Eu tenho as coisas pequenas
1 Não se preocupe
Notas iniciais
Chegando em frente ao laboratório, ficamos esperando que a porta fosse destrancada. Click. A fechadura moveu e podemos finalmente continuar nossa sessão de tensão mútua naquele local.
Só estávamos nós três. Já havia me acostumado com ideia de mais dois amigos como casal. Não exatamente amigos, na verdade, apenas próximos o suficiente para que essa condição de amizade fosse sentida e estranhamente negável quando dita em voz alta.
O motivo dessa tensão era simples e oculto, porém palpável. Eu já gostava dele antes. Talvez ele soubesse, sou bastante lenta nesse ramo da vida, que não seja o único, por assim dizer.
Depois de alguns minutos nos sentamos na bancada e ficamos em silêncio. Eu ainda tentava perceber uma razão para ter aceitado aquele convite de estar com os dois, frente a frente, mesmo sabendo que aquele era o canto especial deles, ainda que eles pensassem que eu não sabia.
Amigos não escondem coisas.
O tédio já começava a permear o ambiente. Eu poderia muito bem estar estudando, ou tentando, para as provas parciais. E o que me levou a querer rumar para o laboratório/canto-especial-do-casal, você pode indagar?
É uma boa pergunta. Algumas dessas não possuem resposta imediata. Essa talvez não tenha também.
— Vou na sala do professor, volto já. — ela comentou já se levantando do banco.
Não precisamos responder nada, soava desnecessário.
Quinze minutos. Um "volto já" bastante longo.
Eu já havia me desligado da realidade e ficava lenta e pacientemente passando a ponta dos dedos pelos vidros de produtos químicos que repousavam empoeirados na velha bancada.
Ele me encarava e eu percebia. Aquilo finalmente começou a me irritar. Mirei na mesma direção dos olhos que me observavam.
— Algum problema? — não tinha mais nervo para ficar brincando ou fingindo que aquilo era bom para mim.
Apenas um meneio de cabeça negou minha pergunta, o que fez com que meu cérebro esperasse por uma resposta mais completa do que um mero gesto.
— Como você está? — ele perguntou casualmente.
— Bem. Por quê?
— Tenho percebido sua distância.
— Estou bastante ocupada no momento, é normal.
— Mas você não está distante dos outros.
— Depende do referencial.
A conversa tomara um ritmo cadenciado de réplicas e tréplicas que já pareciam programadas para a ocasião. Os tons de nossas vozes já quase se resumiam a sussurros. A bandida vontade de chorar veio intervir no precioso e raro momento em que trocávamos aquelas poucas palavras.
— Não acho que está nada bem para você. — ele resolveu comentar, ambos já sabíamos da situação em questão.
— O que não te mata te faz mais forte — fiz o símbolo de aspas com os dedos de maneira irônica -, não é assim o ditado?
— E se nós ficássemos juntos?
— E você ainda estando com ela?
O silêncio seguinte respondeu gritantemente, se comparado àquela negação anterior.
— Sabe, isso que vocês tem é algo grande e pode, potencialmente, fazê-los feliz. Os que não tem, vulgo eu, especialmente na situação atual, aprendem a ver os detalhes. Às vezes eles fazem muito mais diferença e completam a peça que faltava do quebra-cabeça. Coisas grandes podem trazer felicidade, mas se você aprender a olhar para o lugar certo, as coisas pequenas, escondidas, também podem.
Um sorriso tímido surgiu em sua boca e seus olhos se desviaram de mim, o que me causou certo alívio.
— Então você está satisfeita por estar gostando de uma pessoa que é seu amigo e está namorando uma amiga sua também que sabia dos seus sentimentos?
— Não, não estou, mas ver meus amigos felizes me deixa feliz. Ter alguém por quem se sentir assim vale muito mais do que sentir e agir por puro egoísmo. Não existe necessidade em se preocupar comigo.
Eu já esperava ansiosamente que ela saísse do corredor onde, pacientemente, escutava a conversa em silêncio absoluto, sondando cada palavra que pudesse intervir na relação de nós três, e pudéssemos sair daquela série de knock-outs que dávamos um no outro para não que não fosse preciso repetir a dose, só seguir em frente.
— E por quê não? — finalmente ele perguntou, quando ambos já sentíamos que ela viria daquela passagem com sua melhor expressão de inocência fingida no rosto.
— Eu tenho as coisas pequenas.
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