*Xena*

Há duas luas eu estava sem Gabrielle, aquela sensação de vazio me preenchia completamente, não ter noticias era algo perturbador, havia meus informantes, mas o que me reportavam em relação a Amphipolis não era algo especifico e sim de modo geral, comércio, segurança, reuniões dos aldeões e afins, pelo menos eu sabia que era um local que não havia bárbaros ou ladrões, eu nunca poderia deixar em evidencia ou sugerir informações de qualquer pessoa em especifico por quem eu nutria qualquer tipo de afeição, por mais que meus informantes soubessem o preço de traírem-me, eu preferia não arriscar.

Eu estava agora em meu gabinete relendo algumas leis sobre escravidão eu sabia que Gabrielle havia me tocado de forma profunda, eu pretendia alterar o item referente a escravidão para pagamento de dividas, eu não deixaria mais que pessoas que nasceram livres não poderiam mais serem vendidas como escravas.

Eu sabia que era impossível acabar com a escravidão, era um meio necessário para um fim, mas começaria a moldar minha nação para futuramente isto ser possível. Eu não podia demonstrar fraqueza, mas seria um começo.

Logo passei a estudar novas propostas para o comercio com as nações sob minha proteção, nestas horas eu me orgulhava de ter feito de Corinto a sede de meu governo, a cidade situada entre dois mares, a posição estratégica e econômica plena, sem falar que é a principal rota comercial entre o norte e sul e o leste e oeste.

Outro assunto a ser resolvido era o desenvolvimento dos jogos Ístmicos e foi impossível não pensar em Gabrielle, não pelo culto aos diversos deuses ou pelos jovens que participavam de provas equestres e afins, mas sim pelos concursos de poesias e música, eu havia decretado que nesta edição eu resolvera dar acesso as mulheres também, uma forma de homenagear minha pequena.

Eu me rendera completamente as minhas obrigações como governante, senhora conquistadora, ou o nome que fosse eu precisava de algo para ocupar a mente, e já que guerras não aconteciam frequentemente eu optei pela politica, o que mais odeio, mas era um mal necessário.

Estava olhando os pergaminhos com a construção de Diolkos, que seria um caminho pavimentado equipado com mecanismos de roldanas, para transportar por terra as embarcações de Cancrias a Lecaion, e vice-versa. Era uma obra engenhosa e eu estava satisfeita com os responsáveis pelo projeto.

Olhei novamente os alimentos a minha frente neste gabinete, eu estava passando a maior parte do tempo, não conseguia mais dormir em meus aposentos, não me alimentava corretamente, eu não suportava mais ficar onde as memórias de minha pequena eram tão vividas, o sorriso, o cheiro, o fantasma de sua presença eram constantes em meus aposentos e sala de banho, pensava seriamente em mudar de aposento, e logo o faria, caso contrário eu não teria mais sanidade, eu ainda ficava com mulheres, sim, mas para mantes a pose do que qualquer outra necessidade, as matanças de escravos sexuais e escravos domésticos eram quase inexistentes, quase, como dissera eu precisava as aparências.

...

Mais de um verão se passara agora, um verão sem minha pequena, e eu sentia como se ela houvesse partido ontem, a dor que se faz presente é tão intensa que chega a doer mais que todos os meus ferimentos juntos.

Sou interrompida no meu gabinete por um de meus informantes.

– Senhora conquistadora, uma tragédia de extrema gravidade, seus maiores inimigos sob comando de Eracles planejam invadir Corinto.

– Conte-me mais detalhes Periandro.

– Senhoras creem que esteja perdendo sua força nos últimos tempos, e veem a oportunidade para destruí-la.

– Está dispensado Periandro.

Tomei a decisão de chamar meus generais e partir rumo as Gálias para combater meus inimigos, eu precisava do monstro agora, logo a cidade estaria em ebulição.

Organizei todos os preparativos e reuni-me com minhas tropas e segui as liderando, seriam necessárias ao todo três luas para nos encontrarmos com Éracles e seu exercito.

Meus informantes trouxeram noticias sobre as vilas atacadas, houve prática do toda sorte de torpezas e crueldades, atos violentos e insanos, excessos sem igual, nem mesmo no tempo de maior barbaridade quando antes de tornar-me a senhora conquistadora cheguei a fazer metade do que me foi relatado. Resolvi por montarmos acampamento e nos prepararmos para a primeira batalha.

Após montarmos acampamento chamei meus generais a minha tenda para estudarmos as estratégias de Éracles baseamo-nos nas informações dadas pelos meus batedores e informantes, analisamos a apresentação dos campos onde a primeira batalha ocorreria, eu pretendia não deixar que Éracles continuasse avançando.

– Senhora conquistadora Éracles tem sob seu comando diversos selvagens, os quais demonstram claramente suas tendências canibais e monstruosas, dizem até que alguns deles são enfeitiçados e não morrem. – Disse Yahan um dos meus generais responsável por nossa retaguarda.

– Compreendo sua preocupação Yahan, mas já lidei até mesmo com semi-deuses e deuses e não será alguns boatos de feitiços que me abalarão. Os senhores aqui presentes – falei apontando um a um – estiveram comigo em muitas batalhas, e está é a primeira que ocorre desde que me tornei a senhora conquistadora , onde um dos meus aliados resolve voltar-se contra mim, e podem ter certeza de que farei dele o exemplo para que nenhum mais tenha esta ideia, guardem bem estas palavras senhores, não haverá prisioneiros, não haverá clemencia, todos aqueles que resolveram juntar-se a Éracles morrerão sem piedade, está guerra será conhecida como campo de sangue, manchando com o sangue desses traidores covardes que pensaram que poderia qualquer chance contra mim, esses campos outrora verdes, eu liderarei a frente de batalha, pois quero que a última imagem que tenham gravadas em suas mentes é a de Xena, o monstro conquistador que os matou.

Houve uma salva de palmas efusiva por parte dos meus generais, era aquela que eu precisava ser agora, respirei profundamente, logo dispensei meus generais e voltei-me ao meu baú, retirei meu chakram e logo senti aquela presença.

– Apareça Ares.

– Sempre seremos assim não é conquistadora?

– Pelo visto sim, sempre sinto seu fedor, o que quer Ares?

– Eu incitei Éracles, só gostaria que soubesse. – aquele sorriso em seu rosto embrulhou-me o estomago.

– O senhor da guerra agora se contenta com qualquer porcaria agora então?

– Você sabe que é para você e por você, você sabe o que quero.

– Você já tem sua resposta e espero sinceramente que compareça a alguma batalha, pois quero ver se ainda apanha tão facilmente de mim.

– Estarei Xena, para enfim convencê-la de que ao meu lado que tem que estar, você precisava de algo minha conquistadora, esse seu lado tinha que aflorar, politica não lhe cai bem e depois que mandou aquela escrava embora sinto como se tivesse perdido seu foco.

Apontei minha espada em seu pescoço, eu sabia que lhe feriria, mas não medi isso no momento, a simples menção a Gabrielle por ele me fez perder a compostura.

– Calma conquistadora, assim acharei que tem algum sentimento por ela, apesar de que penso que ela deva ser insignificante para que você a mandasse embora, caso contrário ela estaria ao seu lado agora ao invés de onde quer que ela esteja, afinal de contas o que a conquistadora quer ela tem e pronto.

– Suma Ares.

– Até logo minha querida.

Após Ares deixar-me sozinha respirei profundamente qualquer leve menção de Gabrielle por Ares poderia ser perigosa, mas notei que ele não sabia o que ela realmente significava para mim ou onde estava eu o conhecia perfeitamente para saber disso.

Encarei meu chakram, aquela arma era pouco usada por mim, um “presente” de Ares, o qual nunca me desfizera, e eu o usaria novamente, resolvi me recolher, na manhã seguinte o monstro retornaria com tudo.