

— Ana, você está em casa? Aposto que sim, você precisa sair desse túmulo. Passarei aí daqui 20 minutos, beijos.

Ela nem me esperou responder. Estava cansada demais pra sair, mas não podia ficar naquela situação. Se ficasse em casa, não dormiria pensando nela... Então levantei pra tomar um banho rápido. Coloquei uma roupa preta como de costume e peguei minha bolsa. Enquanto descia as escadas, lembrei que talvez precisaria da minha arma então voltei para buscá-la. Coloquei-a na bolsa e esperei Julye na porta de casa. Não fazia ideia de onde estávamos indo, mas estava me animando. Ela parou o carro e percebi que ele estava cheio de mulheres.

— Vou no meu carro então, ok?

— Entra aí logo garota!

Pedi licença para as garotas e pedi que uma delas sentasse no meu colo, pois minha massa estava bem superior à delas. Comecei a rir quando as outras duas começaram a brigar com a loira que estava no meu colo. Elas fingiram que iam me bater mas logo deram pra trás, estavam bêbadas mas sabiam que se encostassem a mão em mim, a coisa ia ficar feia. Julye também não parava de rir, mas sabia que ela não estava bêbada. Se estivesse, nunca entraria naquele carro. Então ela parou na entrada de um sítio, descemos do carro e pude ouvir o som alto vindo de uma casa. As segui até essa casa e Julye veio me abraçar.

— Gatinha, eu sei que você não bebe, então posso beber a vontade, certo? Posso contar contigo pra nos levar pra casa?

— Como sempre, né? Pode contar comigo.

— Obrigada, linda. — Ela me deu um tapa na cabeça e olhei-a fingindo estar brava.

Entramos na casa e dei de cara com duas mulheres nuas se pegando. Já era de se esperar, vindo daquela louca. Subi as escadas e procurei por algum quarto. Quando abri a porta, me deparei com uma cena que não gostaria de ter visto. Pisquei os olhos, esperando que não fosse verdade. Era a noiva da Larissa, com outra mulher.

Pensei em tanta coisa ao mesmo tempo. Coisas do tipo: matá-la ou correr dali e encontrar a Lari. Mas respirei fundo e fechei a porta lentamente, quando percebi que ela me viu. Vi na hora que ela lembrou-se de mim do restaurante. Fechei a porta e corri rapidamente para o andar debaixo, procurando por Julye. Ela não estava lá, provavelmente estaria com alguma mulher em algum dos quartos. Saí rapidamente da casa, passei por trás e fiquei escondida atrás de um muro, estava ofegante. Esperava que ela não me achasse. Fiquei por uns 10 minutos parada ali, pensando no que deveria fazer em relação àquilo. Talvez devesse ficar quieta, aliás não ia fazer diferença. Larissa não voltaria pra mim só por aquilo. Olhei para os lados procurando por algum sinal, não havia ninguém. Pelo menos no meu campo de visão, pois estava tudo escuro nos lados mais afastados da casa. Virei e dei de cara com ela. A noiva de Larissa, na qual eu não sabia o nome, estava com o cabelo bagunçado e a blusa rasgada, com fitas da mesma quase arrastando pelo chão, dando pra ver pedaços de sua lingerie preta. Suas mãos estavam pra trás, como e escondessem algo. Me preparei para o pior e me agarrei à bolsa, colocando-a para trás e puxando a arma lentamente.

Ela me atacou, colocando toda a força de seu corpo em cima do meu, com a faca apontada pro meu peito.

— Vai, vadia! Faça isso se tem coragem!

A força de seus braços eram nada contra os meus. Com facilidade empurrei-a pra longe e fui até ela, pegando na sua blusa rasgada e jogando-a contra a parede.

— Você não tem coragem, não é? — Percebi seus olhos se enchendo de lágrima e o medo dominando seu corpo. Segurei suas mãos e peguei a faca. — Não faz ideia do que está perdendo. Qual seu nome mesmo?

— Clara. — Sua voz estava trêmula.

— Clara. Por que fez aquilo? Você está noiva, porra! Da mulher que deveria receber todo o amor do mundo, que deveria ser valorizada mais do que qualquer uma, que merece toda atenção. Eu a conheço faz anos! Como pôde? Você tem tudo aquilo ao seu lado e vem procurar ISSO aqui? Essas garotas que pegam qualquer uma que vier, isso não é nada, entendeu? Eu... não consigo acreditar.

— Seu nome é Ana, não é? Ela me falou de você. Você fala isso porque a ama! Faz um favor? Fica longe dela!! Senão eu te mato! Entendeu? Nem ouse falar da MINHA mulher desse jeito, você teve sua chance e desperdiçou. Agora pare de chorar e siga em frente, vê se nos deixa. Eu não tenho medo de você.

— Você tem muita sorte que eu não bato em mulheres, principalmente em mulherzinhas como você. E quer saber? Não vou contar nada pra Larissa, mas é bom você ficar esperta, se eu ver algo assim de novo, eu não vou apenas contar, mas vou fazer algo muito pior com você. Pode até dar adeus pra esse rostinho lindo seu, idiota.

Apontei minha arma direto pro seu olho e me afastei lentamente. Vi o desespero em seu olhar e me segurei pra não rir. Fui até a casa e busquei Julye pelos braços.

— Vamos sair daqui, agora! Sem perguntas.

Ela estava bêbada, chamei suas amigas que não estavam tão chapadas e peguei Julye no colo, levando-a até o carro. Estava com a chave e abri a porta, endireitando-a no banco enquanto as outras garotas entravam. Entrei, acelerando o máximo que podia. Percebi que as meninas estavam me olhando estranho e me dei conta que ainda estava com a pistola na mão. Guardei-a na bolsa rapidamente e segui em direção à casa de Julye, deixando-a com suas amigas.

— Cuidem dela, meninas.

Estacionei o carro dela na garagem e abri a porta da casa para que elas entrassem. Dei um beijo na testa de Julyeta, chamando-a de louca em seu ouvido. Uma das garotas que estava sã me chamou pra ficar, colocando a mão em meu ombro.

— Não posso, preciso trabalhar... Quem sabe outro dia.

Ela piscou pra mim e colocou minha mão em um de seus seios, dei uma risada e balancei a cabeça. Essas garotas eram mais atiradas do que eu pensava. Tirei minha mão e dei um beijo no rosto de cada uma, me retirando rapidamente. Tive que ir pra casa à pé. Embora fosse perto, tinha que ficar alerta. Aquele bairro já tinha deixado de ser tranquilo fazia tempo. Cheguei em casa correndo e ela estava lá. Nas escadas de entrada. Aquele dia já estava louco demais pra ser verdade.

— Lari... O que está fazendo aqui?

Ela olhou pra mim e percebi que estava chorando. Me aproximei puxando-a pra um abraço.

— O que foi meu amor? Fala comigo. — Fiz carinho em seu cabelo e em suas costas.

— Foi a Clara, acho que ela desistiu do casamento. Ela sumiu! Não atende o celular, não me disse onde ia... Eu não sei o que fazer Ana, me ajuda.

Abracei-a mais forte, puxando-a para dentro de casa. Não sabia o que dizer, não sabia se contava ou não sobre o que vi. Não queria vê-la magoada, nem sabia se acreditaria em mim pelo fato de eu amá-la e não querer vê-la com outra pessoa além de mim. Resolvi guardar aquilo pra mim, pelo menos por enquanto. Abri a porta e entrei com ela agarrada em minha cintura, andei até o sofá e pedi que ela sentasse.

— Quer comer alguma coisa, meu anjo? — Perguntei fazendo carinho em seu rosto.

— Uhum. — Ela balançou a cabeça positivamente.

— Já volto então.

Fui até a cozinha e preparei um jantar italiano, decorando bastante o prato. Eu amava cozinhar, passava horas vendo programas de TV sobre culinária. E praticava bastante, sempre fazendo pratos novos e improvisando quando preciso. Estava vestindo um avental branco bem delicado com desenho de flores vermelhas. Eu dava risada toda vez que via meu reflexo no fogão. Quando estava terminando, Larissa veio até a cozinha e eu estava cantarolando, ela parou na porta e ficou me observando. Olhei-a e provavelmente estava com as bochechas vermelhas de vergonha. Então ela me abriu aquele sorriso maravilhoso.

— Você aprendeu cozinhar e canta muito bem. Muita coisa mudou, hein? — Ela se aproximou olhando a mesa que eu havia preparado.

— Pra você ver, as vantagens de viver sozinha, você tem que se virar. — Puxei a cadeira pra ela se sentar.

— Obrigada. Por tudo. — Ela me olhou séria. Sentei ao seu lado, colocando minha mão por cima da dela.

— Vai dar tudo certo ok? Ela vai voltar. Sei que vai. Ela seria estúpida se largasse você. Mas fica calma, estou aqui por você. Sempre estive.

— Estou tentando... Espero que tenha razão.

— Sempre tenho razão. — Eu sorri e pisquei pra ela.

Nós comemos o jantar e tomamos um vinho juntas. Procurei distraí-la o máximo que pude, fazendo-a rir a noite inteira. Mesmo com a dor que carregava, vê-la sorrir me fazia muito bem. Queria que tudo desse certo, que ela fosse feliz do jeito que quer, por isso deixei minha dor e minha raiva de lado e me concentrei nela. A elogiava sempre que possível, fazendo-a corar. Ela revirava os olhos quando achava que eu estava exagerando, mas isso me fazia ficar ainda mais apaixonada. Aliás, nunca exagerava quando falava de sua beleza. Pra mim, ela é a garota mais linda do mundo.

— Ana, sinceramente, esse é o melhor jantar que já comi em toda a minha vida. Nunca imaginei que fosse você a pessoa que prepararia, porque você se lembra né? Você era um desastre na cozinha!

— Ah, qual é?! Eu sempre fui boa, só... estava guardando meus dotes. — Falei num tom de ironia.

— Você não sabe nem mentir, garota.

— Eu sei disso.

— Sempre consegui saber o que está pensando, sabia? Só de olhar pra você, ouvir sua voz. — Ela olhou nos meus olhos e senti um arrepio subir pelo meu corpo.

— E eu nunca consegui ler os seus pensamentos. Nem mesmo quando olho profundamente nos seus olhos. Você é tão... misteriosa. Sei lá.

— Você sempre me perguntava o que eu estava pensando. Eu me lembro. — Ela riu baixinho.

Balancei a cabeça e sorri, sem conseguir parar de olhar em seus olhos. Ela desviou o olhar de mim e se levantou. Pegou o prato e levou pra pia, começando a lavá-lo. Levantei e logo tirei-o de suas mãos.

— Amor, não precisa ok? Deixa que eu lavo. Está frio e não dá pra mexer com água agora. — Ela me deu um beijo no rosto e se afastou. Deixei os pratos na pia e arrumei a mesa. Andei até a sala e convidei-a para assistir um filme comigo. Tirei meu moletom e fiquei de regata. Ela arregalou os olhos ao ver que eu tinha acabado de fechar um dos braços de tattoos.

— O que foi? Não gostou?

— Gostei, claro. Você sabe que acho bonito. Só.. me assustei.

— Pode se acostumar.

Ela sentou ao meu lado e puxei o edredom pra cima da gente. Liguei a TV, colocando um filme de terror. Sabia que ela costumava ter medo, mas não ia deixar isso acontecer. Deixei-a encostar sua cabeça em meu ombro e envolvi seu corpo com um dos braços.

Depois de meia hora de filme, percebi que ela já tinha adormecido. Levei-a até a cama em meus braços, cobrindo-a com o edredom. Dei um beijo em sua testa e me afastei. Voltei ao sofá e deitei, desligando a TV. Queria dormir ao lado dela, mas preferi respeitar. Não conseguia dormir, estava preocupada. Onde será que Clara havia se metido? Eu queria matar aquela mulher. Ficava indo de 5 em 5 minutos no quarto pra checar se Lari estava bem.

Era 6 horas da manhã e eu ainda não tinha conseguido dormir. Fui até o banheiro e tomei um banho quente, me arrumei colocando um short e uma regata pra malhar. Tomei meu café da manhã e deixei o de Larissa já pronto, colocando ao lado da cama. Fiz carinho em seu rosto e sorri, não conseguia decidir se ela era mais perfeita dormindo ou acordada. Mesmo com sono, ainda tinha disposição pra malhar. Comecei meu treino e consegui acabar antes dela acordar. Andei até o quarto, estava suada e precisava de outro banho. Mas sentei ao lado da cama e fiquei admirando "meu" paraíso por um tempo. Finalmente, ela abriu os olhos. Olhou pra mim e sorriu.

— Bom dia. Fiz o seu café da manhã, está aí na mesinha. — Apontei o dedo e ela se sentou, pegando a bandeja admirada.

— Muito obrigada, am... Ana. — Ela se aproximou e me deu um beijo no rosto.

— Ow, estou suada!

— Nojenta. Vai tomar um banho vai. Já treinou?

— Sim. Vou lá tomar, chata.

Tomei outro banho rapidamente e vesti minha roupa social, pronta pra trabalhar. Larissa estava na cozinha deixando a bandeja na pia. Ela se virou pra mim e pareceu gostar do que via. Mostrei a chave do carro e perguntei:

— Quer uma carona ou quer ficar aqui em casa?

— Melhor a carona. Preciso ir pra casa. Mesmo Clara não tendo aparecido ainda, acho melhor eu ir.

— Sim. Melhor. — Queria tanto que ela ficasse. Porem me contive e não pedi. Apenas fechei a cara.

— Vai ficar com essa cara agora, Ana? Para, vai. Não sabe o que estou sentindo agora.

— E VOCÊ não sabe o que EU estou sentindo! Eu fiz tudo pra você essa noite, Larissa. Não só essa noite, mas todos os dias desde que te conheci. E você vem me agradecer falando desse jeito? Acha que só você sente aqui? Ela fez burrice em te deixar, mas ambas sabemos que ela vai voltar! E você realmente não sabe o que é ser deixada de lado.

— Eu não pedi por nada disso! Você fez porque quis. E não fala nesse tom comigo! — Ela disse pegando a bolsa e indo em direção à porta.

— Sabe o que você é? Uma ingrata! Eu odeio pessoas assim. Isso, vai embora mesmo. Você é mestre nisso, não é? E não venha me procurar mais.

— Ingrata? Está dizendo que me odeia, Ana? — Ela segurou firme na bolsa e andou em minha direção. Senti sua mão bater contra meu rosto e o mesmo ardendo segundos depois. Olhei pra ela pelo canto do olho e seus olhos estavam vermelhos, não a via com raiva assim desde que brigamos por um ciúmes alguns anos atrás. Mas aquilo não chegava perto do que estava acontecendo agora. Incrível como não consigo me mover nem pra pará-la, incrível como o sentimento ainda continua crescendo em mim. Ela fechou a mão e por um segundo achei que ia me socar, mas ela apenas deu as costas e saiu. Fiquei parada no mesmo lugar por algum tempo, não sabia o que fazer. Eu estraguei tudo falando aquelas coisas, mas ao mesmo tempo me sentia leve.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.