Eu vejo além do monstro
28 Capítulo 28
Notas iniciais
—----------Passagem de tempo, a guerra já ocorre há algumas luas. ------
No calor da batalha, para a maioria é somente instinto, dificilmente é possível parar, analisar, traçar algum plano e colocá-lo em prática, contudo eu não era a maioria. As táticas alinhadas com meus senhores de guerra antes da batalha nos dariam uma vantagem, mas eu não tinha a mesma inocência dos bardos ao cantarem sobre as vitórias fantasiosas e apaixonadas sobre a guerra, guerra é matar ou morrer, é simples, não há romantismo, não há tempo para floreios, se iludir quanto a isso, é isto, somente uma ilusão.
Eu sou uma guerreira, a princípio minha primeira guerra foi para proteger meu povoado, mas quando senti o poder que a conquista proporciona eu me deixei envolver, quanto mais poder você tem, mais os outros se ajoelham perante a você e com isto se quer mais, contudo mais inimigos você acumula, mais ódio, menos confiança... Tudo tem suas vantagens e desvantagens.
Há muitas mortes em minhas mãos, há muitos inimigos em minha jornada, são filhos e filhas, maridos e esposas, estão em toda parte. E eu tenho somente uma certeza no amanhã haverá mais crianças mortas, sede pelo poder causa isso, eu tenho feito o possível para ser uma conquistadora melhor, mas isto não exclui tudo o que eu já fiz, e enfim estou em paz com isto.
Eu olho agora o exército inimigo se aproximando, são muitas luas, houveram dias de grandes baixas de ambos os lados, em todos eles eu deixei o monstro vir à tona, em todos eles eu voltei a ser a assassina fria e sedenta por morte.
Eu mantive Gabrielle o mais afastada possível das batalhas, mas houve dias que ela precisou lutar, houve dias que ela precisou matar, e em cada um deles eu perdi uma parte a mais da minha alma, eu a deixei sujar suas mãos de sangue, e o que mais me matou foi ouvi-la dizer que faria novamente, pois agora estávamos juntas por completo.
Xena > Suas mãos estão sujas de sangue. – Eu disse ao chegar em nossa tenda.
Gabrielle > Normalmente é o que acontece quando sua espada fere alguém lhe tirando a vida.
Xena > Oh Gabrielle! Minha pequena...
Gabrielle > Não me olhe com pena Xena, em um campo de batalha eu sou um soldado, não posso ser para sempre aquela menina amedrontada. Não me trate como alguém frágil.
Xena > Não é isto pequena, juro que não, eu somente me dei conta, neste exato momento de quanto eu destruí sua vida, eu lhe fiz matar.
Gabrielle > Você não me fez matar ninguém Xena, eu tive esta escolha, eu quis isto. Há muito tempo atrás aceitei as consequências de nossas vidas juntas. Eu sabia que um dia isso poderia acontecer. E aconteceu. Eu não estou com medo. Até mesmo na morte Xena, eu nunca te deixarei.
Ela acordou gritando em uma noite, dizia que via seus mortos, ela via a dor em meus olhos, ela me conhece melhor que ninguém e sabe que essa culpa eu também carrego, não pelos meus mortos, e sim pelos dela. Eu a trouxe para isto.
Eu sei como é isto, eu sei como é sonhar com seus mortos e daria tudo para que ela não tivesse que ter isto, vejo os olhos e lembro-me de suas palavras...
Xena > Quer falar sobre isto pequena?
Gabrielle > Eu senti minha espada o transpassando, seu sangue sendo jorrado em mim, mas quando tentei puxar minha espada, o morto a segurou e me puxou mais para perto, e sorria, ele dizia que agora a puta da conquistadora era tudo o que se podia esperar.
Xena > E você está preocupada que é assim que os outros a vejam? Como eu?
Gabrielle > Jamais, ser comparada a você, eu me sentiria importante, mas o que me assustou foram os olhos e seu sorriso, eram doentio, ne diga com sinceridade minha conquistadora – Nesse momento ela alisou meu rosto. – Em algum momento esses pesadelos vão embora?
Xena > Sinto lhe informar pequena, mas não, eles lhe atormentarão por toda a sua vida, você os verá quando Morpheus lhe receber em seus braços, você os verá em seus treinos, você os verá em uma caminhada pelo mercado em plena luz do dia, eles sempre estarão com você. Com o tempo você se acostumará, com o passar dos anos, os pesadelos serão mais amenos, você aprenderá a conviver com essa sensação de que não merece viver pelo tanto de vidas que tirou, e em alguns momentos você até sentirá alívio – nessa hora ela me olhou, questionando em seu olhar o porquê do alívio – sim alívio, ao ver aqueles que importam vivos, por saber que você escolheu tirar uma vida, para que eles estivessem ali. Você olhará para sua filha, quando ela for mais velha, e estiver em nossa corte arrasando corações, você saberá que valeu a pena, pois do contrario ela seria uma escrava corporal de alguém que você matou.
Gabrielle > Quem você olhava para sentir este alívio?
Xena > Eu nunca tive este alívio, eu aprendi a conviver, nisto somos diferentes pequena, o único pensamento que mantive foi, se eu morrer eu perco todo o meu poder, tudo o que conquistei.
Gabrielle > Oh... Nem mesmo por mim você teve esse sentimento de alívio?
Xena > Até está guerra, eu poderia mentir e dizer que sim, mas você foi um espólio de guerra, você foi uma escrava corporal, abusada por mim inúmeras vezes, por meus guardas, e eu me arrependo – eu senti seu olhar complacente, aquele que ela sempre me dá quando falo de nosso passado- contudo, nesta guerra tudo que eu penso é, eles lhe capturarão, antes de eu morrer eles lhe farão sofrer em minha frente. E eu nunca senti um medo tão grande em toda a minha vida.
Gabrielle > Não pense nisto meu amor, eu entendo seu medo, é o mesmo que ocorre comigo, não consigo imaginar se você morrer, mas não pense nisso, foque na batalha.
Xena > Esse é um motivo maior para focar. Eu quero poder passar mais luas ao seu lado, tantas que jamais poderemos contar, quero que Eva seja cortejada por todos os reinos e eu os possa assustar um a um, e somente aquele que for realmente digno a tenha, ou melhor ainda, ela siga sempre pregando a paz e nunca queira ter ninguém – rimos.
Gabrielle > É realmente isto que você quer?
Xena > Sim, sem sombra de dúvidas.
Eu não sabia o motivo dela escolher estar ao meu lado, eu não sinto que eu deveria ter qualquer tipo de felicidade, estou muito consciente disto, mas lá estava eu a ouvindo contar histórias de alma gêmeas...
Gabrielle > No início dos tempos os homens eram seres completos, de duas cabeças, quatro pernas, quatro braços. Porém, considerando-se seres tão bem desenvolvidos, os homens resolveram subir aos céus e lutar contra os deuses, destronando-os e ocupando seus lugares. Todavia, os deuses venceram a batalha e Zeus resolveu castigar os homens por sua rebeldia. Tomou na mão uma espada e dividiu todos os homens, dividindo-os ao meio. Dessa forma, os homens caíram na terra novamente e, desesperados, cada um saiu à procura da sua outra metade, sem a qual não viveriam. Sua alma gêmea.
Ela me sorriu, com tanto sentimento no olhar que eu entendi o que ela queria dizer, mesmo que eu jamais admitisse a ela, o sentimento era reciproco, eu sinto que ela é minha alma gêmea.
Neste dia, nos beijamos e nos amamos como se nossas vidas dependessem disso, eu creio que nunca havia sido tão exposta emocionalmente a ela, e deixei meu corpo, alma e coração a sua mercê.
E era por isto que eu olhava para este campo agora, já se passaram tantas luas, tantas batalhas, eu simplesmente acabaria com tudo hoje, eu enfim entendia que valia lutar por algo maior que poder, e essa consciência me dava novas perspectivas nesta guerra.
Era até irônico eu pensar sobre isto agora, eu a grande senhora conquistadora lutando por amor.
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