#XENA#

Acordei sozinha na cama, com uma criança me observando, me senti estranha, menos mal que eu estava coberta.

— Você é amiga da mamãe?

— Sim.

— Nunca vi nenhuma amiga da mamãe dormir com ela.

— Sua mãe recebe muitas amigas? – perguntei me deixando levar por um ciúme bobo.

— Não muitas. Somente tia Cyrene que vem aqui com frequência.

— entendo.

— EVA! Venha banhar-se! – ouvi Gabrielle chama-la.

— Melhor você ir.

— Melhor mesmo, até daqui a pouco.

Levantei-me buscando meus trajes e os vesti, indo a procura de Gabrielle. Tinha que conversar com ela, não poderia levar para um campo de batalha uma criança, eu precisava convencê-la a ficar de fora, pelo menos até esta maldita rebelião acabar.

— Gabrielle, eu e você precisamos conversar. – disse assim que adentrei na pequena cozinha.

—Sim.

— Sobre ontem, eu estive pensando, não posso deixa-la ir, você precisa estar com sua filha...

— Não Xena, amo Eva, e já tenho tudo planejado, eu sei que você está quase terminando com essa guerra, eu irei com você e Eva ficará com Cyrene até meu retorno, já conversei com ela.

— Você conversou com Cyrene?

— Sim, ela sabe de você, da nossa história e disse que ficaria com Eva sem problema.

Assustei-me ao saber que minha mãe apoiava esta loucura de Gabrielle.

— Somente conversarei com Eva e depois poderemos ir.

— O que Gabrielle quer, Gabrielle consegue!

— Ainda bem que já entendeu senhora conquistadora!

Não sei como, mas Gabrielle conseguira convencer sua filha, iriamos retornar a batalha naquela mesma noite, nós cavalgamos durante a segunda metade do dia até montarmos um simples acampamento, ter Gabrielle cozinhando era algo diferente e ao mesmo tempo aquela sensação de familiaridade me envolvia.

— Xena, está me ouvindo?

— Desculpe, estava perdida em pensamentos!

— Recordando alguém em especial?

— Quase.

— Venha comer minha senhora.

Comemos conversando contando dos últimos verões que estivemos separadas. Não quis detalhar sobre as batalhas, mas Gabrielle tinha esse poder, ela lia meus olhares e me compreendia como era possível apesar de todo aquele tempo, eu simplesmente não entendia.

— O que lhe preocupa pequena? Perguntei notando o desviar dos seus olhos para a fogueira a nossa frente.

— Talvez eu esteja me preocupando com a possibilidade de que o passado nem sempre seja o passado e que você possa decidir partir, independentemente de quanta tristeza deixe para trás. O amor não significa nada se você não estiver disposta a assumir um compromisso e você não pode pensar apenas no que quer. Você tem que pensar também no que eu quero. Não apenas agora, mas também no futuro.

Aquelas palavras pegaram-me de surpresa, compromisso? Futuro? Ela via um futuro ao meu lado, apesar de tudo ela queria um compromisso comigo.

— Ah Gabrielle. Você não sabe o quanto eu quero continuar viva, continuar com você, viajar com você, dormir com você sob as estrelas e acordar a seu lado, para ver o seu cabelo brilhar com os primeiros raios de sol. Eu entendo seus medos, entendo seu receio, mas tê-la comigo aqui, somente me fez perceber a tola que fui ao mandar-te embora, tenho certeza agora que apesar de querer proteger-te, o fiz também para minha proteção. Você derrubou meus muros, é difícil conseguir entender esse sentimento que me preenche, mas sei que não conseguiria manda-la para longe de mim novamente.

— Espero realmente que você queira isto Xena, pois eu jamais a deixarei novamente.

Ela beijou-me e fora se deitar, eu entendia que naquele momento ela queria privacidade com seus pensamentos e respeitei, me retirei dali e fui para um lugar mais afastado de nosso acampamento, elevei meus olhos aquele céu estrelado e pela primeira vez entendi a quão pequena eu poderia ser se comparada ao universo. Ajoelhei-me.

— Se alguém estiver ouvindo, você sabe que eu não sou muito de rezar, mas eu não sei mais o que fazer. Eu desisti uma vez de Gabrielle, mas não sou forte o suficiente para desistir novamente. Por favor, não deixa aquela luz que brilha no rosto dela se apagar, ela irá para a guerra e verá ainda mais coisas que não deveria ver ou viver. Eu rezo para que ela suporte as trevas que se seguirão e não se perca.

Nunca eu havia feito um pedido tão puro em toda a minha vida e esperava de coração que ele fosse atendido, permaneci mais algum tempo naquele local e logo retornei ao acampamento, deitando-me ao lado de Gabrielle que se encontrava dormindo.

Na manhã seguinte retornamos nossa viagem, Gabrielle estava mais quieta que o normal, eu sabia que algo a preocupava, mas que quando se sentisse a vontade falaria.

Encontramos um grupo de ladrões no caminho e notei que Gabrielle se defendeu muito bem, porém evitou matar qualquer que fosse, cabendo a mim essa incumbência, não poderíamos deixar qualquer vestígio.

— Gabrielle, sabe que na guerra terá que matar não?

— Eu sei Xena, mas ainda não estou pronta.

— Eu entendo sua relutância pequena, mas quando você está disposto a tirar a vida de alguém você está disposta a matar uma parte sua também. Parte de você ficará naquela guerra, talvez uma parte muito grande, talvez até fique lá completamente e retorne casa somente um corpo vazio. É difícil descrever o que se vê em uma guerra, é complicado, você acha que poderá se acostumar, que está fazendo o que é certo, que está cuidando para que não sejam atacadas as crianças na porta da sua casa, no fim a ideia de companheirismo, dedicação, que você pensa que pode existir, nunca existirá. As pessoas esquecem-se de falar como realmente ficam quando são obrigadas a matar crianças, quando matam em escudos humanos, é difícil aceitar o que você de fato, você se torna.

—Isso tudo é para me assustar e fazer com que eu desista de te seguir?

— Eu queria que fosse. Eu deixo meu lado humano de lado, consigo me desligar, sou uma assassina forjada através das inúmeras batalhas, e não quero o mesmo destino para você. Teremos de conviver com coisas feitas e deixadas por fazer. Coisas que terminaram mal, coisas que pareceram normais na hora, porque não tínhamos como prever o futuro. Se ao menos conseguíssemos enxergar a infinita cadeia de consequências que resultariam das nossas pequenas decisões. Mas só percebemos tarde demais, quando perceber é inútil.

— Eu sei que não poderei ser assim, deixar meu lado humano de lado, eu sei que sentirei cada vida que eu tirar, porque está sou eu, talvez eu sinta menos com o passar do tempo, mas eu sei que nunca deixarei de sentir.

— E eu espero que seja assim Gabrielle, pois esta é tua essência e se a perderes eu sei que se perderá completamente.

O restante da viagem foi tranquilo, conversamos sobre coisas mais amenas, especialmente de Eva, da qual Gabrielle adorava falar.