Caminhei pelas passagens secretas, imaginando o que Gabrielle estava passando e somente por minha culpa, ao chegar à parede que dava ao quarto de Éracles, ouvi os risos, Gabrielle rindo, um sorriso verdadeiro, ao olhar pela fresta da parede vi o motivo, estavam deitados nus na cama, bebendo vinho, Éracles estava até mesmo feliz, por sua feição, e Gabrielle estava leve.

Eu queria me torturar, fiquei ali, ouvi ambos conversarem, logo Éracles começou a alisar Gabrielle, e pude ver seus corpo corresponder, notei sua excitação, era aquilo que acabava comigo, afinal ela era uma escrava corporal, devia satisfazer a quem fosse, mas vê-la gostar era algo que acabava com o que ainda me restava da alma.

Ela era inexperiente e percebi que Eracles gostava disto, percebi a rigidez do membro de Eracles, e por mais que acabasse comigo, eu precisava ver, saber que eu nunca poderia me deixar levar por sentimentos, pois isto era uma fraqueza e eu confirmava isto neste momento.

Submeti-me aquela tortura pelo resto da noite, vi ambos dormirem e tive que me segurar para não entrar e mata-los. Logo amanheceu e Eracles se lavou e saiu, pude perceber o olhar carinhoso que ele lançou para Gabrielle.

Assim que vi que no quarto só havia Gabrielle, entrei, notei a face cansada da minha escrava, lembrei-me de tudo o que havia presenciado e agi no impulso, coloquei minhas mãos em volta do pescoço de Gabrielle, não precisava de muita força, apertei e notei sua respiração diminuir e ela abriu os olhos espantados, a dor me consumia, mas ao notar as lágrimas nos olhos de Gabrielle parei me levantei, mas senti as mãos de Gabrielle me segurando.

Fiquei estática, aguardando-a recuperar o folego e logo depois ela tomou uma atitude que eu não esperava, selou nossos lábios num beijo apaixonado que eu não pude deixar de retribuir.

– Xena... – Ela disse entre sussurros. – Senhora, precisa ir, Éracles logo retornará, e se te pegar aqui tudo vai por água abaixo.

Ela levantou e foi me empurrando para a passagem que eu havia saído, não entendi as ações de Gabrielle e pela primeira vez eu estava perdida.

O que estaria perdido? O que iria por água abaixo? Eu não entendia o que Gabrielle acabara de fazer, a única coisa que pude pensar é que de inocente ela não tinha nada, eu quase acreditei no beijo que ela me deu, quase.

Me auto dispensei dos meus deveres de senhora conquistadora, entrei pelas passagens secretas e me recolhi em um quarto escondido do qual somente eu tinha conhecimento, lá havia as roupas que um dia eu usara enquanto era somente uma iniciante na arte da guerra, olhei para a roupa ao lado e lá estava a roupa de Lyceus. Juntara-se a estas lembranças somente o cordão de M’lyla com o passar dos anos não houve mais ninguém importante, eu achara que Gabrielle talvez fosse, mas eu me enganara.

Senti algo que há tempos não sentia, nem me recordava como era me sentir assim, decepcionada, traída, era uma dor insuportável, deuses como era possível sentir isto, uma lágrima solitária escapou e um dor sufocante se fez presente, uma dor tão forte que eu somente sentira quando perdi Lyceus. Respirei profundamente, eu sabia que sentimentos era uma fraqueza e demonstrá-los era como colocar minha cabeça a frente dos meus e pedirem para cortá-la.

Sentei-me a poltrona encarando uma tapeçaria antiga que encontrava-se pendurada na parede do quarto, era um desenho de Amphipolis. Nunca entendi o porque de tal cenário me tranquilizar, afinal de contas fora aquele mesmo cenário o motivo de eu não ter Lyceus, de ter saído a luta, de ser quem eu sou agora. De não poder ter Gabrielle, engoli seco, ela era o motivo não. O motivo desta angústia, desse estado súbito de reavaliar minha vida, talvez se houvesse essa Gabrielle no meu passado as coisas hoje seriam diferentes. Porém comecei a me recordar das cenas da noite anterior, era como ver uma peça de teatro;

Gabrielle estava completamente submissa, hora por baixo, hora por cima cavalgando Èracles, lembrei de como suas mãos percorriam o corpo de Gabrielle de como ela dizia coisas desconexas, se deleitando até quando foi colocada de quatro, eu sabia o que Éracles iria fazer, ele não foi gentil, mas pude perceber que ela gostara, deuses, ela era uma escrava corporal, não devia sentir prazer, mas sentia, escravas corporais são para satisfazerem os amos e não serem satisfeitas, mas Éracles parecia aproveitar ainda mais com essas demonstrações.

Era pior do que ver, eu sabia que seria difícil esquecer aquelas cenas, seria difícil olhar Gabrielle sem lembrar-me de que ela sentira prazer com outra pessoa além de mim. Pequei um velho papiro ao lado da poltrona, e o reli mais uma vez, Lyceus havia escrito aquelas palavras quando se apaixonou pela primeira vez:

Eu canto a Afrodite, Deus perfeita, Deusa do amor.

Eu canto ao Deus Cúpido, perfeito com sua flecha.

Eu canto a Adrasteia, a mais bela, a mulher que tem meu coração.

Meu irmão era jovem, com certeza era um tolo nesta época, mas eu o invejava, lembro-me de como ele estava quando escreveu estas palavras, sorridente, feliz, leve.

Levantei-me e decidi retornar aos meus aposentos, eu deveria me preparar para o jantar, afinal eu deveria ser uma boa anfitriã.

Quando entrei no salão para jantar ouve um silêncio total. Somente quando me sentei foi que a agitação recomeçou. Alkanthys me olhou e deu um aceno com a cabeça, o qual eu respondi, nunca ouve qualquer pergunta sobre onde eu estava desde que havia decapitado um conselheiro que havia me feito esse questionamento.

Havia mais escravas corporais, mais pessoas divertindo-se, eu havia notado que Gabrielle estava sentada no colo de Éracles assim que entrei no salão, mas eu não deixei transparecer qualquer emoção. Ele bebia vinho e a beijava, sua mão direita mantinha-se em um dos seios de Gabrielle, procurei não olhar, mas eu sentia que ela estava incomodada.

Logo começaram a exibição de uma peça, do tipo que todos amavam violência e sexo, todos se divertiam, até eu notar que era uma peça diferente das que eu já vira anteriormente, notei um sorriso lascivo escapar de Éracles, ele estava apreciando a forma como Gabrielle estava prestando atenção à peça. Ela estava concentrada, parecia apreciar, mas logo Éracles a tirou de seu pequeno prazer e começou a acaricia-la com vontade, logo levantou sua túnica e a tomou ali mesmo, eu me contive, eu era conhecida por minha frieza.

Mais alguns generais se juntaram a Éracles e pude ouvir a forma como se dirigiam a ele.

– Desde ontem que estás com está escrava Éracles, ela deve ser muito boa.

– Com certeza, querem experimentar?

Não ouvi mais, vê-la ser tomada assim por aqueles homens me deixaram inerte, eu não podia dizer qualquer coisa, afinal de contas ela era uma escrava e estava proporcionando o prazer que tinha que proporcionar assim como todos os outros escravos e escravas.

Eu vi Gabrielle desfalecer e os homens saciarem-se, me levantei e pensei em encaminhar-me ao encontro dela, esse maldito sentido era maior. Senti a mão de Alkanthys em meu ombro, e quando me virei ele acenou a cabeça com uma negativa. Eu entendi o que ele queria dizer. Sentei-me novamente e logo um escravo carregou Gabrielle e Alkanthys sumiu do salão.

As marcas de velas seguintes foram um sacrilégio, mas suportei, bebi o quanto pude e encaminhei-me para meus aposentos, ao chegar me deitei em frente a lareira e procurei relaxar, até ouvir um som vindo de minha casa de banhos, se qualquer inimigo estivesse prestes a me atacar, essa seria uma boa hora, eu bebera demais e apesar de ser uma grande guerreira eu sabia que havia passado da conta. A porta da casa de banhos se abriu, e fui pega de surpresa.