Eu vou proteger você!
4 Desafios do amor
Notas iniciais
— Tem certeza de que está bem? — Shino indagou.
A pergunta soou pela terceira vez em um curto intervalo de tempo. Talvez pequeno o suficiente para acender o -igualmente curto- pavio do Ômega que caminhava ao seu lado.
— Já disse que tô, caralho — a resposta rude encerrou o assunto por alguns segundos.
Akamaru latiu em alerta, mas Kiba fingiu não ouvir a bronca.
— Eu pensei que…
— Pensou porra nenhuma — o corte seco soou revoltado — Vamos aproveitar esse festival até o último segundo! Não seja chato, Shino.
Tal afirmação encerrou a discussão por hora.
À primeira vista, nada parecia errado. Era apenas um Alpha, levando a filha pequenina pela mão e um Ômega com um belo barrigão caminhando com passos engraçados, em parte pelo peso que mudava o eixo corporal, em parte pelos pés inchados, e em uma parte ainda maior, graças à proximidade do parto previsto para o começo do mês seguinte.
Fatores que combinavam para um contexto desfavorável, embora em nada impedissem Kiba de seguir com a tradição estabelecida por anos. Bem… uma parte já havia sido quebrada. Naquele ano o pobre rapaz teve que pegar o quimono do marido emprestado, já que os seus não serviam (como ele foi esquecer desse detalhe?!). Então Shino acabou tendo que ir com roupas ocidentais. Os outros trajes que possuía não eram apropriados para o Tanabata.
E Masako, ao ver Shino-tou com roupas comuns quis imitá-lo. Nada no mundo fez a menininha mudar de ideia e se enfiar no quimono comprado justamente para a ocasião.
Uma pequena derrota que Kiba poderia suportar. Conquanto os três seguissem em frente na noite do sete de julho, seu aniversário por sinal, para comemorar junto com Konoha, pedir bênçãos aos deuses, escrever os pedidos nos papeizinhos coloridos: amarelo para dinheiro, vermelho para gratidão, azul e verde para saúde e esperança…
E mesmo isso não seguiu como planejado. Mal chegaram ao festival lotado e o Ômega já sentiu os efeitos. Gente demais, cheiros demais, som demais, luzes demais! Tudo embalado em um calor sufocante. Coisas que nunca o incomodaram antes, pelo contrário, sendo justamente o que mais amava em festejos! Causavam um efeito contrário naquela noite.
Shino perguntando a cada cinco segundos (okay, foram apenas três vezes) se estava bem não contribuia em nada para o humor do rapaz, trazendo um efeito reverso à preocupação.
— Quero só comer umas coisinhas, levar a Masako em algumas brincadeiras e assistir os fogos. Pronto. Podemos ir para casa depois disso.
Shino não respondeu. Apenas deixou a contrariedade fluir pelo vínculo, sem poder (ou querer) evitar a emoção. Seu lado animal estava preocupado! Recebeu um olharzinho de esguelha e mais silêncio em troca.
Masako era pequenina, mas já sensível aos humores de Kiba-tou, afinal, era uma Alpha ligada a ele por vínculos de sangue. Pediu colo para Shino-tou, incomodada com o que sentia. Na verdade, ela queria o colo do Ômega, embora desconfiasse de que não conseguiria, conformando-se com o que estava disponível.

— Mas que caralho de festival lotado. Sempre foi assim? De onde saiu tanta gente?
Não era exatamente fácil caminhar sem esbarrar nas outras pessoas, apesar de a grande presença de Akamaru ajudar muito. Era impossível avançar sem ser bombardeado pelos ânimos exaltados. Normalmente conseguia se “blindar” bem, não era tão afetado pelo que os outros sentiam. Mas a fase final daquela segunda gestação o deixava mais sensível ao derredor.
— Kiba… — Shino tentou uma nova vez.
— To bem, porra — Kiba respondeu sem parar de andar.
Shino precisou segurá-lo pelo cotovelo e impedir um novo passo, equilibrando Masako em um único braço.
— Você não está bem. Acabou de passar por Naruto e o ignorou por completo. A informação aplacou a reação revoltada do Ômega. Ele inclinou-se um pouco e tentou espiar o que estava atrás do marido, sem ver nada além de pessoas estranhas caminhando de modo aleatório.
Shino aproveitou a calmaria e o puxou na direção de alguns bancos de madeira para que pudessem se sentar e conversar, o grande mastim branco acomodando-se aos pés do dono. Haviam diversos vagos ali pela base da escadaria do templo. A multidão queria passear e aproveitar tudo do festival que acontecia uma vez por ano. Poucos estavam cansados a ponto de se sentar.
Apesar da decisão de conversar, a pequena família ficou em silêncio por um longo tempo, olhando o cenário sem realmente prestar atenção.
— Eu não estou sendo chato, só estou atordoado com o instinto do meu lado Alpha enviando alertas sobre a sua segurança. E do nosso filhote — a frase tirou um peso dos ombros de Shino. Não era comum ter o instinto tão ativado e pontual em relação a perigos envolvendo sua família.
— Eu só não queria quebrar a tradição, Shino — por fim a confissão — Eu sei que consigo aguentar.
— Kiba…
— Hoje faz trinta anos! Trinta anos, marido, lembra? Desde a primeira vez que a gente veio ao festival juntos pela primeira vez. Isso é uma vida toda.
— Claro que me lembro — o outro garantiu.
E como poderia esquecer? Como iria esquecer aquele dia distante no passado, quando sentia medo de multidões e luzes fortes. A noite em que a mão pequenina de um Ômega envolveu a sua e prometeu com toda a arrogância do mundo que iria protegê-lo. Aquela promessa despertou no coração do jovenzinho a inquebravel vontade de ser um Alpha forte e também proteger seu amiguinho de qualquer coisa.
Ainda que essa coisa fosse a própria teimosia do Ômega.
— Calculamos mal, heim marido? Se o parto fosse previsto pra setembro…
Shino suspirou.
— Na verdade não planejamos nada.
Kiba riu. Realmente não tinha planejado uma gestação aos trinta e sete anos. Pelos céus! Uma noitezinha mais empolgada na época do halloween, um descuidozinho aqui e ali. E a natureza fez o seu trabalho. Um filhote inesperado, mas cuja concepção encheu todos de alegria e ansiedade. Sobretudo Masako, animadíssima para ser uma oneesan!
Com todo mundo se sentindo tão bem, não podia catalogar a época em “certa” ou “errada”, como um simples resultado de cálculos mal feitos.
Por longos segundos o Ômega enfrentou uma luta interna consigo mesmo, até sentir-se derrotado.
— Eu só queria seguir a tradição, Shino — os planos de aproveitar a noite até a belíssima queima de fogos se desfazia. Nem a teimosia de Kiba iria insistir para esperarem o final. Os cheiros estavam causando náuseas, os pés doíam (cada passo era árduo), havia certa irritação pelos sons difusos, até as luzes incomodavam. Precisava jogar a toalha.
Nesse momento Masako saltou do colo do Alpha e abraçou o outro pai, atraída pela sensação de desolação que captou. O gesto foi bem-vindo e devolvido com igual carinho.
— Vamos voltar para casa — Shino pediu com certo alívio, apesar de o coração trincar um pedacinho.
— Vamos — a resposta veio baixa, conquanto audível. Não houve contato visual, Kiba aproveitou o abraço da filha para evitar a troca de olhares. Odiava que o vissem chorando.
***
— Mas não é que você teve uma ideia brilhante, marido?! — a voz animada ecoou pelo quintal tranquilo.
Shino ficou satisfeito não apenas com a afirmação, mas com todas as boas sensações que captava. Finalmente seus instintos se acalmaram na certeza de que a família estava bem.
O trio voltou para a casinha na orla da floresta, conquanto o Alpha tivesse um cuidado antes: deixou o marido e a primogênita sentados e foi comprar algumas das guloseimas que todos gostavam.
Naquele instante Kiba estava bem acomodado na poltrona que Shino havia trazido de dentro de casa e colocado no centro do terreno, os pés descansavam em almofadas fofas sobre uma banquetinha. A noite estava quente e linda, iluminada pela lua e incontáveis estrelas. Não havia vozes confusas, cheiros fortes, sensações exacerbadas, luzes claras demais. Só calma, só paz.
Ele segurava vários palitinhos de dango, e cada hora mordia de um diferente. Próximo a ele, bem acessível e de rápido alcance, outros pratos que sempre fazia questão de provar a cada ano. Ao seu lado, sentado em uma cadeira da cozinha, com uma garrafinha de saquê e um massu, estava Shino a degustar a bebida favorita.
Antes que o Alpha respondesse ao elogio, ouviram um gritinho. E que surpresa! Masako, que não era de reações contundentes, havia conseguido acender um dos bastõezinhos de fogos de artifício comprados no festival. As luzinhas inofensivas explodiram lumiando o ar para a diversão do trio. Principalmente da pequenina que começou a correr pelo quintal, leve como uma borboleta e ágil como a Alpha incrível que um dia seria, sobretudo aliviada porque agora só tinha coisas boas vindo dos amados pais. Akamaru latiu forte, ensaiou levantar e correr com a filhote que viu nascer, mudando de ideia fácil. Ficou quietinho aos pés de Kiba, degustando um petisco. Já era um senhorzinho, o vigor ia embora com uma rapidez que assustava seu dono.
Kiba riu da cena por alguns segundos, dedicando-se a coçar atrás da orelha do grande amigo canino como forma de confortar a ambos.
— Obrigado, marido. Você salvou o nosso festival.
Shino deixou o massu sobre a perna e ofereceu a mão para que entrelaçassem os dedos e ele pudesse depositar um beijo suave sobre as costas daquela mão trigueira.
— Trinta anos atrás você salvou o meu festival. E mudou nossas vidas. Nada mais justo.
O Ômega voltou a dar uma risadinha, o rosto corado como sempre acontecia em gestos assim recheados de significado. Por mais ousado e atrevido que fosse nas coisas comuns, em relação aos sentimentos ainda era meio tímido.
Não respondeu, apenas saboreando o momento. E a lição aprendida.
O que realmente amava não era a balbúrdia do festival, suas cores, bagunça, sons e luzes. O que realmente amava eram as pessoas que comemoravam o Tanabata ao seu lado.
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