Notas iniciais
Pessoal, capítulo relativamente curto, mas espero que apreciem...

*Gabrielle*

Acordei sentindo-me perdida, olhei ao redor do aposento que estava e não o reconheci, estava escuro, a vela que queimava mal iluminava o ambiente, será que havia desagradado a senhora conquistadora uma vez mais? Tentei levantar-me e uma leve tontura tomou conta do meu corpo, obrigando-me a deitar novamente, nunca havia me sentido assim, será que eu havia exagerado no vinho? Realmente não me recordava à última coisa que me lembrava de era de estar bebendo com Xena, depois disto era somente um apagão, um vácuo total.

Sentia que aquela sensação da minha cabeça pesando centenas de quilos havia passado em parte e enfim pude sentar-me, olhei o quarto forçando os olhos, agora ele começava a iluminar-se pelos raios de sol que transpassavam as frestas da janela, me foquei, o local parecia um quarto simples demais para a senhora conquistadora e melhor do que aqueles destinados aos escravos e melhor ainda do que os aposentos para os prisioneiros, eu não conseguia me localizar, virei-me e pude ver uma bolsa de couro em cima de uma escrivaninha. Encontrei uma tina com agua numa cadeira próxima e lavei meu rosto, tentando despertar-me mais.

Um pouco mais desperta, pude perceber que aquele quarto parecia-se com um quarto de pensão, eu já havia visto um parecido uma vez na vida, porém não tinha a menor ideia do porque me encontrava em um.

Levantei e notei que vestia somente uma túnica, a mesmo que vestia quando bebia com Xena, peguei a bolsa e notei que dentro havia algumas trocas de roupa e um pergaminho lacrado, sem marcas, movida pela curiosidade resolvi ler:

Gabrielle,

Se lhe conheço como acho que conheço, mesmo não tendo certeza se este pergaminho era para você, o está lendo mesmo assim.

Sei que deve ter acordado a pouco e está perdida, sei disso pois tive que lhe dar junto como vinho algumas ervas para dormir profundamente e se ainda tenho conhecimento da mistura correta, deve ter dormido por três dias, talvez mais, no seu caso estou propensa a crer que foram mais, sei que adoras dormir.

Sei que deves sentir que estou a prolongar esta leitura com coisas sem nexo e na verdade o estou, sempre fui uma mulher direta, mas percebo agora que nunca tive que fazer algo que me machucasse tanto ou custasse a minha existência na mesma proporção, então perdoe-me se falta foco neste momento, tentarei ser o mais direta que meus confusos sentimentos permitirem.

Eu a amo, sim, e isso é a maior verdade em mim, eu que achei que já não fosse possível ter esse lindo sentimento desperto em mim, eu me perdi para as trevas, para a escuridão que me rodeia e para as fraquezas humanas, mas você trouxe luz para minha vida, eu não acreditava em amor, praticamente o via como um inimigo e a pior de todas as fraquezas, eu construí barreiras ao redor do meu coração e você derrubou uma a uma, me senti segura e por incrível que pareça protegida em seus braços, e por esse sentimento tão incrível eu preciso abrir mão de você, de nós, peço que não me odeie e tente entender.

Sou uma pessoa com inimigos em lugares inimagináveis, até mesmo para transportá-la em segurança foi algo realmente difícil, e se qualquer um destes inimigos soubesse de você poderia usá-la para me ferir e se algo lhe acontecesse eu jamais me perdoaria, e sei que me tornaria uma pessoa completamente sem coração, tão perversa que todos sentiriam saudades deste monstro que sou agora.

Queria que o tempo fosse outro, que nossa história pudesse ser mudada no tear do destino, mas vivo na realidade que criei há muito tempo para entender que isso são somente desejos de um coração que se nega a aceitar que perdeu sua vida.

Eu sempre irei te amar, mas lhe peço, melhor, lhe imploro, nunca mais me procure, encontre alguém, se case, constitua família, seja feliz e me esqueça, eu lhe dou a chance de viver uma vida verdadeira e completa.

Ao terminar de ler aquelas palavras eu chorava e muito, eu não tinha conhecimento do mundo, não poderia voltar ao seu castelo, e ela mesmo me implorava para não voltar, chorei mais, ela implorava, deve ter sido a coisa mais difícil dela fazer.

Respirei profundamente colocando o pergaminho rente ao peito e o abracei, eu a entendia, o pior desta maldita situação é que eu realmente a entendia, se eu estivesse em seu lugar faria o mesmo, ela tinha inimigos poderosos eu era uma fraqueza, talvez a maior que ela tivera na vida, gostando ou não, eu perdera a inocência, tudo bem que eu já não a tinha tanto antes, mas a perdi completamente nessas luas que passei no castelo da senhora conquistadora, fora usada e explorada, eu via seu olhar dolorido e ela nada podia fazer, me deixar em evidencia era dar arma ao inimigo, e eu sabia que ela me amava, da forma dela, eu vi além do monstro e eu via a luz de seu coração, apesar de cercado por toda aquela escuridão que seu passado construirá.

Contudo ao mesmo tempo eu senti-me deixada de lado e rebaixada a nada por não poder fazer parte de uma decisão tão importante que afetava minha vida principalmente, ela simplesmente havia feito o que havia decidido, a senhora conquistadora que tinha como lei sua palavra, sua vontade. Tantos sentimentos ambíguos, deite-me novamente chorando, sentindo minhas pálpebras pesadas e novamente me entregava aos braços de Morpheus, e esperava não acordar tão cedo, ou que quando acordasse aquele sentimento não existiria mais em mim.