Eu sou o Título

3 O Neto do Primeiro


Notas iniciais
“Não! Aqui não, esse não! Lá fora, aqui, aqui... Muito bem!!!”

O Garoto acordou cedo. Despertado pelo barulho da louça se quebrou. Mas pensou que foi pelo relógio, que tocou segundos depois. Ainda estava escuro. Por volta das 4h da manhã. Ele já estava cansado de dormir. Mas ainda assim continuou na cama. Abria e fechava seus olhos, tentando ver as formas mais escuras no quarto. Seu quarto era muito simples. Uma cama com um colchão de espuma, bem marcado. O colchão já afinava e machucava as costas de seu dono. O armário alcançando o teto era feito de madeira negra, provavelmente peroba. Uma mesa entre o armário e a parede. Embaixo da janela havia um tapete vinho que recebia toda a chuva da primavera. E um único espelho pregado à parede branca. O espelho era pequeno para conseguir se ver inteiro.

O Garoto tem 17 anos e está no 2º ano do Ensino Médio, tem um cabelo preto, tão preto que até tinta é mais clara. Um olho claro, azul. Seu nariz é reto. Sua boca é uma linha curva para cima. O que parecia que sempre estava dando um sorrisinho. Mas pelo contrário não era um sorrisinho confortante, muito menos cativante. Até porque ele não estava sorrindo. Seu queixo descia perfeitamente de suas bochechas e terminava numa curva natural. De corpo, ele não tem nenhuma vantagem, é magro. Anda com os ombros caídos. Sua pele é um pouco bronzeada. As pernas pelo menos não são magras. São normais. Pode se dizer que ele é rápido. Mas não bom em distância. Se olhasse de cima a baixo, ele não era tão ruim. Ou feio. Era normal. Até bonito.

O Garoto levantou e foi para a sala de estar. Ligou a televisão. Enquanto isso foi se trocar e se arrumar. Era o primeiro dia de aula. Ele entrou na cozinha. Encontrou seu irmão caído. Estava dormindo. Ele tinha acabado de voltar. Estava drogado. Estava bêbado. Não, só drogado mesmo.

“ Ei cara, acorda. Cadê ela? Você não a perdeu, né? Acorda...”

“ Ahn? … ela? … foi casa e amigas... vê ela na escola...”

“ Tá, mas não se atrasa. Hoje é o primeiro dia.”

“ Espera... Acho que não hoje... vou ficar... vou dormir.”

O Garoto vestiu uma camisa jeans por cima da branca. Então saiu. Que pena. Ele preferia andar na rua sozinho. Apenas sossegado. Não gostava das pessoas olhando para ele. Mas parece que hoje até a polícia está nas ruas. Aconteceu alguma coisa. O Garoto resolveu seguir o carro da polícia. Então chegou na Avenida. Havia um homem caído. Estatelado no chão. Os helicópteros da imprensa. As viaturas das mais importantes polícias. Pessoas comuns. Bisbilhoteiros. Inocentes. Todos em volta do morto. O Garoto queria dar uma melhor olhada no corpo. Ver seus sangramentos e feridas. Ele queria ser Doutor. Deu uma volta. Tentou melhor visualização. Espera. Ele conhecia esse homem.

O Garoto conheceu o morto num dos parques da cidade que não eram poucos. Ele estava sentado no banco. Esperando seu amigo lhe trazer um sorvete. Eles não estavam na aula. Era aula vaga. Mas logo depois eles iriam para a escola. Pois ele queria ser Doutor Quando um cervo apareceu. Espreitando. Com medo, na moita. O Garoto ia se aproximar. Para tentar pegá- lo. Então ele apareceu.

“ É melhor você deixá- lo em paz. Por que não está na escola universal?”

Escola universal? Ninguém mais a chama assim. Esse nome é devido a ela ser a única escola da cidade. As outras somente ensinam matérias específicas. Todas as crianças. Todos os Adolescentes. Todos que querem ter uma educação básica. Todos têm somente uma opção. A Escola.

“ É que agora temos aula vaga. Mas já estamos indo. Eu quero ser Doutor. Tchau.”

“ Espera, você, volte aqui!! Queria te entregar algo. Isso, volte, se acalme, e sente.”

“ O que você tem pra mim?”

Ele parou. Olhou para O Garoto. Não tirava os olhos dele. Já o outro sentia desconforto. Irritação. Olhava para tudo. Menos ao homem em seu lado. De repente ele sorri. Depois começa a rir. Gargalhar. Ofegar. Rir. Gargalhar.

“ Eu conheço esse jeito.... SEU MENTIROSO!!!!”

O Garoto levou um susto. Em seguida ficou bravo.

“Conheço esse tipo de gente. Eu sou uma delas. Um mentiroso. Eu sei quando mentem. Você mente. Mente para se safar da culpa. Da responsabilidade.”

Então O Garoto finalmente sorriu.

“ Ah, eu vejo! Todos acreditam na sua mentira. E sentem pena de você. É assim que você se livra.”

“ Todos. Minha mãe. A Coordenadora. O Orientador. A polícia. Os Logistas. Meus professores. Meus amigos. Sempre falo a todos que quero ser Doutor e estudar. Mas para mim eles são todos trocáveis. Dispensáveis. Recicláveis.”

“ Não é bom para um menino como você ficar sozinho assim.”

“Não estou sozinho. Eu tenho todos eles. São eles que não me tem. Mas se você quer dizer companhia... eu tenho meus irmãos.”

“ Como é seu nome?”

“ Eu me chamo...”

“ Bem, não importa a gente se vê por aí. Te ensino mais sobre mentir bem depois.”

“ Eu sei mentir bem.”

“ É claro que sabe! Mas vou te ensinar a ganhar. Tirar proveito da mentira. Seu amigo está vindo...”

Aquele dia no parque foi interessante. Suspeito. E qualquer um que tivesse tal conversa não teria a mínima vontade de voltar a ver tal homem. Mas para O Garoto só fez o ter mais curiosidade. Interesse. Cuidado.

Mas ele nunca esperou que chegasse um dia que veria aquele perspicaz morrer. E lá estava ele. Todo quebrado. Justo hoje que era o primeiro dia de aula.

Já era 6h quando O Garoto chegou à escola. Era ainda muito cedo. Havia poucos estudantes. Do jeito que ele gostava. Olhou a lista desse ano. A mesma classe. As mesmas pessoas. O mesmo professor responsável. As pessoas de sua classe eram bem tranquilas e estudiosas. Assim O Garoto podia ficar no seu canto. Silencioso. Sem ninguém mexer com ele. Era particularmente uma sala bonita. Com garotos e garotas esbeltos. Bonitos. Desejáveis. Mas não se podia comparar. Havia mais de 800 salas de aula. Ele procurava a classe de sua irmã. Que era ainda mais bonita e inteligente que sua própria sala. Assim como sua irmã. Ele era o mais velho. Depois vinha sua irmã. Por último seu irmão mais novo. O mais desleixado. Ele vivia mudando de sala e ano. Mas graças a O Garoto ele nunca repetiu de ano.

“ Ele é inteligente. Mas usa sua inteligencia para pecados.”

Sua mãe havia lhe dito isso. Uma mulher largada. Despreocupada com os filhos. Eles praticamente se viraram para comer. Ganhar dinheiro. Estudar. Por conta própria. Ela deve estar no trabalho. Óbvio com segundas intenções. O Garoto espera que sua irmã não fique igual. Afinal, onde está ela? Com as amigas? Namorado? Ainda nem chegou... Quando ele a viu ela estava com a amiga mais próxima. Sua amiga sofria de ataques. Ataques neuróticos. Risinhos. Bochechas avermelhadas. Estupidez. Isso sempre ocorria quando se aproximava dele. Mas nunca saberemos o porquê.

“ Irmã, o mais novo não virá hoje. Ele vai descansar. Você sabe do que.”

“ Ah que pena, eu queria lhe mostrar a nova sala de filme. Agente se vê...”

Hoje o sinal bateu, tocando a música “young folks”. Quando ele chegou na sala cumprimentou algumas pessoas. Outras somente ignorou. Então a aula começou. A primeira foi sobre regras novas da escola. A segunda falaram sobre os espaços novos da escola. Na terceira passaram um bilhete pro Garoto. “ Soube que a ruiva gosta de você. Porque você nunca tocou nela. Soube que a loira gosta de você porque você tem olho azul. Soube que o bombado te odeia porque você contou uma verdade de graça!!!!! seu estúpido. Você é um caso perdido...”. Ele se desesperou. Quem havia escrito aquele bilhete? Como sabiam da verdade de graça? Ele estava perdido. Depois de tudo que ele havia aprendido. Precisava pensar. Dar um tempo da escola. Então deu o tempo de intervalo entre aulas. Foi quando fugiu. Cabulou. Faltou no resto do dia.

O Inteligente andou. Andou. Andou. Até achar o mesmo banco. O mesmo parque. O mesmo cervo.

Então esperou. Não pensando em nada. Foi quando veio a primeira fagulha de sentimento. Porque ele morreu. Nem conseguimos nos despedir. Ele afirmou de que era imortal. Outro sentimento. Não vou deixar ele morrer. O Inteligente iria até a casa do morto e guardaria todas as coisas importantes.

Notas finais
Por favor, os que estão acompanhando comentem e favoritem, obrigado... até outro caps..