Eu vejo além do monstro
2 Capítulo 2
Eu estava com meus 35 verões e meu reino vivia sob mãos de ferro, eu não aceitava roubos ou escravidão de pessoas livres, porém a aceitava como forma de pagamento de impostos ou dividas.
Nunca havia voltado a Amphipolis eu deixava esse meu passado bem escondido, nunca houve perdão das partes envolvidas, creio que a morte de Lyceus libertou a guerreira que havia em mim, porém foi à morte de M’lyla a responsável pelo despertar da conquistadora, o ódio a Cesar foi o responsável pela construção do monstro que eu agora sou. Todos mortos agora, porém eu ainda continuava a seguir.
Nem mesmo Borias ou meu filho foram capazes de aplacar a sede de poder e sangue. Assim foi melhor, me desliguei de qualquer resquício de humanidade quando entreguei Solan aos centauros. Hoje sei que não era amor o que eu sentia por Borias, eu seria incapaz de saber o que esse sentimento significava. Creio que a única pessoa que realmente amei foi Lyceus e ele se foi tão cedo. Eu ainda sentia sua falta, eu sei que ele me recriminaria pelo que sou hoje e mesmo assim o queria comigo, talvez fosse diferente, ou talvez ele fosse um ponto fraco, o que seria um prato cheio para os meus inimigos. Esse é meu único conflito interno, é o único sentimento mais parecido com algo bom que se encontra em mim.
Encontrava-me agora em minhas intermináveis audiências, ser uma governante tinha suas responsabilidades, eu as delegava ao conselho, somente as coisas pequenas, e minha palavra era a ultima, minha palavra era a lei. Os casos mais difíceis eram trazidos a mim diretamente nestas audiências.
Rebeliões entre escravos, acusados de assassinatos, estupros de pessoas livres, pois aos escravos pouco me importava o que acontecesse. Só não aceitava tomar crianças, independentes se escravas ou não. Acho que até era uma fraqueza isto. Se eu descobrisse era sentença de morte, e preferencialmente por minhas mãos. Era difícil ocorrer isto, eu sempre dava um espetáculo publico, regado à dor e sangue para quem descumprisse minhas leis.
Eu tomava as jovens que chegavam aos meus aposentos, porém todas já haviam se tornado mulheres, e após isso eu não as considerava mais crianças, portanto minha consciência, se é que tinha uma, não me acusava.
Eu tinha informantes em todos os lugares possíveis do reino, eu me mantinha informada de tudo o que ocorria. Esses informantes tinham certas regalias comigo, por isso nunca me ocultavam nada, eu sabia de tudo antes de ocorrer, caso contrário eles morreriam por meio de minha espada após sofrerem lentas e dolorosas torturas.
Lembro-me de uma rebelião de que um informante que eu mantinha na área não foi capaz de me avisar antes, ele fugiu quando ela estourou, pois já sabia de seu destino, eu o consegui capturar nas Gálias, e seria muito melhor ele ter se matado.
Quando voltei ao palácio eu o atirei em uma cela, o deixei sem comida e bebida por 5 longos dias, e após isso comecei com minha tortura, o amarrei de ponta cabeça e lhe infligi pequenos cortes, nada muito profundo, somente o suficiente para sangrar e causar dor. O estuprei com pequenos ferros grossos e redondos aquecidos em uma fogueira, e quando me cansei, retirei suas genitálias com uma faca quente, eu sentia um prazer imensurável. Ele resistiu por mais 3 dias após isso, eu mandei que pendurassem seu corpo em meu pátio para que todos vissem o que aconteceria se eu não fosse a primeira a saber de tudo, consegui reunir toda a sua família, e após verem essa cena mandei decapitar a todos. Nunca mais houve algo que eu não soubesse antes de todos.
Hoje não era necessária que eu sujasse minhas mãos, somente a leve menção de meu nome era motivo suficiente. Não havia nada que pudesse me atingir, eu era intocável, não havia ponto fraco sabia que muitos queriam tirar minha vida, porém nenhum que tivesse coragem o suficiente. Eu sabia que um dia pegaria o barco de Aqueronte e Hades me receberia no tártaro com pompas para me fazer sofrer mil vezes a dor que causei.
Morpheus já não me recebia com gentileza, meus sonhos eram perturbadores, e eu evitava dormir por causa disso e nestes momentos eu me pegava refletindo em minha vida, eu me pegava imaginando qual seria meu legado? Como seria lembrada pela história? Será que haveria bardos que contariam minha história de forma poética? Eu ria ao pensar nisso.
Eu sabia que meu único legado seria a dor que causei em meus inimigos, a opressão que aqueles que se opuseram contra mim sofreram, mas também havia algo de positivo em meu reinado, a Grécia prosperava, o mundo conhecido nunca esteve em melhores dias do que agora. Eu mantinha comércio com as terras de Chin, Mao La era uma das poucas pessoas que eu respeitava, ela via a bondade em mim, não sei como, mas ela via. Ela dizia que eu veria essa mesma bondade um dia.
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