Notas iniciais
sonho substantivo masculino 1. ato ou efeito de sonhar. 2. conjunto de imagens, de pensamentos ou de fantasias que se apresentam à mente durante o sono.

Quando tudo começou a dar errado? Não me refiro a todo esse caso da arma biológica e como isso afetou diretamente a vida da minha família. Mas como o mal se instalou na Cure a princípio? Quando foi que eu e Anthony largamos a ideia de salvar vidas e resolvemos compactuar com ideias sombrias? E pior: o que nos motivou? Dinheiro? Fama? Poder? As coisas nem sempre são claras.

Era 1997. Eu e Anthony fundamos a Cure e a empresa logo deu seus primeiros passos. Paralelamente, eu já estava casado há alguns anos com Lily e meu filho Liam já havia nascido. Eu precisava fazer minha parte dentro da casa. E fui bem-sucedido: mesmo pegando contratos simples, eu e Anthony éramos muito bons. Foi questão de meses para a Cure despontar como uma das empresas que mais recebiam contratos governamentais. E não havia nenhum tipo de falcatrua na época. Pelo contrário, tudo era puro e cristalino.

— Estamos fazendo um bom trabalho. — Anthony sempre dizia isso.

1998 foi quando nosso patrimônio financeiro começou a crescer em maior velocidade. Tony começou a sentir o poder que tanto queria. Não havia mais uma rivalidade com o seu o pai. O milionário Grace continuava forte como sempre, mas agora Anthony havia saído de sua sombra. Certa vez, eu presenciei uma conversa entre os dois. Admito: fui bisbilhoteiro.

— Então o meu filho está servindo para curar a humanidade? — Disse o sr. Grace em um tom orgulhoso.

— Menos, pai — Tony respondeu. — É muita pesquisa e tudo é demorado. Estamos dando sorte de pegar os trabalhos certos e ter a equipe certa. A propósito, a empresa teve lucros incríveis nesse ano que passou.

O pai de Tony segurou no ombro dele e, com um sorriso no rosto, disse:

— Esse é o meu filho.

E Anthony completou o momento com um abraço. Confesso que não enxerguei aquilo como um simples abraço familiar. Para Tony era como se aquilo fosse uma disputa. A admissão do pai de que ele estava fazendo um bom trabalho era como um hino de vitória. Tony sorria, mas não pelo momento de amor que tivera com o pai. Ele sorria pelo momento de vitória. Mais tarde o questionei pelo ocorrido:

— Vi você com o seu pai. As coisas parecem ir bem, não é?

— Você sabe como ele é. Empresário, investidor, um homem que gosta de resultados. E agora o “filhinho” dele está dando excelentes resultados. Meio patético, não? — Ele falou em tom jocoso.

— Bem que eu queria que meu pai também gostasse de resultados — ironizei.

— O fato é que eu estou um passo à frente dele. Digo, do meu pai, não do seu. Deus o tenha.

O resto do dia seguiu seu fluxo como qualquer outro. Enquanto isso, Lilian crescia em seu trabalho como física e Liam ia se desenvolvendo, mostrando-se desde cedo uma criança esperta, ainda que tímida.

O ano 2000 chegou. Um novo milênio, mas o principal: um novo jeito de fazer negócios para a Cure. A empresa continuava a crescer, mas ainda não havíamos comprado o atual prédio da companhia. Faltava algo a mais para ela se estabelecer entre os gigantes do mercado e, por mais que aquele não fosse o ano de tal estabelecimento, foi quando o processo começou.

A Cure recebeu um pedido para a atualização de uma vacina já datada. Trabalho relativamente simples, tanto que fizemos o mais depressa possível. Entretanto, quando estávamos para entregar a remessa, uma ligação mudou tudo.

— Reed? Reed Kaas? — Uma voz masculina e suave falava do outro lado da linha.

— Quem fala? — Perguntei com grande curiosidade e apreensão.

— Eu sei o que você está fazendo. Processo final para uma remessa de vacinas, certo?

Era impossível uma pessoa de fora da Cure saber daquilo. A não ser que ela tivesse obtido informações de maneira “alternativa”. Então logo captei que as próximas palavras daquela conversa poderiam ser moralmente questionáveis.

— Do que você está falando? — Fingi desentendimento.

— Chega de frescura. Não envie a remessa. Encontre-me no parque na frente da sua casa. — A chamada fora encerrada.

Uma mistura de medo e curiosidade percorria todo meu corpo. O que seria aquilo, afinal? O que poderia ser tão sério para ser discutido pessoalmente? Pior, para me fazer cancelar a remessa? Bem, eu não tinha motivos reais para cumprir qualquer uma daquelas ordens. Mas uma voz dentro de mim falava mais alto. Ela dizia “Reed, é a sua chance de sair da mesmice. É sua chance de fazer mais”. Eu senti como se toda minha vida fosse direcionada para aquele momento. E eu sei que isso parece não ter sentido algum. Poxa, eu já era casado, tinha um lindo filho e um excelente trabalho. Do que eu precisava para ser feliz? Mas a curiosidade me venceu.

— Tony, não libere a remessa — eu ordenei.

— O que aconteceu? — Ele perguntou.

— Não tenho tempo agora, mas logo lhe explicarei. Apenas faça sua parte, tudo bem?

Tony me olhou com estranheza, mas confiou em mim como nas tantas vezes que confiei nele. Eu saí da edificação onde a Cure atuava naquele ano e, após dirigir alguns poucos quilômetros, cheguei no tal parque que a voz misteriosa dissera para eu me direcionar naquele dia. O lugar estava cheio de crianças com seus pais brincando. A grama verde brilhava com o reflexo dos raios do sol e a leve brisa balançava os galhos das pequenas árvores ali presentes. Era Primavera e as flores davam um tom ainda mais colorido ao local.

“O que diabos estou fazendo? ”, ainda pensei. Mas já estava no parque e não daria um passo para trás. Comecei a andar pelo lugar a procura de qualquer pessoa que se destacasse. Até que sorrateiramente fui puxado pelo braço por um homem alto e forte. O chapéu negro que ele usava o fazia lembrar um mafioso, além de que suas sobrancelhas grossas e sua pele avermelhada não ajudavam.

— Kaas — disse o homem de voz suave.

— Então é você. — Eu disse e, finalmente, me desvencilhei do seu braço.

— Não me conhece?

E só após perguntar aquilo eu reparei de quem ele se tratava: Jimmy Johnson, congressista do Partido Democrata. Era um famoso populista que tinha uma lábia praticamente infalível. Mas ele estava falando comigo, não com um eleitor idiota.

— Jimmy. A que devo o desprazer? — Eu disse sem receio.

— Vou direto ao ponto: tenho as fontes certas e sei o que você está fazendo. O que vou pedir é bem simples: atrase a entrega da remessa. Preciso que você passe um mês enrolando. Só isso, coisa simples. E claro, você será muito bem recompensado por isso. Não só com dinheiro, mas digamos que falarei bem de você e da sua empresa para as pessoas certas — Jimmy explicou.

“Uau”, pensei. Não esperava de maneira alguma uma abordagem daquele tipo. Por mais que eu admire pessoas pragmáticas, aquilo foi realmente inesperado. Até fiquei sem reação por breves instantes, admito. Mas logo me recompus.

— O que você ganha com isso? — Perguntei.

— Vou ser sincero com você. Isso é um favor que estou devendo para um amigo de longa data. Sua vacina acabaria com as vendas dos medicamentos dele. Então segure-a apenas o tempo para ele conseguir seu lucro. E então você entra depois. Todos ganham, todos saem felizes — ele disse.

— Desculpa, mas não tenho interesse no seu dinheiro.

Eu fui sincero naquele momento. Dinheiro não era o principal para mim. Por mais que futuramente eu me tornasse alguém realmente rico, esse nunca fora meu objetivo. O que eu sempre quis, na verdade, era ser bem-sucedido, ser alguém poderoso. E isso eu consegui. O dinheiro era só uma consequência. Uma boa, claro, mas nada que me chamasse muita atenção.

— Acho que você não entendeu direito, Reed. — Jimmy começou a mostrar uma certa impaciência. — Eu estou falando também de influência. Você conseguirá contratos maiores, mais contatos, mais poder de decisão e influência. Você poderá trabalhar com coisas grandes, não vacinas para gripe ou besteiras do tipo. Isso não é um sonho? Então veja: estou lhe oferecendo o primeiro passo.

Ele estaria certo? Eu, na época, pensei que sim. Que mal faria atrasar uma remessa sendo que teríamos um enorme retorno em troca? Pensei na oportunidade de trabalhar em projetos maiores. Consequentemente mais pessoas seriam ajudadas no processo. Mas será que eu pensei de maneira altruísta? Ou na minha cabeça apenas as palavras “poder” e “influência” ecoaram? Eu estava exposto a uma completa tentação.

— Bem, não é tão simples. — Engoli seco.

A expressão de Jimmy Johnson havia se tornado amigável. Um sorriso surgiu em seu rosto e ele pôs calorosamente a mão sobre meu ombro. Ele disse:

— Entendo seu ponto, Reed. Mas não é tão difícil quanto parece. Já sei! Fale com seu sócio. Qual o nome dele mesmo? Howard?

— Anthony — corrigi.

— Isso, Anthony! Fale apenas com ele sobre essa ideia. Ele com certeza trará a dose de razão que você precisa para entender essa questão toda. E caso ele também rejeite a ideia, que pena. Todos sairemos tristes e sem ganhos. Incluindo vocês dois.

Fiquei pensativo. Falar com Anthony seria a maneira “justa” de tomar aquela decisão. Além disso, eu poderia dividir o peso moral daquilo. Eu não seria o único responsável por atrasar a remessa de vacinas. Anthony seria tão culpado quanto eu e, dessa forma, não me sentiria tão culpado. Caso meu amigo rejeitasse a ideia, eu poderia simplesmente dizer para ele que também rejeitava. Eu não tinha nada a perder. O que poderia dar errado? O que havia de errado naquilo? Minha bússola moral certamente não estava calibrada.

— Falarei com meu sócio — disse para Jimmy. — Acho melhor irmos agora. Seria estranho se nos vissem conversando assim.

— Com certeza — Jimmy concordou. — Basta dar uma ligação para meu gabinete que tudo fica certo. Até breve.

Nos separamos e rapidamente retornei para a sede da Cure. Fui até o escritório e encontrei Tony sentado na poltrona com um olhar inquisidor para a porta de onde entrei.

— Demorei muito? — Questionei.

— Estou só tentando entender tudo que você me disse há uma hora — ele respondeu.

— É a verdade que você quer? — Tranquei a porta e me sentei numa cadeira. — Então é isso que te darei. Jimmy Johnson me chamou para uma reunião, digamos assim. Ele que quer que atrasemos a entrega da remessa. O motivo? Ajudar um amigo dele com a venda de medicamentos. Mas ele ofereceu algo em troca, obviamente: dinheiro e influência. Ele disse que poderia falar bem da Cure para as pessoas certas. Enfim, obviamente eu não aceitei a proposta. Por mais que o atraso da remessa que ele pediu fosse mínimo, isso não seria justo.

Eu esperava que Anthony Grace desse algum discurso moralista ou talvez condenasse minha atitude de ter aceito tal reunião. Talvez o meu bom e velho amigo simplesmente ignorasse a absurda ideia de fazer um trabalho sujo para um político. Ou mais: talvez me aconselhasse a denunciar Jimmy Johnson. Mas eu estava completamente errado.

— Você rejeitou? Como assim, Reed?! Você é louco?! — Tony falava alto e sem censura. — Cara, é a nossa oportunidade. Oportunidade de crescer, oportunidade de fazer algo grande. Eu sei o que você deve estar pensando: “isso é trabalho sujo”. Mas eu vejo diferente. Esse trabalho nada mais é do que um degrau para algo verdadeiramente grande. Será que não vale a pena se sujar um pouco? E sejamos sinceros: ninguém vai morrer pelo atraso de uma semana de uma vacina de uma doença de baixa gravidade. Não fará falta.

Ele deu uma pausa para respirar enquanto eu processava tudo. Definitivamente Anthony era alguém mais ambicioso que eu. Fiquei verdadeiramente impressionado. Ele continuou:

— Podemos nos tornar gigantes! E imagine só tudo que você poderá trazer para sua família como o dinheiro e influência que tem a ganhar? Reed, as possibilidades são infinitas. Claro que isso é só o começo, mas temos que pensar alto. Chega de mesmice. Já estamos há anos na mesma. Que tal crescer de verdade?

Eu me achava forte. Sempre acreditei que as dificuldades que enfrentei na vida me faziam alguém especial, mais esperto e atento que qualquer pessoa que teve a vida confortável. Tony era um que teve a vida extremamente confortável. Quando éramos jovens, eu mesmo o via como um pequeno paspalho e ele sempre demonstrava isso. Talvez ele sempre escondesse o seu verdadeiro “eu”.

— Tenho que admitir que você me convenceu. Só precisamos dar uma ligação para que o negócio seja feito — expliquei.

— Eu mesmo faço — Tony disse.

E ele cumpriu o que dissera. Ele mesmo ligou para Jimmy e conversou por horas sobre os mais variados assuntos. Tony mostrou uma face que eu vira poucas vezes, largando qualquer resquício de timidez em troca de poder. Talvez tivéssemos mais semelhanças do que eu pensava.

Com tudo organizado, atrasamos a entrega da remessa como prometido. Tudo transcorreu conforme o plano: o amigo de Jimmy ficou satisfeito e o político pode nos pagar como prometido. Além disso, ele falou com seus amigos do congresso sobre a Cure. Não havia ideologia, ética ou ideais: tudo era poder. Alguns enxergavam poder no dinheiro, outros na influência. Seja como for, cada um ali arranjava uma forma de adquirir o poder que lhe seduzia. Democratas e Republicanos unidos em prol de um domínio cada vez maior. E a Cure se aproveitava disso. Depois daquele primeiro contrato, começamos a crescer numa velocidade assombrosa. E cada vez mais surgia alguma fuga das regras. Coisas pequenas, incialmente. Logo a coisa começou a crescer. Mas nossa moral já havia sido tão testada que nem eu ou Anthony sentíamos mais peso algum em nossas decisões.

— Sabe que tem outras empresas nisso, certo? — Tony me disse uma vez.

— Sim — confirmei.

— Mas somos os melhores. Cada vez crescendo mais. Sabe por quê?

— Porque não temos medo.

Não havia volta. A Cure havia se tornado uma coisa totalmente diferente do que sonhamos no início. Ou pelo menos do que eu sonhei no início. E então voltamos ao passado recente. A arma, o ataque e as consequências para minha família e para tantas outras. Tudo isso como consequência de um telefonema. O que eu fiz?

Dois dias haviam se passado. Lily continuava em péssimo estado, ainda acompanhada pelo meu amado filho. Como prometido, fiz tudo para buscar uma solução. Peguei todos os dados que tinha sobre o desenvolvimento da arma e enviei-os anonimamente para Jennifer Hoggart. Ela era a mais competente cientista da Cure, além de ser uma pessoa extremamente íntegra e idealista. Juntos poderíamos fazer algo realmente bom, ainda mais que Anthony havia realmente saído da empresa. Sem empecilhos, nós tínhamos que encontrar uma cura.

Notas finais
Muito obrigado pela leitura! Até o próximo capítulo :D