Eu vou aonde ele for
2 Capítulo 2 – A diferença... É você
Capítulo 2 – A diferença... É você
– Sherlock...? – Perguntou num sussurro, sem intenção, só então percebendo o quanto vê-lo daquele jeito a estava alterando.
Após mais alguns chamados ele ergueu um pouco a cabeça, parecendo fazer muito esforço para isso e a encarou.
– Você disse que resistiu por minha causa. Não imagina o quanto fiquei feliz em ouvir isso. Não só pela sensação de dever cumprido... Estou aliviada por você estar bem.
Ainda sem resposta, ela puxou o banco do lado dele e sentou-se o encarando.
– Sherlock... Eu e você sempre soubemos que havia o risco de algo acontecer. Nós fazemos tudo que podemos todos os dias, mas embora sempre tentemos negar, sabemos que é possível que algo aconteça. E não aconteceu. Você chegou muito perto, mas provou que é mais forte que isso. Você está se martirizando por uma coisa que quase aconteceu. Mas foi quase, você negou! Está tudo bem!
A expressão dele mudou um pouco com suas palavras, a tristeza tomou o vazio de seus olhos e por um segundo novas lágrimas pareceram brilhar ali.
– Você disse que resistiu por mim. Mas ver você assim está me matando. Não foi culpa sua, foi daquele miserável. Sherlock, por favor... Você está preso em algum lugar aí dentro e eu quero trazê-lo de volta. Se precisa conversar, se precisa chorar... Ou qualquer coisa. Você sabe que eu estou aqui e que não precisa esconder nada de mim – falou o mais suave que podia movendo as mãos suavemente nos joelhos do detetive – Está muito frio... Vamos descer... Se está com medo do que seu pai possa fazer... Eu também estou. Mas estamos juntos, vamos enfrenta-lo juntos – Joan tomou uma das mãos dele entre as suas – Aconteça o que acontecer, eu vou aonde você for.
Permaneceu mais alguns minutos ali com ele, acariciando sua mão e o viu fechar os olhos, sem saber se ele estava dormindo, meditando ou tentando reagir ao próprio cárcere emocional.
– Venha, vai acabar ficando doente – falou dessa vez com mais firmeza tentando acordá-lo ao menos um pouco daquele transe.
O puxou para cima pelas mãos, tarefa um tanto difícil uma vez que ela era bem menor que ele, mas logo conseguiu e repousou uma mão em suas costas o guiando para as escadas. Outra vez dentro do sobrado ela o levou para a cozinha e o convenceu a comer um pouco, algo que vinha sendo um desafio nos últimos três dias. Sherlock só conseguia dormir e olhar para o nada, com um olhar completamente vazio e em alguns momentos de raiva e ódio, provavelmente de Oscar. O consultor acabava de beber uma xícara de chá quando Joan chegou por trás dele onde estava sentado e sem pedir permissão o abraçou pelas costas da melhor forma que podia com a cadeira entre eles dois.
– Me desculpe... Eu não estou nem aí se tomei uma decisão precipitada. Eu sei que você detesta isso e que me empurraria se estivesse bem, eu não me importo. Mas eu não aguento mais ver você assim e não sei mais o que fazer – confessou em seu ouvido – Estou sentindo falta da sua voz e até de você me acordando como um louco. Acho que até Clyde está preocupado com você. Você não diz nada há três dias, Sherlock.
Apesar de estar preso dentro de suas próprias perturbações e praticamente não ter vivido nada além delas nos últimos dias, ver Joan sofrer e escutar a dor em sua voz o feria ainda mais. Ele tomou algumas respirações e tentou emitir algumas palavras.
– Eu não vou empurrar você pra longe, Joan – falou bem devagar e baixo.
Ela arregalou os olhos ao ouvir a voz forte dele, mesmo que fosse apenas um sussurro e o soltou para sentar-se ao seu lado.
– Me perdoe...
– Não há nada pra perdoar. Apesar de você sempre dizer que por mais que quisesse não podia me prometer que não usaria heroína outra vez, eu nunca duvidei que você seria capaz de resistir. Por isso fiz tudo que podia pra te fazer acreditar nisso também.
– Eu também... Prometi que não deixaria nada te acontecer. E eu mesmo acabei te machucando. Eu traí tudo que você fez por mim – falava com dificuldade, embora sua voz ganhasse mais força a cada palavra.
– Não! A única coisa que está me machucando é ver você machucar a si mesmo. Não aconteceu, você conseguiu!
– Nada deveria ter acontecido. Eu não podia ter chegado perto.
Joan o observou por algum tempo e algo veio a sua cabeça.
– Foi alguma coisa que ele disse a você, não foi? – Perguntou, tendo apenas o silêncio como resposta – Capitão Gregson e Bell contaram sobre a irmã dele, o que aconteceu. Oscar confessou o que fez com você e Alfredo e está preso. E vai ficar preso.
– Melhor seria se morresse.
– Sherlock... Seja o que for que ele disse a você, eu tenho certeza que é mentira.
Sherlock finalmente ergueu a cabeça para encará-la.
– Oscar negou quando você ofereceu ajuda, ele é um medroso, um covarde! Tem medo de mudar. Tem medo de tentar e fracassar. Ele reconhece sua força, por isso tem medo e tentou arrastar você com ele. Já ouviu sobre pessoas que se incomodam quando o brilho das outras é muito forte? Oscar é uma delas.
– Ele me arrastou de todo jeito.
– Mas você não se deixou afundar junto com ele. Foi um susto.
– Nada pode garantir que não vai acontecer de novo.
– Isso pode ser verdade, mas não é por isso que não vamos tentar. Você ter resistido só prova que todo esse trabalho desses anos todos não foi em vão como você pensava no começo. Eu estou aqui. E vou continuar cuidando de você mesmo que não queira.
– Meu pai pode tomar medidas... Que nos mandará a rumos diferentes.
– Não tenho mais negócios com ele e sim com você. Eu estou aqui, eu sei o que realmente acontece, eu conheço você, Sherlock. Nós criamos alguma coisa juntos aqui, por mais que você deteste falar sobre qualquer laço entre pessoas, não pode negar isso. Eu vou aonde você for, seu pai queira ou não.
– Você é uma pessoa incrível, Watson. Tem uma carreira brilhante como detetive pela frente. Acredito sem nenhuma sombra de dúvida que um dia poderá brilhar mais do que a minha. Não merece passar toda a sua vida presa a um viciado – ele falou com dor em sua voz, apesar de parecer um pouco melhor enquanto conversavam.
Sua voz naquele momento delicado ainda estava longe de se aproximar da voz forte e decidida do grande detetive.
– “Ex”-viciado. E minha carreira sequer existiria se eu não estivesse aqui com você.
– Meu passado é uma maldição eterna... Mas me obriga a agradecer a Moriarty e até ao meu pai por eu ter você aqui. A única coisa que pode fazer qualquer coisa mudar... É você.
Joan ficou sem reação por algum tempo, sendo acordada de seus pensamentos ao perceber Sherlock chorando de novo. Parecia ter entrado em seu transe e martírio outra vez. Levou bons minutos para acalmá-lo e conseguir leva-lo para a cama, dessa vez no quarto dele. Preparava-se para sair quando pensou ter ouvido algo vindo dele.
– Sherlock? Disse alguma cosia?
– Fique aqui.
Joan voltou até ele e sentou-se no lado livre da cama. O simples fato de ter sua presença ali pareceu suficiente para fazê-lo dormir em pouco tempo. Na verdade ela não o havia deixado sozinho nenhum segundo desde o ocorrido. Estava dormindo sentada praticamente todas as últimas noites para ficar de olho nele, embora estivesse se levantando antes dele despertar. Afagou os cabelos do consultor tentando tranquilizar seu sono, Sherlock tinha uma expressão perturbada no rosto, parando apenas para pegar seu celular no bolso quando escutou o toque.
– Alô?
– Como ele está? É verdade?!
– Mas...
A chinesa ficou chocada ao reconhecer a voz, seu coração ficou confuso e feliz ao mesmo tempo. Não esperava que tal reencontro fosse acontecer tão rápido. Talvez isso pudesse animar Sherlock um pouco.
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