Eu vejo além do monstro
9 Capítulo 9
Notas iniciais
Há três dias que eu não tinha Gabrielle em meus aposentos, a cada noite levei uma mulher diferente, tanto física como na forma de transar diferente.
Aquela noite na lareira foi diferente, eu senti algo que não sentia há anos, senti medo, senti-me desprotegida, senti-me amada, e isto era o que mais me assustava, eu coloquei aquela criança nas piores situações e mesmo assim ela me amou plenamente e eu a amei de volta, ela encontrou um meio de apossar-se do meu coração e aquela ela era a arma perfeita para me atingir e isso nunca poderia acontecer, eu nunca poderia deixar que isto viesse à tona.
Eu precisava me livrar do que começava a emergir, precisava me livrar de qualquer coisa que pudesse começar a sentir por aquela escrava. As mulheres que levei a minha cama durante esses três dias sofreram abusos, maiores do que eu me lembrava de ter causado a alguém, era a forma que eu tinha para exorcizar meus demônios, queria me livrar do que sentia através desses atos.
Estava agora em frente a essa mesma lareira observando o crepitar do fogo e logo senti a presença de alguém!
– Apareça Ares.
– Vejo que não perdeu seu dom Conquistadora.
– E eu vejo que você sentiu saudades de apanhar.
– Conquistadora, eu pude sentir suas perturbações, eu posso livrar-me dela se assim você quiser.
– O que você ganha com isso Ares? Se oferecer para matar uma escrava?
– Não ganho nada conquistadora, somente quero fazer algo para lhe agradar.
– Ares, nos conhecemos a tempo suficiente para que eu saiba que há alguma intenção por trás desse oferecimento e assim sendo, SUMA DAQUI.
Do mesmo jeito que Ares apareceu, o mesmo desapareceu, eu sentia que havia algo a mais, Ares não aparecia há anos, então havia algo.
Gabriele olhava aquele pedaço de pão estragado e aquela água suja, o que fizera para merecer tal tratamento é que ela não entendia, ela tomara as rédeas, mas a Conquistadora se deixou levar, então porque agora ela estava assim, a mandou para lá sem nenhuma explicação, se bem que ela como escrava não tinha motivo para ter algo do tipo.
Eu sentia fome, frio, estava tão cansada, talvez colocar um fim em minha vida melhorasse as coisas, nesse momento eu já não sabia se seria forte o suficiente por Lila, e se meu pai a tivesse perdido também para pagar alguma divida, ele me pedira perdão muitas vezes, mas eu não consegui acreditar que era sincero, talvez fosse mais pela vergonha, e nada mais.
Não havia luz, e os ratos eram a minha única companhia, perdi a noção de tempo, perdi a força, quantos dias já deveriam ter ido e vindo, eu sentia mais saudades do que me lembrava da casa de meus pais.
Talvez se eu morresse por causas naturais tudo estaria bem, a conquistadora seria responsável por minha morte, não teria motivos para ir atrás de minha família, seria a solução mais fácil e simples.
– Levante sua imunda! — O carcereiro entrou me chutando. — Seu castigo acabou. Você terá o que merece agora!
Meu corpo todo se arrepiou, aprendi a temer a tudo e a todos nesse pouco tempo, fui levada para o estabulo, alguns cuidadores de animais se encontravam ali, logo adiante um chiqueiro também, senti inveja ao ver a lavagem dada aos porcos, à comida deles parecia bem melhor do que o pão que eu tentara comer nesses dias. Fui empurrada para um tipo de casa de banho comunitária.
– Se lave, se vista com esses trapos e depois se dirija ao estabulo. – uma mulher que acompanhara da saída do calabouço até ali me ordenara.
Apesar da água estar gelada era muito melhor do que aquele fedor que eu me encontrava. Lavei meus cabelos, e me lavei cinco vezes, o fedor do meu corpo era indescritível.
Saí do banho e lá estava aquela senhora novamente.
– Você cuidará da alimentação dos porcos amanhã e limpará os estábulos por hoje. Mas primeiro vá até aquele galpão e coma algo.
Comi quantos pães pude e tomei mais água do que aguentava, eu realmente estava com fome, logo depois me encaminhei ao estabulo e comecei a limpa-lo, conforme eu fora ordenada, eu não imaginava que aconteceria algo assim, mas não reclamei, também nem poderia. Eu imaginava que seria jogada aos soldados como as histórias que eu escutara antes, estava feliz, por fazer algo que era “digno”, trabalhei até anoitecer, logo depois tomei outro banho e procurei pela mulher que me acompanhara antes. Descobri que seu nome era Dinah.
– Dinah onde dormirei?
– Há um quartinho ao lado do estabulo, pode dormir lá mesmo, mas tranque a porta, eu não posso me responsabilizar de algum soldado querer se engraçar e entrar lá no meio da noite.
– Obrigada Dinah.
Conforme fui orientada entrei no quartinho que consistia em uma cama de palha um pequeno armário com algumas roupas, mais parecidos com trapos, e notei que se parecia muito com a que eu estava usando, pelo menos eu poderia ver se tinha algo melhor para usar. Resolvi me deitar, eu precisava dormir logo Morpheus me tomou por completo.
Eu a observei trabalhar o dia todo, quem sabe eu a vendo como a simples escrava que ela era eu poderia enfim tirá-la da minha cabeça, mas quanto mais eu a olhava, mais algo mudava dentro de mim, ela parecia feliz com o trabalho, talvez ela achasse a companhia dos cavalos melhor do que a minha.
Tentei me focar em outras coisas durante o dia, mais uma mulher em meu quarto, eu estava mais feroz que nunca no sexo, era o décimo primeiro dia sem tocar Gabrielle e eu já estava de volta aquele estado animal e irracional.
Satisfiz todas as minhas vontades e logo me livrei da mulher, a coloquei para fora de meus aposentos nua mesmo, ela que encontrasse um jeito.
Eu me revirava na cama, às malditas insônias estavam de volta, logo me levantei, fui para a sala de combate pessoal e treinei até a exaustão, mas ainda não conseguia dormir e resolvi dar uma olhada em Gabrielle.
Ao chegar ao quarto tentei forçar a porta e vi que a mesma tinha certa resistência, coloquei um pouco mais de força e ela logo abriu, Gabrielle dormia com poucos trapos tampando seu corpo, ela tinha o sono pesado naquela minúscula cama, mas estava mais linda do que nunca e sua face demonstrava serenidade, como ela podia dormir tão bem depois de tudo o que ela sofreu esses dias. Eu a invejava.
Não resisti ao impulso de tocar seu cabelo, alisar sua pele, dei um leve beijo em sua clavícula, o desejo de tê-la queimava, mas eu não podia ceder novamente.
Resolvi deitar-me ao seu lado naquela cama, mal me caberia, mas eu precisava, eu realmente precisava dormir, e eu precisava dormir ao lado dela. Me ajeitei da melhor forma que pude, fazendo o possível para não acordá-la, pois não saberia que desculpa dar por essa atitude, logo que deitei encostada junto a parede, Gabrielle jogou-se completamente sobre mim e não demorou muito para que eu finalmente dormisse.
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